Mais detalhes do mapa aqui.
30/Maio/71 – Florença, Itália
Saímos de Napoli às 8h30h. Estamos indo para Florença ou Firenze (em italiano), de onde iremos para Veneza e depois Verona, onde dormiremos.
Dormiremos hoje em Florença e amanhã em Verona, terra de Romeu e Julieta. Em seguida iremos a Milão e Turim.
Chegamos aqui eram umas 15h30. Fomos dar uma vista d’olhos na cidade, que é grande e bonita. Velha também.
O que não é velho na Itália? Estivemos em uma Igreja (Catedral ou Duomo). Linda por fora, toda em azulejos. Por dentro é simplesmente feia e escura. Bonito é o Batistério. É um conjunto como o de Pisa. Igreja, Batistério e Torre. Só que Pisa, além de ser construída em área bem maior, é bem mais bonita, por dentro e por fora.
As águas do Rio Arno, que banha Florença, romperam o muro que circunda a cidade como proteção, isso há uns dois ou três anos, e quase acabam com a parte de baixo da cidade. Houveram coisas que não puderam recuperar, como por exemplo pinturas. Pelas marcas que ainda existem devem ter subido uns três metros.
De noite, Florença encanta a gente. Na Praça da República, que é a principal no centro comercial, tem, não sei se todas as noites – fui informada que, no verão, são todas as noites – um bar-restaurante que promove orquestra com piano, bateria e saxofone com cantores. As mesas em frente ao restaurante chegam até o meio da rua. O local é cercado e em parte coberto por uma lona.
A auto-estrada da Itália é cortada por túneis. O país por ser muito acidentado pede isso. Tem túneis tão grandes que lá dentro existem quatro ou cinco telefones, como serviço de SOS. Isso em toda a estrada europeia existe. E tem mais: todo túnel ou galeria, como chamam aqui, tem nome.
Retomando fragmentos dessa viagem europeia
Olá a todos!
Escrevo para anunciar a retomada do blog. O relato da viagem à Europa foi deixado de lado, em parte pela frustração de não poder juntar a ele as fotografias feitas durante o passeio. E que passeio, eles rodaram mais de 10 países. Chegaram em Portugal, baixaram pelo sul até a Espanha, que cortaram pelo meio, cruzaram o Sul da França, entraram na Itália e subiram passando por Alemanha, Suíça, Holanda, Dinamarca, Suécia, Inglaterra…

Quase 700 slides fotografados pelo vô durante a viagem. E algumas vezes pelo motorista, como comentou a vó com a Anajas.
Eu recebi os slides da viagem há alguns meses, já tenho tudo escaneado, e pouco a pouco estou localizando as imagens.
Quem tiver curiosidade para ver o itinerário que os dois casais fizeram de carro pela Europa pode acessar esse link.
Aos poucos vou atualizando os posts antigos para acrescentar imagens. Portanto, vale a pena ficar atento ao que já está publicado.
E vamos que vamos, que a viagem é longa.
Maíra
29/Maio/1971 – Ilha de Capri, Itália
Não sei como Tibério, imperador romano, concebeu a ideia de construir um castelo em tal lugar. Pelo nome, vocês verão que lá só habitava cabras (Capri).

A ilha é enorme, mas só um louco seria capaz de tal – fazer dali uma cidade. As estradas são em oito – digo, em forma de oito, até o cimo da mesma, (da ilha, quero dizer). Infelizmente não vimos a maior atração do local: a Gruta Azul. O mar resolveu encapelar justamente ontem. E da minha parte, lá no fundo do coração, eu estava com medo de embarcar naquelas casquinhas de nozes que são os barcos que levam lá os curiosos. Eu iria satisfeita, mas cheia de medo. Tivemos uma experiência fabulosa: fomos de funicular até o cimo da montanha. É uma sensação sem par. O Waldemar foi único que teve medo. O chão, aos nossos pés, nos dá vontade de pular para ver se não é muito alto.
Tem locais que devem atingir mais de quinze metros, mas tem outros que se formos medir, dão uns cinco metros.
Não são bondinhos, como no Pão de Açúcar, são cadeiras. O mundo está aberto diante de nós e o frio também. O engraçado é que em Barcelona eu não quis ir no de lá e em Capri, se não tivesse ido, teria ficado triste. Durante a subida e a descida, o louco do seu pai tirou um monte de fotos. Ele está feliz como uma criança quando começa a andar. Aliás, todos estamos felizes, apesar das saudades.
Na volta, que gastamos 1h35, o banco parecia que ia virar, de tão forte que estava o mar. Na ida, o tempo estava melhor e o barco era superior; gastamos apenas 35 minutos. Do mar alto avistamos Napoli.
O casario novo subindo a montanha, da beleza da cidade nova e a velha destruída pela guerra. Os edifícios que a guerra quase destruiu, e que não são poucos, estão sendo ocupados pela pobreza (que também não é pequena) até a sua total demolição. Onde vão colocar tanta gente, isso é problema deles, mas que é um grande problema, isso é. O trânsito italiano é barulhento, mal dirigido e sem nexo, igual ao nosso. A diferença para melhor na Itália é que o italiano respeita a vida alheia, ele quase que para o carro para o pedestre passar. No mais, somos irmãos. Não é atoa que o Brasil vive cheio de italianos.
26/Maio – Capela Sistina, Itália
No cinema foi bem montada, melhor que na realidade. Como Museu, não tem igual na Itália. A riqueza em ouro, mármore, pedras preciosas, bronze, cristais, biblioteca, tapetes,… sei lá mais o que! … As paredes forradas de pintura perdem alguma coisa do seu brilho, diante das belezas dos tetos.
Fica-se de pescoço doído de tanto olhar para cima. Aquilo ali é um mundo para se andar. As pessoas que entendem de escultura e pintura se sentiriam no céu. É indescritível tudo que forma a Capela Sistina.
As esculturas ocupam salas e mais salas de obras de artes antigas. Todos os personagens da mitologia – senadores romanos, gladiadores, animais, santos, papas, crianças e ……….. Tudo bem arrumado e catalogado. A maioria tem nas mãos um guia – livro, ou tem um guia a falar para indicar ou mostrar de tudo que lá existe.
Encarrapitado num morro dá a impressão de um presépio.
É realmente uma cidade bonitinha, agradável. O atrativo turístico é um palácio de veraneio dos Reis. Construído há 16 séculos. O local onde foi construído tem o nome de Vila D’Este e o Palácio tem o nome da cidade: Tívoli. Pena que a chuva desmantelou o nosso passeio. O palácio não é grande coisa.
É simplesmente uma casa grande de fazenda, dessas que há aos montes em nossa terra, com a diferença que a única comodidade é a capela dentro de casa. A escada em caracol possui.
O que tem de muito bonito é o Parque, cheio de repuxos, de fontes, tanques enormes como piscinas, regato preparados para a beleza do Parque e a comodidade de suas majestade. Estátuas de várias formas – de gente, animais, fauna, ninfas; completam o conjunto junto com arvores, escadas, rampas e plantas floridas de toda espécie. Mas Santa Clara não queria que fossemos lá e mandou chuva! E na hora que o dilúvio caiu, nós estávamos lá em baixo, na fonte principal. Seu pai tirou uma fotos. Se ficarem como as outras, ainda bem.
Quando voltamos de Tívoli, fomos fazer compras e voltamos para o hotel. Estava tão cansada, que cheguei e me deitei. Jantamos mais ou menos as 20h30 num restaurante perto do hotel.
Saímos de Roma no dia 27 pela manhã, 8h30. Chegamos em Nápoles – 11h45.
A hora é hora europeia. Aqui na Itália, ela está adiantada da nossa 5 horas. Ao entrar a primavera acontece assim. Na Espanha o comércio abre as 9h30 (hora local) e na Itália, 8h. Na França é também o mesmo ritmo – 8h ou 9h30. Em Portugal não sei bem, não fizemos compras lá. Só sei que em todos esses lugares que passamos, fecham o comércio às 12 horas, ou seja, ao meio dia, e se abre às 16h, fechando novamente as 20h.
Fizemos uma rápida visita à Pompéia. Rápida porque precisaríamos de um dia todo para uma visita com guia. Pelo livro vocês verão a beleza que o Vesúvio tragou. Tem indicação para Herculano, mas não fomos lá, e a outra cidade destruída é …..
Fomos depois a Sorrento. É uma continuação da Costa Napolitana. Construída sobre as escarpas do mar, é um sonho para o veranista que frequenta estas plagas e para nós que a admiramos. Muito florida e alegre, temos a forte impressão que lá, naquela cidadezinha, todo mundo é feliz.
Passeio em Capri – saída do barco 11 horas.
25/Maio/71
O Hotel está completamente vazio de empregados. Só estão os três da portaria. Nem camareiras. Quando chegarmos do nosso passeio (como será o passeio não sei, pois chove cântaros), teremos de fazer nossas camas e lavar o banheiro. Pensando melhor, eu devia tê-las feito logo.
A situação da Itália é a mesma do Brasil antes da revolução. Só que o exército é um pouco pior que o nosso. Só sabem se enfeitar. Parecem uns bonequinhos de brinquedo andando pelas ruas de Roma. Nunca vi mais ridículos.
Passeamos ontem pela Via Veneto.
Itália – Roma
26/Maio/71 – Roma
16h15 – Hotel Nord Nuova Roma
Roma é igual a todo grande centro: grande, fumacenta, barulhenta, cheia de gente de toda espécie. A diferença é a riqueza que ela guarda ciosamente entre suas paredes. Vamos vê-las.
Estamos de saída para a nossa visita à Cidade Eterna. Ontem, depois do jantar em um ótimo restaurante (no hotel não pudemos comer, o pessoal de serviço estava de greve), fomos fazer o quilo. Não posso dizer se gostei ou não, pois um ligeiro passeio não chega para isto. A estação ferroviária foi a que mais me agradou. Estou falando apenas as coisas da cidade.
Igreja de Santa Maria Maior – tem duas ou três coisas que nos impressiona pela beleza e imponência. Uma reprodução feita em ouro, sustentado por quatro anjos da Igreja de São Pedro. A estátua genuflexa, em tamanho acima do normal, de um Papa (não sei qual) em mármore, é de uma expressão admirável. Os altares, os tetos, as cenas bíblicas, tudo em mármore, ouro, telas de pintores, tudo bonito demais e muito rico.
Igreja de São João Latrão – A fachada desta Igreja é fabulosa. Na enorme nave existem 12 estátuas que representam os 12 apóstolos a saber: São Pedro, São Paulo, Santo André, São Tomás (ou Tomé), São Jacó Maior (não conheço), São João, São Fillipe, São Jacó Menor, São Mateus, São Bartolomeu, São Tadeu e São Simão.
Não creio que sejam os apóstolos todos, está faltando alguém, de qualquer forma não tira a beleza da alegoria. São 12 belíssimos nichos encimados por cenas da Via Crucis. A Igreja é enorme e segue um ritmo diferente das outras. Internamente está dividida em duas e no exterior dá a impressão de uma Igreja unida a uma enorme casa do seu lado direito. Existem túmulos de vários Papas, entre eles Leão XIII.
Igreja da Escada Santa – é uma alegoria da escada que Jesus subiu no Pretório, para a sua condenação e tem imagens esculpidas por Miguel Arcanjo (aliás em todas elas existem esta riqueza) de beleza incomparável.
Coliseu – um monte de ruínas que lembra o passado ruim de Roma. Se os italianos ou romanos tivessem a ideia de restaurar estas tristes ruínas, quem sabe haveria mais alegria e menos lembranças deprimentes!! Mas o homem de agora, como o de outrora, tem prazer em ver a cena de crimes ou de festas.
Passeamos pelas ruínas do Fórum Romano, fica num alto, ao lado e dominando o Coliseu.
Piazza Venezzia – nela fica o monumento a Vitorio Emmanuel. Sobe-se imponente uma escadaria, deparando-se com uma fachada em grupo de mármore, ladeado por 2 guardas (verdadeiros) onde estão as coroas de flores depositadas em memória de alguém. Dos lados da escadaria tem várias alegorias em bronze e mármore, em cima, dominando toda a fachada, está a estátua equestre do Rei Victório Emmanuel II. De cima, por trás da estátua do rei, depois de subir escadas, temos toda Roma aos nossos pés. Se a Piazza, por um acaso, ficasse vazia de carros e gente seria um espetáculo magnífico. A escadaria para subir não é tão difícil como para descer, ficamos sem joelhos. Safa!!! Por um triz não fico lá em cima de vez. Na entrada existem duas pias. As ruínas das muralhas ainda existem, apertando ainda mais a cidade. Não se pode falar das fontes, das praças dos velhos edifícios cheios de estátuas, das Igrejas… Em frente ao Vaticano está o Castelo de Santo Ângelo, pequeno em sua estrutura, mas deve ser muito bonito lá dentro.
