Sintra e Caiscais

Palácio ou Castelo da Pena – Sintra – Este sim é realmente bonito e interessante, só que todos os aposentos são relativamente pequenos.

Vista de Lisboa desde o Castelo de Pena. Na foto se pode ver o Castelo dos Mouros.

Começamos pelo claustro do século VI – quarto do Rei Carlos e capela do mosteiro com altar de alabastro – coro dos monges – quarto das damas de companhia da Rainha junto ao quarto da ama – quarto da Rainha D. Amélia (1810) com trabalho de gesso na parede, imitação árabe – sala de trabalho dela, com móveis em sândalo (Índia) – sala de passagem – sala de visitas toda pintada até o teto (a pintura dá a impressão de relevo iguais aos três tetos da biblioteca da Universidade de Coimbra) – as mesas e móveis em várias salas são incrustadas de madrepérolas – na sala de visitas os móveis são todos em porcelana, sendo um trabalho incrível em beleza e delicadeza. O Castelo fica a 800 metros acima do nível do mar, é uma linda vista sobre a cidade de Lisboa e seus arredores. A frente do Castelo é toda em azulejo azul e branco. A sacristia é muito bonita. No salão nobre existem quatro estátuas de madeira representando quatro soldados turcos. Trabalho português.

Castelo da Pena

Outro palácio – sala da guarda do Palácio de Sintra

O palácio é grande, simples, modesto mesmo. Quem o habitou gostava das coisas sem fausto. Alegre e calmo. Da sala da guarda passamos para a cozinha, grande, enorme, dois fornos de tijolos muito próprios no tamanho, para a sua finalidade. Um tripé comprido e alto para assar as caças. Os fogões devem ter uns doze metros de comprimento (são dois), tendo ao todo dezessete buracos e os panelões se ajustam perfeitamente ao caso; duas mesas feitas de tijolos, sem pés, com tampo de mármore, dois armários e quatro arcas. De lá fomos ao quarto de hóspedes com uma grande armadura, trabalho alemão e cama portuguesa; sala de jantar ao gosto mourisco. No centro tem uma fonte e ao redor sentavam-se os convivas, em almofadas de depois lavavam às mãos na fonte; sala chinesa onde tudo veio de lá – capela em estilo mourisco, no chão ladrilhado de tijolos encerados, um trabalho de azulejos mourisco, fingindo tapete. Quarto do Rei Afonso VI, onde esteve preso durante nove anos. Preso por seu irmão para deixar de fazer estrepolias (palavras do guia). O irmão fez vida com a Rainha com quem se casou depois de sua morte. O Papa, reconhecendo a falta de virilidade do doente Rei, anulou o casamento antes da morte dele (Afonso VI). Sala de passagem para a sala manuelina – sala de conselhos com cadeiras e mesas em trabalho português e tapete persa – sala gabinete de trabalho – quarto de dormir do Rei D. Sebastião com cama portuguesa em ébano, prata e cobre (em quase tudo existe a influência moura) – sala das sereias (elas são pintadas no teto – horrível) – Salas das pegas (contam uma história, com referência a essas pegas, que o Rei beijava nessa sala uma dama da corte quando foi surpreendido pela Rainha, a notícia se espalhou como um rastilho e pólvora e em pouco tempo o mulherio falava sobre as beijocas do Rei e ele, para se vingar da fofoca, mandou pintar cinquenta e oito pegas no teto da sala que foi o palco da tragédia) – por fim a sala dos banquetes ou dos cisnes – esta é bonita, são vinte e sete cisnes todos com um colar imitando uma coroa e cada um em posição diferente. El Rei D. Manuel I mandou pintá-la para comemorar o aniversário da filha Isabel, que fazia 27 anos e casava no mesmo dia.

Castelo de Pena

Perto da cozinha, na maior simplicidade, está a sala de refeições da família real. A maioria das salas dos três palácios são ladrilhadas em tijolos encerados, algumas são assoalhos ou pisos daquilo que hoje conhecemos como cerâmica.

Dos três que conhecemos domingo, o que menos gostei foi o de Queluz – é pequeno como palácio real e não agrada como a simplicidade do de Sintra e a alegre decoração do de Pena. Enfim, graças a Deus terminamos em paz a nossa romaria por esse mundo de Oropa – França e Bahia.

Muchaxo, restaurante na Praia do Guincho, em Cascais

Depois das visitas fomos almoçar na praia do Guincho, que é perto de Cascais e faz parte do município ou distrito. A praia é muito bonita, o mar muito forte com areia grossa e escura. Não deixa, mesmo assim, de ser muito útil aos banhistas. Almoçamos muito bem e muito caro também; mas como diz o ditado “mais vale um gosto do que cem cruzeiros”.

Praia do Guincho, em Cascais

Fim da viagem à Europa

Palácio de Queluz

Palácio de Queluz

Palácio de Queluz – É uma cópia do de Versailles, em miniatura; foi construído por D. Pedro II para a Rainha D. Maria I, de quem tem o retrato em quase todos os aposentos. A visita começou com a sala do trono e depois a sala de D. Miguel (irmão de Pedro I – Imperador do Brasil). A seguir os quartos das três princesas (que não cheguei a saber os nomes) – o primeiro quarto é em estilo D. Maria I e os outros dois em estilo império; vendo é que se nota a diferença e todos com suas maneiras de terem estilos diferentes são bem bonitos. Muitas peças são forradas em seda pura, de listas, estampadas, lisas ou vários outros motivos, todos muito bonitos.

Não tem a beleza e elegância do Palácio dos Reis em Madri, mas nem por isso deixam de ter a sua história, talvez mais triste que alegre. Vem depois em sucessão: capela particular das princesas, com móveis do século XVIII, sala de fumar – móveis em estilo império com retratos de D. João VI – D. Pedro – D. Maria Amélia e Carlota Joaquina; sala de jantar com dois bonitos biombos chineses; sala de música com um cravo estilo inglês; sala de estar da Rainha, corredor de azulejos; sala de despachos com cada coluna e vãos de janelas representando várias partes da Europa e as quatro estações do ano; sala de estar; outra sala estilo D. José (?) com móveis em madeira do Brasil; sala dos embaixadores; sala do conselho com pintura representando a ruina de Pompéia, feita pelo pintor português Pedro Alexandrino; toucador da Rainha; quarto onde morreu Carlota Joaquina; oratório da Rainha; quarto onde morreu D. Pedro IV (primeiro do Brasil); oratório do Rei; sala das merendas com um lindo teto em estilo mourisco.

O que tem de beleza real e conservação são os jardins, é um encantamento. O Palácio está pouco conservado, cheio de umidade estragando a beleza que ainda resta.

Batalha, Portugal

Batalha – Pequenina cidade da qual a única atração é um mosteiro inacabado. Depois de tê-lo visto achamos preferível deixar de ver o de São Jerônimo, em Lisboa. O Mosteiro de Santa Maria da Vitória, mais conhecido como o Mosteiro da Batalha, é uma perfeição inacabada de arquitetura gótica e manuelina.

Mosteiro da Batalha

Começada em 1387, ficou por terminar em 1533. Faltam as cúpulas, vitrais, e os santos. Em duas colunas, onde seriam colocados alguns santos, existem duas pequeninas imagens de São João e São Domingos. Existe uma imagem de mais ou menos meio metro, ensinando internamente a saída da Igreja.

É um trabalho delicadíssimo em rendilhado. Dá a impressão de que aquelas colunas, pórticos, tetos e tudo mais têm o peso de uma peça de renda.

Os arquitetos foram retirados pelo Rei Manuel I para construir o Mosteiro de São Jerônimo – por esse motivo, quem vê o de Batalha não precisa ver o outro. O primeiro é mais bonito.

Existem dois claustros: o dos frades (ordem dos Dominicanos) e o real. O primeiro é posterior ao segundo. Pela ordem eu teria dito: o claustro real foi construído por D. João I e o dos frades por D. Afonso V.

Depois D. Manoel I, achando feio os vãos das janelas que dão para o jardim (o que seria o jardim), mandou colocar uns rendilhados que dão uma ideia de cortinas.

D. Fernando II tentou restaurar o mosteiro colocando os vitrais e a capela.

No capítulo tem a chama eterna ao soldado desconhecido, um túmulo com restos mortais de algum, guarda de honra permanente de dois soldados e uma cruz com Cristo de bronze. O Cristo está mutilado. Ao terminar a guerra de 1914/1918, a França ofertou ao soldado desconhecido português. É para o que está servindo o Mosteiro da Batalha: homenagem ao Soldado Desconhecido.

No refeitório dos frades estão vários troféus, inclusive a bandeira portuguesa e a corneta que tocou o cessar fogo da luta sangrenta 1914/1918.

Vários túmulos dão a nota trágica do mosteiro inacabado – existem frades, um conde, reis, rainhas, infantes e etc…

Lá estão D. Duarte e D. Leonor de Aragão, um príncipe, filho de D. Afonso V, neto de D. Duarte.

O primeiro arquiteto, Afonso Domingos, ao fazer a abóbada do capítulo, cegou. Não podendo continuar, entregou-a a um estrangeiro que, ao dá-la por concluída, (ela) caiu. Não se chamasse ele Porrete. Então o Afonso Domingos, mesmo cego, resolveu terminá-la com o auxílio dos seus patrícios. Ao terminar sentou-se ao centro, embaixo, e mandou tirar o andaime. Ficou depois três dias e três noites sem comer e beber, esperando que ela caísse. Morreu depois desses dias e suas últimas palavras foram: “abóbada não caiu nem cairá”. Faleceu em 1402.

A porta principal do Mosteiro é toda em alto relevo em bronze e representa a Corte Celestial. Jesus no centro com quatro apóstolos, em seguida vêm os anjos, os músicos, os profetas, os reis, os bispos, cardeais e as virgens. Vitrais do altar-mor, colocados em 1514, que representam a vida de Jesus, desde o nascimento.

Mateus Fernando foi o arquiteto do estilo manuelino do pórtico e mais as capelas incompletas. Em seu túmulo, que lá está, junto com sua família, estão escritas estas sentenças: “Vós outros que por aqui passais a Deus por nós rogais. Não deixeis de bem fazer, porque assim haveis de ser”.

Na Capela do Rei D. João I estão em seu túmulo, dos filhos D. Fernando – Infante de D. João e a esposa, Infante D. Henrique e Infante D. Pedro e esposa, D. Afonso V, neto de D. João I, D. João II – filho de Afonso V e o Príncipe D. Afonso – filho de D. João II.

Na entrada da Capela tem o túmulo de um soldado que salvou a vida do Rei João I. Mandaram enterrá-lo ali e quis significar que mesmo depois da morte confiavam nele. Na Capela onde celebram todos os dias a missa, tem a imagem ou estátua, em tamanho natural, do contestável Nuno Álvares Pereira (nasceu em 1360 e morreu em 1431) – comandante das tropas na Batalha da Aljubarrota. Depois tornou-se frade.

Estátua de D. Nuno Álvares Pereira, em frente ao Mosteiro de Santa Maria da Vitória, mais conhecido como Mosteiro da Batalha.

Na praça principal tem a estátua equestre do guerreiro na Igreja, vestido de frade. Tem também a imagem de uma princesa – Santa Joana.

O túmulo do professor e conselheiro dos filhos do Rei João I, Diogo Gonçalves Travassos, é muito bonito e todo enfeitado de letras “D” em gótico.

Esse mosteiro foi idealizado mediante uma promessa do Rei João I, que a fez a Santa Maria da Vitória, caso vencesse a Batalha de Aljubarrota, que foi a batalha da independência de Portugal, contra Castilha (Espanha).

Penedo da Saudade, Coimbra

De lá fomos ao Penedo da Saudade. Fica na parte mais alta da cidade e de lá se vê o Rio Mondego, que banha Coimbra. De um bem cuidado jardim, ao longo do barranco de um lado e casas residenciais do outro, existem recantos convidando ao namoro e às confidências. Em três pedras de mármore branco estão gravados versos. Consegui copiar de dois. Estávamos com um pouco de pressa pois ainda teríamos que ir à Fátima e Batalha.

O primeiro é uma ode ao amor de D. Pedro por Inês de Castro e é o mais bem feito dos dois poemas:

PENEDO DA SAUDADE

Oh! Foi ali que El Rei Pedro

Suas mágoas em segredo

Veio outrora cantar,

E em troca de amarguras

Que ali sofreu … e doçuras

Quis-lhe – Saudade – chamar.

Mágico nome – Saudade!

Casado com a Liberdade,

Que meigo nome não é!

Oh! Nome tão só de encanto!

Oh! Nome que eu amo tanto!

Que no coração se lê!

Oh! Quem na tristeza imerso,

Se lembra ainda do berço,

Do tempo do seu nascer

No Penedo da Saudade

Contará a imensidade

As mágoas do seu sofrer.

(José Augusto Guedes Teixeira – 1860)

Já o outro é um soneto, meio de pé quebrado, e parece ser do filho do José Augusto. Bem inspirado, mas faltou qualquer coisa que costumam chamar métrica.

PENEDO DA SAUDADE

Há no lindo Penedo da Saudade

Dessa Coimbra de que eu gosto tanto

Uma tristeza quase soledade

Mas que alivia quase o pranto

Canta o Mondego ao fundo, o mesmo cano

Com que ele embala cada mocidade,

Levando ao mar o seu eterno encano,

Banhando a terra de felicidade.

 Salgueiros, choupos, numa e noutra margem,

Vão seguindo os caminhos que eu segui…

O luar, como o sol, doira a paisagem

E relembro nas suas oliveiras

As primeiras saudades que senti

E quero crer também que as derradeiras.

(Fausto Guedes Teixeira – 1930)

Esqueci de me referir a um trecho de discurso de Oliveira Salazar, pronunciado em uma das cerimônias na Sala do Capelo. São lindas as palavras e bem oportunas. Está escrito logo após a escadaria que externa que dá acesso à referida sala. Levo-as como presente do guia.

Estátua de D. Afonso Henriques, em Portugal dos Pequenitos

Portugal dos Pequenitos – O país em miniatura, transformado em recreação e educação para crianças onde funciona a creche Santa Isabel. Fundação do Dr. Bissaya Barreto. Rico filantropo, é médico em Coimbra. Solteiro e rico, dedicou toda a sua fortuna e carinho na sua Fundação. Ainda vive.

Quinta dos Milagres – Onde foi assassinada Inês de Castro – esse não vimos, nem o convento – o antigo Convento de Santa Clara. Abandonado por estar afundando. Ainda lá se encontra, escuro, feio e abandonado. Foi feito outro a cavaleiro da cidade e em sua capela estão os restos mortais de Santa Isabel.

Coimbra, Portugal

Demos uma olhada em Coimbra e agradou; ruas estreitas e tortuosas, lojas pequenas, comércio incerto, mas não existe empurra, empurra. A cidade é mais velha que Inês de Castro, pois a infeliz Rainha foi assassinada aqui. Tem a Travessa do Gato, acho que ali se escondem gatos para fugirem dos cachorros – mora gente lá também. No Convento de Santa Clara está o túmulo de Santa Isabel, a Rainha que transformou os pães em flores para fugir da ira do marido. Tem a sua história a velha Coimbra, como todas as coisas velhas da macróbia Europa.

Estamos de volta para casa e depois de 50 dias tomando chá de carro por esta Europa sem fim. Não se pode dizer que a conhecemos nem a vimos, demos apenas uma ligeira olhada, como quem vai a um cinema para assistir um filme que nos agrada e depois de duas horas de projeção volta-se para casa com a sensação de que se fez um belo passeio. Não se pode ver tudo, é verdade, mas demorando um pouco mais nas cidades, mais dignas de nota, seríamos capazes de, mais descansadamente, visitar e anotar as coisas mais interessantes. Ainda assim demandaria tempo e naturalmente… dinheiro.

A trupe com a Fátima (pelo menos suspeito eu, pelo andar da carruagem ou ordem dos slides, que essa seja a Fátima)

Amanhã iremos ver Fátima e teríamos gostado também de ver Lourdes, mas infelizmente o tempo não deu. Essas visitas faremos como quem as carreira. Museus, igrejas, castelos e palácio, catedrais, parques e monumentos, ruas e praças – dariam matéria para três cadernos desses se pudesse, com eles nas mãos, tomar nota diretamente do local.

Sei que não tenho o direito de reclamar, nem o estou fazendo, recebi mais do que esperava, mas se algum dia ainda fizer tal viagem, o que não espero, terei o máximo prazer de fazer cada lugar por sua vez. Esta correria cansa e aproveita-se pouco.

Estátua de D. Joao III na Universidade de Coimbra.

Na hora da saída de Coimbra, o Sr. Diamantino fez por bem em nos levar a fazer uma visita à primeira Universidade de Coimbra – famosíssima. Estivemos primeiro na biblioteca; é de admirar que já naquela época se fizesse coisas pensando na educação no futuro. A delicadeza do trabalho de talhar é de embasbacar. A primeira sala é de história, literatura e geografia; em madeira verde e os desenhos em talha, entremeados de dourado tornam o austero ambiente alegre e brilhante.

A segunda sala é em vermelho e guarda os volumes de medicina, filosofia e ciência. A terceira sala, imitando a primeira na cor, tem em suas prateleiras história, literatura e geografia. Todas tem trabalho de talha entremeados de dourado e as grandes mesas que habitam em cada sala correspondem à cor do ambiente. Os desenhos são diferentes em cada uma delas. Foi fundada por D. João V, em 1724. Encimando cada porta tem o emblema dos ensinos correspondentes na Universidade, ou sejam: Medicina, Matemática, Direito, teologia, Retórica e Direito Civil. No fundo da última sala, em frente à porta e abaixo do último emblema, está o emblema do direito canônico e abaixo do mesmo a pintura do Rei D. João V.

O livro mais antigo data do século XII e eles têm de várias épocas, em diferentes línguas e vários manuscritos.

São 40.000 volumes a riqueza da biblioteca e os tetos, de incrível beleza, foram pintados por Antônio Simões Ribeiro e Nunes Vicente, portugueses.

As mesas são em pau rosa, ébano e mogno.

Subimos e depois de uma conversa do Sr. Diamantino com o simpático guarda, ele nos mostrou a Sala do Capelo. É muito bonita também, com suas pinturas. Foi sala do trono, pois antes de ser Universidade foi residência real. Foi D. Diniz quem fundou a Universidade. A Sala do Capelo é onde são formados os universitários e onde os homens considerados dignos são condecorados. Nós a vimos de um dos balcões onde ficam as damas convidadas especialmente para as cerimônias. Deve ser altamente emocionante ver um ente seu ser condecorado ali. Tem a orquestra que toca o hino de cada nacionalidade do homem chamado para receber o diploma ou a condecoração. A cerimônia da guarda com as lanças longas e as curtas (que não sei o nome) e o mestre de cerimônias com a sua comprida bengala. O negócio deve ser lindo!

25/Junho/71 – Espanha – Portugal

Saída de Salamanca às 8h30 – sexta-feira. Dormiremos em Coimbra – Portugal. Fronteira com Portugal – cidade de Fuentes Onôro, é bonitinha, cheia de roseiras floridas.

Cidade Vilar Formoso – Portugal, bem arrumadinha, jeitosa, somente aduaneira e local do restaurante onde tem uma filial do Banco Borges e Irmão. As residências são feias pra burro, enquanto que no lado espanhol são verdadeiros postais.

Compramos cerejas em Guarda, no vale do Mondego. Deliciosas. O carro parou e aproximaram as mulheres com morangos e cerejas, eram apenas três, mas pareciam dez, pelo barulho que fizeram e, para nos livrarmos delas, deu o que fazer. Pelo gosto do Waldemar teria comprado todas as frutas, tem pena de todo mundo, o danado, e uma delas era velhinha, parecida com Dona Joaninha.

Estamos almoçando em Gouveia, na Estalagem D. José. O local é bastante agradável e para lembrar o Brasil tem dois pés de café. Mesmo que queiram eles nunca darão nem flores, pois estão plantados em vasos. A dona disse que tem dois irmãos brasileiros: um nascido em São Paulo e outro no Rio de Janeiro. Diz o Sr. Diamantino que português mentiroso é pior que jocão. Será??

De Guarda para cá (Coimbra, onde chegamos às 16h30) a topografia mudou sensivelmente. É delicioso ver pinheiros, eucaliptos e oliveiras se confundirem com samambaias, roseiras silvestres, rios, córregos, serras, pedras, aldeias, plantações agrícolas… é de encher o coração com saudades da nossa terra, tanto se parecem, menos as roseiras, que aqui são em profusão. As referidas flores sobem de monte acima enfeitando as pedras e subindo pelas árvores, formando muros em vários tons de rosa. Dá vontade de parar o carro e enchê-lo de todas as que estão ao nosso alcance. Na Espanha, eram rosas brancas, aqui são cor de rosa. Ninguém planta, nascem ao léu, enfeitando a primavera. Descobrimos um enorme pé de amoras e a Lourdes desejou comer, quis subir mas não teve jeito, era muito alto. Eu bati um galho seco e caíram algumas que ela lavou num chafariz. Tudo isso na beira da estrada, perto do rio que depois se transforma no Mondego, que banha Coimbra.

