Sintra e Caiscais

Palácio ou Castelo da Pena – Sintra – Este sim é realmente bonito e interessante, só que todos os aposentos são relativamente pequenos.

Vista de Lisboa desde o Castelo de Pena. Na foto se pode ver o Castelo dos Mouros.

Começamos pelo claustro do século VI – quarto do Rei Carlos e capela do mosteiro com altar de alabastro – coro dos monges – quarto das damas de companhia da Rainha junto ao quarto da ama – quarto da Rainha D. Amélia (1810) com trabalho de gesso na parede, imitação árabe – sala de trabalho dela, com móveis em sândalo (Índia) – sala de passagem – sala de visitas toda pintada até o teto (a pintura dá a impressão de relevo iguais aos três tetos da biblioteca da Universidade de Coimbra) – as mesas e móveis em várias salas são incrustadas de madrepérolas – na sala de visitas os móveis são todos em porcelana, sendo um trabalho incrível em beleza e delicadeza. O Castelo fica a 800 metros acima do nível do mar, é uma linda vista sobre a cidade de Lisboa e seus arredores. A frente do Castelo é toda em azulejo azul e branco. A sacristia é muito bonita. No salão nobre existem quatro estátuas de madeira representando quatro soldados turcos. Trabalho português.

Castelo da Pena

Outro palácio – sala da guarda do Palácio de Sintra

O palácio é grande, simples, modesto mesmo. Quem o habitou gostava das coisas sem fausto. Alegre e calmo. Da sala da guarda passamos para a cozinha, grande, enorme, dois fornos de tijolos muito próprios no tamanho, para a sua finalidade. Um tripé comprido e alto para assar as caças. Os fogões devem ter uns doze metros de comprimento (são dois), tendo ao todo dezessete buracos e os panelões se ajustam perfeitamente ao caso; duas mesas feitas de tijolos, sem pés, com tampo de mármore, dois armários e quatro arcas. De lá fomos ao quarto de hóspedes com uma grande armadura, trabalho alemão e cama portuguesa; sala de jantar ao gosto mourisco. No centro tem uma fonte e ao redor sentavam-se os convivas, em almofadas de depois lavavam às mãos na fonte; sala chinesa onde tudo veio de lá – capela em estilo mourisco, no chão ladrilhado de tijolos encerados, um trabalho de azulejos mourisco, fingindo tapete. Quarto do Rei Afonso VI, onde esteve preso durante nove anos. Preso por seu irmão para deixar de fazer estrepolias (palavras do guia). O irmão fez vida com a Rainha com quem se casou depois de sua morte. O Papa, reconhecendo a falta de virilidade do doente Rei, anulou o casamento antes da morte dele (Afonso VI). Sala de passagem para a sala manuelina – sala de conselhos com cadeiras e mesas em trabalho português e tapete persa – sala gabinete de trabalho – quarto de dormir do Rei D. Sebastião com cama portuguesa em ébano, prata e cobre (em quase tudo existe a influência moura) – sala das sereias (elas são pintadas no teto – horrível) – Salas das pegas (contam uma história, com referência a essas pegas, que o Rei beijava nessa sala uma dama da corte quando foi surpreendido pela Rainha, a notícia se espalhou como um rastilho e pólvora e em pouco tempo o mulherio falava sobre as beijocas do Rei e ele, para se vingar da fofoca, mandou pintar cinquenta e oito pegas no teto da sala que foi o palco da tragédia) – por fim a sala dos banquetes ou dos cisnes – esta é bonita, são vinte e sete cisnes todos com um colar imitando uma coroa e cada um em posição diferente. El Rei D. Manuel I mandou pintá-la para comemorar o aniversário da filha Isabel, que fazia 27 anos e casava no mesmo dia.

Castelo de Pena

Perto da cozinha, na maior simplicidade, está a sala de refeições da família real. A maioria das salas dos três palácios são ladrilhadas em tijolos encerados, algumas são assoalhos ou pisos daquilo que hoje conhecemos como cerâmica.