Vaticano – País autônomo, o Vaticano é lindo. A Praça de São Pedro é, como todos sabem, imensa. Todos os prédios dominam a Praça, cheios de colunas de pedras talhada, redondas e sobrepostas, formando uma verdadeira floresta delas.
Estamos almoçando nas imediações do Vaticano, numa Trattoria que se chama “Grotte di Tuscofo”. Almoçamos muito bem, só o café, dizendo ser do Brasil, estava mais frio que bunda molhada de neném.
Capela de São Pedro – É suntuosa e simples ao mesmo tempo. Nos inspira um respeito religioso tão grande que chega a comover. Os túmulos onde se encontram os Papas falecidos, dá-nos a impressão de majestade. Os altares não têm imagens, são pinturas de célebres artistas, representando cenas bíblicas e vida de Santos. Não podemos, de maneira nenhuma, nem mesmo um letrado, descrever aquilo que acabamos de ver. Tem razão o mundo em se esforçar para ver coisas tão belas. Roma não tem valor algum diante do Vaticano e das reminiscências guardadas em seu coração italiano. É deslumbrante!!
Piazza de Espanha – só o sorvete valeu. Escolhido pelo Waldemar, na sua mais trágica ignorância e o parafuso que o Sr. Diamantino fez para lá chegar. Mas como diz o seu pai – mais vale a farra!!!
Villa Borghese – bonita e gostosa com o seu parque gramado. Não entramos, passamos carro.
O trânsito em Roma constitui uma dor de cabeça para quem nele se aventura, mas para o nosso guia é apenas uma corridinha ao guarda… e está resolvido.
Ele enfim encontrou a Fonte de Trevi – Fontana di Trevi – Suja como o diabo, mas bela como sempre.
Fundada por Clemente XII no ano de 1735. Não deu para saber a história que está no frontispício pois essa inscrições são escritas em latim. Se eu não sei outras línguas, quanto mais latim!

Fonte de Trevi, Roma. “Até eu tive vontade de me meter lá dentro. Sim, porque é dólar mesmo o que tem lá.”
Tinham dois meninos dentro da Fonte apanhando as moedas que jogam como sorte lá dentro. Eles começaram com um imã preso num cordel, mas depois se meteram na água mesmo. Chamaram a polícia, mas nada adiantou. Se esconderam e quando a polícia saiu, eles voltaram. Na água, muito limpa, vê-se o fundo perfeitamente.
É facílimo apanhá-las. Até eu tive vontade de me meter lá dentro. Sim, porque é dólar mesmo o que tem lá.
Chegamos do passeio, escrevi a vocês, e mais dois cartões, um para Aidil e outro para Alice Chagas. Seu pai tomou banho, e está dormindo.
—
Jantamos no Hotel. Ontem não houve jantar, estavam em greve. Hoje teve café ou desjejum como chamam, almoço e jantar. Só que almoçamos fora e jantamos aqui. Amanhã não terá refeição nenhuma: greve novamente. O comunismo está tomando conta do País. Aqui em Roma é tanto pano perdido fazendo faixa de reclame que faz pena. Tem uns 4 ou 5 partidos comunistas. Se fosse coisa boa, não haveria tanta fartura.
A Igreja da escada santa é diferente mesmo de todas as outras. Na entrada tem um “hall” comprido em toda a largura da mesma, medindo uns quatro metros de fundo. A nave da Igreja são três longas escadas do mesmo tamanho, até o fundo. A do meio foi trazida da Terra Santa por Santa Helena, pois foi nela que Jesus subiu ao Pretório, não sei quantas vezes para seu julgamento e por fim, condenação. O povo católico, cultuador de coisas tristes por natureza, aceita como indulgência papal subir a escada de joelhos. E lá estavam várias pessoas a subi-la. Tem as duas laterais para subir normalmente e também descer, claro, e as pessoas das promessas. Não subimos porque a escadaria do Rei Vittório Emanuelle nos pôs os joelhos em pandarecos.
Lá em cima que estão os altares. Ao lado de cada escada, está uma estátua alusiva à Paixão de Jesus. Se destacam mais o Beijo de Judas e Jesus apresentando ao povo por Pilatos. O negócio é impressionante. Um frade muito simpático nos deu umas gravuras da Escada, com a estória atrás. É bastante interessante.
Outra coisa interessante é a tal Piazza D’España. Ao fundo tem uma enorme escadaria para terminar em uma igreja que não sei que nome tenha. Mas no primeiro plano existe uma fonte no formato de galera. O troço é em pedra e deve ter uns dez metros de comprimento. Sai água por todos os lados. Dá a impressão que o barco é furado por uma porção de lugares. É alegre o local, cheio de vendedores e gente de toda espécie. Desde cabeludos, até cegos estrangeiros com suas bengalas e esposas a tiracolo.
Itália
Rapalo – 30 km de Gênova. Cidade de veraneio bonita e alegre. Estradas cortadas por túneis com lindas paisagens. A Itália acidentada torna-se fácil de ser vista e admirada, cortada por cidades de veraneio. A Riviera Italiana é mais séria, mais senhora-moça que a Riviera Francesa.
Chiavari – outra cidade de veraneio
Carrara – a cidade do mármore
Vocês não são capazes de imaginar, mas nós acabamos de comer sururu no anti-pasto. Sururu ou mexilhão, marisco, camarão tipo mignon, lula, tudo arrumado numa travessa com um delicioso molho. Na outra, pequenas torradas cobertas de patê de fígado de galinha e presunto.
Não tenho descrito, até agora, aquilo que temos nos deliciado com as cozinhas maravilhosas que são as portuguesas, francesas e italianas. Não paga a pena só descrevê-las, se vocês pudessem partilhar dessas coisas maravilhosas, então sim, a nossa satisfação seria dobrada.
O restaurante é um amor. É no caminho para Pisa e se chama Trattoria da Clara (Trattoria quer dizer casa de pasto – sendo a tradução mais literal). A Lourdes, como sempre, lambiscou do prato do Waldemar. Diz ela: é porque, se fizer mal a ele, fará mal a ela também. Como desculpa para a gulodice… é a melhor! Comemos muito bem e brincamos ainda mais.
A nossa interpretação do italiano, do francês e casteliano é a “melhor” possível. Os nossos guias e intérpretes, Waldemar e o Sr. Diamantino, se vêm em papos de aranha para satisfazer a nossa vontade em pedir as coisas e, principalmente, comidas.
O local onde está localizada a Trattoria é perto de “Viareggio”.
Piazza del Duomo de Pisa – Ditado pelo Waldemar, depois de ter ouvido pelo telefone que, mediante uma moeda, ouve-se em 4 línguas, depende da escolha: inglês, italiano, alemão e francês.
Antes de começar a descrição é preciso explicar: a Piazza (Praça) compreende 3 edifícios em estilo mourisco (creio eu) de belezas incomparáveis. Tem um gramado lindo!! O edifício maior fica no centro – é a igreja. Muito bela por fora e, por dentro, é uma obra de arte, não só na sua concepção como na beleza diferente dos altares. De modo geral as igrejas têm maior beleza no altar-mór, esta não, todos são bonitos, com telas de artistas italianos célebres e imagens representando, como as pinturas, cenas do velho e novo testamento e vida dos Santos.
Na frente da Igreja fica o Batistério, todo trabalhado em marfim, em círculo de uns 20 metros e de uma imensa altura, pois a acústica dele é o que há de mais notável. Um homem que estava na porta, fechou-a e cantou, cantalorando e bateu palmas. Pelo postal vocês verão a beleza que é o Batistério. Esqueci de falar no teto da Igreja. É trabalhado em talha toda dourada – perfeito.

Piazza del Duomo de Pisa: ”De cabeça para cima não sabemos o que mais admirar, se a beleza arquitetônica, se a ideia do homem em imaginar aquilo que serviria de atração principal para a sua rica cidade.”
Por trás da Igreja está a Torre de Pisa. Tem-se a impressão que ela vai cair a cada hora, parecendo que somos bonecos de pano ao lado dela. De cabeça para cima não sabemos o que mais admirar, se a beleza arquitetônica, se a ideia do homem em imaginar aquilo que serviria de atração principal para a sua rica cidade.
E aqui começa a história ouvida pela Waldemar: a Torre inclinada de Pisa começou a ser construída em 1174, pelo arquiteto Bonomo. Fez até o 3º andar, ficou parada 90 anos. Outros artistas a recomeçaram e chegaram ao 8º andar. A primeira grande dúvida do turista é se realmente foi construída inclinada ou teria o terreno cedido depois de edificada. Existem duas versões e a mais exata é aquela que a vontade do seu idealizador quis registrar, ou seja: a de que a inclinação da Torre significava a decadência do reinado pizantino que se pronunciava.
Arquitetos, porém, posteriores ao início da obra são unanimes em afirmar que a inclinação que se observa é devida à depressão do terreno onde foi construída, tese esta controvertida pela simples análise de construções da mesma linha arquitetônica que lhe são circunvizinhas.
Missões científicas de todo mundo, todavia e principalmente da Inglaterra, no afã de preservar para a humanidade um monumento de tanto valor histórico, houveram por bem tomar as medidas acuteladoras, qual seja, a injeção de cimento em seus alicerces de mais ou menos 3 metros. Mantém hoje na Torre aparelhos de alta precisão, que registram qualquer alteração em sua atual inclinação, possibilitando a correção de qualquer anomalia que por ventura se verifique.
Suas características aproximadas são:
Peso = 15 mil toneladas / Altura = 54 metros / inclinação em relação ao nível do solo = 4,94 metros / diâmetro interior = 7,30 metros / diâmetro exterior = 15,40 metros
No pináculo da Torre existem, instalados, sete sinos gravados com alegorias que tocam músicas variadas. A cidade é deliciosa, apesar de secular, não vimos becos estreitos e escuros, não visitamos toda, pois só passamos uma noite em um hotel muito simpático, com comida deliciosa. A zona comercial é muito bem arrumada, mas os preços são de amargar, não fica nada a dever os daí (nossos).
26/Maio/71 – Pisa
13h – saímos de Pisa, almoçamos na estrada no Bar Restaurante “Albergue Duo Pini”.
23/Maio/71 – A caminho da Itália
09h – Estamos a caminho de Gênova (Itália). Passamos em Menton (França), em demanda da fronteira italiana, a praia é como todas as outras, escura e pedregosa, por enquanto nada mudou.
10h15 – a primeira cidade ao começar a fronteira se chama simplesmente Ventemiglia. Alcançamos San Remo – famosa pelos festivais de canções. É grande, bonita e alegre, se é que passar de carro nos dá direito de ajuizar uma cidade. A praia é a mesma das outras, o que tem de notável são as flores. Vivem do cultivo delas, cultivadas em estufas, cravos aos montes, e rosas idem. Barracas nas margens das estradas vendendo cravos em bouquê. É de endoidecer a quem gosta tanto deles. Mesmo pedindo, não ganhei nenhum.
Continuando a viagem paramos em um restaurante – mas era desses de receber bandeja e tinha gente em fila, mais que formiga. Passamos adiante e almoçamos em uma cidadezinha simpática, chamada Arenzano. Restaurante no terraço, por cima do bar, em frente ao mar. Não fosse a beleza do mar, não sei o que veria o turista por estas “plagas”. Comemos bem, servidos por um simpático velhinho italiano. Demandamos Gênova, aonde chegamos cerca de 3h30. A cidade é grande, velha e austera. Não se pode chamá-la de bonita nem alegre. Estivemos na Praça principal, onde tem um monumento dedicado a Cristóvão Colombo. Não foi possível ver direito, pois estão a celebrar o Congresso Eucarístico. Seu pai tirou umas fotografias do lindo monumento.
Fomos dali visitar o cemitério mais velho, mais artístico e mais famoso de Gênova. O cemitério é imenso, parece que toda a geração, desde Cristo está ali enterrada.
Sobe morro acima, numa profusão de mármores e obras de artes que ficamos a pensar nas grandes fortunas que foram despejadas ali só para embelezar um lugar que deveria ser tratado com a maior simplicidade do mundo. Em toda aquela beleza de artes e riqueza, só encontramos um porém: em torno dos túmulos simples cresce um matagal que dá para alimentar qualquer carneirada e, lá pra cima, onde ficam as obras de arte dos ricos, dos lados, em todas as galerias, um pó preto está cobrindo tudo com um desprezo imenso, não sei se o homem ou a morte. Só sei que se alguém se perder por lá, dentro da noite, de manhã vão ter que enterrá-lo, pois terá morrido de medo, mas é de tanta sujeira. Somente o chão está limpo. Tem coisas lindas, não conseguimos nem ver a metade, pois começou a chover forte e então viemos para o hotel, onde chegamos às 17h30.