Os nomes das aldeias portuguesas são a coisa mais pitoresca que existe: não posso saber todas, mas vai algumas com o auxílio do Sr. Diamantino: Leomil… (não escreveu mais nada neste trecho)

Passamos por três serras: a da Estrela, da Lousã e a do Caramunho. Até Guarda, ou melhor, desde a Espanha, em grande parte do caminho o terreno é pedregosos demais. De Guarda para cá melhorou, embelezando a paisagem.

Fronteira da Espanha com Portugal: “encontramos um rebanho de carneiros, tinha mais de mil, esperamos que o dono encontrasse o local conveniente para tirá-los da estrada, o que demorou uns 20 minutos”.

Antes da fronteira (Espanha) encontramos um rebanho de carneiros, tinha mais de mil, esperamos que o dono encontrasse o local conveniente para tirá-los da estrada, o que demorou uns 20 minutos. Quem vinha ao nosso encontro podia passar, mas nós que íamos na mesma direção, não dava. Era carneiro que não acabava mais, tinham três pessoas tocando o rebanho, um cachorro e um burro.

Comentário: vou abrir aqui uma vaga para um comentário que esqueci de fazer e que agora, relendo o caderno, me lembrei. Falei atrás que Paris é maltratada com relação à sua conservação. Existe ali uma exceção: o Rio Sena. Ver o Tamisa (Londres) e o Sena é ver o universo das duas capitais. O Sena é limpo, embelezado por avenidas marginais, clubes aproveitando as suas águas para navegar, ilhotas gramadas, tudo lindo que se vê do alto a Torre Eiffel. O Tamisa nem dragado é. Sujo e feio é a nota triste de Londres; se ele fosse tratado como o Sena, Paris se envergonharia ainda mais. Ainda bem que se salva o rio em Paris.

24/Junho/71 – Norte da Espanha

Estamos saindo para Salamanca – Espanha, onde dormiremos mais uma noite. Daqui até lá são 517 km, é chão para entupir qualquer cristão.

9h – chegamos à fronteira – lado francês Hindaya – lado espanhol Irun. Passamos bem, sem novidades. O Waldemar encontrou na alfândega um soldado francês, descendente de Campos Sales, de quem recebeu uma herança de 10 milhões de cruzeiros.

São Sebastião – cidade grande de veraneio, bonita, cheia de árvores, comércio movimentado, praias bonitas. Desde Biarritz que se encontra hortênsia aos montes, florida em vários de azul e rosa dá um ar festivo em qualquer cidade.

Monumento ao Pastor, em Pancorbo

Monumento ao Pastor – em Pancorbo – vilarejo entre Vitória e Burgos. Aproveitaram as rochas e fizeram um lindo arranjo. Em cima, na gruta, com ar de espanto estão três personagens: um homem moço vestido de padre, um menino e um velho ajoelhado. Eles veem um anjo que está na entrada da gruta. Do lado direito, um pastor (homem apoiado em seu cajado) tendo debaixo do outro braço uma pequena ovelha. Mais adiante, na beira da estrada, dando as boas vindas com o gorro na mão, com o braço estendido, está um menino sentado em cima da pedra. Não sei que história tem o monumento, teria que subir uma escadaria para saber da história. O tempo era curto e a coragem também, pois temos muita estrada até Salamanca.

A entrada da Espanha para quem quer atingir Sevilha é mais bonita. Tem os campos como os de Portugal, sarapintados de flores vermelhas, azuis, rosas, amarelas, árvores frutíferas, vinhedos, árvores da cortiça e casas caiadas de branco com suas roseiras floridas e gerânios por toda a parte. Suas chaminés bordadas lembram o esmero em se vestir das campesinas, dos dois países. A influência moura embeleza e enriquece o sul português e espanhol. Em Córdoba as casas ainda são daquela época. Vê-se pela porta de entrada (que não tem atrativo nenhum), lá no fundo, depois do hall, que é todo enfeitado de azulejos trabalhados, tem um terraço sempre circular e no meio uma fonte e tudo enfeitado de flores, as mais variadas. Aquela pequena clareira serve para tomar ar, refrescar-se no calor, embelezar o ambiente, para conversação da família e dali para os outros aposentos. Chamam-na de “Pátio Andaluz”. São um espetáculo e seria muito mais se pudesse ver sem ser de carro. Aqui no norte a zona também é campesina, mas é bem mais pobre. As casas estão em ruínas e deve haver muita miséria. Tem muita indústria de papel, mas mesmo isso não tira o aspecto de tristeza que existe nesta região de Castilha Vieja.

As cidades de São Sebastião, Vitória e Burgos são grandes e populosas, têm muitas vilas margeando as estradas, mas percebe-se no ar a pobreza que envolve o povo destes lados.

O restaurante em que acabamos de almoçar se chama “El Cid”, sendo também hotel e muito bonito. Foi El Cid quem fundou Burgos.

Desde Burgos que as estradas se enfeitaram de flores de uma variedade enorme. Não existe florestas; plantações de pinheiros em alguns lugares e alguns molhos de árvores, tendo poucas frutíferas. O resto é pasto e cereal. Legumes também, é claro.

Tem outra cidade de nome Valladolid. Estão a construir em todas estas cidades edifícios de apartamento, talvez assim acabe o aspecto feio e sujo que elas têm.

Acabamos de chegar em Salamanca, são 18h. O hotel é bom, agradável, meio velho, como tudo em Salamanca, mas muito simpático.

A cidade é acanhada, apertada, calçadas estreitas, ruas estreitas, não se pode fazer juízo de nada, principalmente de uma cidade, em horas de permanência. O espanhol não cede seu lugar na calçada, nem por lei. Ele empurra e vai passando. Na minha terra isso é falta de educação, aqui eu não sei.

A pobreza não existe na realidade, dá essa impressão porque o que impera é o pão durismo. O Waldemar conhece, já esteve aqui no extremo norte da Espanha, em casa de um tio, irmão do pai dele. Casas de pedra, sem conforto, mas têm boa mesa e boa cama, terras para plantar e colher suas boas safras.

23/Junho/71 – Poitiers e Biarritz

Biarritz é estação de banhos de mar, local de jogos (tem um cassino). A praia, pelo que vimos, é bem bonita. Depois do jantar o único que teve coragem de sair foi o Antenor, pois lá fora chovia, ventava e fazia frio doído. A chuva nos persegue. Em Poitiers, estava uma noite deliciosa e o dia seguinte, que foi hoje, amanheceu um sol gostoso demais para aturar.

De Bordeaux para cá o tempo mudou. Chegamos cedo aqui 16h30, mas não pudemos ver nada.

22/Junho/71 – Bordeaux

Poitiers é um doce, bonitinha, delicada, é uma cidade de estudantes, águas medicinais e antiguidades. Quando o hotel é bom e a cidade agradável, só passamos uma noite. Tem comércio bom em preço e apresentação.

Paris deveria se refletir em seu interior. Mesmo as cidades mais próximas, como é o caso de Neulhy, onde mora o Dr. Bruneau. Lá é limpa, agradável e estão divididas pela linha de imaginação da fronteira. A gente sente a diferença quando entra nas ruas bonitas de Neulhy.

Bordeaux

Depois de Versailles entramos numa série de vilas maiores ou menores, agradáveis aos máximo. Ao passarmos Bordeaux, entramos em uma zona muito rica em vinho, mel e pinheirais. São quilômetros de pinheiros resinosos e de corte. Interessante é que entre eles nasce um tapete de samambaias que é uma lindeza. Pouco depois de Bordeaux paramos um instante num barracão de madeira para tomar um vinho. Uma delícia!!!! Estou tomando vinho que, se vissem, duvidariam que fosse eu mesma. É muito gostoso, inegavelmente, mas em questão de beber vinho nunca chegarei aos pés da Lourdes. Ela é uma boa boca para o tal.

De Paris a Biarritz são 689km. Esta zona da França é bem mais rica que a Cotê D’Azur. A natureza é mais pródiga, mais mãe, enquanto que a outra a mão do homem se fez sentir para vencer a selvageria dos penhascos e dar um conforto que a natureza se negou em fazer. Desde a entrada em Calais, a que chamamos a Bretanha, até aqui, Pirineus Atlânticos, a França é mais acolhedora, mais humana, mais simpática, sem me referir a Paris, que é um caso à parte.

A França encanta pela sua cor local, o interiorano francês sabe agradar, sabe viver com seus irmãos de outros pagos. Talvez seja uma vida dura de trabalho, pelo dia-a-dia, que torna o homem de certas cidades grandes agressivos, intratáveis.

Um exemplo: em Paris o nosso carro estava estacionado em uma esquina, perto do hotel, esperando a bagagem que estava a demorar um pouco, eu estava dentro do veículo e a Lourdes na calçada esperando o Waldemar entrar (viajamos os três atrás – sendo que o Waldemar senta entre nós) e, em dado momento, chegou um velhote, varredor de rua e falando asperamente deu a entender para que a Lourdes tirasse o carro dali. Ela fez um gesto, mandando-o esperar um pouco e apontou para o Sr. Diamantino, que vinha se aproximando. Ele continuou falando áspero, fechou a porta do carro com tanta força e disse que ia chamar a polícia. Sem dúvida, se não tirasse logo o carro dali. Foi por Deus que o caso ficou só nisso. O alterado Waldemar não estava e o Sr. Diamantino acalmando o infeliz, tirou o carro do lugar. Pô, aí vocês veem que o homem é o produto do meio, da própria vida.

Já no interior de Calais para cá, só temos encontrado simpatia e boa vontade em servir. Não só em hotéis, em restaurantes, lojas, postos de gasolina e alguma coisa que nos agrade comprar ou perguntar, com o nosso francês arrevesado.

Almoçamos pouco depois de Bordeaux, um restaurante simples, servido por duas senhoras. Tomamos uma sopa de caldo de carne com espaguetinho e depois nos trouxeram a carne que foi cozida para a sopa, com pepinos em conserva, também cozidos junto. Um negócio!! Depois veio frango assado no forno, batata frita em tiras e pão. Vinho e depois queijo. Olhem bem gente!! Tem sido nesse pé desde que saímos de casa. Seu pai vai estranhar demais, vai ser um tormento. O nome do hotel – café – restaurante é “Les Routiers”.

21/Junho/71 – Paris e Versailles

Passamos o dia na Galeria Lafayette fazendo compras. As últimas que fizemos em toda a viagem. Voltamos esbodegados para o hotel, descansamos um pouco e jantamos, ou melhor, fizemos a comparação. Quando estávamos iniciando chegou o ônibus que nos levaria aos famosos cabarés de Paris.

Primeiro nos foi oferecido um espetáculo na Nouvelle Eve. Pequeno e bonitinho, foi onde tivemos melhor visão do palco. São shows de variedades, ilusionistas, cantores, bailarinos, mulher de busto de fora e só, o que é muito para distrair aqueles que têm coragem de gastar uma fortuna para ver essas coisas que distraem a peso de ouro. Gostei muito, ou melhor, gostamos muito, mas como estávamos cansadíssimos, principalmente seu pai e eu, cochilamos demais, o que foi uma pena. Depois do Nouvelle Eve fomos ao Moulin Rouge e depois ao Lidô. Quando nos recolhemos eram 3h da manhã. Nos levantamos às 7h e saímos pelas 10h em direção a Poitieres, onde dormimos.

Sobre os cabarés contarei tudo a vocês, da melhor maneira possível. Cada quadro tem uma história de significação histórica ou fictícia. São de uma riqueza impressionante. O Lidô foi o mais rico de todos. Não digo que foi o mais bem apresentado, mas o mais rico sim. No Nouvelle Eve tinha um casal de cantores melhores que dos outros cabarés. Teve um quadro representando as óperas que deu gosto ver e ouvir. Três dançarinos espanhóis que superaram qualquer outra coisa que vimos na noite de segunda-feira em Paris, em matéria de bailado. Dois rapazes e uma moça dançaram granada divinamente bem.

Versailles

Passamos em Versailles, demos uma saltadinha e seguimos direto para almoçarmos na estrada, chegando às 18h. Versailles é uma grande cidade e o Palácio que lhe deu o nome é uma sujeira exterior que não dá para calcular a beleza que lá dentro deve existir. Não vimos nem os jardins que dizem ter a mesma composição de quando Maria Antonieta os construiu.

Palácio de Versailles.

20/Junho/71 – Paris

O que falta no francês sobra no inglês: amor patriótico de conservação. Londres é uma cidade tão velha quanto Paris, tão histórica quanto a outra, no entanto nota-se a diferença no carinho que um e outro dedicam à sua capital. O francês, durante as duas guerras, entregou sua altivez ao alemão para não ver a sua cidade principal destruída. Teria sido por amor ou para não ter trabalho de reconstruir tudo depois? Estou na segunda versão. Londres sofreu um impacto terrível de guerra. Paris foi entregue de presente aos inimigos. Londres é um exemplo de beleza e conservação, Paris é um exemplo de desleixo e atravancamento.

Em sujeira, abandono e fachadas sujas, Paris só tem uma rival: Roma. Elas se digladiam para ver quem vence. Sujeira de ruas, frentes de casas, desleixos nos jardins, hotéis feios, mal tratados… sei lá que mais!!!

Paris

Paris e Roma vivem em função do turista, não para o turista. Elas tratam o visitante com casca e tudo. O turista é turista, um curioso visto por cima do muro, nascido apenas para deixar seu precioso dinheiro. Dizem agora que até as lojas já atendem bem. Há uns seis anos atrás nem nas lojas éramos bem atendidos.

Enquanto o homem não tiver respeito mútuo, não adiantam comentários, se não existe a educação necessária.

Paris é bonita, inigualável. Precisaríamos de uma semana, no mínimo, para conhecer o Museu do Louvre. É o único no mundo e simplesmente fantástico. Não se descreve o museu, vê-se. Eu disse mal quando escrevi que precisaríamos de uma semana, é preciso uma semana só para vê-lo; conhecer tudo, só morando em Paris. Aquelas divisões arqueológicas, pinturas, esculturas e etc… são salões e mais salões de cada coisa citada. Mal vimos as pinturas. A Lourdes queria matar o desejo de conhecer a Monalisa, de Leonardo da Vinci, e praticamente foi o que vimos. Tanta coisa bonita que nos legou o grande pintor, mas o povo tem particular atração por aquela feia mulher. Gosto não se discute. Seria a última pintura que eu traria para minha casa.

Antes visitamos a afamada Torre Eiffel. Vale a fama pelo tamanho e a finalidade a que se propuseram: ver Paris do alto. Como mostrengo é bem regular, de perto então é feíssima. Paris, ao alto da Torre, é um espetáculo. O Sena então se contempla com admiração. A Torre domina a cidade em toda a sua imponência de ambas as partes. Não vale a pena dizer o que é a fulana. Beleza, ou melhor, boa impressão só de longe; de perto, dentro dela, é só ferro; os tais elevadores cabem 35 pessoas de cada vez. Vocês podem imaginar o aglomerado de gente e línguas. A exploração em comércio e a “delicadeza” dos guardas, dá vontade de voltar do meio do caminho e mandar às favas as visitas. E o frio então, nem é bom falar…!!

Notre Dame – como tudo que é velho tem a sua história. Estavam a celebrar uma missa cantada (era domingo) e a solenidade tocava o sentimento, apesar de não haver simplicidade no ato. Existe muito ouro – fortunas imensas foram gastas nesses monumentos e isso nos dá (pelo menos a mim) uma tristeza muito funda, por ver quanto se explorou antes para gáudio dos poderosos. Ainda hoje se faz isso, é verdade, mas o povo não vai tanto na conversa de dar para salvar a alma.

Muito grande e bonita, teríamos material para umas duas horas. Estivemos lá em menos de uma hora e fomos almoçar. Do hotel, seguimos para a Igreja da Madeleine. Se tem igreja que nos dê impressão de paz e recolhimento, há de ser esta. No pórtico de entrada, tem uma cena de Jesus, em mármore, se apresentando à Madalena na ressurreição. No altar principal, a representação da coroação da Santa. São poucos os altares e todos com imagens esculpidas em mármore branco. Uma de Joana D’Arc enfeita um dos lados. Ao contrário de Notre Dame, que é riquíssima e escura, esta é clara e simples. Em estilo romano e, no exterior, enfeitando as laterais, em uns dez nichos de cada lado, tem esculturas dos profetas bíblicos em tamanho natural, só que tudo é sujo como o nariz do parisiense, dentro é limpa, ainda bem, porque de fora faz vergonha.

Andamos tanto no Museu que, ao voltarmos, tomei uma Cibalena. Todo o corpo me doía e o seu pai não estava melhor. O nosso jantar foi um convite do Dr. Bruneau, um amigo do Antenor. O amigo nos apanhou no hotel às 19h, nos levou ao apartamento dele, onde sua senhora nos esperava com aperitivos (champanhe e whisky) e salgadinhos, incluindo castanhas do Brasil. Eram quase 22h quando saímos para jantar no Restaurante “Le Coeur du Boeuf” (Coração de Boi). Delicioso jantar e companhias. A madame Bruneau é uma simpatia, não fala português, mas nem por isso ela deixou de nos dispensar a melhor de suas atenções. Depois do jantar começou um show muito bom, com comediantes, ilusionistas e cantores. Chegamos ao hotel mais ou menos 1h da manhã.

19/Junho/71 – Londres – Paris

Às 8h da manhã estávamos no carro a caminho de Ramsgate, para de barco flutuante, movido a hélice, atravessarmos o mar ao encontro de Calais – de lá para Paris.

Iniciamos a travessia às 13h25, com 50 minutos de travessia. Planamos por sobre o mar. Os carros são segurados por cabos grossos no porão. Sobe-se à coberta, como se estivéssemos em avião com aeromoça e tudo, só que o troço pula como automóvel em estrada ruim. São quatro hélices se movimentando com orientação de radar. Embaixo do barco, em toda a sua extensão, tem uma câmara de ar que infla para o barco planar no mar, sair do mar e atingir a terra como se entrasse em um aeroporto. Abrem as portas e saem os carros e ônibus cheios novamente, com seus passageiros. A viagem não é agradável, mas pelo menos é melhor e mais rápida do que nos tais barcos ronceiros. Para quem enjoa é triste. Um senhor ao nosso lado passou malíssimo, até deitou no chão, mas graças a Deus, chegamos em paz.

França – Hotel Restaurante Le Mas Fleuri – região da Bretanha – matou nossa fome – Nordasques é o nome da aldeia.

Esta região da França é totalmente diferente da outra que atingimos através da Espanha. Deixamos o mar do norte há vários quilômetros, passamos pela grande e bonita cidade de Lens. Arras ficou ao lado e ainda temos duas horas de viagem até Paris. Tomara Deus que não esteja chovendo. O mar está bravo demais, mas as praias não tem pedras como o outro lado – o Mediterrâneo. Calais é aldeia de pescadores e lembra um pouco aquela entrada de Santos. Por aqui existe agricultura e gado, carneiros e vacas têm aos montes. É como na Inglaterra, lá no meio dos pastos as ovelhas estão pastando entre as árvores frutíferas. Aqui não. Cada coisa está em seu lugar. Afinal tem poucas matas, o que não falta no país que acabamos de deixar.

18/Junho/71 – Londres


O nosso “tour” foi um troço, podia ter sido uma fábula, a chuva caiu desde a véspera e não parou mais.

Londres vale a pena ser conhecida, de ônibus, a pé, de automóvel, seja do que for. É grande, tem espaço, beleza e apesar de chamarem o inglês de antipático, tem simpatia. As ruas, as casas, os edifícios públicos, praças, jardins e parques foram construídos bem antes e pouco depois da Rainha Vitória. O que está estragado foi por causa da guerra e, diga-se de passagem, muito pouca coisa não foi reconstruída. Eles aproveitaram até as pedras e tijolos, para que a restauração fosse quase total.

É mais fácil para o londrino fazer outra rua, se tiver que homenagear alguém, do que mudar nome de alguma. Trago os nomes de ruas de comércio mais barato e mais caro, na medida do possível, não sei se pode fazer de outra maneira.

Para conhecer Londres (não a Inglaterra) é preciso fazer um curso completo de urbanismo. Praças, monumentos, casas residenciais, edifícios públicos, parques – tudo tem a sua história. O Parque que a Rainha Vitória entregou ao público é que apelidaram de “parque da libertinagem”, é o maior e o mais bonito (o nome é Hyde Park). Anexo a ele está a Praça dos Oradores onde qualquer fulano pode falar o que quiser, até falar mal da Rainha. Do lado direito de quem entra está o cemitério de animais. Uma tumba custa 100 dólares, enquanto que para uma pessoa (ou um marido, como maldosamente falou o guia), custa 80 dólares.

Palácio de Buckingham, residência oficial da família real em Londres.