Dos três que conhecemos domingo, o que menos gostei foi o de Queluz – é pequeno como palácio real e não agrada como a simplicidade do de Sintra e a alegre decoração do de Pena. Enfim, graças a Deus terminamos em paz a nossa romaria por esse mundo de Oropa – França e Bahia.

Muchaxo, restaurante na Praia do Guincho, em Cascais

Depois das visitas fomos almoçar na praia do Guincho, que é perto de Cascais e faz parte do município ou distrito. A praia é muito bonita, o mar muito forte com areia grossa e escura. Não deixa, mesmo assim, de ser muito útil aos banhistas. Almoçamos muito bem e muito caro também; mas como diz o ditado “mais vale um gosto do que cem cruzeiros”.

Praia do Guincho, em Cascais

Fim da viagem à Europa

Palácio de Queluz

Palácio de Queluz

Palácio de Queluz – É uma cópia do de Versailles, em miniatura; foi construído por D. Pedro II para a Rainha D. Maria I, de quem tem o retrato em quase todos os aposentos. A visita começou com a sala do trono e depois a sala de D. Miguel (irmão de Pedro I – Imperador do Brasil). A seguir os quartos das três princesas (que não cheguei a saber os nomes) – o primeiro quarto é em estilo D. Maria I e os outros dois em estilo império; vendo é que se nota a diferença e todos com suas maneiras de terem estilos diferentes são bem bonitos. Muitas peças são forradas em seda pura, de listas, estampadas, lisas ou vários outros motivos, todos muito bonitos.

Não tem a beleza e elegância do Palácio dos Reis em Madri, mas nem por isso deixam de ter a sua história, talvez mais triste que alegre. Vem depois em sucessão: capela particular das princesas, com móveis do século XVIII, sala de fumar – móveis em estilo império com retratos de D. João VI – D. Pedro – D. Maria Amélia e Carlota Joaquina; sala de jantar com dois bonitos biombos chineses; sala de música com um cravo estilo inglês; sala de estar da Rainha, corredor de azulejos; sala de despachos com cada coluna e vãos de janelas representando várias partes da Europa e as quatro estações do ano; sala de estar; outra sala estilo D. José (?) com móveis em madeira do Brasil; sala dos embaixadores; sala do conselho com pintura representando a ruina de Pompéia, feita pelo pintor português Pedro Alexandrino; toucador da Rainha; quarto onde morreu Carlota Joaquina; oratório da Rainha; quarto onde morreu D. Pedro IV (primeiro do Brasil); oratório do Rei; sala das merendas com um lindo teto em estilo mourisco.

O que tem de beleza real e conservação são os jardins, é um encantamento. O Palácio está pouco conservado, cheio de umidade estragando a beleza que ainda resta.

Batalha, Portugal

Batalha – Pequenina cidade da qual a única atração é um mosteiro inacabado. Depois de tê-lo visto achamos preferível deixar de ver o de São Jerônimo, em Lisboa. O Mosteiro de Santa Maria da Vitória, mais conhecido como o Mosteiro da Batalha, é uma perfeição inacabada de arquitetura gótica e manuelina.

Mosteiro da Batalha

Começada em 1387, ficou por terminar em 1533. Faltam as cúpulas, vitrais, e os santos. Em duas colunas, onde seriam colocados alguns santos, existem duas pequeninas imagens de São João e São Domingos. Existe uma imagem de mais ou menos meio metro, ensinando internamente a saída da Igreja.

É um trabalho delicadíssimo em rendilhado. Dá a impressão de que aquelas colunas, pórticos, tetos e tudo mais têm o peso de uma peça de renda.

Os arquitetos foram retirados pelo Rei Manuel I para construir o Mosteiro de São Jerônimo – por esse motivo, quem vê o de Batalha não precisa ver o outro. O primeiro é mais bonito.

Existem dois claustros: o dos frades (ordem dos Dominicanos) e o real. O primeiro é posterior ao segundo. Pela ordem eu teria dito: o claustro real foi construído por D. João I e o dos frades por D. Afonso V.