Jantamos num restaurante embaixo do hotel chamado “O Príncipe”, exageradamente calmo em vista do alvoroço dos restaurantes de Nice.
Gênova atrai turistas pela antiguidade, pelos becos estreitos e escuros que dão para os apartamentos, pensões e muitos hotéis. A parte moderna é limpa e bonita, com edifícios de fachadas agradáveis e floridas.
Saímos de Gênova cerca das 10 horas do dia 24/Maio/71.
22/Maio/71 – 09h30

“Mônaco é uma joia engastada no alto do morro, que domina toda a baía que forma esta parte do mediterrâneo”.
Estamos seguindo em passeio para Mônaco. Estrada feita no morro, com chácaras, residências e hotéis construídos na rocha. O panorama é agradável, apesar do tempo nublado, pois está a chover em Nice. Espero que Mônaco esteja melhor.
Mônaco – Côte d’Azur – Riviera Francesa – Nice e todas as vilas, cidades, praias – ou lá o que seja que chamam por aqui – só têm uma finalidade: Monte Carlo!!!!
O Principado de Mônaco é uma das estórias da carochinha. Se houvesse sol veríamos melhor as belezas deste pedacinho de terra, conquistado por uma americana que aguenta galhardamente a vida insípida que é ser princesa, seja de um grande reinado, seja de um minúsculo principado.
Mônaco é uma joia engastada no alto do morro, que domina toda a baía que forma esta parte do mediterrâneo. Dista 30 quilômetros de Nice e no momento que se entra aqui se esquece Nice e suas ruas e avenidas que se tornam comuns diante da belezinha que é Mônaco.
Não existem ruas extensas, o tamanho do país não dá, a maior extensão, em uma praça talvez, seja onde está plantado o Palácio – castelo, residência do Príncipe Rainier e sua real família. A mudança da guarda lembra a opereta “O soldado de chocolate”.
A banda marcial toca as cornetas, suflam os seus tambores e, na frente, marcham os soldados que vão substituir os outros que estão na guarita, esperando os companheiros que os vão render. Todos de dolman preto e calças azul-marinho, com dragonas douradas, capacete preto com um penacho em vermelho e pontas brancas, cobrindo o coconuto do mesmo, cinturão branco, luvas brancas e os punhos vermelhos do dolman dão um contraste alegre aos soldadinhos de chumbo do Príncipe Rainier.
O trânsito, bem dirigido pela guarda garbosa e bem educada, dá maior realce ao bem cuidados País (se assim se pode chamá-lo).
Estamos sentados no carro, Lourdes e eu, esperando pelos três companheiros de aventuras, a saber por ordem de nascimento: Sr. Antenor, Sr. Diamantino e Sr. Waldemar. Eles foram assistir ao 13º Grand Prix. Hoje e amanhã haverá corrida de automóveis. O Waldemar é apaixonado por isso e o coitado estava a ponto de dar a luz, pois o tempo estava chuvoso, mas melhorou e parece que vai segurar. Em frente a nós está a Catedral e mais adiante está o museu. Depois iremos vê-los. (Não fomos….)
Almoçamos em um restaurante franco-italiano chamado “Saint Nicole”, onde comemos muito bem, aliás.
Voltamos a Nice pelas 15 horas. Os dias aqui são enormes, o alvorecer começa pelas 4h30 da madrugada e o anoitecer por volta das 20h30.
Não tenho tido a lembrança de marcar as horas, mas é mais ou menos isso.
Jantamos às 21 horas no restaurante “O Pizzicato”, baseados na cozinha italiana e, como o outro – Palermo, a agonia é a mesma, o corre corre é qualquer coisa de notável, a diferença é que este último tem mais espaço, mas nem por isso deixa de ter as suas aperturas.
O Sul da França compreende toda a costa, a que dão o nome de Riviera Francesa. Costa Brava é onde o mediterrâneo banha a Espanha. Côte d’Azur é a parte em que se localiza Mônaco. É muito bonito tudo o que a natureza criou por aqui e a mão do homem aplainou ao seu bel prazer. A natureza agreste, com seus montes rochosos, sua afamada Fraldas dos Pirineus, suas ravinas, apesar do burilamento por que passou é um perigo constante para o viajante, mesmo de dia. As estradas são em curvas fechadas para subir as escarpas quase indomáveis e, quanto mais abrupto é o terreno, mais perigoso e acidentado, aí se vêm belas casas de veraneio, residências, pequenos bangalôs, hotéis e restaurantes. As flores, de todas as espécimes, dão um encanto todo especial às paisagens.
Não simpatizei com Nice. Como disse anteriormente, prefiro Cannes. Tem aqui tudo que se pode desejar para viver, comer e se divertir. É só ter dinheiro. A mescla de raça dá um toque diferente a esta terra cheia de barulho e de gentes.
No comércio se misturam lojas onde vendem de tudo, restaurantes, cafés e casas de chá de todos os jeitos e modos. Uns têm cadeiras e mesas nas calçadas (aliás é típico da Europa, desde Portugal se vê isto), outros são do lado de dentro. A maioria dos restaurantes expõem suas comidas nas portas de entrada, cruas ainda, mas arrumadas de modo como ficarão depois de prontas. A ideia é prática e apetitosa, mesmo que não estejam cobertas na vitrines dos balcões frigoríficos, não existe perigo de deterioração, porque acima de tudo não existem as amaldiçoadas moscas. É tudo muito limpo, mesmo as ruas apesar da multidão que as infestam.
Mas, o que maior tristeza nos causou em tudo isso é a prostituição às escancaras que existe aqui. Já às 20 horas “elas” já estão pelas esquinas, de pernas à mostra (todas, com raras exceções, vestem short), arrumadas de cara e cabelo, são moças e bonitas, um chamariz perigoso para as sem muita firmeza da vida quererem imitar Deus! Quando será que essas coisas terminarão!?? Quando terá fim tanta miséria???!!!!!
21/Maio/71 – Começa a Riviera Francesa
Saint Tropez – 11h30
Não tem mais que as outras cidades praianas. Só que é francesa, está fazendo frio e tem comércio e rosas.
Saint Maxime – 12h30
Não existe novidades nessas afamadas praias. Nada que nós não tenhamos iguais ou mais bonitas.
Restaurante “La Reserve” – almoço servido por uma linda mademoiselle.
Saint Raphael – 14h30
É uma grande cidade praiana, bonita, espalhada em frente ao mar. Belas residências, avenidas floridas, hotéis e restaurantes pitorescos formam a bem arrumada Saint Raphael. O comércio deve ser muito bom e muito caro também, como tudo é caro nesta França, da antipática Brigitte Bardot.
Vila D’Anthéor (Anthenôr) – 15h
Tudo que tem nela pertence a ele. Rochas, mar, residências… tudo. Terreno escarpado, perigoso para banhos, mas é o que tem de mais belo – Côte d’Azur – é realmente muito bonito o mar por aqui.
- Miramar – 15h30
La Napoule – 15h35
Bonitinha – praia com areia escura
Cannes – 15h45
Aglomerado de barcos, casas, gente, avenidas largas e arborizadas. Cannes é o maior até agora, de todos os atrativos à beira-mar da Riviera Francesa. Cada hotel que só a fachada vale um sonho, calculem por dentro. Um mar de rosas enfeita este imenso jardim-praça.
Somente rosas grandes, pequenas, vermelhas, cor-de-rosa. As bordas dos canteiros são em flores amarelas. Os caramanchões são de rosas trepadeiras em várias cores e tipos. É a flor que maior cultivo tem pela Europa, pelo menos na parte que vimos até aqui. Rosas e geraniuns.
Antibes – uma continuação de Cannes, pois nestas vilas não se sabe onde começam umas e terminam outras.
La Fontaine – La Bragne e daí por diante até Nice, a maior de todas as praias, mas nem por isso a melhor. O centro comercial de Nice é decerto a atração principal desta enorme cidade. Suas ruas estreitas, cheias de perigo para as mulheres e desastre financeiro para os seus companheiros!!!!
Suas bem montadas casas de negócios – lojas de roupas feitas para ambos os sexos, sapatarias, joalherias em grande quantidade, movelarias, restaurantes simples e requintados: tudo arrumado de forma a atrair ao incauto passante que cai como mosca no mel. As praias propriamente ditas, com areia, não existem em Nice. O que há é um pedregulho cinza escuro resultado do represamento da água, para poderem fazer a linda e longa avenida. O mar sim, como sempre, dá a sua nota em elegância e beleza… Deve ser muito bom para velejar. Cannes é bem simples e, no entanto, tem o encanto das flores, da amplitude, apesar de ter, talvez a metade de Nice.
Se esse povo que vem tomar banho nas praias, desde Saint Tropez até Nice, vissem as nossas praias, isso aqui perderia todo e qualquer atrativo que tem para o turista. Infelizmente não estamos preparados para tais eventos. Basta, por enquanto, que eles descubram as praias portuguesas, que são lindas e têm a vantagem de ter areia na beira do mar. Aqui é areia escura ou como terra, ou rochas escarpadas ou pedrisco. Não é exagero. Que, já viu isto por aqui saberá que estou dizendo a verdade.
Jantamos ontem, em um restaurante típico italiano. O local é pequeno, cheio de gente até as bordas, gente em pé esperando, incluindo nós que levamos uns 15 minutos montando guarda. São apenas 6 garçons “elétricos” que procuram da melhor maneira possível dar conta do recado.
Nunca me diverti tanto em um restaurante, são duas ou três mesas retangulares, unidas pela cabeceira. Ali sentam sete ou oito pessoas e, em nossa mesa fomos nós quatro e um casal de americanos com uma filha. O esforço dos garçons para nos servir é uma verdadeira pândega. Comemos lasanha verde com vinho. Ótimo. A sobremesa foi morangos. Ótimo outra vez. O nome do restaurante é “O Palermo”.
20/Maio/71 – França
Passamos a fronteira sem novidades até agora, graças à Deus.
Estamos almoçando em um Euromotel Roussillon – Restorante de Salses. Avistamos ao longe os Pirineus. Não sei se os veremos de perto. A topografia mudou um pouco. Antes se entrarávamos em território francês, víamos coisas lindas em cerâmica, fábricas e mais fábricas da linda arte. Vasos, pratos para parede, jarros para água, vasos para flores, estátuas, estatuetas e uma infinidade de coisas úteis e para enfeites. As estradas, na maioria, são arborizadas. Lembra a que vai para São Lourenço, via Engenheiro Passos. A diferença é que aqui é feita pela mão do homem (a arborização, bem entendido) e lá foi a natureza. Vê-se vinhedos em profusão. Anda-se quilômetros só avistando vinhedos brotando, pois a poda já se fez e eles estão se preparando para dar ao homem os seus saborosos frutos.
Chegamos em Aix-en-Provance cerca das 18h15. Cidade velhíssima pois deve ser do tempo dos Reis Luiz, senão mais velha. Bem cuidada e tem que ser cheia de requintes como o velho francês sempre quer ser, apesar dos tempos modernos.
É ampla, cheia de árvores e muito limpa, só que não é o meu tipo. Acabamos de jantar e a Lourdes e eu viemos para os quartos. O Antenor e o Waldemar foram fazer o “quilo”. O Hotel é magnífico. Até hoje não havia me hospedado em um quarto tão “chic”, para usar o termo francês. O quarto é amplo, na entrada tem, do lado esquerdo, um sanitário e um grande e fundo armário. Em frente duas portas: uma para o quarto propriamente dito e a outra para o quarto de banho. No quarto de dormir, com paredes forradas de papel com linda estampa de aves esvoaçando em galhos de árvores, em tons levemente azulados, pássaros de várias cores, do azul passando para o verde, rosa vermelho e tons de amarelo. Tudo isto em fundo creme. Duas camas de ferro dourado, cobertas com cobertores amarelos e lençóis alvos. Duas cadeiras simples e duas poltronas forradas em seda verde. Entre as duas poltronas havia uma mesa branca com tampo de vidro.
Ao lado de cada cama um criado mudo, brancos e, no lado esquerdo uma secretária com pasta para escrita, com tampo vermelho e pintada de branco, telefone e porta mala. Armário com prateleiras e, na porta, do lado de fora, um grande espelho. Portas, armários e barra das paredes são brancas também. O chão é coberto por um carpete vermelho escuro com coroas e ramos de folhas em verde e amarelo.
