Memórias da Vovó Dina – parte 1

O Agnaldo e minha nora Shirley me pediram para que eu escrevesse sobre minha vida. Eu me pergunto… Sobre o que deverei escrever? Fui uma menina tímida e comum. Sonhei muito com coisas que sabia nunca possuiria. Sempre senti que me faltava algo mas, até hoje não descobri o quê.

Nasci na casa de meus avós paternos. Fui uma criança feia, quieta, calada. Aos 5 anos nos mudamos para nossa casa, pois até aquela idade morávamos na casa dos velhos avós. Meu pai casou desempregado e minha mãe era apenas uma menina de 17 anos inexperiente. O que a sustentou foi o seu valor moral, a sua paciência, a sua capacidade maravilhosa de conviver com os outros. Quando ela chegou lá, em novembro de 1914, já encontrou minha avó Januária, meu avô Manuel, tio Getúlio, tia Ester, tia Haydée (menina de 9 anos) e mais tarde tia Bertolina, irmã do meu avô. Com a morte da mãe, ela recorreu ao seu irmão mais velho. Chegaram mais, pelo casamento, minha mãe e a filha que chegaria em 26 de fevereiro de 1915. Dois anos depois, no dia de São José, 19 de maio, nasceria mais uma menina que morreu com 26 dias. De nascida.

O meu pai na sua ociosidade, procurava trabalho aqui e ali. Mas o que podia fazer um homem numa cidade como Rio Largo nos idos de 1900, senão esperar que Deus mandasse de presente alguns tostões? Trabalhava o irmão, tio Getúlio, como alfaiate, tia Ester fazia filó e minha avó costurava roupa de homem como camisas, ceroulas e ajudava meu tio quando aparecia o freguês e vestidos também, se tinha ocasião para tal.

Acredito que só não passamos fome. O negócio era minguado de verdade.

Quando fiz 5 anos, meu pai, por intermédio de um amigo, conseguiu trabalho na Companhia Alagoana de Fiação e Tecidos.

Daí em diante as coisas começaram a melhorar. Mudamos para uma casa do outro lado da rua. Casa esta, considerada uma das bonitas e melhores da rua do Coqueiro. Do lado direito da nossa casa existia um beco o qual dava para o rio Mundaú. Da sala de jantar se descia por uns degraus que terminavam no beco e seguia direto para o rio. Lá se tomava banho, lavava a roupa, pescava. Não dava para pescar muito por causa das pedras que eram demais. Quando chovia e o rio enchia, aí então é que a cidade fazia jus ao nome: Rio Largo. De rio estreito, cheio de pedras, formava-se um verdadeiro mar de águas barrentas e perigosas. Não se via a outra margem. Diziam que o rio Mundaú tinha 7 braços, mas quando cheio, era um bonito espetáculo com as baronesas (planta aquática) cheia de flores azuis salpicadas de branco e amarelo, descendo a correnteza. Os moradores da pequena cidade com tarrafas, puçá, vara com anzol, urupemas (peneiras) e mais o que imaginasse, procuravam pegar ou pescar peixes e camarões para vender ou comer. Rio cheio, camarão à vista. O rio que deságua na cidade de Satuba na Lagoa Mundaú, vai deixando nas margens a riqueza que habita dentro de si: peixes e camarões. Camarão de água doce não tem igual. Só que na nossa casa ninguém nunca se prestou a isso. Meu pai era muito fidalgo para tal. Meu tio, creio, nunca cogitou semelhante trabalho. Meu avô (ele que perdoe) era preguiçoso demais. Eu creio que se ele quisesse, minha avó jamais deixaria. Pobre besta, metido a orgulhoso não se rebaixa para certos trabalhos mesmo sendo para suprir a magra despensa.

Mas voltemos à recordação do nosso rio que era para mim, aos meus olhos de menina triste e tímida, uma coisa linda de se olhar. Era nosso banheiro, nossa lavanderia e nosso passeio predileto para comer ingá, apanhar sapatinho de judeu (flor branca e vermelha do mulungu). A árvore alta, frondosa. Ninguém se atrevia a subir nela por causa dos espinhos. Os ingazeiros estavam a nossa disposição nas margens do rio Mundaú. Dentro de cada vagem existiam 8 ou 10 frutos para serem comidos. Doces e carnudos, uma delícia. Nos quintais tinham cajaranas, laranjas, mangas, goiabas, bananas, aquilo era festa para a criançada e os passarinhos. Minha mãe quando ia tomar banho no rio (só não tomavam banho no rio as crianças de peito ou as pessoas doentes de cama), sempre davam um jeito, ela e as que iam junto, para roubarem melancia do canavial do dr. Alfredo Oiticica. Os homens que trabalhavam no canavial plantavam melancia para aproveitarem o terreno e também para ajudarem a magra refeição.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

Anúncios

Um pensamento sobre “Memórias da Vovó Dina – parte 1

  1. estupendo, fantastico, rico em detalhes deveria estar num livro
    por favor se isso acontecer de-me este prazer.Há 50 anos vivo fora de Rio Largo mas seu relato foi uma janela para minha alma.

    um afetuoso abraço

    claudevan melo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s