O Palácio de Buckingham, que é residência oficial da rainha, fica no Green Park. Num outro Palácio, em outro parque, vive a irmã da rainha. A irmã mais poderosa doou-o à irmã mais simples (figurado).

Abadia de Westminster – é um sonho de mendigo (O príncipe e o mendigo).

Abadia de Westminster

A Catedral de São Paulo – tem a sua história como tudo nesta terra. Foi construída por Guilherme, o Conquistador, e na última guerra foi atingida por bombas. Como haviam pessoas lá dentro, guardando o tesouro inestimável que é aquilo, foram mortas. No local fizeram uma laje simbólica da tragédia. Tem também, sob um grande e bonito dossel, em frente ao altar-mor, um túmulo em homenagem aos soldados americanos, mortos em defesa da Inglaterra. Atrás do túmulo, dentro de uma urna de vidro, está um enorme livro com os nomes dos heróis. Ali não se fala, é respeito total. A igreja tem túmulos de bispos, heróis e homens célebres, somente anglicanos, enquanto que na Abadia tem de outras religiões. É preciso notar que todos estes túmulos são simbólicos. Na Abadia tem alguns reis enterrados, atrás do altar-mor e no centro em frente à porta de entrada para as cerimônias de coroação, no chão, cercado por um canteiro de papoulas, que é a flor de luto na Inglaterra, está uma laje preta onde estão os ossos do soldado desconhecido. Ali é proibido pisar, mesmo nas festas que lá se realizam. A homenagem é simples, mas nos toca o coração.

Eles homenagem grandemente a Roosevelt. Perto da embaixada dos Estados Unidos tem uma estátua, em tamanho grande, em pé, do referido americano. A única coisa que é intrusa lá é uma porta, construída no tempo da Rainha Vitória, para a entrada do parque ao Palácio.

Big Ben

No dia da inauguração a rainha ficou uma onça, pois a porta era pequena para a carruagem entrar com facilidade, era muito estreita e mandou tirá-la e a reconstruíram em outro local, não tem utilidade, apenas beleza, e marca o início da Oxford Street.

Big Ben

Tentamos ver a troca da guarda, mas como sempre, a chuva nos prejudicou 100%. Voltamos ao hotel, almoçamos e saímos ver a Catedral de São Paulo e a Torre Londres. Nem de propósito, a chuva aumentou.

A Catedral ainda conseguimos ver, mas a Torre não, somente as joias reais e às 17h30 voltamos ao hotel e não saímos mais.

17/Junho/71 – Londres

Saímos cerca das 9h e fomos acertar o “tour” diretamente na agência, porque às vezes o Waldemar faz isso no hotel.

De lá seguimos para o célebre Museu de Cera. É de espantar como pode alguém criar as coisas assim. Não vimos tudo. Além de não dar tempo, estão arrumando qualquer parte lá dentro. Tem salas fechadas e muitas figuras da história não vimos. Personagens da Revolução Francesa, por exemplo, só vimos algumas. Os criadores, como Robespierre e sua cambada, menos Danton. Os Reis Luiz e Maria Antonieta não vimos. Mas deu para satisfazer aquilo que visitamos em duas horas.

Achei interessante a inclusão, na sala dos “Heróis de Hoje e de Ontem”, do rei Henrique VIII, suas seis esposas e mais a rainha Elizabete I, filha do referido rei.

Madame Tousseaud foi a criadora do Museu de Cera. Na Revolução Francesa, presa como protetora dos nobres, foi obrigada a moldar em cera as cabeças dos decapitados, seus amigos.

Tem uma cena dela sentada na cela, na sua frente uma vasilha com cera quente, uma cabeça decapitada em cima da outra mesa. Ao seu lado direito um soldado e do esquerdo um personagem da Revolução. É impressionantemente bela e trágica a cena. A sala dos horrores, onde estão todos os criminosos, principalmente os antigos mais famosos, dá arrepios e piedade pela péssima celebridade que o homem é capaz de adquirir quando se inclina para o mal.

A sala dos homens célebres – presidentes, senadores, lordes, cardeais, papas, criadores do protestantismo, os mandantes da China revolucionária, reis e imperadores estrangeiros.

A sala do trono – com a Rainha Elizabete II, o Príncipe Felipe, o Príncipe Charles e a Princesa Ana. Ela em pé, em frente ao trono, ele mais atrás. O filho abaixo do tablado, com um pé no primeiro degrau e a mocinha no lado oposto, do lado do pai. No centro, a corte, incluindo a Princesa Margarete e seu marido. Duque e Duquesa de Kent e por aí afora. Gente de título das nobrezas inglesas e seus países vizinhos.

O Pelé, se sabe que é ele, por ser o único herói no esporte preto e porque usa o traje da CBD. Com uma bola na mão e aos pés a Taça do Mundo. Não é possível descrever tudo, principalmente de memória.

Encerra-se a visita com o Planetarium. Além de ser escrito em inglês o negócio não foi todo apresentado. Foram só vinte minutos de cabeça para cima.

De lá do Museu fomos fazer compras na carreira. Fazer compras com o Waldemar é melhor não ir. O mocinho fica num nervoso que dá vontade de lhe dar umas palmadas. Tivemos que voltar ao hotel, tomar banho, trocar de roupa e ir ao “tour”. Pensamos que era ônibus, mas como só éramos nós quatro, eles nos mandaram um carro com um simpático espanhol servindo de guia e chofer.

O que vimos em Portugal e Espanha nos agradou pelo ineditismo. Vimos folclore na fonte e são coisas que agradam em cheio. Mas como ia dizendo: o moço nos levou a uma Taverna que se chama simplesmente “Sherlock Holmes”, só servem bebidas. E é um ambiente quase fúnebre. O inglês fala baixinho, bebendo com toda calma, como se estivessem tratando do negócio mais sério do mundo.

É um caso interessante: desde a Suíça que não se ouve barulho. Ninguém buzina, não se grita nem se fala aos berros. Nos grandes Magazines, parece que está quase vazio. Quase que se sussurra, na Inglaterra é talvez mais sério. O inglês fica olhando sem ver a sua bebida e de vez em quando toma um gole; cofia os bigodes, quando os tem, fuma seu cachimbo, em pé ou sentado, sempre calado, pensando. Os sentados em dois ou três falam baixinho, sempre bebendo e sorrindo às vezes. Fomos até em cima, onde fica o restaurante e lá, ao lado do mesmo, tem um quarto pequeno com todos os apetrechos que a imaginação de Conon Doyle disse pertencer ao detetive de sua criação.

Uma mesa onde estão uma lupa, um cachimbo, candeeiro, os vários recursos para disfarce. A mesa é redonda, forrada com uma toalha, me parece branca. Nas paredes tem várias gravuras. O violino em cima de uma cadeira, na lareira vários retratos e muita coisa mais que me foge. Mas o mais impressionante é um manequim, com a fisionomia do Sherlock Holmes, com um buraco de bala na fronte. Diz que ele se suicidou. Fora do quarto tem vários retratos e desenhos e cenas de filmes. O que não faz a imaginação para ganhar dinheiro! Até a cabeça do cachorro que o ajudou – em alto relevo, dentro de um quadro, em azul, dá um efeito de vida formidável.

Não fosse em inglês, iria me fartar de ler as gravuras e recortes de jornais que enfeitam todas as paredes da Taverna. Tudo colocado em molduras como coisa preciosa que é. De lá seguimos para outra Taverna em moldes diferentes. O rapaz estava nos mostrando a diferença entre a vida antiga e a moderna em Londres. A nova Taverna é o que nós chamamos de êi-iê. Aliás, a rua inteira pertence a eles, é um dos comércios mais caros da terra.

Londres

As ruas londrinas são largas, limpas e alegres. Esta não foge às regras (não tivemos o nevoeiro e parece que ultimamente não tem havido). Existia mais por causa do carvão betuminoso que queimavam nas residências, mas agora, diante do decreto de lei, os teimosos ingleses deixaram de queimá-lo e daí acabou o nevoeiro (quase).

Mas, voltando ao assunto taverna, esta se chama Trafalgar e fica na rua do mesmo nome. Tem uns dezesseis metros de frente e nas janelas tem vidros vermelhos. É térrea e lá dentro tem, no lado direito (como a outra), um balcão semi circular. Moças de short preto de veludo e blusa vermelha, despacham as várias bebidas pedidas. Moços e moças sentados em cadeiras em forma de cavalos (os lados das mesmas) fumam, bebem e namoram. A meia-luz prejudica a visão e junto com a fumaça dos cigarros – mais duas horas e ninguém respira lá dentro. Gente de todas as nacionalidades se misturam para arrebentarem os tímpanos. Disse o rapaz (guia) que lá pelas 10h da noite começa uma fila que não tem tamanho. Aliás, é a única Taverna ou Cabaré que tem fila em Londres (será que em outro lugar existe isso?). A rapaziada lá estava a ouvir a sua música (?) até o mais alto som, todos felizes, sem pensar que tudo na vida é transitório. Querer viver demais no presente para cansar demais no futuro.

Já eram 9h15 da noite e rumamos então para o restaurante onde tínhamos de jantar. Lá é Teatro-Boite-Restaurante. É grande toda vida. Tanto que tem dois toilettes para senhoras e cavalheiros, embaixo na entrada e lá dentro, no terceiro pavimento. Embaixo, onde está o piso, tem pista de dança que no momento preciso dá uma “subida” e se transforma em palco e muito bom. O show foi muito bom, apesar da opinião em contrário do nosso caro amigo Waldemar. Ele disse que em Paris é bem melhor. Eu lhe respondi que, enquanto não estivesse em Paris, Londres nos servia perfeitamente. O que ele gosta mesmo é de mulher pelada, isto sim.

Mas enfim, a gente se satisfaz com o que tem em mãos e apreciamos grandemente as bailarinas, bailarinos e ótima orquestra. Depois do intervalo chegou a vez de um trio americano, negros, fabulosos. Acompanhados de grande orquestra, eles cantaram e dançaram a valer. O mais velho, que é pai do mais moço, cantou pouco. Grandes!!

Enquanto isso nós jantávamos, no escuro, peixe, não engolimos espinho por milagre. Saímos de lá às 23h, foi a melhor noite depois da Espanha.

16/Junho/71 – de Bruxelas a Londres

Saída de Bruxelas às 7h15 – Chegada em Ostende, porto para travessia obrigatória para quem vai a Londres – 8h45 – Travessia do Canal da Mancha.

Em Bruxelas ainda está chovendo e fazendo um frio de quatro graus. Entramos no barco às 10h.

Acabamos de almoçar e o barco continua singrando os mares do Norte, atravessando o grande Canal e não sei quem teve a ideia de atravessar isto a nado. Só mesmo um louco.

Navegamos 3h15. Mais uma hora e eu teria posto o almoço para fora. Nem a travessia da volta de Capri foi tão ruim. Enfim, aqui estamos em Londres, apreciando o orgulho dos ingleses e com justa razão. Como eu esperava das suas casas de residência, a arquitetura é fora do comum. Não vimos em outra cidade da Europa nada igual. São lindas e graciosas. São diferentes. Só não gostei das chaminés. Destoam completamente das casas. Dá a impressão de uma chaminé mãe, com uma porção de filhotes. Horríveis! O hotel é muito bom e para alegria do seu pai o pessoal do restaurante é espanhol. Amanhã iremos ver a cidade. Depois contarei o que puder.

15/Junho/71

Saímos da Holanda cerca das 8h, entramos na Bélgica às 10h35. O tempo está horrível, desde ontem de tarde que chove e o frio aumentou e a minha garganta está sentindo demais com o clima. Infelizmente todos têm que aguentar o meu tosse-tosse.

Na cidade de Rotterdam passa-se por um túnel construído embaixo de um rio, tem mais ou menos 1,5 km de extensão.

Na Bélgica, perto da fronteira, ou melhor, nas cidade próximas à fronteira com a Holanda, fala-se o flamengo, que deve ser uma mistura de francês e holandês. Não sei em que altura se faz essa mudança, mesmo que não estivesse chovendo, seria difícil sabê-lo. Tudo nessa Europa é complicado, tem fronteiras que exigem os passaportes, carimbam, leem, olham para os retratos e depois a cara da gente; em outras não tomam nem conhecimento se estamos entrando ou saindo.

Se olhassem muito para o Antenor, não o deixariam entrar, pois um barbeiro em Copenhagen quase lhe acaba com o bigode. Se o homem compreendesse o português, ele não teria só lábio cortado (recebeu uns 5 cortes), teria o pescoço também. Ficou horrível. Está a deixar a crescer para fazê-lo em Portugal.

Vamos rezar para Santa Clara, quem sabe o tempo melhora!!!! Chegamos às 12h30.

16h – o ônibus que iria nos pegar às 14h, chegou agora para nos levar à Bruxelas. A cidade está um pouco abandonada, tem-se a impressão que o povo daqui ou não preza a cidade ou parou no tempo, apesar da boa vontade do guia em nos mostrar algo que podia e devia ter e não existe. É pena também a chuva não ter nos ajudado. O mais bonito que vimos foi a Praça do Mercado. Deve ter havido alguém ali, mas agora não tem nada para comprar ou vender a não ser restaurantes, cafés, cabeleireiros e uma porção de coisas. O que atrai são os edifícios em estilo barroco-flamengo, lindos apesar da má conservação.

Interessante é a fonte que se tornou o emblema belga. Uma criança de bronze fazendo xixi há mais de um século. Tem uma carinha risonha e sem vergonha. É uma fonte que fica em uma esquina, no lugar mais despretensioso possível.

A Catedral, onde são coroados os reis, é muito bonita exteriormente (não entramos). O parque onde está o Palácio Real vale a pena ser visto. Tem pouca coisa notável a pequena e simples Bruxelas. Teria muito mais se fosse mais amada. O que vimos de mais moderno foi o local onde aconteceu a feira mundial em 1958. É um troço fora do comum. Tem não sei quantas esferas enormes (seis ou oito) e tem dentro restaurantes e uma porção de coisas. São seguradas umas às outras por tubos que, sem dúvida lá dentro, tem escadas ou elevadores. Pedi ao seu pai para comprar um cartão com as fotos, só assim vocês terão uma ideia do negócio. Não sei se ele lembrará.

Acabamos de jantar no hotel e almoçamos aqui também. Estou deitada escrevendo. O Antenor saiu com a Lourdes e Waldemar, não sei como aguentam, principalmente o Waldemar, bancando o caipira fanfarrão. Nesse frio danado, com uma roupa de gabardine e camisa de meia manga de malha de algodão. Já fiz de tudo para que aceite o pulôver do seu pai, mas o diabo é mais cabeçudo do que burro quando empaca.

Compraram Terramicina para mim, essa desgraçada da garganta parece que tem fogo lá dentro.

14/Junho/71 – Amsterdam, Holanda

Saímos de ônibus para ver Amsterdam. Deve ser frigidíssima no inverno, ela é cortada de canais, sendo 100 ao todo com 800 pontes, pelo mapa vocês verão.

Construir aqui é um sério problema, pois não existe terreno para semelhante empreendimento. As casas comerciais são todas aproveitadas das partes térreas das residências, as quais têm quatro ou cinco andares, não sei se existem elevadores, mas creio que não. As portas são estreitas para entrada e móveis, em cima de quase todas as casas tem, bem em cima, junto ao telhado, uma saliência com um gancho para fazer subir os móveis suportados por cordas e entrando pelas janelas, tudo muito estreito – portas e janelas.

Quem quiser ter casa própria e conseguir um terreno por milagre, levará uma eternidade esperando que a prefeitura o apronte. Leva, bem no fundo do terreno escavado para tal, uma grossa camada de areia, vinda de outros lugares e por cima colocam pilotis de concreto, de madeira preparada para resistir à umidade ou ferro. Esse negócio leva anos para ser executado. Depois de tudo pronto é que se constrói a casa, mas só a casa é do proprietário, o terreno é da prefeitura. Uma casa assim custa 200.000 dólares. Quem não pode ter casa assim nem encontra apartamento para alugar, aluga ou faz uma casa dentro d’água. São de madeira e tem aos montes por aqui. Não sei se são lacustre (fixada no fundo do rio) ou se em alguma coisa navegável. Só sei que são lindas de se olhar. Mas lhe digo uma coisa: Viva o Brasil!!!!!

As cidades mais importantes, além da Capital são: Rotterdam e Haia. A primeira é centro industrial e a segunda centro político.

Visitamos um Museu, não deu para ver quase nada, escolhemos a parte das pinturas, pois queríamos admirar Rembrandt. Foi um corre-corre danado, só tínhamos meia hora. Tem coisas belíssimas, mas fica no mas…….

A época das tulipas já passou, é no começo de abril até maio, também o nosso tempo aqui é curtíssimo. Só um dia. Amanhã cedo sairemos para Bruxelas.

Vimos lapidação de diamantes. Cada grupo teve o seu intérprete e o nosso falava castelhano. Só tem homens trabalhando lá. Existem várias casas no ramo, o moço nos disse que não tem diamante 100% puro. Nos mostrou desde o processo de cortar: uma lâmina de aço puro que é trocada de duas em duas horas; depois de cortado procuram moldá-lo do jeito que desejam e então começa a lapidação em lixas de aço fino. Também existe o processo de corte com o próprio diamante cortando outro. Cada lapidação exige uma paciência enorme da parte do operário, cada vez que ele passa a pequena pedra na lixa tem que olhá-la através da lupa para ver como está seguindo o trabalho. A olho nu apenas vê a pedra que está presa ao aparelho. O homem tem que estar sentado em frente à mesa que comporta três ou quatro trabalhadores ao mesmo tempo. Um operário estará pronto para esse trabalho depois de três ou quatro anos de aprendizado. O processo é lento e deve ser enfadonho, pois cada pedra, grande ou pequena, tem que ter 58 facetas para a sua lapidação estar completa.

12/Junho/71 – a caminho de Amsterdam

Sairemos pelas 8h30 ou 9h para Hamburgo, se Deus nos ajudar chegaremos em paz. Chegamos às 17h.

13/Junho/71 – Hamburgo – Amsterdam

Alemanha, Dinamarca, Suécia, Holanda e Bélgica (clique na imagem para ampliar o mapa)

– partimos de Hamburgo para Amsterdam. Meio dia chegamos à última cidade alemã – Kalmar (não encontrei no mapa). Ainda que pareça incrível, não nos pediram passaporte, nem no lado alemão nem do lado holandês.

Chegamos às 17h35, fomos jantar às 19h e os três saíram para fazer um “tour”. Eu fiquei para não piorar a gripe. Amanhã me juntarei ao grupo. São 21h, está querendo anoitecer na cidade de Amsterdam. Somente as casas na Holanda têm a mesma arquitetura das outras da Alemanha, Itália, Suécia, Suíça e Dinamarca. O resto é diferente. O represamento da água começa praticamente desde a fronteira. Tem mais pasto e gado pastando do que plantação de cereais.

Não pude ver como queria porque estava muito mole devido à gripe, tossindo muito e não sei porque com um sono danado. Amanhã, tomara Deus, verei melhor tudo, então procurarei relatar da maneira mais verdadeira.

Nas casas e apartamentos por estas bandas pode faltar o que quiser, menos flores e cortinas nas janelas. Quando não existe varanda ou jardineira, as flores e os enfeites são por trás das vidraças. Junto com as transparentes cortinas e quase sempre rendadas, formam um efeito maravilhoso. Até nos restaurantes e motéis se encontram janelas encortinadas. Gerânios de uma variedade de cores e estilo que encantam, hortênsias enormes, de cores várias, as rosas sempre são em trepadeiras, enfeitando muros, janelas, portões, grades, caramanchões e jardins. Sempre tem “eras” subindo pelas paredes, modelando casas e apartamentos, tornando-os mais bonitos, se for possível. Aqui existe um profundo amor pelas águas e árvores.

Nas pequenas propriedades, as casas geralmente de dois pavimentos e as indefectíveis águas-furtadas são todas rodeadas de árvores. Só que elas (as árvores) por aqui dão flor, a não ser que sejam frutíferas, mas mesmo assim é de notar a ideia de saúde que eles têm diante da purificação do ar através da árvore e da água.

Malmo, Suécia

9h30 – saída para Malmo – Suécia. Vamos de ônibus turístico, pois fica mais cômodo por não precisarmos tomar hotel. Estaremos de volta pelas 19h. O danado do guia só fala inglês e francês. Só o Waldemar e o Sr. Diamantino entendiam. A Lourdes pesca alguma coisa do inglês, mas como diz seu pai: tudo é farra…

É interessante notar um fator estranho e que desvanece o europeu destes lados, isto é, Suíça, Alemanha, Dinamarca e toda a Escandinávia: o nível de vida aqui é muito alto, mas apesar disso não existe miséria, como nos Estados Unidos, por exemplo. Aqui se trabalha e estuda, se trabalha e é dona de casa. Todos têm sua vida própria e acredito que gozem de fartura, embora a vida seja cara. Mendigos não vimos nenhum, mesmo na Itália, onde o povo comum é mais mal trajado em comparação aos outros que vimos até aqui, mesmo assim, como na Espanha até os cegos trabalham. Só na Itália tem mendigos realmente, mas não são maltrapilhos.