O banheiro tem duas portas: uma que dá para a entrada ou “hall” e a outra para o quarto. É estreito em proporção ao comprimento, tem a mesma extensão do quarto e uns dois metros de largura. É branco e cinza, sendo que o tampo da mesa toillete é em grafite, cortina verde no quarto e branca engomada no banheiro.
Nas poltronas panos brancos com rendinhas nas bordas, e engomadas. É adorável para dois pombinhos em lua de mel. O piso do banheiro é em pastilhas grafite escuro, salpicado de pastilhas brancas, geladeira pequena, bem sortida, branca também e um grande armário de porta escura. Banheira enorme, bidê, duas pias e box com chuveiro, com portas de correr de vidro.
O Antenor estava procurando a razão do movimento tão intenso desta pequena cidade. Ela é próxima de Nice, cidade de jogos, cassinos e de Mônaco, principado que vive em função de Monte Carlos. É natural que a vida das cidades circunvizinhas tenham intenso movimento. Mesmo que aqui não houvesse cassinos (tem quinze) o grosso dos turistas e jogadores que não encontrassem ou não quisessem ficar por lá viriam para cá, pois estamos há 180 e poucos quilômetros de Nice. Só passamos uma noite aqui. Estamos com pena de deixarmos o belo e simpático Hotel Roy René. É também cidade de concertos musicais e uma Universidade para estrangeiros.
Barcelona, Espanha
Visitamos um local que se chama simplesmente “Pueblo d’ Espanha”. Talvez o nome não signifique para nós a beleza e a propriedade que são resultado do monumento.
É em forma de cidadela romana e lá, entrando pela enorme porta que enfeita e guarda a entrada, chega-se a um recinto de grandiosa harmonia no seu efeito. Empregando o termo brasileiro – o negócio foi bem bolado. É como se todo o edifício fosse a própria Espanha. Dentro estão as suas províncias em distribuição na posição real em que se encontram na geografia. No centro, onde deve estar Madri, fizeram uma cópia da “Plaza Mayor”.
Cada província é uma espécie de loja onde estão expostos os produtos manufaturados naqueles lugares. Levaríamos todo o resto da tarde e talvez não víssemos minuciosamente as curiosidades que lá se encontram. Ficamos até onde o dinheiro chegou e o estômago consentiu, pois era hora do almoço e estávamos morrendo de fome.
Vimos a manufaturação de vidro. Ainda não tinha visto e ficaria sentada o resto do tempo só apreciando o manejo único, que é grandemente agradável de se ver. Estavam fazendo uma grande garrafa verde para bebida. Não sei dizer ou descrever o negócio todo. A bola de vidro derretido sai do forno vermelho coral e, poucos minutos depois está verde folha. Os homens trabalham numa agilidade enorme é claro, e como eram dois grupos que trabalhavam, ficamos mais a ver o 2º grupo, pois era lá que o homem soprava o vidro. Interessantíssimo, porém, mais interessante eram as bochechas que o homem fazia, parecia que estava a tocar um trombone de vara.
Fomos ao cabeleireiro, Lourdes e eu, fizemos as unha e cortamos cabelo. Em primeiro lugar nos lavaram os cabelos, não nos perguntaram se queríamos que o fizessem. É uma norma deles. Para cortar ou pentear, os cabelos têm que ser lavados. Os meus quem lavou foi um adolescente, cerca de 12 anos. Aquilo lá enxameia de homens e mulheres, sendo homens mesmo… depois tiram o excesso de água com a toalha e cortam, aliás muito bem, diga-se de passagem. Não foi a mesma moça quem nos fez o serviço, apenas a manicure foi uma só, apesar de ter várias.
Os homens e as mulheres fazem o mesmo serviço, menos os que estão aprendendo, é claro. A moça que nos fez as unhas deve ter gasto cerca de 20 minutos, e são bem feitas, só não gostamos do preço: 100 cruzeiros as duas. O luxo e a vaidade da mulher afunda qualquer homem, se ela não pensar duas vezes no que vai fazer…
Vamos sair agora, pela manhã, em caminho da França. Dormiremos em Aix-en-Provance.
20/Maio/71 – Barcelona, Espanha
Uniram-se: a simpatia, a beleza, a deferência. Acredito que Barcelona seja a fina flor de Espanha. É uma menina-moça eterna fazendo sua “entrée” na alta sociedade do mundo.
Ao contrário do madrileno, o habitante de Barcelona, em geral, é simpático, tratável. As vendedoras, então, encantadoras. Não se pode descrever esta cidade. É preciso vê-la.
Ao contrário das cidades por onde já passamos: seja de Portugal, seja da Espanha, incluindo Madri e Lisboa, onde a influência moura é notável, Barcelona tem característica romana. Não italiana, romana mesmo. Fortes ou cidadelas, inúmeras fontes, estátuas, construções públicas, jardins e uma série de outras coisas.
O porto é bom, não tão grande como disse o guia (10 km), mas serve bem aos seus intentos. Fomos à Praça da Catalunha ver a “feira de passarinhos de Barcelona”. Vende-se ali, principalmente, flores e pássaros. Nunca havíamos visto hortênsia branca e salmon. Vimos hoje. Tem uma variedade imensa de geraniuns. Flores tropicais que talvez nem no Brasil se conheça.
Não sei de onde vem. Rosas, cravos amarelos com as bordas das pétalas em rosa vivo, brancos em vermelho! Arranjos florais sem arames para matar as pobres flores… Não sei descrever aquilo que vimos, é bonito demais. Fomos à feira de metrô. E chegamos num suspiro.
Mas o mais bonito é o que eles fizeram do morro onde está encarrapitado um forte construído pelos romanos. Desde a base até o ápice é um jardim de notável beleza.
Tiramos várias fotos e o Waldemar filmou um pouco apesar de ter perdido algum filme – tapetes de flores amarelas, brancas, vermelhas e rosas.
Nos morros que suportam as estradas para subidas, fizeram jardins tropicais de rara inspiração. Pedras, cactos, geraniuns, flores campestres de variedade imensa e cores várias, se confundem numa profusão de encantar. Vai-se subindo, e enquanto mais se sobe mais bonito nos depara.
Lá em cima tem um jardim de canteiros iguais em dois. São retangulares. Canteiros de bocas de leão (dois), dois de cravinas e estavam preparando dois de dálias. Disse o jardineiro que as haviam recebido do México. No centro fica o caminho que vai para o edifício da TV. E seguem então os canteiros formando outra série de dálias, cravinas e bocas de leão.
As cravinas são em todas as cores: até brancas, que eu não conhecia. Na extremidade de cada conjunto desses enormes e belos canteiros, tem outro em oval, com florzinhas roxas, e no centro uma estátua estilo romano representando qualquer deusa. Essas flores não são salpicadas, todos os canteiros, os morros, os tapetes nas beiras altas do forte são compactos. É como se fosse um imenso “bouquet” de flores várias enfeitando essa grande cidade.
Se houvesse tempo de descrevermos todos os lugares por onde passamos, todas as cafeterias onde entramos para tomar um lanche à noite, porque o jantar do hotel não nos agradou, todas as praças, monumentos, edifícios, grandes lojas, pequenas lojas etc., não haveria caderno que chegasse e somente uma taquígrafa (Siomara?) nos satisfaria se conseguíssemos realizar tal intento. A Europa é um imenso jardim apelidado de Velho Mundo.
Os canteiros diferem entre si pelas variedades de flores. O jardineiro que muitas vezes se transforma em um rude e ignorante hortelão, muitas vezes não soube, e talvez por muito tempo não saberá, conter os choques de perfume das suas flores. Quando há paz entre elas (as flores) existe suavidade no ar e aí então todos aspiram as fragrâncias com verdadeiro deleite.
Os brotinhos, mais felizes e alegres se tornam capacitados para se transformarem em flores mais belas e perfumadas. Tudo dependendo do cuidado extremoso do querido e velho jardineiro. Queira Deus não se torne ele, jamais, um antipático e resmungão “hortelão”.
18/Maio/71
Estamos saindo de Zaragoza – andamos que só má notícia, guiados pelo “perdigueiro” Antenor, para conhecermos a cidade em expresso canelinha. Ele queria encontrar a Catedral de Nossa Senhora Del Pilar e o que encontrou foi fundos de casas e vielas – vimos depois a bela Igreja com orientação do Sr. Diamantino.
Paramos um pouco em Lérida para o carro tomar “gasosa” ou gasolina como deve ser chamada por nós. Tomamos um cafezinho, Lourdes e eu. O Waldemar um Campari e o Sr. Diamantino um leite.
Ao sairmos de Zaragoza a paisagem mudou completamente. Do lado esquerdo, montes e montanhas de pedra, cobertas por uma vegetação que parece ser reflorestamento.
Fizeram na Espanha o mesmo que acontece com Minas Gerais. Não existe floresta nesta parte do País – Noroeste – É tudo seco, árido.
Do lado oposto, são campos cultivados. Trigo, uva, cevada, pastos, pêssego, que sei eu?
Enquanto em Portugal os campos cultivados com cereais são entremeados de árvore da cortiça, olivais, parreiras, pereiras e etc., aqui não existe cortiça. Existe mais pereiras, oliveiras e pessegueiros. Mas as flores de campo – papoulas vermelhas, margaridinhas brancas e amarelas, urzes azuis, florzinhas roxas, são iguais nos dois países. É um encanto! Para nós, que não somos poetas, nos faz falta rimar para enaltecermos tanta beleza natural!
Entre Guadalajara e Cifuentes
Ótima comida, ótimo vinho, bem servido, local campestre ao lado de um trigal. Me deu vontade de lá ficar o resto do dia, pois lá fora estava chovendo e um frio de rachar. Felizmente ao entrarmos em Zaragoza o tempo melhorou. Os filhos desta terra devem ter um orgulho enorme dela.
Primeiro por ser terra de Goya, o grande pintor, e segundo pela simpática atração que nos inspira.
Zaragoza, vaga ao primeiro golpe de vista. Como entrada de cidades, quer grandes ou pequenas, dá-nos má impressão com seus edifícios de apartamentos, com florestas de antenas de televisão nos telhados. Mas à proporção que vamos entrando, descobrimos que Zaragoza é uma mulher bonita, vestida para um baile de máscaras. Tirar-se-lhes a máscara e se apresenta a beleza que é a terra de Goya e do Rei Fernando, o católico. Pena ficarmos tão pouco aqui. As galerias no centro comercial, dão um ar festivo à linda avenida em que se localizam.
Chegamos às 7h da tarde (em dia de sol, às 9h ainda é dia) e jantamos às 9h30, ou seja, 21h30. Saímos para fazer o quilo, como diz o Antenor, e fomos ver as galerias.
Na volta tomamos chá com torradas. O Waldemar tomou um conhaque quente (ficou fumaçando que só locomotiva). Regressamos ao hotel à meia noite.
Notamos que alguém esteve em nossos quartos. A luz do nosso estava acesa e no dos amigos rasgaram o involucro de uma cesta de doces que o Waldemar havia comprado e de certo tiraram algum, pois esta gente não tem anda de boba.
Não sentimos falta de mais nada. Deus queira que dê uma dor na munheca do sem vergonha que fez isso toda vez que for mexer no que não deve – a Lourdes sentiu falta de uma moeda, presente de filha.
Tourada
Fiz uma promessa à Santa Clara, preciso pagá-la. Para não ser desmancha prazeres aceitei ir a uma tourada. Fomos, seu pai e eu, o Waldemar, a Lourdes e o Sr. Diamantino.
Não gostamos, seu pai e eu, simplesmente. É uma reminiscência dos “circos” romanos, nada mais, nada menos. Tem beleza na sua coreografia – porque aquilo nada mais é que um bailado.
O toureiro, em seus passos de dança, excita ao infeliz animal a fazer o que ele quer com as picadas das bandeirilhas e da lança do picador, para no final do espetáculo, ou melhor, de parte do espetáculo, matar o touro. Sim, porque são seis touros, são duas horas de martírios para ambos: touro e toureiro. O toureiro esperando ser morto a cada instante, e dançando ao redor do animal para matá-lo. Saímos nós dois na metade do drama. O espectador se deleita e se integra como que vê lá na arena. Gritam os seus “olés”, as suas vaias e palmas quando se faz preciso.
Os trajes dos toureiros é o que tem de belo em toda a farsa. Cada um veste em cetim bordado, conforme a cor a que cada qual pertença, e a sua “quadrilha” segue-o para onde se dirija por trás da paliçada ou seja, as barreiras de madeira que protege toda a parte terrena da arena. O pobre animal é lancetado, “bandeirillado”, excitado até o clímax, isto é, a morte. E foi esta morte que não me fez bem aos nervos. Tive vontade de gritar aos quatro ventos que aquilo era um crime. Matar, pelo simples prazer em fazê-lo é mais que crime, é perversidade. Os mandamentos dizem: Não matarás! Não especifica o ser – humano ou animal. Mas aí está o homem continuando a fazê -lo. Deus nos perdoe.
