Memórias da Vovó Dina – parte 6

Nessa época morreu minha bisavó, Dindinha Emília, como a chamávamos. Lembro-me da sua beleza e mansidão. Aliás, era a maior característica. D. Anísia, que de mansa não tinha nada, talvez por ter feito um casamento sem amor, era enfezada, brava. Trabalhadora ao extremo, não tinha quem lhe ajudasse no serviço caseiro, pois não gostava de empregada. Lavava, passava, cozinhava e cuidava da casa.

Idalina, Rio Largo, 1924.

Minha mãe, enquanto solteira era dona do grosso do serviço. Depois tudo passou às mãos da minha avó, que ainda tinha tempo de costurar as camisas do filho José Maria e do marido. Aliás não eram só camisas, as ceroulas também. Ela não morria de amores por mim. Não sei se por ter tido pressa em nascer, a verdade era que eu sentia, sabia lá no meu coração que ela vivia para os dois filhos: Odolino, o mais velho e Idalina, a mais jovem deles.

Quando pelo casamento de minha mãe, Idalina tinha 8 anos. Tia Haydée e ela eram da mesma idade. Nunca conheci duas criaturas tão diferentes em gênio. Não eram parentes, é verdade, mas podiam ter sido amigas. A tia Haydée era sisuda, calada, não sei se por timidez ou pelo modo que foi educada. Era o dodói da minha avó. Não cantava, não dançava, não gostava de sair da casa.

Aos 18 anos casou com um rapaz sem ocupação. Já estavam noivos quando ele foi chamado para o exército (sorteado, como diziam). Não sei se tiveram medo que ele ficasse lá por Maceió, a verdade é que se casaram na casa dos meus pais. Casamento simples mesmo porque as posses eram poucas. Quando ele, o Zeca, foi elevado a cabo, veio buscar a mulher. Não era, como disse, uma mulher alegre. Ao contrário do marido, que era a alegria em pessoa. E sem juízo também. Para ele tudo era fácil. Cantava e dançava muito bem. Bonito e simpático. A par de tudo isso, tinha pouca inspiração para o trabalho. Era um verdadeiro artista no desenho e na escultura. Sabia copiar uma partitura musical como poucos, muito embora não conhecesse uma nota.

Fernandina e Idalina na praia

Fez todos os móveis da casa que um dia montaria. Cama, penteadeira, mesa de jantar, cadeiras, guarda roupa e etc..

Aproveitado na devida hora teria vencido na certa. Infelizmente ninguém nunca conseguiu domar os “diabinhos do sótão” do querido tio Zeca. Quando deu baixa do exército, o cunhado (papai) lhe arrumou trabalho na fábrica. Foi nesse período que fez os móveis. Quando veio a revolução de 30, ele foi chamado para se apresentar como segundo tenente. Nunca recebeu um tostão dos proventos e continuou a trabalhar enquanto a mulher mourejava na máquina de costura. Ela que já havia perdido a primeira filha com 6 meses de idade, na ida dele para as fileiras teve um aborto de 3 meses.

Um belo dia, ou melhor, uma bela noite, disse à mulher que ia ver um negócio e não mais voltou. Ela passou a noite em claro esperando. Às cinco da manhã chegou em casa do meu pai perguntando o que devia fazer…

É esta a história do pai do Juraci, José Vicente Fernandes Sobrinho. Seis meses depois nascia o resultado de tanto amor frustrado e tanta desesperança. Ela voltou de mala e cuia para a casa dos pais para receber de vez em quando umas alfinetadas por parte da mãe e de irmã. Se já era introvertida, mais ainda ficou pois a má sorte é um carma desesperador. O que sustentou o ânimo da criatura foi a fé que ela dizia inabalável, verdade insofismável. Não fosse isso e ela teria sucumbido, embora o filho que trazia no ventre. Ele escreveu várias vezes e chegaram inclusive a marcar viagem para que ela fosse morar na Paraíba. Não sei se foi o que tia Ester lhe disse ou se foi o bom senso quem venceu a dúvida. Ele morreu (foi assassinado em Recife), o filho tinha 3 anos.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

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2 pensamentos sobre “Memórias da Vovó Dina – parte 6

  1. Agradeço de coração tudo isso que está acontecendo. Nunca esperei. Gente completamente desconhecida me cumprimentando é uma surpresa muito grande e agradável.
    Que Deus abençoe a todos por aquilo que pensam de mim e por tudo o que escreveram me cumprimentando. E que um dia eu possa pessoalmente, nem que seja na espiritualidade, agradecer, abraçando e amparando a todos esses que me elogiaram sem eu saber.
    Sou grata, eternamente grata, por tudo quanto tenho recebido de todos aqueles que me engrandeceram e elogiaram e desejo a todos um abraço muito grande e um beijo muito sincero.
    Fernandina

  2. É incrível como a a vida de quase cada um que aparece nas histórias, já dá um romance por si só. Que gente mais sofrida, meu Deus!

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