Quando chegaremos a esta altura? Pois com toda nossa malandragem, vamos demorar um pouco, não??

Para a travessia fronteira à fronteira tomamos um barco que nos engoliu com dois ônibus e tudo, à moda da baleia que papou o Jonas bíblico ou o Pinocchio, como queiram. O mar está manso mas não existe sol, portanto não há beleza.

Desembarcamos às 11h mais ou menos em Malmo, que é das poucas cidades que agrada logo que se vê. Até a entrada atrai nossos olhos desprevenidos. Os edifícios quase todos do mesmo tamanho, de quatro a dez andares, com varandas floridas, mas largas, com caminhos para pedestres (calçadas), bicicletas (beira da mesma) e automóveis.

Igreja Católica em Malmo, Suécia. Arquiteto: Hans Westman (1960).

Vimos uma moderna Igreja Católica, que aliás existem duas nessa terra de luteranos, e agora estão a fotografar um monumento sui-generis em frente ao teatro. Esculpidas em bronze, várias figuras conhecidas em teatro, desde Charles Chaplin até Hamlet. Sobre um pedestal de mármore figuras em tamanho natural das sete artes e encimando as figuras que me refere acima, cobrindo-as está um repuxo que vai jogar no tanque onde está colocado o pedestal. O efeito atinge o máximo em beleza.

“Monumento sui-generis em frente ao teatro”

A cidade tem bosques enormes, lagos e jardins bonitos e bem cuidados. O verde impera em toda a belíssima cidade que faz parte, orgulhosamente, do reinado de Gustavo Adolfo.

Almoçamos no hotel onde teríamos que nos hospedar, logo depois fomos ao banheiro, Lourdes e eu, mas quem disse que conseguimos entrar? Estava batendo chifre lá dentro, tentamos uma segunda vez, sem resultado, por fim deixamos para mais próximo da saída.

Andei um pouco sozinha e voltei lá, estava quase vazio. Safa!! Mulher quando se junta em toilette é fogo… Estou sozinha no ônibus, os outros estão dando um passeio, pois está chuviscando e estou tossindo muito; chega o que recebi de vento ontem no Tívoli.

Tem uma senhora no ônibus que não pode descer escada, creio sofrer de dores nas pernas. Ela pede auxílio ou lhe dão voluntariamente, deve orçar pelos 60 e alguma coisa e está viajando só. Lembrei de uma americana velha que encontramos no hotel em Roma. Alvoraçada, extrovertida, extravagantemente vestida, parecia uma cigana rica, separada do seu bando, correndo mundo para gastar o que havia conseguido amealhar. No fim descobriu que era americana e, pelo jeito, milionária. A tínhamos visto à noite, brigando com o rapaz da portaria, porque queria contar todos os documentos e dinheiro que ia mandar guardar no cofre do hotel e contava e tornava a contar. O pobre moço ficou mais velho que ela, só em aturá-la. Pela manhã, na hora do café, estava no restaurante a tirar retrato de tudo quanto era garçom e, se não quisessem, veriam o que ia acontecer!!!! Juntou à força um bocado deles (cinco ou seis) e bateu a chapa. Sobrou um que foi reclamar dela, não teve dúvida, colocou o rapaz lá no canto e tirou retrato dele sozinho. Quando terminou, abraçou-os e beijou a todos. Juntou as suas coisas (que não eram poucas) entre papéis, badulaques e porcariada louca, e foi-se. Quando olhamos para a cadeira, ela havia deixado uma luva, corri para entregá-la e quase não a alcanço pois parecia o furacão da Flórida, com rabo e tudo.

A chuva aumentou e vamos saindo de perto do hotel exatamente às 14h. Aqui perto fica o cemitério, não tem muro, apenas uma grade o separa da rua e tem alameda para passeio, saindo livremente da calçada.

Alcançamos a cidade de Lund, descemos para visitar a Catedral, mas eu fiquei, estava chovendo, o que não é mole. Não sei quantos quilômetros dista de Malmo, mas é muito perto, é menor que a outra, mas é bem bonitinha.

Ganhei, comprado em Malmo, um viking de madeira do tamanho de um dedo. O coitado tem mais nariz e cornos do que outra coisa, faz dó de tão feio, mas é engraçadinho a valer.

O que mais atrai em Lund é um relógio construído em 1380, astronômico, foi destruído em 1837 e reconstruído por um arquiteto dinamarquês em 1923. Não o vi mas todos foram unânimes em dizer que é um encanto único.

Seguimos viagem por outras plagas e atingimos uma aldeia que não conseguimos guardar o nome de tão difícil é o danado.

A maior reserva florestal do país é de propriedade particular. São 40 mil acres de terra, banhadas por lagos cheios de campos cultivados, floresta amazônica portentosa. Estou brincando. O panorama é belíssimo e é pena a chuva ter estragado em parte o nosso passeio. O dono das terras habita em castelo no meio da floresta. Vê-se de longe e se tem a vontade de ir ver de perto como habitavam as damas e cavalheiros de séculos passados. Parece um conto de fadas.

Atingimos a aldeia de Svaneholm. O Castelo que é hoje transformado em Museu, tem coisas valiosíssimas. Lá saltamos e tomamos a mangirioba, que chamam de café nesta parte do mundo. Se não deitar um pouco de creme, ninguém consegue tomá-lo. Café bem feito, gostoso realmente, melhor talvez que o nosso, é o italiano, aquele sim paga a pena tomar.

Amanhã estaremos de volta a Hamburgo. O passeio foi magnífico, só que a chuva destruiu em parte o prazer.

11/Junho/71 – Parque Tívoli, Copenhagem, Dinamarca

Ontem à tarde fomos ao Parque Tívoli (parque de diversões) e gostamos tanto que voltamos à noite. Lourdes e o Waldemar foram fazer o “tour” e, como havia strip-tease, eu não quis ir. O Antenor ficou maluco para ver o Parque à noite e lá fomos os dois sem saber isca de inglês ou alemão ou dinamarquês. De noite é simplesmente deslumbrante!!!!! A iluminação em cores, arrumada artisticamente em fontes, restaurantes, árvores, lanchonetes, brinquedos de todas as espécies, jardins, avenidas.. vocês não podem imaginar o que é aquilo lá dentro. Os principais restaurantes são três: um pagode chinês, cuja iluminação principal é o vermelho, outro imitando estilo turco, onde a iluminação é variando para o verde e azul e o Bellé Terrasse, de inspiração francesa, todo em branco. Esse Bellé Terrasse tem teatro de variedades embaixo e o restaurante é no andar superior, comida francesa e italiana. Seu pai queria ir nesse, não quis ir, é muito requintado.

Parque Tívoli à noite (slide comprados durante a viagem)

As cervejarias, sorveteria, jogos e fontes são uma diversão para todo o povo que ali está se divertindo sadiamente. Os lagos, com flores, os pequenos bosques, nem sei dizer como tudo é belo e atraente. De tarde estava em um dos palcos uma orquestra com uma cantora, com música de mocidade e, à noite, no mesmo palco, músicas meio clássicas. Em outro palco vários números de acrobacias, verdadeiros milagres de equilíbrio, acompanhados de ótima orquestra.

Em umas avenidas a iluminação era em arco, em outras, lanternas chinesas dão um brilho avermelhado. As cores se confundem numa orgia adorável. A rapaziada não se cansa de correr, tomar sorvetes, refrigerantes, jogar, cantar, nem beijar, nem abraçar, montar nos inúmeros brinquedos como: trivoli, roda gigantes, carros antigos, carros modernos que se chocam mutuamente, barcos guiados pela água, montanha russa (donde se ouve gritos dos seus ocupantes), carros vikings numa velocidade incrível. Não sei como quem está lá dentro não é cuspido fora, de tão depressa que vai; é o paraíso das crianças, o céu dos adolescentes e a alegria dos adultos.

Jantamos, ou melhor, tomamos um gostoso lanche de salmão, pão, maionese e alface com meia garrafa de vinho. O cardápio era escrito em inglês, alemão e dinamarquês.

10/Junho/71

Estamos esperando Lourdes e Waldemar para ver se alcançamos o ônibus para darmos um giro na cidade e conhecer os pontos mais interessantes. Um vento frio envolve toda a cidade dando-nos a ideia de que não saímos de São Paulo. Estamos no ônibus “Tour”, partindo da Praça e vai começar a peregrinação.

Tivoli, parque de atrações em Copenhagem

Alcançamos o Tívoli, uma espécie de parque de diversões. É permanente e é uma das maiores atrações das noites desta agradável cidade. Depois veio a Estação Ferroviária e o Museu de exposição permanente. Tudo isso são edifícios enormes em cor escura e esse Museu é exteriormente muito feio.

Tivoli, parque de atrações em Copenhagem

Palácio do Bispo – bonito e no jardim tem uma maquete da cidade que ele fundou: Copenhagen. Edifício enorme é o antigo mercado de arenques, onde havia negócios com todo o mundo e depois mercado de carnes.

O Museu foi doado por uma cervejaria (não sei qual) ao país. Na entrada tem a estátua do famoso Rodin “O pensador”, fora outras que circundam todo o edifício.

Museu Nacional – antigo mercado

Tribunal – construído há 1.200 anos

O Rei Cristiano IV foi o segundo fundador da cidade, uma espécie de sultão dinamarquês, pelo que se sabe, teve cinquenta filhos; dizem aqui que ele foi o pai da Europa, pois vários filhos casaram nas cortes europeias. Construiu para a sua favorita um lindo parque, que ainda hoje embeleza a cidade, um castelo e uma fortaleza. Dizem também que existem poucas famílias na Dinamarca que não tenham por avô ou bisavô o Rei Cristiano IV. Não foi prolixo só em mulheres e filhos, foi também um grande benfeitor desta cidade que, como dizem os filhos dela, foi seu segundo fundador.

Construiu castelos, lagos (o Tívoli é artificial), museus e um mundo de coisas que honram ao seu antigo Rei. Existe aqui o Tívoli Parque e Lago Tívoli. Os lagos naturais são em três com água doce. Tem um fato interessante, narrado com crítica pelo guia: a Embaixada dos Estados Unidos e União Soviética são divididas pelo cemitério.

Igreja inglesa (anglicana) num belo edifício e em um gramado bem cuidado o busto de Churchill. Ao lado desta igreja existe uma fonte enorme que é um monumento: ela marca o local da fundação da cidade, se chama Fonte Gefion.

Estátua da Pequena Sereia: “Ela tem uma expressão triste de quem perdeu o amor e foi obrigada a ir para muito longe dele”.

No Parque, construído por Cristiano IV, existe ainda de notável um monumento aos marinheiros mortos na I Guerra Mundial e ao soldado, bem mais moderno (atual), a Associação do Ya (Club ou Real). Tem ainda, na beira do mar que bordeia o Parque, a estátua da Sereia. Ela tem uma expressão triste de quem perdeu o amor e foi obrigada a ir para muito longe dele.

Lá ao longe se vê uma ilhota com uma fortaleza. Dista de Suécia cerca de 3 km.

Bairro Porto Novo – construído por Cristiano IV, tem barcos mais rápidos para serem usados nos canais.

Existe uma estátua do fundador de Copenhagen, Bispo Absalon, muito bonita e muito coberta de excremento dos pombos.

Academia e teatro reais no mesmo quarteirão. Por fim, dos monumentos históricos que consegui registrar, existe a residência dos Reis, construída por Frederico V, Igreja, Palácio Real, palácio onde mora sua filha e outro onde funcionam para recepções e hospedagens de estrangeiros importantes. O Rei atual, Frederico IX, tem 73 anos, é tetraneto do idealizador das residências.

Lavei um lenço grande de cretone (estou resfriada) às 6h manhã e às 8h estava enxuto, dentro do banheiro!! Diz o Antenor que até os velhos ficam enxutos.

 

Copenhagem

São 150km até Copenhagen. Estamos procurando um restaurante para almoçar, são quase 13h.

O restaurante é um encanto, um capricho de dona de casa, nem todas, pois infelizmente não tive tempo nem recursos para o capricho e agora já passou da época para os interesses materiais, embora talvez se pense de outra maneira.

Quem serve no restaurante é uma senhora falando inglês, para o entendimento do Waldemar e do Sr. Diamantino. Cada janela tem uma cortina vaporosa com renda e entre elas um complemento em fazenda estampada, de muito bom gosto – Motel Guldborg.

Hotel 3 Falcões – Copenhagen-Dinamarca

Nunca em toda a minha vida sonhei com esta viagem, muito menos estar hoje em Copenhagen. Só desejo, sinceramente, que um dia vocês possam fazê-la….

A cidade atraí pelas suas ruas amplas, avenidas imensas, povo simpático e educado. Os nossos motoristas de táxi deveriam ter umas aulas de educação para imitar um pouco os europeus. Até agora não encontramos nenhum mal educado, caladão sim. Mesmo os italianos, que neste ponto são bem irmãos nossos, têm um pouco mais de cortesia. Hoje pegamos um táxi (taxa – como fala o dinamarquês) e nos deparamos com um senhor que nos mostrou a cidade com a maior deferência. Fala pouco o inglês, mas deu para o Waldemar entender. Mostrou-nos os pontos mais interessantes da cidade e amanhã iremos de ônibus para ver melhor. Hoje à noite, seu pai e o Waldemar vão ver as loiras nuas de Copenhagen. O negócio é tão sério que o Waldemar pediu à Lourdes para não ir. Sim, porque ela indo ou não, sinto muito mas não irei. O mundo noturno já tem espectadores demais para suas pornografias, não precisa ser aumentado pela minha “persona grata”.

Ópera de Copenhagem

Irei ao Moulin Rouge, porque dizem ser arte verdadeira, não existindo simplesmente exposição de sexo. O Waldemar acha a coisa mais natural do mundo e não acha que eu tenha razão em não querer ver. Nós vimos as coisas por outros olhos. O nu, no meu ignorante julgamento, é para ser visto como beleza, se assim se consegue compreender.

Mas fazer do nu meio de vida para gozo sexual, exposição de sexo, como quem vende mercadoria, não aceito esta teoria. O sexo é coisa divina, não é disfarce de bacanal nem de prostituição. Enfim, cada um enterra seu par como pode.. e isto tudo é visto a peso de ouro, custa uma nota ver esta porcariada toda.

Waldemar e Antenor terminaram não indo ao cabaré….

Vimos uma rua tipo Barão de Itapetininga, só que bem mais larga e tem até mesas de restaurante na rua. É comercial também, tem bonitas lojas e coisas lindas e diferentes em exposição.

Zurich, Hamburgo e Copenhagen têm alguma semelhança por causa das águas que banham. Zurich tem um lago enorme, bonito toda vida. Hamburgo também tem lago e é porto fluvial, pois o Rio Elbe lhe serve para isto. Como disse atrás, não deu para ver direito, apesar do nosso hotel ficar pertinho do lago, só da janela pudemos ver qualquer coisa. Às 21 horas ainda era dia, mais por isso deu para apreciarmos. Os dias aqui ficam cada vez mais longos, pois às 3 da manhã já está claro. Não sei as horas em que começa a amanhecer.

Copenhagen tem canais cortando vários pontos da cidade e o mar que lhe dá um grande porto livre. Somente em Zurich tivemos realmente água doce no banheiro, o resto é salobra demais. Em Madri foi um pouco melhor, mas mesmo assim talha sabão que é uma beleza.

Dinamarca

Saímos em direção da Dinamarca.

Temos que atravessar o mar na altura de Puttgarden. De Hamburgo até aqui a paisagem é deslumbrante aos nosso olhos de brasileiros, que não conhecemos essa ordenação nas coisas bem feitas dos europeus. Isto o sulista brasileiro conhece em parte.

Hamburgo é uma linda e atraente cidade. Ontem demos uma volta de táxi e apreciamos a beleza da iluminação que ajuda a ver melhor as bem arrumadas vitrines. Só nos deu vontade de saltar e andar pelas ruas comerciais comprando com os olhos aquilo que desejaríamos possuir; mas o sono não deu e ainda tínhamos que fazer uma arrumação nas malas para diminuir a bagagem e, consequentemente, o peso delas.

A nossa bagagem aumenta a olhos vistos e o carro está sentindo o resultado disso. Não sei como iremos fazer, pois temos ainda muitas compras a fazer em Paris e Londres.

O que mais gosto dessas casas, nas zonas agrícolas, é a uniformidade até nas cores. Não existem casas caiadas ou pintadas, são de tijolo cozido. E tem mais uma coisa, não existem nas cidades grandes os tais arranha-céus. Mesmo em parques residenciais o máximo de altura são quatro andares. Todos têm sacadas e flores embelezando tudo com uma graça de donzela vaidosa.

Estamos entrando no navio com carro e tudo (a bagagem que diminuímos é para tirar parte do peso nessa viagem). Deixamos o resto da matulagem no hotel, pois retornaremos depois de visitarmos Copenhagen e Malmo.

Como escrevi acima, o navio engoliu um monte de automóveis e até um trem de passageiros. Essa parte do Báltico é mansa como um rio. Diz seu pai, com a confirmação do Sr. Diamantino, ser um braço de mar que separa a Alemanha da Dinamarca.

É imenso e calmo, mas as águas não têm beleza pois o céu vive encoberto. O sol não aparece em Hamburgo e quem o quer ver vai passear na Dinamarca. O mar aqui não tem a agonia que encontramos em Nápoles. O navio vai devagar, seguro e firme ao seu destino, que seja sempre assim pelos tempos afora…

Dentro do mesmo se encontra de tudo: lojas, restaurantes, gente como se estivesse nas ruas, comprando e apreciando as vitrines, comendo sentados nas mesas junto às nossas e até câmbio para troca de dinheiro. O navio aportou depois de uma hora de agradabilíssimo trajeto.

08/Junho/71 – Hamburgo, Alemanha

Estava programado sairmos mais cedo hoje de Frankfurt, mas a roupa que se mandou lavar ontem até agora não chegou e temos na nossa frente quase 500 km de estrada até Hamburgo. Tínhamos esperança de chegarmos lá pelas 17 ou 18h, mas nesse cortar creio que só lá pelas 20h. São 9h15.

As partes mais interessantes desta terra não vimos. Deve ter bonitas atrações para o turista, sem ser os seus indecentes cabarés. O que gostamos de verdade foi do restaurante “Maria”, onde fizemos três refeições completas, fora uns sorvetes e cafés que nos serviram uma noite. O hotel em matéria de atenção perde feio para outros desatenciosos que já encontramos. Enfim, podia ser pior.

Meio-dia, só agora chegou a roupa da abençoada lavandeira e ainda assim com duas peças nossas sem passar. A que horas chegaremos em Hamburgo? Só Deus sabe. Enfim chegamos às 19h30.

Seu pai não se conforma em ver que até agora não escrevi nada sobre a Alemanha. A bem da verdade não vimos lugar algum direito, muito menos Munich ou Frankfurt.

Chegamos em Munich no dia 04 (Sexta-feira) e saímos dia 5. Em Frankfurt ficamos três dias, se assim se pode dizer, mas na segunda-feira fomos fazer compras. Não são feias as cidades, ao contrário, são bonitas, cheias de movimento, de limpeza e de ordem. Cidade grande não é meu forte, a não ser que ela tenha a beleza aliada à simpatia, como Zurich (Suíça) e agora Hamburgo.

Alemanha (há poucas fotos da Alemanha)

A vida rural alemã deve ser de invejar, os campos são belos e as aldeias que se vê, espalhadas entre eles, são coisas de romance. As casas têm a mesma arquitetura, telhados muito inclinados para que a neve não se acumule demais e as interessantes águas-furtadas que são os olhos dos sótãos.

De raro em raro se encontra um mau hotel, como foi o caso do de Frankfurt. A fina flor da estupidez, em matéria de hotel, concentrou-se ali no Excelsior. E para nosso desespero passamos lá três dias.

Em compensação o hotel de Hamburgo é a fina flor do requinte, sendo o segundo que encontramos assim. Tem ar de palácio, de casa nobre. A sala de jantar deste último é uma delícia, só que uma noite não dá nem para apreciar.

07/Junho/71 – Alemanha

O Waldemar foi tratar dos negócios dele em Darmstdat e, enquanto isso, nós fomos fazer compras. É um verdadeiro drama não falar a língua do país, é um drama e uma comédia. Tanto rimos, nós como eles. No começo, o Sr. Diamantino esteve conosco, mas como ele tinha outros interesses, nós o dispensamos, agradecendo a sua gentileza.

E seguimos nós três pela Kaiserstrasse a falar em gestos, a apontar ou mostrar o que queríamos. Compramos sapatos, manteaux, calcinhas, sabonetes, produtos de beleza, meias e etc… Coisas que mulher quando vê, fica maluca. Ia também comprar um vestido para mim, mas não dava tempo de arrumar a saia. Depois do almoço, voltamos novamente e quando chegamos ao hotel, eram quase 18h30.