Apesar de tudo é um belo espetáculo. Bem ensaiado, com todos os atores no seu devido lugar, inclusive os animais, cavalos e touros.
O edifício é grande, mais ou menos do tamanho do Ginásio do Ibirapuera. Se chama Plaza de Toros (o z tem som de ç).
O espanhol é agressivo e não sei se foi pouca sorte nossa, os do Hotel são os mais que encontramos. São “ecuetres” (cavalos) mesmo.
Madri está muito fria. Tem chovido e quem sabe encontraremos o sol em Saragoza ou Barcelona?
Sairemos depois do almoço, pois vamos fazer algumas compras.
As moças são bem bonitas e os homens mais ainda. Até aqui encontramos poucos cabeludos – deles, acredito que a maioria seja turista. Estivemos fazendo compras nas Galerias Preciados.
As moças são atenciosas, bonitas e educadas. Parece que foram escolhidas a dedo. É loja tipo “Mapin”. Tem vários andares, elevadores, as detestáveis escadas rolantes e estacionamento próprio.
Sogra ou mãe?
Eu estudava na ETI Lauro Gomes, em São Bernardo do Campo, nos idos anos de 74/75. Lá tinha um professor com voz tonitroante, chamado Rodrigo. Era um ser esquisito, porque ensinava matérias como amplificadores operacionais mas também falava de outras coisas, que nada tinham a ver com os tais amplificadores. Falava coisas ligadas à alma e à essência do ser. Um sacrilégio para um professor de eletrônica, ainda mais naqueles tempos de ditadura.
Um dia o procurei, já não me lembro exatamente o motivo. Ele estava na sala dos professores e me perguntou qual a diferença entre o zero e o um. Eu pensei bem e disse que achava que eram essencialmente a mesma coisa. Ele provavelmente achou minha resposta razoável, acredito, e me convidou para uma reunião espiritualista na casa de sua mãe, a Matriarca, na Vila Mariana. Eram reuniões de quarta-feira – e eu não tinha a menor idéia do que se tratava.
Quando apareci na primeira reunião em que fora convidado, vi uma pessoa: Siomara. Olhei pra ela e me disse: é ela, a minha metade. Não contei a ninguém, mas acredito que a recíproca foi verdadeira. E instantânea. Depois das reuniões ficávamos a ouvir música MPB na sala da casa, e na segunda ou terceira reunião Siomara veio e me arrancou um beijo. Eu ainda era cheio de vergonhas e de medos adolescentes, mas não resisti, confesso, àquele primeiro doce beijo. Aí, a certeza que tive quando a vi, pela primeira vez, se transformou numa certeza de 35 anos de convivência.
Dona Fernandina, a Matriarca, que ainda não era minha “sogra”, começou a notar que eu não ia embora depois que acabavam as reuniões, ficava ali na sala de estar namorando até tarde, enrolando pra ir embora. Um dia ela veio com um copo de leite quente e me disse:
- Tome este leite meu filho – e vá para sua casa! (com a doçura e a candura com que sempre me tratou).
Pouco tempo depois estava casando com sua filha, mas nunca a vi como sogra. Sempre a chamei de mãe e a vejo assim até hoje, como uma segunda mãe. Nestes anos todos convivi mais com ela do que com minha própria mãe, a quem vejo com muita pouca freqüência.
É do ventre dessa mulher bendita que nasceu Siomara, ou Mamaia, como eu e íntimos a chamavam carinhosamente. Que me deu 3 filhos benditos. Que infelizmente daqui partiu e nos deixou com uma saudades sem tamanho e sem precedentes.
Felizmente ainda posso visitar a Matriarca e, ao ve-la, beber um pouco da água da fonte que tudo gerou. Ou tomar um copo de leite e beber um pouco mais de vida.

túnel do tempo: José Lieb
O Natal para Fernandina e Anthenor
Uma pequena homenagem a meus avós nesse Natal, o primeiro sem o meu avô.
Madri – Palácio Imperial ou do Oriente
Nem em sonhos se tem idéia da beleza que encerram estas paredes que guardam os espíritos, as almas, aventuras e tristezas de Reis e Rainhas. As vitórias, às custas de vidas inocentes dos peruanos e americanos da nossa América do Sul, deu ouro suficiente para o esbanjamento que se admira hoje como riqueza e como reminiscência.
É uma orgia de ouro, prata, pedras preciosas, bronze, mármores. Os relógios em quantidade de 400, incrivelmente belos, marcam as horas há mais de 1.000 anos. Existem 14 Km de tapetes conservados para admiração do público. São bordados em lã e ouro, pintados e tecidos. As galerias que guardam os quadros são várias. A pinoteca é uma fábula.
Nós veremos, sem dúvida alguma, coisas mais belas, mas o Palácio Imperial de Madri nos tocou mais de perto, talvez pelo entendimento latino-americano. Madri é grande e bem traçada com suas largas avenidas ajardinadas. Que também tem as suas ruas estreitas e perigosas, isso tem.
Acabamos de almoçar divinamente num restaurante que existe há 185 anos e que tem o nome de Restaurante Antiga Casa Sobrino de “Bótin”, Rua Cuchilleros, n.º 17.
Depois saímos a pé debaixo de garoa, vendo vitrines. Coisas lindas, especialmente os trabalhos de artesanato feitos em Toledo. As ruas estreitas que existem em Sevilha e Madri, talvez também em Toledo, fazem lembrar os romances de Capa e Espada tão difundidos há 40 anos mais ou menos.
Não é ficção. Havia naquela época mais possibilidades de assaltos, fosse para matar ou roubar, do que hoje, pela pouca ou nenhuma iluminação. Mas que o perigo persiste, não tenham a menor sombra de dúvida.
Em Portugal, ou melhor, em Lisboa, também existem as tais ruazinhas para prazer dos aventureiros, que nada mais são que assassinos em potencial. Já agora, nesta época de turismo, elas são conservadas mais como atração, e permita Deus que seja apenas para tal fim. É um verdadeiro formigueiro humano. Em Lisboa, onde nós as vimos em abundância foi no bairro de nome Alfama.
Um pequeno se grudou no Waldemar, que não o largou enquanto não recebeu alguns escudos. Eles, os habitantes do bairro, fazem uma espécie de feira, ou mercado, nas portas das moradias, onde se vende de tudo. Flores, verduras, frutas, peixes, carnes e roupas. As casas, tipo apartamento, não tem área de serviço, pois são construções milenares, e o homem, infelizmente, veio pensar em seu próprio conforto em época bem recente. E por isso as roupas lavadas são estendidas em varais improvisados nas janelas ou nas portas de entrada. Junto às flores que enfeitam varandas, janelas e portas numa mistura encantadora de cores, formam um adorável espetáculo.
Os dois países se irmanam bem nessas paisagens. Não fosse a limpeza que os diferenciam e a antipatia que os repele mutuamente, não se faria grande diferença entre as duas belíssimas nações.
E ademais a influência moura, os devia unir ainda mais. A arquitetura é o que há de mais belo e delicado. Nos trabalhos de madeira (entalhe), é que se vê de que são capazes os árabes.
Em Sevilha, onde visitamos com vagar o Palácio, hoje desabitado, mas que foi residência de sultões e depois de Reis espanhóis (infelizmente o vândalo Carlos V destruiu e fez reconstruir a seu bel prazer, na feia arquitetura da época, aquilo que o seu mesquinho espírito fez destruir).
Mas, como disse acima, o entalhe é qualquer coisa de notável. Aquilo não é colado nem preso com pregos. É simplesmente encaixado. Os desenhos dos tetos caem em contraste gritante com o piso. Não pode existir trabalho mais delicado nem mais belo. – Só pode ter igual. – O chão é de pedra bruta, pois era todo recoberto de preciosos tapetes árabes. Foi a riqueza da imaginação e da arte que o árabe, apesar de sua rudeza, legou ao europeu dessa parte do Velho Mundo, mas que ele (o europeu), apenas mostra aos curiosos, não procura imitar.
Ontem visitamos o Palácio Imperial e hoje o Vale dos Caídos – monumento aos mortos da Guerra Civil. Fica no distrito do Escurial, onde era a residência de verão dos Reis, de quem o distrito herdou o nome.
Não vimos o Escurial (palácio) apenas a Igreja de S. Filipe que faz parte do mesmo com um Mosteiro. A Igreja é imensa, mas o que mais nos atrai é o altar-mor.
A parede é toda revestida de pinturas com cenas sacras e imagens de santos em ouro puro. Mas, apesar da beleza, o que mais realça é o Sacrário. Deve ter em todo o seu tamanho, mais de 1 metro de altura por uns 1,80 de circunferência. Todo em ouro e revestido de pedras preciosas, é deslumbrante.
Estávamos com pressa, por isso não nos aproximamos o bastante para ver melhor. E estavam a celebrar a missa. A pressa é causada pelo desejo de ver o Museu do Prado. O Vale dos Caídos fica numa montanha.
Eles, os arquitetos, devem ter dado tratos a bola para resolverem o assunto de forma a não sacrificarem o espírito da intenção (aos mortos), e nem a beleza local. Existe simplicidade, beleza e imponência. Cavaram na rocha de pedra, um túnel onde construíram a capela. Tem duas portas para se chegar ao interior, depois subir uma grande escadaria. A primeira porta é de madeira lavada, a segunda em ferro trabalhado.
Sente-se um respeito religioso como se realmente ali estivessem os bravos moços sacrificados por aquilo a que o homem dá o nome de – Liberdade!
Ao fundo fica uma cruz com um Cristo em tamanho gigante e nas laterais imagens da Virgem Maria e Jesus. Tapetes com cenas bíblicas enfeitam as paredes entre as imagens. Ao se descer a escadaria que dá para a nave principal tem dois anjos da morte, em bronze. Gigantes em tamanho e em beleza. Um pátio imenso em duas divisões, com acesso em escadarias, tem uma vista maravilhosa, sobre pinheirais e penhascos cheios de pedras.
Universidade – anterior ao reinado de Dom Fernando – Hotel Afonso XIII ou Andaluz Palace
Universidade, também em estilo mourisco, feita anterior ao reinado de Fernando de Castela (hoje Santo não sei porque) é hoje um Seminário. É grande e imponente e com todas, ou quase todas as grandes construções de Sevilha, incluindo a Catedral, as torres, ruínas de muros mouros, castelos, e o próprio Alcazar, o hotel Afonso XIII ou Andaluz Palace – tudo é de cor escura. O interessante é que nas vilas e pequenas cidades quer portuguesas, quer espanholas, a cor predominante das residências – casa comum do povo, são todas caiadas de branco. A não ser as partes novas, construções recentes, tudo o mais é idéia do Sr. Antenor: branco, só branco.
Não me referi até agora a nossa bela mãe portuguesa. É um capítulo à parte em qualquer história de brasileiros que se preze e que saiba respeitar aquela que lhe deu o ser. Portugal nos toma o coração de assalto pela beleza e simpatia.
A fidalga acolhida que recebe o brasileiro em Portugal dá-lhe o direito de pedir sempre mais. A maior emoção que senti foi ao chegarmos ao Monumento dedicado ao Infante Dom Henrique, que foi inaugurado em 1960 por Juscelino – e que (nos disse o Sr. Diamantino), a avenida que passa beirando o Tejo, se chama simplesmente: Avenida Brasília.
Imponente, orgulho de brasileiros e portugueses. O monumento que fica a sobranceiro do Tejo, como que sonhando com futuras conquistas cujos desfecho foi a nossa terra; é linda na austeridade das figuras de seus homens sérios que se propunham em fazer grandes feitos.
As avenidas e praças, grandes, largas e floridas são um prazer para o olhar desprevenido de todos nós. Assim como Lisboa nos encanta, com seus castelos, suas residências, igrejas e tudo que compõe essa belíssima capital; o seu folclore e o interior do País nos deslumbra mais ainda.
Estivemos em dois restaurantes típicos: o “A Severa”, onde no fundo do salão principal, sobre um pequeno palco iluminado e com luz indireta, se encontra uma boneca, representando a infeliz fadista que morreu por muito amar o seu Marquês de Marialva, morto numa tourada.
Lá vimos e ouvimos vários fadistas. Entre eles estava um par de dançarinos que nos presenteou, e a todos que lá estavam para vê-los, com as danças típicas das aldeias portuguesas. Não podem imaginar a beleza que é tudo isto aliada à simpatia que é nata no portugueses.