Depois D. Manoel I, achando feio os vãos das janelas que dão para o jardim (o que seria o jardim), mandou colocar uns rendilhados que dão uma ideia de cortinas.

D. Fernando II tentou restaurar o mosteiro colocando os vitrais e a capela.

No capítulo tem a chama eterna ao soldado desconhecido, um túmulo com restos mortais de algum, guarda de honra permanente de dois soldados e uma cruz com Cristo de bronze. O Cristo está mutilado. Ao terminar a guerra de 1914/1918, a França ofertou ao soldado desconhecido português. É para o que está servindo o Mosteiro da Batalha: homenagem ao Soldado Desconhecido.

No refeitório dos frades estão vários troféus, inclusive a bandeira portuguesa e a corneta que tocou o cessar fogo da luta sangrenta 1914/1918.

Vários túmulos dão a nota trágica do mosteiro inacabado – existem frades, um conde, reis, rainhas, infantes e etc…

Lá estão D. Duarte e D. Leonor de Aragão, um príncipe, filho de D. Afonso V, neto de D. Duarte.

O primeiro arquiteto, Afonso Domingos, ao fazer a abóbada do capítulo, cegou. Não podendo continuar, entregou-a a um estrangeiro que, ao dá-la por concluída, (ela) caiu. Não se chamasse ele Porrete. Então o Afonso Domingos, mesmo cego, resolveu terminá-la com o auxílio dos seus patrícios. Ao terminar sentou-se ao centro, embaixo, e mandou tirar o andaime. Ficou depois três dias e três noites sem comer e beber, esperando que ela caísse. Morreu depois desses dias e suas últimas palavras foram: “abóbada não caiu nem cairá”. Faleceu em 1402.

A porta principal do Mosteiro é toda em alto relevo em bronze e representa a Corte Celestial. Jesus no centro com quatro apóstolos, em seguida vêm os anjos, os músicos, os profetas, os reis, os bispos, cardeais e as virgens. Vitrais do altar-mor, colocados em 1514, que representam a vida de Jesus, desde o nascimento.

Mateus Fernando foi o arquiteto do estilo manuelino do pórtico e mais as capelas incompletas. Em seu túmulo, que lá está, junto com sua família, estão escritas estas sentenças: “Vós outros que por aqui passais a Deus por nós rogais. Não deixeis de bem fazer, porque assim haveis de ser”.

Na Capela do Rei D. João I estão em seu túmulo, dos filhos D. Fernando – Infante de D. João e a esposa, Infante D. Henrique e Infante D. Pedro e esposa, D. Afonso V, neto de D. João I, D. João II – filho de Afonso V e o Príncipe D. Afonso – filho de D. João II.

Na entrada da Capela tem o túmulo de um soldado que salvou a vida do Rei João I. Mandaram enterrá-lo ali e quis significar que mesmo depois da morte confiavam nele. Na Capela onde celebram todos os dias a missa, tem a imagem ou estátua, em tamanho natural, do contestável Nuno Álvares Pereira (nasceu em 1360 e morreu em 1431) – comandante das tropas na Batalha da Aljubarrota. Depois tornou-se frade.

Estátua de D. Nuno Álvares Pereira, em frente ao Mosteiro de Santa Maria da Vitória, mais conhecido como Mosteiro da Batalha.

Na praça principal tem a estátua equestre do guerreiro na Igreja, vestido de frade. Tem também a imagem de uma princesa – Santa Joana.

O túmulo do professor e conselheiro dos filhos do Rei João I, Diogo Gonçalves Travassos, é muito bonito e todo enfeitado de letras “D” em gótico.

Esse mosteiro foi idealizado mediante uma promessa do Rei João I, que a fez a Santa Maria da Vitória, caso vencesse a Batalha de Aljubarrota, que foi a batalha da independência de Portugal, contra Castilha (Espanha).