Na volta entramos na Apoteke International e, para surpresa nossa, ao invés do espanhol que o Waldemar disse haver lá, tinha uma alemazinha que havia passado catorze anos no Brasil. Foi a melhor hora que tivemos em todas as nossas andadas no comércio.

O diabinho da menina (deve ter no máximo 25 anos) é a simpatia em pessoa. Foi lá que compramos o famoso KH3.

05/Junho/71 – Frankfurt, Alemanha

Estamos novamente na estrada, apreciando o belo panorama (eu não estou escrevendo), em direção a Frankfurt. Não nos foi possível apreciar a cidade Munich, onde dormimos uma noite apenas e da qual saímos às 11h (hora local).

13h20 – Almoçamos num restaurante: Tankenund Rasten. Comida boa, sadia. O engraçado é que no cardápio já vem o almoço dividido: vários almoços completos, incluindo sobremesa (é um cardápio com vários numerados: sopa, salada, carne com acompanhamento e sobremesa).

Lourdes tinha visto na vitrine umas tortas e ficou com água na boca ao vê-las.

Depois do almoço, ela pediu as tais: uma para mim e outra para ela. Com as cinco do cardápio ficaram dezessete.

Tivemos que dar conta delas! Já imaginaram quanto doce? Engolimos tudo.

Paramos num posto para colocar gasolina (o carro). As máquinas automáticas tem de tudo. Sanduíche, sorvete, café, suco de frutas, coca-cola, frutas e um mundo de coisas. É só por uma moeda e sai comida ou bebida. Quando chegará o dia de sair criança também das máquinas, ao se colocar uma moedona? Sim, porque o homem deve valer mais que uma simples moedinha.

As florestas(?) daqui são todas plantadas com ordem. Aos lados da estrada estão elas, desde mais de meia hora, a mostrar a sua beleza verde. Não se vê uma árvore florida pois a maioria são pinheiros. E aí vamos nós ao encontro de Frankfurt.

17h30 – Foi a hora marcada pelo Sr. Diamantino e foi a hora que nós chegamos. O hotel é mais central, fica em frente à estação ferroviária e nos dá a visão de quem entra e sai de lá.

Gostei mais da estação de Milão. As estações daqui destas bandas têm de tudo – lojas, restaurantes, bares, bancos, bancas de revistas e jornais, floristas, as detestáveis escadas rolantes – detestáveis e necessárias, diga-se de passagem. E aqui em Frankfurt tem o que ainda não tinha visto: depósito pessoal para guardar bagagem. Aluga-se um, guarda-se o que se quer e fica-se com a chave até a hora da partida ou o prazo que foi estipulado pelo passageiro. É um serviço como caixa postal de correio. Só que o escaninho é bem maior, é claro.

De noite fomos fazer um “tour”, isto é, paga-se uma certa quantia e vamos de ônibus turístico a vários lugares, que são três invariavelmente.

Fomos assim em Sevilha, Barcelona, Munich e agora Frankfurt. É um negócio danado de rendoso, tanto assim que tem várias companhias. O agente ou intermediário está sempre na portaria do hotel e no ônibus, além do motorista tem um intérprete que fala três ou quatro línguas. As duas, de Munich e Frankfurt, não falavam espanhol ou italiano. Apenas inglês e francês.

Como na outra cidade, visitamos um restaurante típico. Aqui não pertence à Baviera, é outra região. Só as comidas se parecem, não usam cerveja como lá. Tomamos um ruim vinho de maçã. Não jantamos, pois havíamos feito no hotel. No tal restaurante, de músicos tinha um violino e um acordeon. Dentre os turistas com os quais sentamos na mesma mesa, tinham três italianos, um argentino, um chileno, um uruguaio e mais um brasileiro.

De modo que a conversa tornou-se quase geral. Em Munich, tinha um casal de portugueses de Porto e outro brasileiro de Santos.

O argentino e o uruguaio são dois senhores animados toda vida. Pediram que tocassem tango e foram atendidos. Então pediram um samba e foi aquela água! Não sabiam que La Cucaracha é samba? Pois eles sabem. Para seu governo, é musica mexicana ou cubana, não sei bem. Valeu a boa vontade do velho violinista.

Daí fomos a uma boate. Músicos regulares. Então fomos a um cabaré ver mais uma vez os afamados “strip tease”. Estragou a minha noite. Fiquei abafada hoje o dia inteiro! Como o mundo decaiu em matéria de moral, Deus do Céu!!!

Demos uma volta no centro comercial, para ver preço e localizar o que vamos comprar amanhã. Almoçamos em um restaurante típico italiano muito bom: “O Mário”.

Viemos para o hotel telefonar para casa. Não podemos até agora. Vamos tentar, para cumprimentar a Siomara. Faz hoje 19 anos. Deus a proteja.

Passou-se ontem de noite um negócio que vale a pena relembrar. Somente nós, no primeiro restaurante, não jantamos. No menu, vinha como uma das sobremesas queijo com música. O argentino e o chileno pediram o tal queijo, creio que mais por curiosidade. Primeiro chegaram os sorvetes que havíamos pedido e de repente o ar se encheu de um mau cheiro horrível como se alguém tivesse soltado algum gás indiscreto. Todos se olharam desconfiados (os homens), quando o argentino resolveu comer o seu “queijo com música”. O nome é bem empregado, só que a “música” não soaria bem com o nome verdadeiro.

O pobre homem empurrou o prato para lá e pediu outra coisa. O tal chileno deve ter sangue de alemão, pois comeu a porcaria com o maior prazer enquanto todo mundo torcia o nariz diante de tão angustiante fedor.

04/Junho/71 – Munich, Alemanha

10h – Estamos a caminho da Alemanha. O tempo continua bom. Última cidade da Suíça/Áustria é Santa Margarida.

12h20 – Áustria – Santa Margarida – Para encurtar caminho tivemos que passar pela Áustria. Vamos em direção à Bregenz – 16 km de fronteira à fronteira.

Não entrando na Áustria teria que contornar o Lago Constância, que banha três países: Suíça, Áustria e Alemanha.

Nesse lago nasce o famoso Rio Remo, que atravessa toda a Alemanha.

Acabamos de almoçar (14h) num restaurante do outro lado da Áustria – Lindau é o nome da cidade. Para nos entendermos com a garçonete, ela nos trouxe uma intérprete que falava inglês. Por sinal que era uma freguesa. Um almoço e tanto!…

Suíça, Áustria e Sul da Alemanha (clique para ampliar o mapa)

Munich – 17h50h do dia 04/Junho

A paisagem alemã é idêntica à suíça.

Campos cultivados, gado pastando, pequenas fazendas embelezando tudo, vilas que parecem cartões postais, flores por toda a parte. Bosques de ambos os lados da estrada com recomendação para ter cuidados com os veados que ao anoitecer atravessam de um bosque para outro, procurando onde dormir.

O seu pai não se cansa de admirar tudo isso com exclamações de prazer e alegria pelo que vê. É como se estivesse revendo os pagos. É muito bonito realmente. Os campos verdejantes nos dão uma sensação de paz com o mundo, muito embora ela esteja sempre periclitante. Mas olhando os camponeses na sua faina, as máquinas espalhando o feno, o gado pastando, as crianças nas suas bicicletas, as mulheres também pedalando, as ricas vilas – ricas em flores, em limpeza, em calma – nos dá a certeza na bravura do homem desta parte da terra, que apesar de ter sofrido tanto, continua enfrentando a natureza, que muitas vezes se forma em madrasta; continua enfrentando também os maus e fracos governos, como é o caso da Itália.

Visita-se uma cidade como Zurich e se tem o prazer de ver e conhecer algo de muito belo e eficiente. Não tem em toda a Europa natureza mais ingrata que os Alpes Suíços. E no entanto foi vencido pela altivez trabalhadora do homem que prometeu fazer de sua terra algo bom e muito querido para viver. De todos os países que visitamos até agora, o que nos dá mais tristeza pelo seu desalinho, descaso, desleixo foi a Itália.

O italiano merece coisa melhor que aquilo que lá está. Não me refiro às pequenas cidades – Verona, Pisa, Florença, Capri e algumas que não vimos. Roma, Milão, Napoli, Gênova … dá a impressão que tudo parou no tempo. O homem vive por viver. Não há estímulo. O trânsito é o pior que encontramos. Não existe confiança no homem para o homem.

Da Suíça para cá tudo mudou. Tudo é calmo e confiante.

Prazia aos céus que um dia a bela e velha Itália desperte para o presente e esqueça o seu passado de tantos crimes (tempo do império romano), para cultivar o PROGRESSO e a PAZ.

Assistimos ontem a três espetáculos. No primeiro, um restaurante típico da Baviera (região alemã). Muito grande, estava lotado. Não houve bailado, apenas tocavam (e muito bem) e cantavam. Gostamos demais.

O segundo uma “boite” em Babalos. Tinha um conjunto de rapazes. Ótimo. Tocavam muito bem. Um deles tocava quatro instrumentos: flauta, saxofone tenor e baixo, clarineta e mais um pandeiro. O cantor, muito bom. Depois, no terceiro, assistimos a um espetáculo de “strip-tease”. Sinceramente, sem falsos pudores, não gostei. É deprimente no sentido moral. Aliás, era o que eu esperava.

Vimos vários cabarés e restaurantes em Lisboa, Sevilha, Barcelona e agora Munich, mas em nenhum tive sentimento de tristeza como no “Intermezzo”. Até as próprias palmas dos espectadores eram fracas em comparação à procura. Dizem os “entendidos”, seu pai e o Waldemar, que se tornou cansativo por não ter havido variedade no programa.

Foi “nu” do começo ao fim. Pelo menos, até o fim para nós. Saímos à meia noite.

A mulher, com toda a sua falsa liberdade, continua escrava dos prazeres ínfimos do sexo. Diabos o levem!

03/Junho/71 – Zurich, Suíça

9 horas italianas de verão, são 4h da madrugada no Brasil.

Sairemos daqui a pouco para Zurich, Suíça. Milão está com uma temperatura formidável para brasileiro. Pelo menos para mim. Não sei lá como estará.

Gostei da Itália, com restrições. Não é somente o Etna que é o vulcão nem o Vesúvio. É toda a Itália. Isto aqui está em ponto de ebulição. A qualquer hora um engraçadinho jogará uma acha de lenha no braseiro… e lá se vai a aparência de paz de águas abaixo. Permita a Deus que não.

Tenho uma tristeza; não levo uma estatuinha de Davi, feita por Michelangelo – uma cópia, é verdade, mas muito bela.

Chiasso – última cidade italiana na fronteira com a Suíça. Ela é parte italiana e parte suíça. Mais suíça que italiana. A hora aqui é uma hora mais cedo. São 09h30 da manhã.

Alpes Suíços

Lago de Como / Itália – Depois de Chiasso, Lugano, com seu lindo Lago. Estrada acidentada também. Túneis. Cortada de pequenas propriedades, campos cultivados, vilas e vales, lagos belíssimos, florestas em suas montanhas. Estamos sempre subindo em demanda de San Gothardo. Ao lado esquerdo estão os Alpes Suíços com suas neves eternas. Não temos boa visão por causa da neblina, mas mesmo assim é um espetáculo fabuloso. Lagos congelados, a neve endurecida encobrindo os montes que margeiam a estrada. Frio de rachar, mas a beleza é de encantar. Cascatas aos montes embelezando mais ainda a paisagem, se é possível.

Alpes Suíços

Almoçamos muito em num restaurante suíço, de estrada. Comida ótima. Hotelzinho lindo. E por Deus que o rapaz entendia italiano, porque de inglês ele não “pescava” nada. Não dá para escrever o nome. Em todo o caso vai assim: Hotel Weisses Rossli. Entenderam? Eu não.

A parte mais alta que alcançamos nos Alpes Suíços (estrada), em San Gothardo, tem 2.200 metros de altitude.

Lago Vierwaldstattirsee – Existe mais água em lagos na Suíça do que nas securas do estados que sofrem a seca do nordeste. Se lá houvesse a metade destas águas, o Brasil resolveria os seus problemas.

Até agora contei doze túneis, sem contar as coberturas de lajes em cimento armado no sopé das montanhas para proteção das avalanches.

Lagos: Lauerz (pequeno), Zugersce (grande) – beirando o lago (25 km) rodaremos em direção a Zurich. As terras aqui são contadas e medidas, como em toda parte na Europa. Pasto para o vadio gado, hortas, jardins e florestas. Os lagos devem ser para o suíço uma beleza e uma maldição. Para um país tão pequeno a natureza devia ser menos madrasta.

A cidade de Zug, à margem do Lago Zugerser, é uma coisinha linda.

Zurich – grande, ampla, moderna.

As cidades de influência germânicas se diferenciam grandemente das latinas por vários modos. Um deles, bem nítido, é o silêncio. Não se ouve berros, buzinas, mercadorias expostas, vendedores de ruas atravancando as calçadas, limpeza máxima. O tempo está magnífico.

Lago de Zurich

Acabamos de ver o lago que banha a cidade e lhe tem o nome. Não haveria nunca problemas de poluição de ar. Tanta árvore, tanta água, plantas floridas.

Os bondes são quilométrico. Eles tem dois carros e mais os reboques. Grandes e bonitos com suas pinturas azuis.

Demos uma volta ontem na cidade, à noite, e vimos belas coisas, caríssimas aliás.

Turim, Itália

Estamos na estação esperando o trem para Turim. Chegamos atrasados e temos que esperar uma hora para o trem.

A causa foi o Sr. Antenor – tivemos que voltar o taxi pois ele havia esquecido 20 mil liras no quarto do hotel, na mesa de cabeceira.

Assim como chegamos atrasados para a saída, de Turim saímos mais atrasados ainda. O Waldemar quis que tomássemos um expresso e o danado chegou com 49 minutos de atraso. Em compensação passamos uma tarde agradabilíssima em casa do amigo Corti. Fomos para a casa dele de taxi e lá tiramos várias fotos, vimos todo o terreno em volta, a piscina, o arvoredo e as lindas roseiras. Não sabemos o que apreciamos mais, se a casa, o jardim, a cidade, o jantar ou os donos da casa. Só as galerias da cidade valem um romance. A casa, se assim se pode chamar, vale um tesouro. É uma moldura para a sua dona.

Falando em visita, esqueci de me referir a uma que fizemos em Verona aos amigos do Waldemar. Anajas, você que é louca por italianos iria adorar aquela gente. É composta de quatro pessoas: D. Léa, a nora Luciana, o filho Ezio e a netinha Alexandra.

Estivemos lá até às 23h30. Depois o moço foi nos levar ao hotel. Chegou um irmão da D. Léa, Napoleão, outra simpatia.

Pena que nós não falamos italiano para nos entendermos melhor. Mesmo assim ainda ganhamos presentes. Tomamos uns vinhos maravilhosos. É o que mais temos feito por aqui. Vinho, vinho e mais vinho! Arre lá com tanto vinho. Quem menos toma sou eu.

Apesar do sabor agradabilíssimo tenho medo de ficar tonta. Ficar fora de mim nunca foi o meu forte, pois quero sempre ter o chão firme sob os pés.

Milão, Itália

Milão à vista – vamos ver se é tão “boa” quanto diz o Waldemar.

Praça da Catedral de Milão

Milão agrada ao mais exigente freguês e o mais exigente arquiteto também. É séria pela sua idade e bonita pelos seus monumentos, largas avenidas e jardins. Ela tem uma riqueza imensa na beleza das suas galerias. Elas são diferentes de qualquer galeria que vimos até hoje. Ficam perto da Catedral, que qualquer outra ao seu lado perde o brilho que possuir. Sei que as descrições que faço se tornam monótonas pela repetição dos sinônimos, verbos e etc. Mas sei que vocês compreenderão a minha boa vontade em transmitir um pouco daquilo que os nossos olhos viram e admiraram. E nem é outra a pretensão.

Tenho a impressão que Milão, apesar de também ser velha, foi feita por gente de visão concebida para o futuro.

Para azar nosso hoje é feriado: Proclamação da República Italiana, 2 de junho de 1946. Resultado – tudo fechado.

A maioria das ruas são calçadas com pedras grandes e rosadas. E para não fugir muito ao progresso, prenderam-nas entre si, com asfalto.

Catedral de Milão

Castelo Di Sforza – residência de nobres. O pátio de entrada, antes do fosso para o portão principal, dá três casas da nossa, com quintal e tudo. Em lugar de água tem muitos gatos e gatinhos. Gatos e filhotes encontramos aos montes  nessas ruínas.

Não fosse assim, os ratos e gabirus acabariam com o resto que existe de ruínas. Se eu soubesse disso teria trazido a Min. Será que ela aprenderia italiano?

Uma parte do Castelo é museu. Tem uma sala somente de afrescos de Leonardo da Vinci. São originais. Estudos de nus masculinos e femininos. Rostos, mãos – não tem comparação. A estátua inacabada de Michelangelo – “Piedade ou Pietá”. Artes góticas e romanas.

Jardim Zoológico – É mais um Parque Infantil que zoológico. Tem poucos animais, um elefante com filhotes – sabidos para burro. Dão comida e dinheiro – comida eles comem, dinheiro eles dão ao tratador, duas girafas, um hipopótamo, duas lhamas, um camelo, flamingos, macacos, aves, bichos bravos e crianças de todos os tamanhos, até nós.

Postos de gasolina

Os postos de gasolina são um sonho. Tem de tudo que possa imaginar. Principalmente os que são restaurantes.

As montras, ou mostruários, são de dar água na boca. Comidas sob o melhor aspecto, brinquedos, perfumaria, café delicioso, balas em lindas embalagens, chocolates – uma variedade infinita de coisas que agradam a vista e acredito que ao paladar também. Só que não se compra, só se olha.

01/Junho/71 – Verona, Itália

Saída para Verona às 9h.

Gostei de Verona, apesar de tão velha quanto qualquer outra cidade da Itália, é também alegre e bonita como Florença, por exemplo. Creio que como Veneza não existe. Ela é única no mundo. Quem compara Recife (capital de Pernambuco) ou qualquer outra cidade do mundo com Veneza, é porque não a conhece.

Coliseu de Verona

Verona tem um Coliseu, ou Arena, como aqui é chamada. Só que tiveram o bom senso de aproveitá-lo para auditório. Apresentam óperas durante a temporada de verão. Está em reforma, ou conserto, para o começo dos espetáculos.

Deve ficar regurgitando de gente de todas as partes da Europa. Disse-nos uma senhora brasileira que de junho em diante esta parte da Itália (norte) fica de não poder andar nas ruas (especialmente em Veneza) e nem pousada em hotéis ou pensões. Isso vai nesse ritmo até outubro. Só que o francês, o espanhol de Madri e o italiano deviam tratar com maior deferência os visitantes que aqui veem deixar suas economias.

Estamos nos dirigindo para o Lago de Garda, em Verona.

Não deu para vê-lo direito pois a estrada está em conserto. Mas é muito bonito. Para se ter uma ideia melhor se deveria ter mais de uma hora. A neblina também nos prejudicou a visão.

Abre-se aqui um parênteses

Seu pai tem razão em lhes recomendar para estudar línguas. Um simples garçom de qualquer bar, vendedor de bugigangas das ruas, ascensoristas, porteiros de hotel, guias de qualquer local e para qualquer coisa – falam no mínimo duas línguas, além da sua.

Somente saindo de casa, como nós agora, é que sentimos a necessidade da falar pelo menos o inglês, que de um modo geral é a única. O espanhol quebra um “grande galho” também e por fim o francês.

Outra coisa que faz falta são os conhecimentos gerais. Temos que saber o mais que pudermos, caso contrário não teremos espírito de apreciação.

Quando chegar a nossa ocasião que veremos quanto nos custará a preguiça natural do brasileiro. A nossa ocasião, digo, de recebermos o turista. Como o brasileiro tem o maldito costume de deixar tudo para a última hora, ele há de pensar que isso também pode ser feito às pessoas. E não pensem que por cá não existe o analfabeto, o ignorante, o burro. Existe sim. Mas são absorvidos pela maioria que compreende a necessidade de saber para viver.

Que a nossa experiência sirva de lição para os que estão começando agora. Os velhos também estão incluídos, pois a vida pertence a todos, todos são filhos do mesmo Deus.

31/Maio/71 – Veneza, Itália

Saímos de Florença às 8h30 e chegamos em Veneza às 11h40.

Demos uma andada pela cidade. Tem uma grande vantagem sobre qualquer outra do mundo: não existem automóveis. Na entrada da cidade sim, interiormente, nem um pra remédio. É alegre, com seus canais cheios de barco a motor, ônibus a motor, taxi idem. Mercadoria de toda espécie também em barco a motor. As gôndolas é que são a remo. Tem coisas para vender que… haja liras. Objetos de murano, de uma beleza que a gente tem pena não poder levar. Não somente vasos, mas palhaços, bonecas, gôndolas e um sem número de coisas.