O outro típico restaurante foi “Parreirinha da Alfama”. Pelo nome e vendo o bairro vocês compreenderão que infelizmente a fama não é das melhores. O restaurante é pequeníssimo, mas requintado. Recebe gente influente desde Café Filho até Wilson Simonal. É realmente muito agradável. Servido e dirigido por mulheres educadas e graciosas. Comemos e bebemos muito bem num e noutro.
Na volta à Portugal, descreverei melhor (se puder). Ainda vamos ver várias coisas. Só vimos de perto, percorremos até o Castelo de S. Jorge ou Castelo dos Moiros. São ruínas do Castelo dos árabes quando Lisboa viveu sob seu domínio durante, parece, seis séculos.
Espanha e Portugal tem tanta influência moura que se vê por toda parte a melhor herança que eles podiam deixar para os dominados: a arquitetura. É simplesmente notável. Desde um simples muro à uma trabalhada chaminé. Casas brancas das aldeias e os seus nomes como Algarve e outros. As praias portuguesas não perdem em beleza diante das nossas. Quem disse que só no Brasil existe beleza – ou é cego ou não conhece o resto do mundo!
Assim como em Lisboa, fomos a uma espécie de show aqui em Sevilha. Uma pista circular quase ao centro da sala. Ao redor, cadeiras em profusão ladeando pequenas mesas redondas onde servem bebidas. Um grupo de 8 ou 10 bailarinas dançaram representando diversas aldeias espanholas. Não tem beleza o que se vê no cinema ou televisão. As cores, a agilidade dos bailarinos, os lindos trajes típicos espanhóis faz-nos esquecer tudo o mais que não seja vê-los e apreciá-los.
As castanholas, não são um mero enfeite nas mãos dos dançarinos espanhóis. É um instrumento que acompanha a orquestra, ao bailarino e muitas vezes sola. É lindo de ver e ouvir. Entusiasma ao espectador ao ponto de fazer como o americano velhusco, que foi para o tablado e se saiu muito bem da empreitada.
12/Maio/71 – Espanha
15h (Europa) – Hotel de Inglaterra
Quartos bonitos, com varandas dando para a Praça de São Fernando.
A cidade (Sevilha) tem um movimento fantástico, toda florida e arborizada, é uma coisa boa de se ver, mas não tem simpatia, apenas atenção delicada para o forasteiro ou turista como queira.
O comércio faz com que fiquemos com água na boca de ver tantos leques, mantilhas, jóias, fazendas. Tudo muito chique e atraente.
A gente sonha em ter dinheiro bastante para carregar com boa parte e distribuí-los com os seus. Mas o que fazer? É olhar, ver e deixar para outros virem e desejarem e comprarem, se puderem.
A Catedral, construída pelos mouros, é talvez o maior patrimônio histórico de Sevilha. Imensa, toma todo um quarteirão, é imponente e austera como sabem ser as coisas feitas pelos nossos avós. Pena não ser eu arquiteta para descrever melhor e verdadeiramente todas as belezas desse rendilhado que enfeita e ilustra a Catedral de Sevilha.
Dentro é imenso. Vimos, Lourdes e eu, apenas um altar. A “simpatia” da recepcionista de turismo não nos deixou nem ver ¼, apenas por não termos comprado uma entrada. Até o catolicismo explora vergonhosamente a humanidade curiosa que deseja se deleitar em desvendar as belezas dos nossos antepassados. Mas, voltando à Igreja…. no centro interno do pátio tem uma torre chamada Giralda. Toda arquitetura é em trabalho de rendilhado e no centro, de face para o pátio, tem estátuas dos 12 apóstolos ladeando a de Jesus. Essas estátuas tem mais ou menos 80 centímetros de altura. De onde se olha vê-se com nitidez toda a perfeição de que foi capaz o artista para esculpir toda aquela beleza que ainda hoje serve de admiração para o mundo.
Acabamos de sair de Alcazar. Só vendo para poder calcular a beleza, poder e delicadeza com que os árabes (mouros) construíram. Um dia, Deus o permita, vocês hão de ter oportunidade de ver. Ver fotografias.
Estamos no Parque Maria Luiza. Compreende principalmente a Praça de Espanha. No centro da mesma existe uma enorme fonte com repuxos. Ao fundo, em meio circulo, um edifício em estilo mourisco, que foi construído para a feira mundial no ano de 1930 por Afonso XIII.
O Parque é imenso, quase que do tamanho do Ibirapuera. Os jardins floridos de rosas e as crianças, dão a nota humana e garrida ao lindo e imenso Parque. Cheio de pombos brancos que lembram o Espírito Santo da Igreja Romana.
Igreja de Santa Maria De La Esperanza (Macarena), padroeira dos toureiros. Pequena e bela, com seus altares recobertos de ouro, seus Santos soturnos e bem vestidos como se fossem para uma festa não muito alegre, da alta sociedade. A padroeira então, com suas lágrimas de brilhantes, sem ar de tristeza, dá a pensar que carrega todos os pecados dos matadores de touros de toda a Espanha. É linda e rica a Igreja e ao contrário das velharias em geral, muito limpa e bem conservada.
11/Maio/71 – Portugal
Estamos almoçando em Santiago, pertencente ao Distrito de Setúbal. É uma linda pousada, imitação da residência imperial. Uma sala de jantar do tamanho de toda nossa sala, uns periquitos americanos estão plantados no milharal, ao nosso lado (uma longa mesa cheia deles).
Belos arranjos de flores naturais enfeitam toda a sala, entrada, mesas com santuários, cantos de salas, cômodas e uma série de coisas enfeitadas que é um verdadeiro poema.
As mesas são servidas por moças vestidas de preto e aventais brancos, a gola branca realça o belo rosto das lindas e roliças portuguesas.
A pousada Santiago é o modelo de um pequeno feudo português.
Acima das janelas e portas, enfeitadas com finas cortinas, tem umas prateleiras com vasos (ânforas), pratos e bandejas de cerâmica e louças finas pintadas. São um verdadeiro encanto completado por um biombo pintado em motivos de anjos seráficos em lagos e florestas. Todo o chão de piso vermelho e recoberto e, sob cada mesa, um tapete quadrado de tecido grosso em verde e branco. Diz o nosso guia que a Pousada não é das melhores, nem das mais bonitas, calculem as outras como serão.
Seguimos viagem passando por encantadoras e floridas aldeias. As flores em abundância prodigiosa dão uma nota verdadeiramente poética, onde quer que o carro passe.
Os campos de trigo, de aveia, de milho, de batata, etc.. etc.. são todos sarapintados de flores vermelhas, amarelas e roxas, em profusão. As roseiras margeiam as estradas em uma confusão que nos causam emoção.
Estivemos em Sagres, onde viveu o Infante Dom Henrique. Só muito amor àquilo que se destinava fazer faria alguém viver em lugar tão árido e solitário que apesar da rudeza é lindo, espetacularmente belo. O mar batendo nas rochas escarpadas, o vento forte e frio nos lembrando como pode, um homem moço e poderoso viver e levar avante uma missão tão grande e tão nobre.
Vimos o filme explicativo (em francês), muito bem feito, muito claro, pena que o francês para nós fosse meio chinês.
Saímos de Sagres demandando a cidade de Faro. Antes passamos novamente por lindas praias. O litoral português é pródigo em belezas naturais que só há pouco mais de 10 anos está sendo descoberto por europeus e americanos que, diga-se de passagem, medra como ervas ruins em campo de aveia.
Chegamos em Faro cerca das 20 ou 16 horas (como diz seu pai). Jantamos às 20h30 horas e saímos para dar um pequeno passeio. O comércio é um passeio constante. Não entra carro, nem de feira.
As lojas com bem arrumados mostruários, turistas de todos os países enfeitando as ruas, inclusive nós. Fomos dormir cedo (por volta de 22h3o), pois a canseira não nos permitia mais tempo em pé.
Partimos de Faro às 9h15. Chegamos à cidade fronteira Vila Real de Santo Antônio. Atravessamos em balsa ou ferry-boat, o Rio Godiana e chegamos à cidade de Ayamonte, na Espanha. Iremos dormir em Sevilha, se Deus quiser.
Estamos almoçando (13h20) em La Palma del Condado, no restaurante La Vina. Almoçamos peixe, camarão, carnes variadas e salada. Nós, o guia Sr. Diamantino, Waldemar e Lourdes, Antenor e eu (está certa a ordem Siomara?), almoçamos bem e conversamos ainda melhor.
Viagem à Europa – Dedicatória

Fernandina em quarto de hotel em Aux-en-Provence, na França
Estou terminando o que penso que vai servir de distração e, talvez, seja útil a vocês.
É um presente, de coração, que de qualquer forma matou as minhas saudades, pois tinha idéia que estava conversando e contando as nossas proezas de marinheiros de primeira viagem; menos o Waldemar é claro, que é veterano.
Para encerrar de vez vou mostrar a vocês o que é que vale o dinheiro. O avião em que estamos e que nos levou à Europa tem divisão para turistas e passageiros privilegiados, enquanto nós, que somos uns 16, temos 3 para nos servir: primeiro aperitivos com salgadinhos, em mesinhas forradas com um alvo guardanapo, depois o jantar em uma bandeja regada a vinho, depois queijo, licor e café. Lá é uma dureza danada, se tomar aperitivos paga. A mesinha não é forrada, só a bandeja com o jantar, depois o café. Ao invés de duas pessoas, como aqui, são três lado a lado e para dormir é um Deus nos acuda. Pagou mais, tem conforto.
Adeus gente, desculpem os erros, Rui Barbosa não era o meu tipo – muito feio.
Fernandina C. Farias
–
Doou-me Phebo aos séculos vindouros
Deponho a flor da vida e guardo o fruto
Pagando à vil matéria um vão tributo
Retenho a posse de imortais tesouros
Este com ordem se ufana a pedra erguida
Ah! Se encontrou com sonoras cores…
Já Bocage não é! Não sois amores!…
Chorai-lhe a morte e celebrai-lhe a vida!
Um nume só terrível ao tirano
Não a triste imortal fragilidade
Eis o Deus que consola a humanidade
Eis o Deus da razão, o Deus de Elmano
De Elmano eis sobre o mármore sagrado
A lira em que chorava ou ria amores…
Ser d’eles, ser da musa foi seu fado
honrai-lhe a lira vates e amadores!
(Estes versos estão escritos ao pé da estátua de M. M. Barbosa du Bocage,
na cidade de Setúbal – Capital do Distrito)
para não perder o costume
Sim, eu sei que o blog está parado. Depois de dias seguidos com posts, ficamos sem material para publicar. D. Fernandina continua produzindo, mas sem pressa. O jeito é respeitar seu ritmo que logo logo teremos histórias novas.
Para não ficarmos saudosos, publico algumas fotografias da família. Só para não perder o costume.
BRINCADEIRA DE RODA
Oh! Rosa, rosa, amarela,
Oh Rosa, amarela eu sou
Oh Rosa, rosa amarela
Rosa branca é meu amor.
Sacudi meu lenço branco
Por trás da sacristia
Bateu na cara do padre
Isso é mesmo o que eu queria.
Oh Rosa, rosa amarela….
Sacudi meu lenço branco
No buraco da parede
Quando vejo meu benzinho
Bebo água sem ter sede.
Oh Rosa, rosa amarela….
Menina, minha menina,
Cabeça de melancia
Um beijo da tua boca,
Me sustenta 15 dias.
Oh Rosa, rosa, amarela….
Sete e sete são catorze,
Três vezes sete, vinte e um
Quem quiser que assoletre
A paixão de cada um.
Oh Rosa, rosa amarela….
A laranja de madura
Caiu n’água, foi ao fundo
Os peixinhos responderam,
Viva D. Pedro II.
OUTRA DA SINHÁ LUZIA
Quando fui aquilo que chamam de professora (a que procura ensinar as crianças o Be A Ba da vida), fui encarregada para um mister que não julgava preparada.
Eram filhos de operários, mas nem por isso dignos de coisa melhor.
Havia duas outras: D. Maria José e Julia Lima, afora o diretor Sr. Ferreira. Eram quatro salões grandes e bem equilibrados para o destino santificado de ler e escrever.
Mas voltando à Sinhá Luzia, ela passou a me chamar de Sinhá Dona Pufessora.
Quando deixei a escola, disse a ela: Sinhá Luzia eu não sou professora.
Então a boa mulher passou a me chamar de Minha comade sinhá dona Farnanzinha. Parecida, não?