Penedo da Saudade, Coimbra

De lá fomos ao Penedo da Saudade. Fica na parte mais alta da cidade e de lá se vê o Rio Mondego, que banha Coimbra. De um bem cuidado jardim, ao longo do barranco de um lado e casas residenciais do outro, existem recantos convidando ao namoro e às confidências. Em três pedras de mármore branco estão gravados versos. Consegui copiar de dois. Estávamos com um pouco de pressa pois ainda teríamos que ir à Fátima e Batalha.

O primeiro é uma ode ao amor de D. Pedro por Inês de Castro e é o mais bem feito dos dois poemas:

PENEDO DA SAUDADE

Oh! Foi ali que El Rei Pedro

Suas mágoas em segredo

Veio outrora cantar,

E em troca de amarguras

Que ali sofreu … e doçuras

Quis-lhe – Saudade – chamar.

Mágico nome – Saudade!

Casado com a Liberdade,

Que meigo nome não é!

Oh! Nome tão só de encanto!

Oh! Nome que eu amo tanto!

Que no coração se lê!

Oh! Quem na tristeza imerso,

Se lembra ainda do berço,

Do tempo do seu nascer

No Penedo da Saudade

Contará a imensidade

As mágoas do seu sofrer.

(José Augusto Guedes Teixeira – 1860)

Já o outro é um soneto, meio de pé quebrado, e parece ser do filho do José Augusto. Bem inspirado, mas faltou qualquer coisa que costumam chamar métrica.

PENEDO DA SAUDADE

Há no lindo Penedo da Saudade

Dessa Coimbra de que eu gosto tanto

Uma tristeza quase soledade

Mas que alivia quase o pranto

Canta o Mondego ao fundo, o mesmo cano

Com que ele embala cada mocidade,

Levando ao mar o seu eterno encano,

Banhando a terra de felicidade.

 Salgueiros, choupos, numa e noutra margem,

Vão seguindo os caminhos que eu segui…

O luar, como o sol, doira a paisagem

E relembro nas suas oliveiras

As primeiras saudades que senti

E quero crer também que as derradeiras.

(Fausto Guedes Teixeira – 1930)

Esqueci de me referir a um trecho de discurso de Oliveira Salazar, pronunciado em uma das cerimônias na Sala do Capelo. São lindas as palavras e bem oportunas. Está escrito logo após a escadaria que externa que dá acesso à referida sala. Levo-as como presente do guia.

Estátua de D. Afonso Henriques, em Portugal dos Pequenitos

Portugal dos Pequenitos – O país em miniatura, transformado em recreação e educação para crianças onde funciona a creche Santa Isabel. Fundação do Dr. Bissaya Barreto. Rico filantropo, é médico em Coimbra. Solteiro e rico, dedicou toda a sua fortuna e carinho na sua Fundação. Ainda vive.

Quinta dos Milagres – Onde foi assassinada Inês de Castro – esse não vimos, nem o convento – o antigo Convento de Santa Clara. Abandonado por estar afundando. Ainda lá se encontra, escuro, feio e abandonado. Foi feito outro a cavaleiro da cidade e em sua capela estão os restos mortais de Santa Isabel.

Coimbra, Portugal

Demos uma olhada em Coimbra e agradou; ruas estreitas e tortuosas, lojas pequenas, comércio incerto, mas não existe empurra, empurra. A cidade é mais velha que Inês de Castro, pois a infeliz Rainha foi assassinada aqui. Tem a Travessa do Gato, acho que ali se escondem gatos para fugirem dos cachorros – mora gente lá também. No Convento de Santa Clara está o túmulo de Santa Isabel, a Rainha que transformou os pães em flores para fugir da ira do marido. Tem a sua história a velha Coimbra, como todas as coisas velhas da macróbia Europa.

Estamos de volta para casa e depois de 50 dias tomando chá de carro por esta Europa sem fim. Não se pode dizer que a conhecemos nem a vimos, demos apenas uma ligeira olhada, como quem vai a um cinema para assistir um filme que nos agrada e depois de duas horas de projeção volta-se para casa com a sensação de que se fez um belo passeio. Não se pode ver tudo, é verdade, mas demorando um pouco mais nas cidades, mais dignas de nota, seríamos capazes de, mais descansadamente, visitar e anotar as coisas mais interessantes. Ainda assim demandaria tempo e naturalmente… dinheiro.