A minha mãe tinha uma vontade louca de conhecer Veneza. Chegou a dizer que quando morresse seria a sua primeira visita. Será que ela fez isso? Gostaria de ter uma certeza da sua presença. Sei que não terei, por isso vou continuar.

Acabamos de almoçar numa Trattoria. É uma das muitas que aqui existem. Esta aqui chama: Trattoria Al Ponte. O nome é forçado pela sua situação de ser em frente a uma das muitas pontes que aqui tem.

É um sobe e desce que arrebenta qualquer cristão. Mesmo sem ser cristão não aguenta muito.

Hoje dormiremos em Verona e amanhã em Milão.

Voltamos ao carro por água, num ônibus apinhado de gente. Gostei da viagem. Felizmente não andamos de gôndola pois estava chovendo e as águas estavam muito agitadas.

Igreja de San Marco

A Igreja de São Marco é bonita de fato. O Palácio dos Doges é uma continuação dela. Aquilo lá é imenso. Por isso que nunca vi uma foto com o conjunto completo. Também por dentro a Catedral é muito bonita, toda marchetada em ouro. As pinturas não sei quem fez, mas formam com o ouro como se estivessem modeladas por ele, ou melhor, emolduradas. Para tirar fotos só com “flash”, que seu pai não tem.

Piazza San Marco

30/Maio/71 – Florença, Itália

Saímos de Napoli às 8h30h. Estamos indo para Florença ou Firenze (em italiano), de onde iremos para Veneza e depois Verona, onde dormiremos.

Dormiremos hoje em Florença e amanhã em Verona, terra de Romeu e Julieta. Em seguida iremos a Milão e Turim.

Chegamos aqui eram umas 15h30. Fomos dar uma vista d’olhos na cidade, que é grande e bonita. Velha também.

O que não é velho na Itália? Estivemos em uma Igreja (Catedral ou Duomo). Linda por fora, toda em azulejos. Por dentro é simplesmente feia e escura. Bonito é o Batistério. É um conjunto como o de Pisa. Igreja, Batistério e Torre. Só que Pisa, além de ser construída em área bem maior, é bem mais bonita, por dentro e por fora.

As águas do Rio Arno, que banha Florença, romperam o muro que circunda a cidade como proteção, isso há uns dois ou três anos, e quase acabam com a parte de baixo da cidade. Houveram coisas que não puderam recuperar, como por exemplo pinturas. Pelas marcas que ainda existem devem ter subido uns três metros.

De noite, Florença encanta a gente. Na Praça da República, que é a principal no centro comercial, tem, não sei se todas as noites – fui informada que, no verão, são todas as noites – um bar-restaurante que promove orquestra com piano, bateria e saxofone com cantores. As mesas em frente ao restaurante chegam até o meio da rua. O local é cercado e em parte coberto por uma lona.

A auto-estrada da Itália é cortada por túneis. O país por ser muito acidentado pede isso. Tem túneis tão grandes que lá dentro existem quatro ou cinco telefones, como serviço de SOS. Isso em toda a estrada europeia existe. E tem mais: todo túnel ou galeria, como chamam aqui, tem nome.

29/Maio/1971 – Ilha de Capri, Itália

Não sei como Tibério, imperador romano, concebeu a ideia de construir um castelo em tal lugar. Pelo nome, vocês verão que lá só habitava cabras (Capri).

A ilha é enorme, mas só um louco seria capaz de tal – fazer dali uma cidade. As estradas são em oito – digo, em forma de oito, até o cimo da mesma, (da ilha, quero dizer). Infelizmente não vimos a maior atração do local: a Gruta Azul. O mar resolveu encapelar justamente ontem. E da minha parte, lá no fundo do coração, eu estava com medo de embarcar naquelas casquinhas de nozes que são os barcos que levam lá os curiosos. Eu iria satisfeita, mas cheia de medo. Tivemos uma experiência fabulosa: fomos de funicular até o cimo da montanha. É uma sensação sem par. O Waldemar foi único que teve medo. O chão, aos nossos pés, nos dá vontade de pular para ver se não é muito alto.

Tem locais que devem atingir mais de quinze metros, mas tem outros que se formos medir, dão uns cinco metros.

Não são bondinhos, como no Pão de Açúcar, são cadeiras. O mundo está aberto diante de nós e o frio também. O engraçado é que em Barcelona eu não quis ir no de lá e em Capri, se não tivesse ido, teria ficado triste. Durante a subida e a descida, o louco do seu pai tirou um monte de fotos. Ele está feliz como uma criança quando começa a andar. Aliás, todos estamos felizes, apesar das saudades.

Na volta, que gastamos 1h35, o banco parecia que ia virar, de tão forte que estava o mar. Na ida, o tempo estava melhor e o barco era superior; gastamos apenas 35 minutos. Do mar alto avistamos Napoli.

O casario novo subindo a montanha, da beleza da cidade nova e a velha destruída pela guerra. Os edifícios que a guerra quase destruiu, e que não são poucos, estão sendo ocupados pela pobreza (que também não é pequena) até a sua total demolição. Onde vão colocar tanta gente, isso é problema deles, mas que é um grande problema, isso é. O trânsito italiano é barulhento, mal dirigido e sem nexo, igual ao nosso. A diferença para melhor na Itália é que o italiano respeita a vida alheia, ele quase que para o carro para o pedestre passar. No mais, somos irmãos. Não é atoa que o Brasil vive cheio de italianos.

26/Maio – Capela Sistina, Itália

No cinema foi bem montada, melhor que na realidade. Como Museu, não tem igual na Itália. A riqueza em ouro, mármore, pedras preciosas, bronze, cristais, biblioteca, tapetes,… sei lá mais o que! … As paredes forradas de pintura perdem alguma coisa do seu brilho, diante das belezas dos tetos.

Fica-se de pescoço doído de tanto olhar para cima. Aquilo ali é um mundo para se andar. As pessoas que entendem de escultura e pintura se sentiriam no céu. É indescritível tudo que forma a Capela Sistina.

As esculturas ocupam salas e mais salas de obras de artes antigas. Todos os personagens da mitologia – senadores romanos, gladiadores, animais, santos, papas, crianças e ……….. Tudo bem arrumado e catalogado. A maioria tem nas mãos um guia – livro, ou tem um guia a falar para indicar ou mostrar de tudo que lá existe.

Tívoli

Encarrapitado num morro dá a impressão de um presépio.

É realmente uma cidade bonitinha, agradável. O atrativo turístico é um palácio de veraneio dos Reis. Construído há 16 séculos. O local onde foi construído tem o nome de Vila D’Este e o Palácio tem o nome da cidade: Tívoli. Pena que a chuva desmantelou o nosso passeio. O palácio não é grande coisa.

É simplesmente uma casa grande de fazenda, dessas que há aos montes em nossa terra, com a diferença que a única comodidade é a capela dentro de casa. A escada em caracol possui.

O que tem de muito bonito é o Parque, cheio de repuxos, de fontes, tanques enormes como piscinas, regato preparados para a beleza do Parque e a comodidade de suas majestade. Estátuas de várias formas – de gente, animais, fauna, ninfas; completam o conjunto junto com arvores, escadas, rampas e plantas floridas de toda espécie. Mas Santa Clara não queria que fossemos lá e mandou chuva! E na hora que o dilúvio caiu, nós estávamos lá em baixo, na fonte principal. Seu pai tirou uma fotos. Se ficarem como as outras, ainda bem.

Quando voltamos de Tívoli, fomos fazer compras e voltamos para o hotel. Estava tão cansada, que cheguei e me deitei. Jantamos mais ou menos as 20h30 num restaurante perto do hotel.

Saímos de Roma no dia 27 pela manhã, 8h30. Chegamos em Nápoles – 11h45.

Em Nápoles

A hora é hora europeia. Aqui na Itália, ela está adiantada da nossa 5 horas. Ao entrar a primavera acontece assim. Na Espanha o comércio abre as 9h30 (hora local) e na Itália, 8h. Na França é também o mesmo ritmo – 8h ou 9h30. Em Portugal não sei bem, não fizemos compras lá. Só sei que em todos esses lugares que passamos, fecham o comércio às 12 horas, ou seja, ao meio dia, e se abre às 16h, fechando novamente as 20h.

Estação Pompéia

Fizemos uma rápida visita à Pompéia. Rápida porque precisaríamos de um dia todo para uma visita com guia. Pelo livro vocês verão a beleza que o Vesúvio tragou. Tem indicação para Herculano, mas não fomos lá, e a outra cidade destruída é …..

Pompéia

Fomos depois a Sorrento. É uma continuação da Costa Napolitana. Construída sobre as escarpas do mar, é um sonho para o veranista que frequenta estas plagas e para nós que a admiramos. Muito florida e alegre, temos a forte impressão que lá, naquela cidadezinha, todo mundo é feliz.

Sorrento.

Passeio em Capri – saída do barco 11 horas.

25/Maio/71

O Hotel está completamente vazio de empregados. Só estão os três da portaria. Nem camareiras. Quando chegarmos do nosso passeio (como será o passeio não sei, pois chove cântaros), teremos de fazer nossas camas e lavar o banheiro. Pensando melhor, eu devia tê-las feito logo.

A situação da Itália é a mesma do Brasil antes da revolução. Só que o exército é um pouco pior que o nosso. Só sabem se enfeitar. Parecem uns bonequinhos de brinquedo andando pelas ruas de Roma. Nunca vi mais ridículos.

Passeamos ontem pela Via Veneto.

Itália – Roma

26/Maio/71 – Roma

16h15 – Hotel Nord Nuova Roma
Roma é igual a todo grande centro: grande, fumacenta, barulhenta, cheia de gente de toda espécie. A diferença é a riqueza que ela guarda ciosamente entre suas paredes. Vamos vê-las.

Estamos de saída para a nossa visita à Cidade Eterna. Ontem, depois do jantar em um ótimo restaurante (no hotel não pudemos comer, o pessoal de serviço estava de greve), fomos fazer o quilo. Não posso dizer se gostei ou não, pois um ligeiro passeio não chega para isto. A estação ferroviária foi a que mais me agradou. Estou falando apenas as coisas da cidade.

Igreja de Santa Maria Maior – tem duas ou três coisas que nos impressiona pela beleza e imponência. Uma reprodução feita em ouro, sustentado por quatro anjos da Igreja de São Pedro. A estátua genuflexa, em tamanho acima do normal, de um Papa (não sei qual) em mármore, é de uma expressão admirável. Os altares, os tetos, as cenas bíblicas, tudo em mármore, ouro, telas de pintores, tudo bonito demais e muito rico.

Igreja de São João Latrão – A fachada desta Igreja é fabulosa. Na enorme nave existem 12 estátuas que representam os 12 apóstolos a saber: São Pedro, São Paulo, Santo André, São Tomás (ou Tomé), São Jacó Maior (não conheço), São João, São Fillipe, São Jacó Menor, São Mateus, São Bartolomeu, São Tadeu e São Simão.

Não creio que sejam os apóstolos todos, está faltando alguém, de qualquer forma não tira a beleza da alegoria. São 12 belíssimos nichos encimados por cenas da Via Crucis. A Igreja é enorme e segue um ritmo diferente das outras. Internamente está dividida em duas e no exterior dá a impressão de uma Igreja unida a uma enorme casa do seu lado direito. Existem túmulos de vários Papas, entre eles Leão XIII.

Igreja da Escada Santa – é uma alegoria da escada que Jesus subiu no Pretório, para a sua condenação e tem imagens esculpidas por Miguel Arcanjo (aliás em todas elas existem esta riqueza) de beleza incomparável.

Coliseu – um monte de ruínas que lembra o passado ruim de Roma. Se os italianos ou romanos tivessem a ideia de restaurar estas tristes ruínas, quem sabe haveria mais alegria e menos lembranças deprimentes!! Mas o homem de agora, como o de outrora, tem prazer em ver a cena de crimes ou de festas.

Passeamos pelas ruínas do Fórum Romano, fica num alto, ao lado e dominando o Coliseu.

Piazza Venezzia, Roma.

Piazza Venezzia – nela fica o monumento a Vitorio Emmanuel. Sobe-se imponente uma escadaria, deparando-se com uma fachada em grupo de mármore, ladeado por 2 guardas (verdadeiros) onde estão as coroas de flores depositadas em memória de alguém. Dos lados da escadaria tem várias alegorias em bronze e mármore, em cima, dominando toda a fachada, está a estátua equestre do Rei Victório Emmanuel II. De cima, por trás da estátua do rei, depois de subir escadas, temos toda Roma aos nossos pés. Se a Piazza, por um acaso, ficasse vazia de carros e gente seria um espetáculo magnífico. A escadaria para subir não é tão difícil como para descer, ficamos sem joelhos. Safa!!! Por um triz não fico lá em cima de vez. Na entrada existem duas pias. As ruínas das muralhas ainda existem, apertando ainda mais a cidade. Não se pode falar das fontes, das praças dos velhos edifícios cheios de estátuas, das Igrejas… Em frente ao Vaticano está o Castelo de Santo Ângelo, pequeno em sua estrutura, mas deve ser muito bonito lá dentro.

Piazza Venezzia

Vaticano – País autônomo, o Vaticano é lindo. A Praça de São Pedro é, como todos sabem, imensa. Todos os prédios dominam a Praça, cheios de colunas de pedras talhada, redondas e sobrepostas, formando uma verdadeira floresta delas.

Basilica de San Pedro.

Estamos almoçando nas imediações do Vaticano, numa Trattoria que se chama “Grotte di Tuscofo”. Almoçamos muito bem, só o café, dizendo ser do Brasil, estava mais frio que bunda molhada de neném.

Capela de São Pedro – É suntuosa e simples ao mesmo tempo. Nos inspira um respeito religioso tão grande que chega a comover. Os túmulos onde se encontram os Papas falecidos, dá-nos a impressão de majestade. Os altares não têm imagens, são pinturas de célebres artistas, representando cenas bíblicas e vida de Santos. Não podemos, de maneira nenhuma, nem mesmo um letrado, descrever aquilo que acabamos de ver. Tem razão o mundo em se esforçar para ver coisas tão belas. Roma não tem valor algum diante do Vaticano e das reminiscências guardadas em seu coração italiano. É deslumbrante!!

Basilica de San Pedro.

Piazza de Espanha – só o sorvete valeu. Escolhido pelo Waldemar, na sua mais trágica ignorância e o parafuso que o Sr. Diamantino fez para lá chegar. Mas como diz o seu pai – mais vale a farra!!!

Villa Borghese – bonita e gostosa com o seu parque gramado. Não entramos, passamos carro.

O trânsito em Roma constitui uma dor de cabeça para quem nele se aventura, mas para o nosso guia é apenas uma corridinha ao guarda… e está resolvido.

Ele enfim encontrou a Fonte de Trevi – Fontana di Trevi – Suja como o diabo, mas bela como sempre.

Fundada por Clemente XII no ano de 1735. Não deu para saber a história que está no frontispício pois essa inscrições são escritas em latim. Se eu não sei outras línguas, quanto mais latim!

Fonte de Trevi, Roma. “Até eu tive vontade de me meter lá dentro. Sim, porque é dólar mesmo o que tem lá.”

Tinham dois meninos dentro da Fonte apanhando as moedas que jogam como sorte lá dentro. Eles começaram com um imã preso num cordel, mas depois se meteram na água mesmo. Chamaram a polícia, mas nada adiantou. Se esconderam e quando a polícia saiu, eles voltaram. Na água, muito limpa, vê-se o fundo perfeitamente.

É facílimo apanhá-las. Até eu tive vontade de me meter lá dentro. Sim, porque é dólar mesmo o que tem lá.

Chegamos do passeio, escrevi a vocês, e mais dois cartões, um para Aidil e outro para Alice Chagas. Seu pai tomou banho, e está dormindo.

Jantamos no Hotel. Ontem não houve jantar, estavam em greve. Hoje teve café ou desjejum como chamam, almoço e jantar. Só que almoçamos fora e jantamos aqui. Amanhã não terá refeição nenhuma: greve novamente. O comunismo está tomando conta do País. Aqui em Roma é tanto pano perdido fazendo faixa de reclame que faz pena. Tem uns 4 ou 5 partidos comunistas. Se fosse coisa boa, não haveria tanta fartura.

Piazza de Spagna, Roma.

A Igreja da escada santa é diferente mesmo de todas as outras. Na entrada tem um “hall” comprido em toda a largura da mesma, medindo uns quatro metros de fundo. A nave da Igreja são três longas escadas do mesmo tamanho, até o fundo. A do meio foi trazida da Terra Santa por Santa Helena, pois foi nela que Jesus subiu ao Pretório, não sei quantas vezes para seu julgamento e por fim, condenação. O povo católico, cultuador de coisas tristes por natureza, aceita como indulgência papal subir a escada de joelhos. E lá estavam várias pessoas a subi-la. Tem as duas laterais para subir normalmente e também descer, claro, e as pessoas das promessas. Não subimos porque a escadaria do Rei Vittório Emanuelle nos pôs os joelhos em pandarecos.

Lá em cima que estão os altares. Ao lado de cada escada, está uma estátua alusiva à Paixão de Jesus. Se destacam mais o Beijo de Judas e Jesus apresentando ao povo por Pilatos. O negócio é impressionante. Um frade muito simpático nos deu umas gravuras da Escada, com a estória atrás. É bastante interessante.

Outra coisa interessante é a tal Piazza D’España. Ao fundo tem uma enorme escadaria para terminar em uma igreja que não sei que nome tenha. Mas no primeiro plano existe uma fonte no formato de galera. O troço é em pedra e deve ter uns dez metros de comprimento. Sai água por todos os lados. Dá a impressão que o barco é furado por uma porção de lugares. É alegre o local, cheio de vendedores e gente de toda espécie. Desde cabeludos, até cegos estrangeiros com suas bengalas e esposas a tiracolo.

Itália

Rapalo – 30 km de Gênova. Cidade de veraneio bonita e alegre. Estradas cortadas por túneis com lindas paisagens. A Itália acidentada torna-se fácil de ser vista e admirada, cortada por cidades de veraneio. A Riviera Italiana é mais séria, mais senhora-moça que a Riviera Francesa.

Chiavari – outra cidade de veraneio

Carrara – a cidade do mármore

Trattoria da Clara, a caminho de Pisa.

Vocês não são capazes de imaginar, mas nós acabamos de comer sururu no anti-pasto. Sururu ou mexilhão, marisco, camarão tipo mignon, lula, tudo arrumado numa travessa com um delicioso molho. Na outra, pequenas torradas cobertas de patê de fígado de galinha e presunto.

Não tenho descrito, até agora, aquilo que temos nos deliciado com as cozinhas maravilhosas que são as portuguesas, francesas e italianas. Não paga a pena só descrevê-las, se vocês pudessem partilhar dessas coisas maravilhosas, então sim, a nossa satisfação seria dobrada.

O restaurante é um amor. É no caminho para Pisa e se chama Trattoria da Clara (Trattoria quer dizer casa de pasto – sendo a tradução mais literal). A Lourdes, como sempre, lambiscou do prato do Waldemar. Diz ela: é porque, se fizer mal a ele, fará mal a ela também. Como desculpa para a gulodice… é a melhor! Comemos muito bem e brincamos ainda mais.

A nossa interpretação do italiano, do francês e casteliano é a “melhor” possível. Os nossos guias e intérpretes, Waldemar e o Sr. Diamantino, se vêm em papos de aranha para satisfazer a nossa vontade em pedir as coisas e, principalmente, comidas.

O local onde está localizada a Trattoria é perto de “Viareggio”.

Piazza del Duomo de Pisa – Ditado pelo Waldemar, depois de ter ouvido pelo telefone que, mediante uma moeda, ouve-se em 4 línguas, depende da escolha: inglês, italiano, alemão e francês.

Antes de começar a descrição é preciso explicar: a Piazza (Praça) compreende 3 edifícios em estilo mourisco (creio eu) de belezas incomparáveis. Tem um gramado lindo!! O edifício maior fica no centro – é a igreja. Muito bela por fora e, por dentro, é uma obra de arte, não só na sua concepção como na beleza diferente dos altares. De modo geral as igrejas têm maior beleza no altar-mór, esta não, todos são bonitos, com telas de artistas italianos célebres e imagens representando, como as pinturas, cenas do velho e novo testamento e vida dos Santos.

Na frente da Igreja fica o Batistério, todo trabalhado em marfim, em círculo de uns 20 metros e de uma imensa altura, pois a acústica dele é o que há de mais notável. Um homem que estava na porta, fechou-a e cantou, cantalorando e bateu palmas. Pelo postal vocês verão a beleza que é o Batistério. Esqueci de falar no teto da Igreja. É trabalhado em talha toda dourada – perfeito.

Piazza del Duomo de Pisa: “De cabeça para cima não sabemos o que mais admirar, se a beleza arquitetônica, se a ideia do homem em imaginar aquilo que serviria de atração principal para a sua rica cidade.”