SINHÁ LUZIA
Sinhá Luzia trabalhava na casa do tio Getúlio. Tinha uma filha e uma neta. Não conheci nenhuma das duas.
Ela, sinhá Luzia, gostava de contar a vida dela com o marido.
O “belo” marido tomava umas e outras e o resultado é que quando chegava em casa era pra bater na infeliz.
Uma ocasião ela perdeu a paciência. Estava cansada de servir de saco de pancada. Quando ele gritou lá de fora:
- Lá vou eu Luzia Véia! Ela não teve dúvida, pegou uma acha de lenha, acesa no fogão e enfrentou o “distinto” gritando:
- Se for homem, venha…E quem disse que ele a enfrentou? Pra isso ele não estava bêbado!
De outra feita o “querido maridinho” estava com varíola. Para aliviar a queimadura, costumavam forrar a cama com folhas de bananeira. Ela procurou as mais velhas e não tirou aquelas partes do meio. Deitou o infeliz ali e quando ele reclamou que aquilo estava incomodando, ela lhe disse:
- Se você fosse mais bonzinho eu ajeitava mió as coisa pro você. Eu tenho uma galinha e fazia uma canja. Mas você não presta. É uma peste. Então sofra.
Em sua opinião a sua vingança era mais do que justa.
A caridade não se aplica no coração de muita gente. Acha a vingança mais do que justa.
FUTURA OPERÁRIA
O Sr. Hipólito era quem anotava o nome dos candidatos ao trabalho na Fábrica.
Dessa vez foi uma moça.
Ele perguntou o nome, a idade e se adiantou mais um pouco, perguntando donde ela era.
Ela respondeu:
- Nasci no Urucu (município de Alagoas, próximo de Rio Largo).
O bom homem, curioso, perguntou:
- Lá tem muito passarinho?
- Tem sim senhor, respondeu a moça e em seguida acrescentou: – Tem um que canta assim – “vamos trocar o “chibiu”? Se quis, quis, senão quis…
Todos os colegas caíram na gargalhada. O gerente sorrindo, falou:
- Bem podia ficar sem essa.
O Sr Hipólito tinha um filho. Foi posto no rapazinho o mesmo nome e para não confundir, chamava o coitado de Potinho.
TIA ESTER E SEUS APELIDOS
Tio Getúlio teve uma outra empregada que tinha um filho chamado Agassis. A minha tia Ester o chamava de 2 letras.
CASABLANCA, O FILME
Fomos ao cinema Floriano, Anthenor, um amigo Luiz e eu.
O filme era Casablanca, isso nos idos dos anos 30, em Maceió.
Os dois conversaram o tempo todo que durou a projeção do filme. Só eu prestei atenção ao que se passava na tela.
Quando terminou, os dois perguntaram se tinha gostado e se podia contar o que tinha acabado de ver. E eu, educadamente respondi:
- Era só o que faltava! Vocês conversaram o tempo todo e agora querem que eu conte o filme, nem agora nem nunca vou perder meu tempo.
PALAVRAS DO RODRIGO POR OCASIÃO DOS 74 ANOS DO NOSSO CASAMENTO
Disse minha mãe que a benção do casamento são os filhos. É justo, portanto, que os filhos aqui presentes os abençoem.
Junto aos filhos, sobrinhos, primos, genros, noras e netos sem contar a plêiade de amigos. Tivemos muita sorte de pertencermos à família que vocês criaram, mas só a maturidade nos fez reconhecer o quanto de sorte foi.
Patriarca e Matriarca:
Aceitem o nosso amor e carinho incondicionais, pois a vocês devemos nossa vida.
O inesperado demora séculos para ser construído, esta festa demorou 74 anos.
Sabemos que no tempo do Percival a festa seria mais grandiosa e mais organizada, mas certamente não seria mais amorosa que esta, seria, no máximo, igual.
Patriarca sorria para a vida, ela abençoa toda sua vida, toda a sua grandeza.
Matriarca sorria para a vida, ela abençoa o baluarte que sempre nos amparou.
Caros avós: a tradição continua, o amor permanece.
Caros irmãos, abramos o coração, sejamos o exemplo, sejamos felizes.
Pai, Mãe, Anthenor e Fernandina, nós os amamos.
Em nome do Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.
NOSSA FESTA – 7 DE OUTUBRO – 74 ANOS DE FELICIDADE
O meu bouquê de noiva foi rememorado pela idéia da nossa filha Anajas.
O bouquê da noiva de vinte anos, foi feita por Idalina, tia do meu coração. Já estava doente e prometeu criá-lo. Foi a Maceió e comprou cetim branco para a confecção. Quando o trouxe para mim na manhã do dia 7, passando pela loja do tio do Rodrigo Mota, a sra D. Otelina, admirada, perguntou à Dola:
- Que lindo está este bouquê… mas onde você arranjou tantas cores de cetim?
- Mas são todos brancos!
- Não, Idalina, repare bem, cada lírio tem uma cor suave de azul, rosa, amarelo, creme.
E assim o meu bouquê de noiva, já sabia, pelas mãos da minha querida tia, quantos e como seriam os meus (nossos filhos)!!
Aroni tem duas mães. Ela foi minha em primeiro lugar.
A cerimônia de ontem foi idealizada pela Anajas. De cada filho e filha, recebi um lírio e de cada genro ou nora, um cravo branco.
Sou a mãe – mulher mais feliz do mundo.
Deus os ilumine, abençoe e ampare.
1935 – 7 de outubro – 2009
Estamos completando 74 anos de amor e muita paz.
Catorze filhos. O amor é sempre o mesmo. A idade não importa.
O que importa é a família… filhos, netos, bisnetos e amigos aos montes.
Juraci – Marinete. Os filhos do coração.
E tem a Vera que está conosco há 20 anos.
Até quando, meu Deus?
Que haja Paz e muitas Bênçãos.
Deus nos abençoe.
A CASEIRA DO PADRE TORRES
O padre Torres estava reclamando das dores que sentia.
A caseira ouvindo-o exclamou:
- Não é nada não seu padre, é “veiúra”.
Velhice na linguagem dela.
MEU IRMÃO
O José Pinto, meu irmão, tinha o hábito de ficar com a boca aberta. Eu passava por trás dele, batia nas costas e dizia:
- Fecha boca, Zé, cagalhão criou asa.
O coitado ficava louco da vida e gritava para a minha mãe:
- Mãe, olha a Nanda!
Hoje, arrependo-me dessas coisas, mas fazer o quê? Criança não pensa muito no que faz.
PROSAS DO ERNESTO JATOBÁ
Segure o copo por baixo
Segure com as duas mãos
Enxó, compasso e formão,
fogo, farol, ferro e facho.
Eu procuro, mas não acho
A fulô do mulungu
Tive três anos no Sul
Mais meu mano Felizardo,
Copo branco, copo pardo,
Verde, amarelo e azul
Ajuê, Maria!
—————————-
Eu só queria fazer
O que me peito palpita
Caçar uma mulher bonita
Para com ela eu casar.
Se ela me rejeitar
Eu zangado brigo e ralho
Vou mandar comprar um baralho
Pra me divertir na praça.
Sem mulher também se passa
Quem tem mulher, tem trabalho
Ajuê, Maria!
ESSA JÁ É DAS MINHAS
“Não tenho medo do homem,
Nem do ronco que ele tem,
O besouro também ronca
Vai-se ver, não é ninguém! “
Outra:
“Quando Deus criou o mundo,
Deixou grilo e gafanhoto,
E deixou mulher pequena,
Pra beijar o cu dos outros.”
ESSAS SÃO DO NOSSO MUITO AMADO MARINHO VIDAL
“Rancho de cavalo é milho,
De cantador é dinheiro.
Quem canta de graça é o galo,
Para alegrar o terreiro.”
E outra:
“De homem que alisa homem,
Eu só conheço o barbeiro,
Que alisa a cara do macho,
Passa o pente e bota o cheiro.”
TRECHO DE UM DISCURSO
…Jararaca fez e declamou. Meu avô Agérico tinha a gravação num disco de 78 rotações.
Jararaca era o pseudônimo de um bom compositor de cocos e emboladas que fez muito sucesso no Rio de Janeiro. Como parceiro, tinha Ratinho, um ótimo saxofonista. Era uma boa dupla. Ninguém se compara aos dois hoje em dia, por mais que queiram.
Eles se chamavam: Jararaca (alagoano de boa cepa) era Calazans e Ratinho, Severino Rangel Ratinho, era pernambucano.
Mas como eu dizia ou escrevia, discurso esse que, infelizmente, só decorei uma parte.
Foi durante a revolução de 30. Ele, Jararaca, foi o maior crítico da “grande” revolução organizada pelo “insigne” Getúlio Vargas.
Começava assim:
“Meu povo,
Eu vou falá do momento atuá! (palmas e bravos).
Meus concidadão e minhas concidadonas.
Muieres que pegaro em arma e homes que pegaro a corrê.
Povos em gerá, sem distenção de corpolítica, como seja, os branco, os mulato e os mutilado.
Povo dos partido e das emenda. Eu quero abrangê a todos nessa circonferença. A todos que correro e concorrero.”
Infelizmente só decorei até aí. O resto só Deus sabe onde anda.
CHICO
O macaco era da tia Haydée. Vivia em cima da porta de duas folhas, comendo banana ou o que lhe dessem. Com uma fina corrente presa à cintura para não fugir, fazia lá suas estripulias.
Tia Ester não gostava dele, como não gostava de bicho nenhum. Gato, cachorro eram com a irmã, porém, o trabalho de cuidar era da tia Ester.
O macaco é um bicho porco. Sujava a porta e o chão em que vivia e o trabalho de limpar, já viram de quem era!
Tia Haydée devia ter uns 10 anos quando isso aconteceu, era a mimada da casa. A escola que freqüentava ficava bem em frente, do outro lado da rua. Dava para ouvir bem o que se passou em casa de meus avós.
Na sala de viver que era a sala da frente, ali se recebia, se conversava e se trabalhava. Meu tio Getúlio, como alfaiate, na máquina de costura e na enorme mesa de corte. Tinha também uma marquesa (sofá antigo), grande, que devia caber folgadamente mais de 5 pessoas sentadas. Tinha, ainda, uma máquina de costura da minha avó e o bastidor onde trabalhava tia Ester, fazendo filé para ganhar uns trocados. O bastidor ficava perto da porta onde se empoleirava o Chico.
Numa manhã estavam todos trabalhando e tia Haydée na escola. As três janelas da sala que davam para a rua estavam abertas para entrar o sol e o vento (caso estivesse ventando). Tia Ester usava pince-nez (óculos sem aro). Tirou os benditos, colocou-os em cima do risco do bordado junto ao carretel de linha e dirigiu-se à cozinha para ver a panela do feijão. Quando o macaco Chico viu que não tinha ninguém na sala, nem a sua arquiinimiga, não hesitou; desceu pela porta abaixo, pegou com as duas mãos o carretel e começou a malhar as lentes do pince-nez.
A tia Ester vindo pelo corredor, viu o grande espetáculo e gritou:
- Chico, o que você está fazendo?
Ele, mais que depressa, correu porta acima e começou a guinchar, chamando a dona que estava no outro lado da rua.
Nem a presença da tia Haydée evitou que ele levasse a maior surra que um pobre macaco pode levar.
A TOUCA
A Lourdes queria um dinheirinho e, muito pobre que era, pediu à avó que fizesse uma touca bem enfeitada, azul, cheia de fitas…e para quê? Fez uma rifa da linda – para ela – touca e saiu vendendo aos colegas de brinquedo, sem dizer que era uma abençoada touca.
Toda criança, talvez para agradar a amiga, comprou um bilhete que custava apenas 1 tostão, que para nós, era uma fortuna.
Talvez para agradar mais a menina do que a filha, minha mãe me deu o dinheiro. Fui correndo comprar o bilhete e julguem só: foi a única vez que fui premiada em rifa, ou qualquer outra coisa.
E eu me perguntava, decepcionada: – Para que eu quero uma touca? A touca era grande até para o meu boneco.
O CASAMENTO DA FILHA DO MIGUEL TELES
Baixinho, magrinho, enfezado e acima de tudo muquirana, cauíra, mesquinho e para ser mais compreendida: avarento, sim, senhor! Que Deus o tenha na sua benção.
Nasceu, viveu e morreu em Murici. Chamava-se Miguel Teles, casado com filhos.
Contavam que ele ao sair de casa pela manhã para inspecionar o trabalhador infeliz que trabalhasse para ele na sua fazenda, o nosso amigo, primeiro reparava se as galinhas tinham ovo para botar. Na volta para o almoço, se encontrasse alguém que tivesse comprado alguma galinha, ele perguntava se havia pago o ovo que a ave teria de botar de tarde.