A trupe com a Fátima (pelo menos suspeito eu, pelo andar da carruagem ou ordem dos slides, que essa seja a Fátima)

Amanhã iremos ver Fátima e teríamos gostado também de ver Lourdes, mas infelizmente o tempo não deu. Essas visitas faremos como quem as carreira. Museus, igrejas, castelos e palácio, catedrais, parques e monumentos, ruas e praças – dariam matéria para três cadernos desses se pudesse, com eles nas mãos, tomar nota diretamente do local.

Sei que não tenho o direito de reclamar, nem o estou fazendo, recebi mais do que esperava, mas se algum dia ainda fizer tal viagem, o que não espero, terei o máximo prazer de fazer cada lugar por sua vez. Esta correria cansa e aproveita-se pouco.

Estátua de D. Joao III na Universidade de Coimbra.

Na hora da saída de Coimbra, o Sr. Diamantino fez por bem em nos levar a fazer uma visita à primeira Universidade de Coimbra – famosíssima. Estivemos primeiro na biblioteca; é de admirar que já naquela época se fizesse coisas pensando na educação no futuro. A delicadeza do trabalho de talhar é de embasbacar. A primeira sala é de história, literatura e geografia; em madeira verde e os desenhos em talha, entremeados de dourado tornam o austero ambiente alegre e brilhante.

A segunda sala é em vermelho e guarda os volumes de medicina, filosofia e ciência. A terceira sala, imitando a primeira na cor, tem em suas prateleiras história, literatura e geografia. Todas tem trabalho de talha entremeados de dourado e as grandes mesas que habitam em cada sala correspondem à cor do ambiente. Os desenhos são diferentes em cada uma delas. Foi fundada por D. João V, em 1724. Encimando cada porta tem o emblema dos ensinos correspondentes na Universidade, ou sejam: Medicina, Matemática, Direito, teologia, Retórica e Direito Civil. No fundo da última sala, em frente à porta e abaixo do último emblema, está o emblema do direito canônico e abaixo do mesmo a pintura do Rei D. João V.

O livro mais antigo data do século XII e eles têm de várias épocas, em diferentes línguas e vários manuscritos.

São 40.000 volumes a riqueza da biblioteca e os tetos, de incrível beleza, foram pintados por Antônio Simões Ribeiro e Nunes Vicente, portugueses.

As mesas são em pau rosa, ébano e mogno.

Subimos e depois de uma conversa do Sr. Diamantino com o simpático guarda, ele nos mostrou a Sala do Capelo. É muito bonita também, com suas pinturas. Foi sala do trono, pois antes de ser Universidade foi residência real. Foi D. Diniz quem fundou a Universidade. A Sala do Capelo é onde são formados os universitários e onde os homens considerados dignos são condecorados. Nós a vimos de um dos balcões onde ficam as damas convidadas especialmente para as cerimônias. Deve ser altamente emocionante ver um ente seu ser condecorado ali. Tem a orquestra que toca o hino de cada nacionalidade do homem chamado para receber o diploma ou a condecoração. A cerimônia da guarda com as lanças longas e as curtas (que não sei o nome) e o mestre de cerimônias com a sua comprida bengala. O negócio deve ser lindo!

25/Junho/71 – Espanha – Portugal

Saída de Salamanca às 8h30 – sexta-feira. Dormiremos em Coimbra – Portugal. Fronteira com Portugal – cidade de Fuentes Onôro, é bonitinha, cheia de roseiras floridas.

Cidade Vilar Formoso – Portugal, bem arrumadinha, jeitosa, somente aduaneira e local do restaurante onde tem uma filial do Banco Borges e Irmão. As residências são feias pra burro, enquanto que no lado espanhol são verdadeiros postais.