Por trás da Igreja está a Torre de Pisa. Tem-se a impressão que ela vai cair a cada hora, parecendo que somos bonecos de pano ao lado dela. De cabeça para cima não sabemos o que mais admirar, se a beleza arquitetônica, se a ideia do homem em imaginar aquilo que serviria de atração principal para a sua rica cidade.

E aqui começa a história ouvida pela Waldemar: a Torre inclinada de Pisa começou a ser construída em 1174, pelo arquiteto Bonomo. Fez até o 3º andar, ficou parada 90 anos. Outros artistas a recomeçaram e chegaram ao 8º andar. A primeira grande dúvida do turista é se realmente foi construída inclinada ou teria o terreno cedido depois de edificada. Existem duas versões e a mais exata é aquela que a vontade do seu idealizador quis registrar, ou seja: a de que a inclinação da Torre significava a decadência do reinado pizantino que se pronunciava.

Arquitetos, porém, posteriores ao início da obra são unanimes em afirmar que a inclinação que se observa é devida à depressão do terreno onde foi construída, tese esta controvertida pela simples análise de construções da mesma linha arquitetônica que lhe são circunvizinhas.

Missões científicas de todo mundo, todavia e principalmente da Inglaterra, no afã de preservar para a humanidade um monumento de tanto valor histórico, houveram por bem tomar as medidas acuteladoras, qual seja, a injeção de cimento em seus alicerces de mais ou menos 3 metros. Mantém hoje na Torre aparelhos de alta precisão, que registram qualquer alteração em sua atual inclinação, possibilitando a correção de qualquer anomalia que por ventura se verifique.

Suas características aproximadas são:
Peso = 15 mil toneladas / Altura = 54 metros / inclinação em relação ao nível do solo = 4,94 metros / diâmetro interior = 7,30 metros / diâmetro exterior = 15,40 metros

No pináculo da Torre existem, instalados, sete sinos gravados com alegorias que tocam músicas variadas. A cidade é deliciosa, apesar de secular, não vimos becos estreitos e escuros, não visitamos toda, pois só passamos uma noite em um hotel muito simpático, com comida deliciosa. A zona comercial é muito bem arrumada, mas os preços são de amargar, não fica nada a dever os daí (nossos).

26/Maio/71 – Pisa

13h – saímos de Pisa, almoçamos na estrada no Bar Restaurante “Albergue Duo Pini”.

23/Maio/71 – A caminho da Itália

Monumento dedicado a Cristóvão Colombo, Piazza della Vittoria, Gênova.

09h – Estamos a caminho de Gênova (Itália). Passamos em Menton (França), em demanda da fronteira italiana, a praia é como todas as outras, escura e pedregosa, por enquanto nada mudou.

10h15 – a primeira cidade ao começar a fronteira se chama simplesmente Ventemiglia. Alcançamos San Remo – famosa pelos festivais de canções. É grande, bonita e alegre, se é que passar de carro nos dá direito de ajuizar uma cidade. A praia é a mesma das outras, o que tem de notável são as flores. Vivem do cultivo delas, cultivadas em estufas, cravos aos montes, e rosas idem. Barracas nas margens das estradas vendendo cravos em bouquê. É de endoidecer a quem gosta tanto deles. Mesmo pedindo, não ganhei nenhum.

Continuando a viagem paramos em um restaurante – mas era desses de receber bandeja e tinha gente em fila, mais que formiga. Passamos adiante e almoçamos em uma cidadezinha simpática, chamada Arenzano. Restaurante no terraço, por cima do bar, em frente ao mar. Não fosse a beleza do mar, não sei o que veria o turista por estas “plagas”. Comemos bem, servidos por um simpático velhinho italiano. Demandamos Gênova, aonde chegamos cerca de 3h30. A cidade é grande, velha e austera. Não se pode chamá-la de bonita nem alegre. Estivemos na Praça principal, onde tem um monumento dedicado a Cristóvão Colombo. Não foi possível ver direito, pois estão a celebrar o Congresso Eucarístico. Seu pai tirou umas fotografias do lindo monumento.

Cemiterio Monumental de Staglieno.

Fomos dali visitar o cemitério mais velho, mais artístico e mais famoso de Gênova. O cemitério é imenso, parece que toda a geração, desde Cristo está ali enterrada.
Sobe morro acima, numa profusão de mármores e obras de artes que ficamos a pensar nas grandes fortunas que foram despejadas ali só para embelezar um lugar que deveria ser tratado com a maior simplicidade do mundo. Em toda aquela beleza de artes e riqueza, só encontramos um porém: em torno dos túmulos simples cresce um matagal que dá para alimentar qualquer carneirada e, lá pra cima, onde ficam as obras de arte dos ricos, dos lados, em todas as galerias, um pó preto está cobrindo tudo com um desprezo imenso, não sei se o homem ou a morte. Só sei que se alguém se perder por lá, dentro da noite, de manhã vão ter que enterrá-lo, pois terá morrido de medo, mas é de tanta sujeira. Somente o chão está limpo. Tem coisas lindas, não conseguimos nem ver a metade, pois começou a chover forte e então viemos para o hotel, onde chegamos às 17h30.

Jantamos num restaurante embaixo do hotel chamado “O Príncipe”, exageradamente calmo em vista do alvoroço dos restaurantes de Nice.

Piazza della Vittoria.

Gênova atrai turistas pela antiguidade, pelos becos estreitos e escuros que dão para os apartamentos, pensões e muitos hotéis. A parte moderna é limpa e bonita, com edifícios de fachadas agradáveis e floridas.

Saímos de Gênova cerca das 10 horas do dia 24/Maio/71.

22/Maio/71 – 09h30

“Mônaco é uma joia engastada no alto do morro, que domina toda a baía que forma esta parte do mediterrâneo”.

Estamos seguindo em passeio para Mônaco. Estrada feita no morro, com chácaras, residências e hotéis construídos na rocha. O panorama é agradável, apesar do tempo nublado, pois está a chover em Nice. Espero que Mônaco esteja melhor.

Mônaco – Côte d’Azur – Riviera Francesa – Nice e todas as vilas, cidades, praias – ou lá o que seja que chamam por aqui – só têm uma finalidade: Monte Carlo!!!!

O Principado de Mônaco é uma das estórias da carochinha. Se houvesse sol veríamos melhor as belezas deste pedacinho de terra, conquistado por uma americana que aguenta galhardamente a vida insípida que é ser princesa, seja de um grande reinado, seja de um minúsculo principado.

Mônaco é uma joia engastada no alto do morro, que domina toda a baía que forma esta parte do mediterrâneo. Dista 30 quilômetros de Nice e no momento que se entra aqui se esquece Nice e suas ruas e avenidas que se tornam comuns diante da belezinha que é Mônaco.

Mônaco

Não existem ruas extensas, o tamanho do país não dá, a maior extensão, em uma praça talvez, seja onde está plantado o Palácio – castelo, residência do Príncipe Rainier e sua real família. A mudança da guarda lembra a opereta “O soldado de chocolate”.
A banda marcial toca as cornetas, suflam os seus tambores e, na frente, marcham os soldados que vão substituir os outros que estão na guarita, esperando os companheiros que os vão render. Todos de dolman preto e calças azul-marinho, com dragonas douradas, capacete preto com um penacho em vermelho e pontas brancas, cobrindo o coconuto do mesmo, cinturão branco, luvas brancas e os punhos vermelhos do dolman dão um contraste alegre aos soldadinhos de chumbo do Príncipe Rainier.

O trânsito, bem dirigido pela guarda garbosa e bem educada, dá maior realce ao bem cuidados País (se assim se pode chamá-lo).

Estamos sentados no carro, Lourdes e eu, esperando pelos três companheiros de aventuras, a saber por ordem de nascimento: Sr. Antenor, Sr. Diamantino e Sr. Waldemar. Eles foram assistir ao 13º Grand Prix. Hoje e amanhã haverá corrida de automóveis. O Waldemar é apaixonado por isso e o coitado estava a ponto de dar a luz, pois o tempo estava chuvoso, mas melhorou e parece que vai segurar. Em frente a nós está a Catedral e mais adiante está o museu. Depois iremos vê-los. (Não fomos….)

Almoçamos em um restaurante franco-italiano chamado “Saint Nicole”, onde comemos muito bem, aliás.

Voltamos a Nice pelas 15 horas. Os dias aqui são enormes, o alvorecer começa pelas 4h30 da madrugada e o anoitecer por volta das 20h30.

Não tenho tido a lembrança de marcar as horas, mas é mais ou menos isso.

Jantamos às 21 horas no restaurante “O Pizzicato”, baseados na cozinha italiana e, como o outro – Palermo, a agonia é a mesma, o corre corre é qualquer coisa de notável, a diferença é que este último tem mais espaço, mas nem por isso deixa de ter as suas aperturas.

O Sul da França compreende toda a costa, a que dão o nome de Riviera Francesa. Costa Brava é onde o mediterrâneo banha a Espanha. Côte d’Azur é a parte em que se localiza Mônaco. É muito bonito tudo o que a natureza criou por aqui e a mão do homem aplainou ao seu bel prazer. A natureza agreste, com seus montes rochosos, sua afamada Fraldas dos Pirineus, suas ravinas, apesar do burilamento por que passou é um perigo constante para o viajante, mesmo de dia. As estradas são em curvas fechadas para subir as escarpas quase indomáveis e, quanto mais abrupto é o terreno, mais perigoso e acidentado, aí se vêm belas casas de veraneio, residências, pequenos bangalôs, hotéis e restaurantes. As flores, de todas as espécimes, dão um encanto todo especial às paisagens.

Não simpatizei com Nice. Como disse anteriormente, prefiro Cannes. Tem aqui tudo que se pode desejar para viver, comer e se divertir. É só ter dinheiro. A mescla de raça dá um toque diferente a esta terra cheia de barulho e de gentes.

No comércio se misturam lojas onde vendem de tudo, restaurantes, cafés e casas de chá de todos os jeitos e modos. Uns têm cadeiras e mesas nas calçadas (aliás é típico da Europa, desde Portugal se vê isto), outros são do lado de dentro. A maioria dos restaurantes expõem suas comidas nas portas de entrada, cruas ainda, mas arrumadas de modo como ficarão depois de prontas. A ideia é prática e apetitosa, mesmo que não estejam cobertas na vitrines dos balcões frigoríficos, não existe perigo de deterioração, porque acima de tudo não existem as amaldiçoadas moscas. É tudo muito limpo, mesmo as ruas apesar da multidão que as infestam.

Mas, o que maior tristeza nos causou em tudo isso é a prostituição às escancaras que existe aqui. Já às 20 horas “elas” já estão pelas esquinas, de pernas à mostra (todas, com raras exceções, vestem short), arrumadas de cara e cabelo, são moças e bonitas, um chamariz perigoso para as sem muita firmeza da vida quererem imitar Deus! Quando será que essas coisas terminarão!?? Quando terá fim tanta miséria???!!!!!

21/Maio/71 – Começa a Riviera Francesa

Saint Tropez.

Saint Tropez – 11h30
Não tem mais que as outras cidades praianas. Só que é francesa, está fazendo frio e tem comércio e rosas.

Saint Maxime – 12h30
Não existe novidades nessas afamadas praias. Nada que nós não tenhamos iguais ou mais bonitas.
Restaurante “La Reserve” – almoço servido por uma linda mademoiselle.

Saint Tropez

Saint Raphael – 14h30
É uma grande cidade praiana, bonita, espalhada em frente ao mar. Belas residências, avenidas floridas, hotéis e restaurantes pitorescos formam a bem arrumada Saint Raphael. O comércio deve ser muito bom e muito caro também, como tudo é caro nesta França, da antipática Brigitte Bardot.

Vila D’Anthéor (Anthenôr) – 15h
Tudo que tem nela pertence a ele. Rochas, mar, residências… tudo. Terreno escarpado, perigoso para banhos, mas é o que tem de mais belo – Côte d’Azur – é realmente muito bonito o mar por aqui.

Miramar – 15h30

La Napoule – 15h35
Bonitinha – praia com areia escura

Cannes

Cannes – 15h45
Aglomerado de barcos, casas, gente, avenidas largas e arborizadas. Cannes é o maior até agora, de todos os atrativos à beira-mar da Riviera Francesa. Cada hotel que só a fachada vale um sonho, calculem por dentro. Um mar de rosas enfeita este imenso jardim-praça.

Somente rosas grandes, pequenas, vermelhas, cor-de-rosa. As bordas dos canteiros são em flores amarelas. Os caramanchões são de rosas trepadeiras em várias cores e tipos. É a flor que maior cultivo tem pela Europa, pelo menos na parte que vimos até aqui. Rosas e geraniuns.

Antibes – uma continuação de Cannes, pois nestas vilas não se sabe onde começam umas e terminam outras.

La Fontaine – La Bragne e daí por diante até Nice, a maior de todas as praias, mas nem por isso a melhor. O centro comercial de Nice é decerto a atração principal desta enorme cidade. Suas ruas estreitas, cheias de perigo para as mulheres e desastre financeiro para os seus companheiros!!!!

Suas bem montadas casas de negócios – lojas de roupas feitas para ambos os sexos, sapatarias, joalherias em grande quantidade, movelarias, restaurantes simples e requintados: tudo arrumado de forma a atrair ao incauto passante que cai como mosca no mel. As praias propriamente ditas, com areia, não existem em Nice. O que há é um pedregulho cinza escuro resultado do represamento da água, para poderem fazer a linda e longa avenida. O mar sim, como sempre, dá a sua nota em elegância e beleza… Deve ser muito bom para velejar. Cannes é bem simples e, no entanto, tem o encanto das flores, da amplitude, apesar de ter, talvez a metade de Nice.

Se esse povo que vem tomar banho nas praias, desde Saint Tropez até Nice, vissem as nossas praias, isso aqui perderia todo e qualquer atrativo que tem para o turista. Infelizmente não estamos preparados para tais eventos. Basta, por enquanto, que eles descubram as praias portuguesas, que são lindas e têm a vantagem de ter areia na beira do mar. Aqui é areia escura ou como terra, ou rochas escarpadas ou pedrisco. Não é exagero. Que, já viu isto por aqui saberá que estou dizendo a verdade.

Riviera Francesa

Jantamos ontem, em um restaurante típico italiano. O local é pequeno, cheio de gente até as bordas, gente em pé esperando, incluindo nós que levamos uns 15 minutos montando guarda. São apenas 6 garçons “elétricos” que procuram da melhor maneira possível dar conta do recado.

Nunca me diverti tanto em um restaurante, são duas ou três mesas retangulares, unidas pela cabeceira. Ali sentam sete ou oito pessoas e, em nossa mesa fomos nós quatro e um casal de americanos com uma filha. O esforço dos garçons para nos servir é uma verdadeira pândega. Comemos lasanha verde com vinho. Ótimo. A sobremesa foi morangos. Ótimo outra vez. O nome do restaurante é “O Palermo”.

20/Maio/71 – França

Vovó Dina com seu diário no hotel Roy René, em Aix-en-Provence.

Passamos a fronteira sem novidades até agora, graças à Deus.

Estamos almoçando em um Euromotel Roussillon – Restorante de Salses. Avistamos ao longe os Pirineus. Não sei se os veremos de perto. A topografia mudou um pouco. Antes se entrarávamos em território francês, víamos coisas lindas em cerâmica, fábricas e mais fábricas da linda arte. Vasos, pratos para parede, jarros para água, vasos para flores, estátuas, estatuetas e uma infinidade de coisas úteis e para enfeites. As estradas, na maioria, são arborizadas. Lembra a que vai para São Lourenço, via Engenheiro Passos. A diferença é que aqui é feita pela mão do homem (a arborização, bem entendido) e lá foi a natureza. Vê-se vinhedos em profusão. Anda-se quilômetros só avistando vinhedos brotando, pois a poda já se fez e eles estão se preparando para dar ao homem os seus saborosos frutos.

Chegamos em Aix-en-Provance cerca das 18h15. Cidade velhíssima pois deve ser do tempo dos Reis Luiz, senão mais velha. Bem cuidada e tem que ser cheia de requintes como o velho francês sempre quer ser, apesar dos tempos modernos.

É ampla, cheia de árvores e muito limpa, só que não é o meu tipo. Acabamos de jantar e a Lourdes e eu viemos para os quartos. O Antenor e o Waldemar foram fazer o “quilo”. O Hotel é magnífico. Até hoje não havia me hospedado em um quarto tão “chic”, para usar o termo francês. O quarto é amplo, na entrada tem, do lado esquerdo, um sanitário e um grande e fundo armário. Em frente duas portas: uma para o quarto propriamente dito e a outra para o quarto de banho. No quarto de dormir, com paredes forradas de papel com linda estampa de aves esvoaçando em galhos de árvores, em tons levemente azulados, pássaros de várias cores, do azul passando para o verde, rosa vermelho e tons de amarelo. Tudo isto em fundo creme. Duas camas de ferro dourado, cobertas com cobertores amarelos e lençóis alvos. Duas cadeiras simples e duas poltronas forradas em seda verde. Entre as duas poltronas havia uma mesa branca com tampo de vidro.

Fernandina em quarto de hotel em Aix-en-Provence, na França

Ao lado de cada cama um criado mudo, brancos e, no lado esquerdo uma secretária com pasta para escrita, com tampo vermelho e pintada de branco, telefone e porta mala. Armário com prateleiras e, na porta, do lado de fora, um grande espelho. Portas, armários e barra das paredes são brancas também. O chão é coberto por um carpete vermelho escuro com coroas e ramos de folhas em verde e amarelo.

O banheiro tem duas portas: uma que dá para a entrada ou “hall” e a outra para o quarto. É estreito em proporção ao comprimento, tem a mesma extensão do quarto e uns dois metros de largura. É branco e cinza, sendo que o tampo da mesa toillete é em grafite, cortina verde no quarto e branca engomada no banheiro.

Nas poltronas panos brancos com rendinhas nas bordas, e engomadas. É adorável para dois pombinhos em lua de mel. O piso do banheiro é em pastilhas grafite escuro, salpicado de pastilhas brancas, geladeira pequena, bem sortida, branca também e um grande armário de porta escura. Banheira enorme, bidê, duas pias e box com chuveiro, com portas de correr de vidro.

O Antenor estava procurando a razão do movimento tão intenso desta pequena cidade. Ela é próxima de Nice, cidade de jogos, cassinos e de Mônaco, principado que vive em função de Monte Carlos. É natural que a vida das cidades circunvizinhas tenham intenso movimento. Mesmo que aqui não houvesse cassinos (tem quinze) o grosso dos turistas e jogadores que não encontrassem ou não quisessem ficar por lá viriam para cá, pois estamos há 180 e poucos quilômetros de Nice. Só passamos uma noite aqui. Estamos com pena de deixarmos o belo e simpático Hotel Roy René. É também cidade de concertos musicais e uma Universidade para estrangeiros.

Barcelona, Espanha

Visitamos um local que se chama simplesmente “Pueblo d’ Espanha”. Talvez o nome não signifique para nós a beleza e a propriedade que são resultado do monumento.

É em forma de cidadela romana e lá, entrando pela enorme porta que enfeita e guarda a entrada, chega-se a um recinto de grandiosa harmonia no seu efeito. Empregando o termo brasileiro – o negócio foi bem bolado. É como se todo o edifício fosse a própria Espanha. Dentro estão as suas províncias em distribuição na posição real em que se encontram na geografia. No centro, onde deve estar Madri, fizeram uma cópia da “Plaza Mayor”.

Cada província é uma espécie de loja onde estão expostos os produtos manufaturados naqueles lugares. Levaríamos todo o resto da tarde e talvez não víssemos minuciosamente as curiosidades que lá se encontram. Ficamos até onde o dinheiro chegou e o estômago consentiu, pois era hora do almoço e estávamos morrendo de fome.

Monumento a Cristóvão Colombo, Barcelona

Vimos a manufaturação de vidro. Ainda não tinha visto e ficaria sentada o resto do tempo só apreciando o manejo único, que é grandemente agradável de se ver. Estavam fazendo uma grande garrafa verde para bebida. Não sei dizer ou descrever o negócio todo. A bola de vidro derretido sai do forno vermelho coral e, poucos minutos depois está verde folha. Os homens trabalham numa agilidade enorme é claro, e como eram dois grupos que trabalhavam, ficamos mais a ver o 2º grupo, pois era lá que o homem soprava o vidro. Interessantíssimo, porém, mais interessante eram as bochechas que o homem fazia, parecia que estava a tocar um trombone de vara.

Fomos ao cabeleireiro, Lourdes e eu, fizemos as unha e cortamos cabelo. Em primeiro lugar nos lavaram os cabelos, não nos perguntaram se queríamos que o fizessem. É uma norma deles. Para cortar ou pentear, os cabelos têm que ser lavados. Os meus quem lavou foi um adolescente, cerca de 12 anos. Aquilo lá enxameia de homens e mulheres, sendo homens mesmo… depois tiram o excesso de água com a toalha e cortam, aliás muito bem, diga-se de passagem. Não foi a mesma moça quem nos fez o serviço, apenas a manicure foi uma só, apesar de ter várias.