- Não, senhor, não paguei.
- Então passa pra cá o dinheiro do ovo!
—
Certo dia casou uma filha e convidaram gente da Capital.
Como o homem era rico até não mais poder, os convites foram aceitos com agrado. Hoje, como ontem, as festas são mais aproveitadas por causa da comilança. Sacrificou-se capão gordo, perus, porcos e penso que até um boi entrou na matança.
Enfim, estava arrumada a casa e a festa para os convidados. A despensa estava abarrotada de comidas e bolos, como só uma dona de casa abastada sabe fazer.
Ele, o nosso amigo Miguel Teles, foi até a despensa, viu aquilo tudo de comida, fechou a porta e pôs a chave no bolso.
O casamento foi celebrado na missa, pela manhã e todos vieram para a casa da fazenda se empanturrar com as comidas do “grande” fazendeiro.
Deram às 10 horas, meio dia e nada de comida. A noiva perdeu a paciência e indagou da mãe o motivo daquela demora. A coitada, envergonhada, confessou à filha o que acontecia:
- O seu pai trancou a despensa e pôs a chave no bolso.
- Meu Deus, por que o pai fez isso?
Encaminhou-se para ele e disse chorosa:
- Por favor meu pai, abra a despensa, estamos todos com fome!
Fazer o que? Afinal era o casamento da filha.
Todos se regalaram e ainda agradeceram a bondade e fartura do seu Miguel Teles. Que Deus o tenha!
ZÉ GANGURÍ
Ele foi convidado para fazer parte de uma peça teatral no interior da Bahia onde morava. Tinha o apelido de Zé Gangurí, coisa que o fazia virar um “bicho”. Quem quisesse vê-lo uma fera, chamasse de Zé Gangurí.
Muito conhecido por todos e, naturalmente, respeitado pelo gênio estourado, o pobre Zé aceitou fazer o papel de arauto no pequeno teatro. Cidade pequena sem muita distração, o teatrinho ficou apinhado com os espectadores.
Começou a função e ia muito bem, quando, a certa altura da representação, o arauto Zé Gangurí chega para dar a mensagem ao Rei, muito bem sentado em seu trono.
O pobre homem, nervoso como o quê, ajoelhou-se e engasgou – não saía nada da boca do infeliz. Então o rei, dando uma de bonzinho, falou estendendo a mão:
- Levanta-te Zé Gangurí.
E o arauto, pegando o punhal que lhe enfeitava a cintura, bradou:
- Matei-te, rei de merda!…
Foi um Deus nos acuda…e acabou a função!
Cartas de amor
Anthenor distribuía na fábrica a correspondência dos operários. Entre elas chegou uma para alguém que não estava mais lá. Era de um rapaz que morava no Rio e escrevia para a namorada.
Esperando talvez, que a carta fosse reclamada, Anthenor guardou-a por muito tempo.
Um belo dia ele perdeu a paciência e abriu a carta do pobre abandonado.
A missiva dizia o seguinte:
“Ai, que deu-me uma cedente, numa desconsolação, senti no coração um trespasso de repente.
Antes não fora vivente, porque cuidado não tinha. Quando a lembrança me vinha, dá-me novas do passado.
Adeus, flor do meu agrado. Aceite lembrança minha.”
Este era o teor da carta do coitado cheio de saudade da noiva ou namorada que o esqueceu e foi embora…
SÃO PAULO, 1960 – Av. Dr Altino Arantes, 524
Nossa primeira casa era grande, mas pequena para uma família com tanta gente. Com a nossa vinda para cá, Araken e Percival, que já moravam aqui, vieram se juntar a nós e assim éramos os 12 filhos e o belo casal, além do cachorro Fiel.
No térreo ela tinha uma sala de visitas, de jantar, um lavabo e uma cozinha, além de uma varanda. Logo na entrada da sala tinha uma escada de mármore branco que dava para os três quartos do andar de cima. Logo à direita o nosso quarto; no corredor o primeiro quarto era pequeno e lá ficaram Regina e Failde, depois vinha um banheiro grande e no fundo um quarto grande onde ficaram: Anajas, Haydée, Siomara, Aroni e Ester. Foi necessário 2 beliches e uma cama, além de um guarda roupa. E os meninos? Onde? Foi necessário fazer um quarto ao lado da garagem e lavanderia, pois o quarto da empregada era muito pequeno. Lá foram colocados três beliches e prateleiras para os livros. Como vê, o aperto era grande, mas a felicidade era bem maior.
Nossa casa continuou recebendo os parentes e amigos. Além dos que vinham semanalmente, tinham os hóspedes que não eram tão raros. Uma época veio Rodrigo e Zeza, “seu” Nozinho e d. Alderita, pais de Zeza. Ele havia se operado e foi ficar conosco para se recuperar da cirurgia. Instalaram-se no quarto da Regina e Failde que foram dormir com as outras irmãs.
Rodrigo e Zeza dormiam na sala, ele no chão e ela no sofá. Quantos dias ficaram, não me lembro.
Vieram também, não sei se antes ou depois, tia Ester, tia Haydée, Juraci e Marinete. Marinete tinha vindo se consultar com o Dr. Mauad aconselhado pelo Edson para saber porque não engravidava (isso foi antes do Edson vir morar em São Paulo).
Mas voltando à casa, lembro que era um sufoco tanta gente e no começo não tínhamos empregada, lavava a roupa da casa e as meninas ajudavam a passar a ferro, além de ajudar na cozinha e arrumação da casa. Ficamos nessa casa 7 anos e nela casaram Araken, Percival, Aroni, Regina e Failde.
Em 1966 Anthenor comprou uma casa na mesma rua e reformou-a. Fomos para ela em 1967 e lá moramos 18 anos.
Como disse, não nos faltava visitas, especialmente os queridos Edson Neves e Ivan Sotero. Era um prazer recebê-los. Não existe substituto para os amigos, principalmente quando os consideramos como filhos do coração. Todos os domingos vinham almoçar conosco. Depois apareceram Galvão, Fernando Cunha e Jairo. Só o Galvão ficou. Jairo foi para Pernambuco e o Fernando voltou para Maceió.
Aroni foi a primeira a se casar e acertou em cheio.
Com a ida do Juraci como promotor de Natercia, os filhos iam passar as férias lá. Araken e Percival logo se encantaram com as mineirinhas Maria Antonia e Mariana e o resultado vocês conhecem. O casamento de ambos foi em Poso Alegre.
RODRIGO MOTA
Foi o maior personagem das nossas vidas. Amigo incondicional do mano Anthenor, como ele o chamava.
Veio de Pilar, onde nasceu, indo trabalhar na loja do tio João Henriques em Rio Largo onde nós o conhecemos. O Sr. João Henriques era irmão de d. Áurea, sua mãe que ficou viúva muito cedo. A morte do pai do Rodrigo foi o maior engano acontecido em Pilar.
O Sr. Rosalvo, pai do nosso amigo, tinha um irmão chamado José que engravidou uma mocinha e achou que ficando por isso mesmo, estava tudo resolvido.
Só que o pai da moça não pensava da mesma forma e resolveu se vingar.
Estavam os dois irmãos, Rosalvo e José conversando de costas para quem vinha e o pobre homem confundiu e matou o Rosalvo pensando ser o José.
O Sr. Rosalvo, pai de sete filhos, deixou d. Aurea na maior penúria. Fazer o quê? Tinha que ser socorrida pelo sogro, o Sr. Nicolau a quem os netos chamavam de pai Xinhinho. A mais velha, Zaíde, já vivia com os avós paternos e os outros foram socorridos pelo mesmo avô.
Desde cedo Rodrigo tomou-se de amores pela nossa família. Era como um irmão para nós. Tínhamos mais ou menos 12, 13 anos de idade.
Eu me lembro que quando estava grávida de Regina e ele e d. Joaninha começaram a teimar, dizendo que era uma menina e ele dizendo que era um menino. Para acabar com a teima, eu disse: – Bem, se for menina, vai se chamar Regina, mas se for homem, será Rodrigo.
Nasceu Regina Angela e ele só foi vê-la 15 dias depois. Eu lhe falei: – se fosse Rodrigo, você já teria vindo, não é seu safado?!
Padrinho do Juraci, ele frequentava a nossa casa como se fosse sua.
Foi o leva e traz do meu namoro. Um dia tia Haydée me perguntou se eu estava namorando Anthenor e eu, medrosamente, disse que não. Ela me disse que estava bem, porque o Anthenor não tinha futuro. Tia Haydée transmitiu a resposta da idiota para o amigo e esse para o “irmão”. Foi um verdadeiro drama. O rapazinho passou a noite chorando. A minha sorte é que pelo São João, eu dei um cravo branco às 2 e meia da manhã, depois da festa… e aí tudo foi pelo melhor.
Com a morte do pai, o tal José se apossou de toda a fortuna do velho. Por isso houve a debandada da família Mota. Os irmãos do Rodrigo eram Zaíde, Zilá, Dolores, Edgar, Antonio e Luiz.
D. Aurea veio morar em Maceió e com ela vieram: Edgar, Rodrigo e Zilá. Zilá casou-se com um sujeito que era uma vasilha ordinária, Rodrigo trabalhava na loja Nova Aurora e Edgar…bem, não sei onde. Foram nossos vizinhos nessa época.
Rodrigo foi também o padrinho do nosso casamento e o incentivador para Anthenor fazer o concurso para o Banco do Brasil. O “irmão” passou e ele não. Depois Anthenor conseguiu o ingresso dele como caixa. Foi para União e lá casou com Zeza. Mas aí é outra história. Sei que foram muito felizes.
A LENDA DE SÃO JOÃO, O BATISTA
Contam que Maria, ainda grávida de Jesus, foi visitar Isabel, sua prima, que estava esperando João.
Era um pouco distante e ainda tinha uma ladeira para lá chegar.
Isabel foi recebê-la e feliz pela visita, abraçou-a dizendo: – Bendita és entre as mulheres, bendito é o fruto do vosso ventre.
Maria passou o dia e ao se despedirem, Isabel lhe disse:
- Quando o meu filho chegar, para não teres trabalho de vires aqui, por causa da ladeira, eu pedirei ao meu marido para fazer um fogueira ao pé desta oliveira. Assim saberás do nascimento do meu filho.
O pai de João era sacerdote já entrado nos anos, como também Isabel. Não tinham mais esperança de terem filhos.
Estando celebrando lhe apareceu um anjo e disse-lhe:
- Preparai o vosso coração. Isabel conceberá um filho a quem darás o nome de João, o Batista.
Baltazar retrucou:
- Como terei um filho se já estou tão velho? Não acredito.
O anjo falou:
- Como estás duvidando da vontade de Deus, ficarás sem falar até o nascimento da criança.
E assim foi dito e assim aconteceu.
Por essa razão hoje se festeja São João com uma fogueira e uma pequena árvore ao lado.
Não sei no interior de São Paulo, mas no norte e nordeste era assim que faziam. Talvez hoje não. Tudo muda nesse mundo até os belos hábitos.
A Igreja Católica era hábil em criar a razão da vida dos seus santos.
Alguma lenda até que é bonita, não?
Essa história como a de São Benedito e Santa Rita foi publicada na revista o Mensageiro da Fé. Meu pai a comprava e eu me deleitava com as histórias dos santos e as piadas.
A revista era anual.
OS BAILES
Durante alguns meses com pena da solidão dos estudantes de engenharia, lá em Itajubá, organizei uns bailes para animar um pouco a vida daqueles pobres coitados.
Luiz e Segrid, Domingos e Sidel e mais alguns que não me ocorre, são os casais que se fizeram nesses bailes. A velhice, às vezes, causa um transtorno aborrecido.
Só sei que me sentia muito feliz em proporcionar tanta alegria a tantos jovens que se achavam longe de suas famílias.
Se fiz algo errado, espero que me perdoem.
Quando dava meia noite, sob o protesto dos dançarinos, eu desligava a eletrola.
Puxando na memória, ajudada pela Anajas, lembrei de alguns que frequentavam a nossa casa: José Louro, José Lieb, Peter, Gilberto Arenas (peruano).
Se eu tivesse vontade plena, nunca teria saído de Itajubá. Fomos plenamente felizes naquela terra abençoada de Minas Gerais.
A vizinhança era a melhor possível. A d. Lourdes com a sua alegria, apesar de todos os tropeços da sua vida. A Amelinha com a sua bondade e várias pessoas que nos tocaram o coração, afora os 5 filhos que são mineiros.
Deus abençoe a todos.










