Compramos cerejas em Guarda, no vale do Mondego. Deliciosas. O carro parou e aproximaram as mulheres com morangos e cerejas, eram apenas três, mas pareciam dez, pelo barulho que fizeram e, para nos livrarmos delas, deu o que fazer. Pelo gosto do Waldemar teria comprado todas as frutas, tem pena de todo mundo, o danado, e uma delas era velhinha, parecida com Dona Joaninha.

Estamos almoçando em Gouveia, na Estalagem D. José. O local é bastante agradável e para lembrar o Brasil tem dois pés de café. Mesmo que queiram eles nunca darão nem flores, pois estão plantados em vasos. A dona disse que tem dois irmãos brasileiros: um nascido em São Paulo e outro no Rio de Janeiro. Diz o Sr. Diamantino que português mentiroso é pior que jocão. Será??

De Guarda para cá (Coimbra, onde chegamos às 16h30) a topografia mudou sensivelmente. É delicioso ver pinheiros, eucaliptos e oliveiras se confundirem com samambaias, roseiras silvestres, rios, córregos, serras, pedras, aldeias, plantações agrícolas… é de encher o coração com saudades da nossa terra, tanto se parecem, menos as roseiras, que aqui são em profusão. As referidas flores sobem de monte acima enfeitando as pedras e subindo pelas árvores, formando muros em vários tons de rosa. Dá vontade de parar o carro e enchê-lo de todas as que estão ao nosso alcance. Na Espanha, eram rosas brancas, aqui são cor de rosa. Ninguém planta, nascem ao léu, enfeitando a primavera. Descobrimos um enorme pé de amoras e a Lourdes desejou comer, quis subir mas não teve jeito, era muito alto. Eu bati um galho seco e caíram algumas que ela lavou num chafariz. Tudo isso na beira da estrada, perto do rio que depois se transforma no Mondego, que banha Coimbra.

Os nomes das aldeias portuguesas são a coisa mais pitoresca que existe: não posso saber todas, mas vai algumas com o auxílio do Sr. Diamantino: Leomil… (não escreveu mais nada neste trecho)

Passamos por três serras: a da Estrela, da Lousã e a do Caramunho. Até Guarda, ou melhor, desde a Espanha, em grande parte do caminho o terreno é pedregosos demais. De Guarda para cá melhorou, embelezando a paisagem.

Fronteira da Espanha com Portugal: “encontramos um rebanho de carneiros, tinha mais de mil, esperamos que o dono encontrasse o local conveniente para tirá-los da estrada, o que demorou uns 20 minutos”.

Antes da fronteira (Espanha) encontramos um rebanho de carneiros, tinha mais de mil, esperamos que o dono encontrasse o local conveniente para tirá-los da estrada, o que demorou uns 20 minutos. Quem vinha ao nosso encontro podia passar, mas nós que íamos na mesma direção, não dava. Era carneiro que não acabava mais, tinham três pessoas tocando o rebanho, um cachorro e um burro.

Comentário: vou abrir aqui uma vaga para um comentário que esqueci de fazer e que agora, relendo o caderno, me lembrei. Falei atrás que Paris é maltratada com relação à sua conservação. Existe ali uma exceção: o Rio Sena. Ver o Tamisa (Londres) e o Sena é ver o universo das duas capitais. O Sena é limpo, embelezado por avenidas marginais, clubes aproveitando as suas águas para navegar, ilhotas gramadas, tudo lindo que se vê do alto a Torre Eiffel. O Tamisa nem dragado é. Sujo e feio é a nota triste de Londres; se ele fosse tratado como o Sena, Paris se envergonharia ainda mais. Ainda bem que se salva o rio em Paris.

24/Junho/71 – Norte da Espanha

Estamos saindo para Salamanca – Espanha, onde dormiremos mais uma noite. Daqui até lá são 517 km, é chão para entupir qualquer cristão.