Os homens e as mulheres fazem o mesmo serviço, menos os que estão aprendendo, é claro. A moça que nos fez as unhas deve ter gasto cerca de 20 minutos, e são bem feitas, só não gostamos do preço: 100 cruzeiros as duas. O luxo e a vaidade da mulher afunda qualquer homem, se ela não pensar duas vezes no que vai fazer…

Vamos sair agora, pela manhã, em caminho da França. Dormiremos em Aix-en-Provance.

20/Maio/71 – Barcelona, Espanha

Uniram-se: a simpatia, a beleza, a deferência. Acredito que Barcelona seja a fina flor de Espanha. É uma menina-moça eterna fazendo sua “entrée” na alta sociedade do mundo.

Ao contrário do madrileno, o habitante de Barcelona, em geral, é simpático, tratável. As vendedoras, então, encantadoras. Não se pode descrever esta cidade. É preciso vê-la.

Ao contrário das cidades por onde já passamos: seja de Portugal, seja da Espanha, incluindo Madri e Lisboa, onde a influência moura é notável, Barcelona tem característica romana. Não italiana, romana mesmo. Fortes ou cidadelas, inúmeras fontes, estátuas, construções públicas, jardins e uma série de outras coisas.

O porto é bom, não tão grande como disse o guia (10 km), mas serve bem aos seus intentos. Fomos à Praça da Catalunha ver a “feira de passarinhos de Barcelona”. Vende-se ali, principalmente, flores e pássaros. Nunca havíamos visto hortênsia branca e salmon. Vimos hoje. Tem uma variedade imensa de geraniuns. Flores tropicais que talvez nem no Brasil se conheça.

Não sei de onde vem. Rosas, cravos amarelos com as bordas das pétalas em rosa vivo, brancos em vermelho! Arranjos florais sem arames para matar as pobres flores… Não sei descrever aquilo que vimos, é bonito demais. Fomos à feira de metrô. E chegamos num suspiro.

Mas o mais bonito é o que eles fizeram do morro onde está encarrapitado um forte construído pelos romanos. Desde a base até o ápice é um jardim de notável beleza.

Tiramos várias fotos e o Waldemar filmou um pouco apesar de ter perdido algum filme – tapetes de flores amarelas, brancas, vermelhas e rosas.

Nos morros que suportam as estradas para subidas, fizeram jardins tropicais de rara inspiração. Pedras, cactos, geraniuns, flores campestres de variedade imensa e cores várias, se confundem numa profusão de encantar. Vai-se subindo, e enquanto mais se sobe mais bonito nos depara.

Lá em cima tem um jardim de canteiros iguais em dois. São retangulares. Canteiros de bocas de leão (dois), dois de cravinas e estavam preparando dois de dálias. Disse o jardineiro que as haviam recebido do México. No centro fica o caminho que vai para o edifício da TV. E seguem então os canteiros formando outra série de dálias, cravinas e bocas de leão.

As cravinas são em todas as cores: até brancas, que eu não conhecia. Na extremidade de cada conjunto desses enormes e belos canteiros, tem outro em oval, com florzinhas roxas, e no centro uma estátua estilo romano representando qualquer deusa. Essas flores não são salpicadas, todos os canteiros, os morros, os tapetes nas beiras altas do forte são compactos. É como se fosse um imenso “bouquet” de flores várias enfeitando essa grande cidade.

Se houvesse tempo de descrevermos todos os lugares por onde passamos, todas as cafeterias onde entramos para tomar um lanche à noite, porque o jantar do hotel não nos agradou, todas as praças, monumentos, edifícios, grandes lojas, pequenas lojas etc., não haveria caderno que chegasse e somente uma taquígrafa (Siomara?) nos satisfaria se conseguíssemos realizar tal intento. A Europa é um imenso jardim apelidado de Velho Mundo.

Os canteiros diferem entre si pelas variedades de flores. O jardineiro que muitas vezes se transforma em um rude e ignorante hortelão, muitas vezes não soube, e talvez por muito tempo não saberá, conter os choques de perfume das suas flores. Quando há paz entre elas (as flores) existe suavidade no ar e aí então todos aspiram as fragrâncias com verdadeiro deleite.

Os brotinhos, mais felizes e alegres se tornam capacitados para se transformarem em flores mais belas e perfumadas. Tudo dependendo do cuidado extremoso do querido e velho jardineiro. Queira Deus não se torne ele, jamais, um antipático e resmungão “hortelão”.

18/Maio/71

Estamos saindo de Zaragoza – andamos que só má notícia, guiados pelo “perdigueiro” Antenor, para conhecermos a cidade em expresso canelinha. Ele queria encontrar a Catedral de Nossa Senhora Del Pilar e o que encontrou foi fundos de casas e vielas – vimos depois a bela Igreja com orientação do Sr. Diamantino.

Paramos um pouco em Lérida para o carro tomar “gasosa” ou gasolina como deve ser chamada por nós. Tomamos um cafezinho, Lourdes e eu. O Waldemar um Campari e o Sr. Diamantino um leite.

Ao sairmos de Zaragoza a paisagem mudou completamente. Do lado esquerdo, montes e montanhas de pedra, cobertas por uma vegetação que parece ser reflorestamento.

Fizeram na Espanha o mesmo que acontece com Minas Gerais. Não existe floresta nesta parte do País – Noroeste – É tudo seco, árido.

Do lado oposto, são campos cultivados. Trigo, uva, cevada, pastos, pêssego, que sei eu?

Enquanto em Portugal os campos cultivados com cereais são entremeados de árvore da cortiça, olivais, parreiras, pereiras e etc., aqui não existe cortiça. Existe mais pereiras, oliveiras e pessegueiros. Mas as flores de campo – papoulas vermelhas, margaridinhas brancas e amarelas, urzes azuis, florzinhas roxas, são iguais nos dois países. É um encanto! Para nós, que não somos poetas, nos faz falta rimar para enaltecermos tanta beleza natural!

Entre Guadalajara e Cifuentes

Ótima comida, ótimo vinho, bem servido, local campestre ao lado de um trigal. Me deu vontade de lá ficar o resto do dia, pois lá fora estava chovendo e um frio de rachar. Felizmente ao entrarmos em Zaragoza o tempo melhorou. Os filhos desta terra devem ter um orgulho enorme dela.

Primeiro por ser terra de Goya, o grande pintor, e segundo pela simpática atração que nos inspira.

Zaragoza

Zaragoza, vaga ao primeiro golpe de vista. Como entrada de cidades, quer grandes ou pequenas, dá-nos má impressão com seus edifícios de apartamentos, com florestas de antenas de televisão nos telhados. Mas à proporção que vamos entrando, descobrimos que Zaragoza é uma mulher bonita, vestida para um baile de máscaras. Tirar-se-lhes a máscara e se apresenta a beleza que é a terra de Goya e do Rei Fernando, o católico. Pena ficarmos tão pouco aqui. As galerias no centro comercial, dão um ar festivo à linda avenida em que se localizam.

Chegamos às 7h da tarde (em dia de sol, às 9h ainda é dia) e jantamos às 9h30, ou seja, 21h30. Saímos para fazer o quilo, como diz o Antenor, e fomos ver as galerias.

Na volta tomamos chá com torradas. O Waldemar tomou um conhaque quente (ficou fumaçando que só locomotiva). Regressamos ao hotel à meia noite.

Notamos que alguém esteve em nossos quartos. A luz do nosso estava acesa e no dos amigos rasgaram o involucro de uma cesta de doces que o Waldemar havia comprado e de certo tiraram algum, pois esta gente não tem anda de boba.

Não sentimos falta de mais nada. Deus queira que dê uma dor na munheca do sem vergonha que fez isso toda vez que for mexer no que não deve – a Lourdes sentiu falta de uma moeda, presente de filha.

Tourada

Fiz uma promessa à Santa Clara, preciso pagá-la. Para não ser desmancha prazeres aceitei ir a uma tourada. Fomos, seu pai e eu, o Waldemar, a Lourdes e o Sr. Diamantino.

Não gostamos, seu pai e eu, simplesmente. É uma reminiscência dos “circos” romanos, nada mais, nada menos. Tem beleza na sua coreografia – porque aquilo nada mais é que um bailado.

O toureiro, em seus passos de dança, excita ao infeliz animal a fazer o que ele quer com as picadas das bandeirilhas e da lança do picador, para no final do espetáculo, ou melhor, de parte do espetáculo, matar o touro. Sim, porque são seis touros, são duas horas de martírios para ambos: touro e toureiro. O toureiro esperando ser morto a cada instante, e dançando ao redor do animal para matá-lo. Saímos nós dois na metade do drama. O espectador se deleita e se integra como que vê lá na arena. Gritam os seus “olés”, as suas vaias e palmas quando se faz preciso.

Os trajes dos toureiros é o que tem de belo em toda a farsa. Cada um veste em cetim bordado, conforme a cor a que cada qual pertença, e a sua “quadrilha” segue-o para onde se dirija por trás da paliçada ou seja, as barreiras de madeira que protege toda a parte terrena da arena. O pobre animal é lancetado, “bandeirillado”, excitado até o clímax, isto é, a morte. E foi esta morte que não me fez bem aos nervos. Tive vontade de gritar aos quatro ventos que aquilo era um crime. Matar, pelo simples prazer em fazê-lo é mais que crime, é perversidade. Os mandamentos dizem: Não matarás! Não especifica o ser – humano ou animal. Mas aí está o homem continuando a fazê -lo. Deus nos perdoe.

Apesar de tudo é um belo espetáculo. Bem ensaiado, com todos os atores no seu devido lugar, inclusive os animais, cavalos e touros.

O edifício é grande, mais ou menos do tamanho do Ginásio do Ibirapuera. Se chama Plaza de Toros (o z tem som de ç).

O espanhol é agressivo e não sei se foi pouca sorte nossa, os do Hotel são os mais que encontramos. São “ecuetres” (cavalos) mesmo.

Madri está muito fria. Tem chovido e quem sabe encontraremos o sol em Saragoza ou Barcelona?

Sairemos depois do almoço, pois vamos fazer algumas compras.

As moças são bem bonitas e os homens mais ainda. Até aqui encontramos poucos cabeludos – deles, acredito que a maioria seja turista. Estivemos fazendo compras nas Galerias Preciados.

As moças são atenciosas, bonitas e educadas. Parece que foram escolhidas a dedo. É loja tipo “Mapin”. Tem vários andares, elevadores, as detestáveis escadas rolantes e estacionamento próprio.

Madri – Palácio Imperial ou do Oriente

Nem em sonhos se tem idéia da beleza que encerram estas paredes que guardam os espíritos, as almas, aventuras e tristezas de Reis e Rainhas. As vitórias, às custas de vidas inocentes dos peruanos e americanos da nossa América do Sul, deu ouro suficiente para o esbanjamento que se admira hoje como riqueza e como reminiscência.

É uma orgia de ouro, prata, pedras preciosas, bronze, mármores. Os relógios em quantidade de 400, incrivelmente belos, marcam as horas há mais de 1.000 anos. Existem 14 Km de tapetes conservados para admiração do público. São bordados em lã e ouro, pintados e tecidos. As galerias que guardam os quadros são várias. A pinoteca é uma fábula.

Nós veremos, sem dúvida alguma, coisas mais belas, mas o Palácio Imperial de Madri nos tocou mais de perto, talvez pelo entendimento latino-americano. Madri é grande e bem traçada com suas largas avenidas ajardinadas. Que também tem as suas ruas estreitas e perigosas, isso tem.

Acabamos de almoçar divinamente num restaurante que existe há 185 anos e que tem o nome de Restaurante Antiga Casa Sobrino de “Bótin”, Rua Cuchilleros, n.º 17.

Depois saímos a pé debaixo de garoa, vendo vitrines. Coisas lindas, especialmente os trabalhos de artesanato feitos em Toledo. As ruas estreitas que existem em Sevilha e Madri, talvez também em Toledo, fazem lembrar os romances de Capa e Espada tão difundidos há 40 anos mais ou menos.

Não é ficção. Havia naquela época mais possibilidades de assaltos, fosse para matar ou roubar, do que hoje, pela pouca ou nenhuma iluminação. Mas que o perigo persiste, não tenham a menor sombra de dúvida.

Em Portugal, ou melhor, em Lisboa, também existem as tais ruazinhas para prazer dos aventureiros, que nada mais são que assassinos em potencial. Já agora, nesta época de turismo, elas são conservadas mais como atração, e permita Deus que seja apenas para tal fim. É um verdadeiro formigueiro humano. Em Lisboa, onde nós as vimos em abundância foi no bairro de nome Alfama.

Um pequeno se grudou no Waldemar, que não o largou enquanto não recebeu alguns escudos. Eles, os habitantes do bairro, fazem uma espécie de feira, ou mercado, nas portas das moradias, onde se vende de tudo. Flores, verduras, frutas, peixes, carnes e roupas. As casas, tipo apartamento, não tem área de serviço, pois são construções milenares, e o homem, infelizmente, veio pensar em seu próprio conforto em época bem recente. E por isso as roupas lavadas são estendidas em varais improvisados nas janelas ou nas portas de entrada. Junto às flores que enfeitam varandas, janelas e portas numa mistura encantadora de cores, formam um adorável espetáculo.

Os dois países se irmanam bem nessas paisagens. Não fosse a limpeza que os diferenciam e a antipatia que os repele mutuamente, não se faria grande diferença entre as duas belíssimas nações.

E ademais a influência moura, os devia unir ainda mais. A arquitetura é o que há de mais belo e delicado. Nos trabalhos de madeira (entalhe), é que se vê de que são capazes os árabes.

Em Sevilha, onde visitamos com vagar o Palácio, hoje desabitado, mas que foi residência de sultões e depois de Reis espanhóis (infelizmente o vândalo Carlos V destruiu e fez reconstruir a seu bel prazer, na feia arquitetura da época, aquilo que o seu mesquinho espírito fez destruir).

Mas, como disse acima, o entalhe é qualquer coisa de notável. Aquilo não é colado nem preso com pregos. É simplesmente encaixado. Os desenhos dos tetos caem em contraste gritante com o piso. Não pode existir trabalho mais delicado nem mais belo. – Só pode ter igual. – O chão é de pedra bruta, pois era todo recoberto de preciosos tapetes árabes. Foi a riqueza da imaginação e da arte que o árabe, apesar de sua rudeza, legou ao europeu dessa parte do Velho Mundo, mas que ele (o europeu), apenas mostra aos curiosos, não procura imitar.

Ontem visitamos o Palácio Imperial e hoje o Vale dos Caídos – monumento aos mortos da Guerra Civil. Fica no distrito do Escurial, onde era a residência de verão dos Reis, de quem o distrito herdou o nome.

Não vimos o Escurial (palácio) apenas a Igreja de S. Filipe que faz parte do mesmo com um Mosteiro. A Igreja é imensa, mas o que mais nos atrai é o altar-mor.

A parede é toda revestida de pinturas com cenas sacras e imagens de santos em ouro puro. Mas, apesar da beleza, o que mais realça é o Sacrário. Deve ter em todo o seu tamanho, mais de 1 metro de altura por uns 1,80 de circunferência. Todo em ouro e revestido de pedras preciosas, é deslumbrante.

Estávamos com pressa, por isso não nos aproximamos o bastante para ver melhor. E estavam a celebrar a missa. A pressa é causada pelo desejo de ver o Museu do Prado. O Vale dos Caídos fica numa montanha.

Eles, os arquitetos, devem ter dado tratos a bola para resolverem o assunto de forma a não sacrificarem o espírito da intenção (aos mortos), e nem a beleza local. Existe simplicidade, beleza e imponência. Cavaram na rocha de pedra, um túnel onde construíram a capela. Tem duas portas para se chegar ao interior, depois subir uma grande escadaria. A primeira porta é de madeira lavada, a segunda em ferro trabalhado.

Sente-se um respeito religioso como se realmente ali estivessem os bravos moços sacrificados por aquilo a que o homem dá o nome de – Liberdade!

Ao fundo fica uma cruz com um Cristo em tamanho gigante e nas laterais imagens da Virgem Maria e Jesus. Tapetes com cenas bíblicas enfeitam as paredes entre as imagens. Ao se descer a escadaria que dá para a nave principal tem dois anjos da morte, em bronze. Gigantes em tamanho e em beleza. Um pátio imenso em duas divisões, com acesso em escadarias, tem uma vista maravilhosa, sobre pinheirais e penhascos cheios de pedras.

Universidade – anterior ao reinado de Dom Fernando – Hotel Afonso XIII ou Andaluz Palace

Universidade, também em estilo mourisco, feita anterior ao reinado de Fernando de Castela (hoje Santo não sei porque) é hoje um Seminário. É grande e imponente e com todas, ou quase todas as grandes construções de Sevilha, incluindo a Catedral, as torres, ruínas de muros mouros, castelos, e o próprio Alcazar, o hotel Afonso XIII ou Andaluz Palace – tudo é de cor escura. O interessante é que nas vilas e pequenas cidades quer portuguesas, quer espanholas, a cor predominante das residências – casa comum do povo, são todas caiadas de branco. A não ser as partes novas, construções recentes, tudo o mais é idéia do Sr. Antenor: branco, só branco.

Não me referi até agora a nossa bela mãe portuguesa. É um capítulo à parte em qualquer história de brasileiros que se preze e que saiba respeitar aquela que lhe deu o ser. Portugal nos toma o coração de assalto pela beleza e simpatia.

A fidalga acolhida que recebe o brasileiro em Portugal dá-lhe o direito de pedir sempre mais. A maior emoção que senti foi ao chegarmos ao Monumento dedicado ao Infante Dom Henrique, que foi inaugurado em 1960 por Juscelino – e que (nos disse o Sr. Diamantino), a avenida que passa beirando o Tejo, se chama simplesmente: Avenida Brasília.

Imponente, orgulho de brasileiros e portugueses. O monumento que fica a sobranceiro do Tejo, como que sonhando com futuras conquistas cujos desfecho foi a nossa terra; é linda na austeridade das figuras de seus homens sérios que se propunham em fazer grandes feitos.

As avenidas e praças, grandes, largas e floridas são um prazer para o olhar desprevenido de todos nós. Assim como Lisboa nos encanta, com seus castelos, suas residências, igrejas e tudo que compõe essa belíssima capital; o seu folclore e o interior do País nos deslumbra mais ainda.

Estivemos em dois restaurantes típicos: o “A Severa”, onde no fundo do salão principal, sobre um pequeno palco iluminado e com luz indireta, se encontra uma boneca, representando a infeliz fadista que morreu por muito amar o seu Marquês de Marialva, morto numa tourada.

Lá vimos e ouvimos vários fadistas. Entre eles estava um par de dançarinos que nos presenteou, e a todos que lá estavam para vê-los, com as danças típicas das aldeias portuguesas. Não podem imaginar a beleza que é tudo isto aliada à simpatia que é nata no portugueses.

O outro típico restaurante foi “Parreirinha da Alfama”. Pelo nome e vendo o bairro vocês compreenderão que infelizmente a fama não é das melhores. O restaurante é pequeníssimo, mas requintado. Recebe gente influente desde Café Filho até Wilson Simonal. É realmente muito agradável. Servido e dirigido por mulheres educadas e graciosas. Comemos e bebemos muito bem num e noutro.

Vista do Castelo de S. Jorge ou Castelo dos Moiros, Lisboa.

Na volta à Portugal, descreverei melhor (se puder). Ainda vamos ver várias coisas. Só vimos de perto, percorremos até o Castelo de S. Jorge ou Castelo dos Moiros. São ruínas do Castelo dos árabes quando Lisboa viveu sob seu domínio durante, parece, seis séculos.

Espanha e Portugal tem tanta influência moura que se vê por toda parte a melhor herança que eles podiam deixar para os dominados: a arquitetura. É simplesmente notável. Desde um simples muro à uma trabalhada chaminé. Casas brancas das aldeias e os seus nomes como Algarve e outros. As praias portuguesas não perdem em beleza diante das nossas. Quem disse que só no Brasil existe beleza – ou é cego ou não conhece o resto do mundo!

Assim como em Lisboa, fomos a uma espécie de show aqui em Sevilha. Uma pista circular quase ao centro da sala. Ao redor, cadeiras em profusão ladeando pequenas mesas redondas onde servem bebidas. Um grupo de 8 ou 10 bailarinas dançaram representando diversas aldeias espanholas. Não tem beleza o que se vê no cinema ou televisão. As cores, a agilidade dos bailarinos, os lindos trajes típicos espanhóis faz-nos esquecer tudo o mais que não seja vê-los e apreciá-los.

As castanholas, não são um mero enfeite nas mãos dos dançarinos espanhóis. É um instrumento que acompanha a orquestra, ao bailarino e muitas vezes sola. É lindo de ver e ouvir. Entusiasma ao espectador ao ponto de fazer como o americano velhusco, que foi para o tablado e se saiu muito bem da empreitada.