9h – chegamos à fronteira – lado francês Hindaya – lado espanhol Irun. Passamos bem, sem novidades. O Waldemar encontrou na alfândega um soldado francês, descendente de Campos Sales, de quem recebeu uma herança de 10 milhões de cruzeiros.

São Sebastião – cidade grande de veraneio, bonita, cheia de árvores, comércio movimentado, praias bonitas. Desde Biarritz que se encontra hortênsia aos montes, florida em vários de azul e rosa dá um ar festivo em qualquer cidade.

Monumento ao Pastor, em Pancorbo

Monumento ao Pastor – em Pancorbo – vilarejo entre Vitória e Burgos. Aproveitaram as rochas e fizeram um lindo arranjo. Em cima, na gruta, com ar de espanto estão três personagens: um homem moço vestido de padre, um menino e um velho ajoelhado. Eles veem um anjo que está na entrada da gruta. Do lado direito, um pastor (homem apoiado em seu cajado) tendo debaixo do outro braço uma pequena ovelha. Mais adiante, na beira da estrada, dando as boas vindas com o gorro na mão, com o braço estendido, está um menino sentado em cima da pedra. Não sei que história tem o monumento, teria que subir uma escadaria para saber da história. O tempo era curto e a coragem também, pois temos muita estrada até Salamanca.

A entrada da Espanha para quem quer atingir Sevilha é mais bonita. Tem os campos como os de Portugal, sarapintados de flores vermelhas, azuis, rosas, amarelas, árvores frutíferas, vinhedos, árvores da cortiça e casas caiadas de branco com suas roseiras floridas e gerânios por toda a parte. Suas chaminés bordadas lembram o esmero em se vestir das campesinas, dos dois países. A influência moura embeleza e enriquece o sul português e espanhol. Em Córdoba as casas ainda são daquela época. Vê-se pela porta de entrada (que não tem atrativo nenhum), lá no fundo, depois do hall, que é todo enfeitado de azulejos trabalhados, tem um terraço sempre circular e no meio uma fonte e tudo enfeitado de flores, as mais variadas. Aquela pequena clareira serve para tomar ar, refrescar-se no calor, embelezar o ambiente, para conversação da família e dali para os outros aposentos. Chamam-na de “Pátio Andaluz”. São um espetáculo e seria muito mais se pudesse ver sem ser de carro. Aqui no norte a zona também é campesina, mas é bem mais pobre. As casas estão em ruínas e deve haver muita miséria. Tem muita indústria de papel, mas mesmo isso não tira o aspecto de tristeza que existe nesta região de Castilha Vieja.

As cidades de São Sebastião, Vitória e Burgos são grandes e populosas, têm muitas vilas margeando as estradas, mas percebe-se no ar a pobreza que envolve o povo destes lados.

O restaurante em que acabamos de almoçar se chama “El Cid”, sendo também hotel e muito bonito. Foi El Cid quem fundou Burgos.

Desde Burgos que as estradas se enfeitaram de flores de uma variedade enorme. Não existe florestas; plantações de pinheiros em alguns lugares e alguns molhos de árvores, tendo poucas frutíferas. O resto é pasto e cereal. Legumes também, é claro.

Tem outra cidade de nome Valladolid. Estão a construir em todas estas cidades edifícios de apartamento, talvez assim acabe o aspecto feio e sujo que elas têm.

Acabamos de chegar em Salamanca, são 18h. O hotel é bom, agradável, meio velho, como tudo em Salamanca, mas muito simpático.

A cidade é acanhada, apertada, calçadas estreitas, ruas estreitas, não se pode fazer juízo de nada, principalmente de uma cidade, em horas de permanência. O espanhol não cede seu lugar na calçada, nem por lei. Ele empurra e vai passando. Na minha terra isso é falta de educação, aqui eu não sei.

A pobreza não existe na realidade, dá essa impressão porque o que impera é o pão durismo. O Waldemar conhece, já esteve aqui no extremo norte da Espanha, em casa de um tio, irmão do pai dele. Casas de pedra, sem conforto, mas têm boa mesa e boa cama, terras para plantar e colher suas boas safras.