Memórias da Vovó Dina – parte 7

Não posso deixar de desviar da narrativa principal da minha conversa com vocês, senão contar a vida daqueles que foram as testemunhas chaves da minha vida. Sem eles a vida da sua mãe não seria possível. Ninguém vive só. Devi muito a todos. Favores e ajuda. Ou eu não estaria viva.

Tia Haydée ficou em Rio Largo onde lhe nasceu o filho. Ajudada por toda a família e pela sua moral ilibada venceu em toda a linha.

Depois que nos mudamos da casa dos meus avós paternos, os nossos tios e avô maternos passaram a vir nos ver. Quem mais vinha era Idalina, a quem eu chamava de Dola. Era alegre, simpática, gostava de se vestir bem, adorava tirar retratos, dançava muito bem, lia muito, tinha uma linda letra que nunca consegui imitar. Meio desafinada para cantar, estava pouco se incomodando com isto. Era, enfim, uma feliz criatura e tinha o dom de alegrar qualquer ambiente. Os pais a adoravam e talvez por isso ela tenha se tornado um pouco irresponsável pelos seus próprios atos.

A família do tio Zeca (pai do Juraci) era composta de dois irmãos: José e Manuel Vicente Fernandes. O Sr. Manuel, pai do tio Zeca, tinha quatro filhos: Mãezinha (nunca soube o nome), José Vicente (tio Zeca), Abdias e Manuel, conhecido como Paizinho.

O outro José Vicente tinha dois filhos: José Vicente Fernandes Filho (como veem, a variedade de nomes é perfeita) e Luiz. O Sr. José Vicente era o rico da família, o Manuel Vicente era o pobre. Vivia sob a proteção do irmão, o qual fez de tudo para ajudá-lo. O homenzinho era avesso ao bem estar e nunca o irmão conseguiu melhorá-lo.

O Sr. José Vicente morava numa bonita casa com jardim e o irmão numa pobre casa, quase uma tapera. Os filhos do Manuel pouco o ajudavam e o outro por sua vez, mandou o filho mais velho (o José Vicente Filho) estudar em Recife. E isto, podem crer, era sinal de riqueza. O desvio da minha história era para contar um pouco da família Vicente Fernandes, mostrando a coincidência na vida de duas criaturas perfeitamente diferentes, mas que no fundo se uniram para sofrer por amor.

Idalina, Rio Largo, 1926 - cartão postal enviado "Ao Snr. José Vicente Sorinho e sua Senhora" com a dedicatória: "Ao Leca e sua Senhora offereço a minha photographia como prova de estima. Idalina, 21-11-926"

Enquanto tia Haydée, na sua beleza serena e simples, se apaixonou pelo belo Zé Vicente, avesso ao trabalho e ao progresso material e espiritual (não avançou um passo na sua evolução), a tia Dola se apaixonou doidamente pelo outro José Vicente, mais conhecido como Juca. Uma paixão sem futuro pois além de estudante era filhinho de papai rico que lhe fazia todos os gostos e desejos. Viviam se escrevendo e mandando poesias e sonetos, como era moda naquela época. Não lembro quando isso começou, mas sei que foi depois do casamento da tia Haydée. Ele era um bonito rapaz. Moreno, alto e magro.

Os namoros simples daquele tempo eram apenas de olhadas, sorrisos e quando muito, apertos de mão. Um belo dia ela soube que ele estava namorando umazinha, filha de uma costureira que morava em frente a ele. Não faltam os maledicentes do leva e trás e nossa Dola entrou em desgosto profundo. Brigaram, ele disse que era mentira, que o povo falava demais, etc, etc. É pena que a minha memória seja tão curta pois eu saberia dizer quando o nosso Juca veio de férias e não mais voltou. Estava seriamente doente e em pouco tempo a tuberculose o levou. Idalina nunca o esqueceu. Quando falava nele, seus olhos enchiam de lágrimas.

Anos depois casou com um sargento do exército, pernambucano, chamado Carlos (o sobrenome me foge). Ninguém da família aceitava esse casamento, mas a moça bateu o pé e casou. Quatro ou cinco anos depois se separaram. Ela ainda teve um filho falecido logo depois do nascimento. O marido bebia muito e dizem que era até viciado em drogas. Ela nunca falou nisso e proibiu até de falarem no nome dele. Senão era para falar bem, não dissessem nada. Caprichou no casamento. Teve damas e garçons de honra. Meu pai vestiu fraque. As damas de vestido armado, meio longo, branco. Uma tiara na cabeça e nas mãos um arco florido para que os noivos passassem por baixo. Os rapazes também vestidos de branco, segurando a outra ponta do arco, davam ao ato um sonho de cinema. Eram seis damas e garçons.

Isso em Rio Largo foi um grande acontecimento. Ela não quis casar em Maceió. A verdade é que ninguém da família ficou sabendo o porquê daquele casamento, se era para esquecer o Juca ou para não ficar solteira. O tio Odolino, vindo para o casamento (ele morava em Santa Catarina), tudo fez para que ela acabasse aquela doidice e fosse com ele para Florianópolis. Não quis. Casou minha tia Idalina e não foi feliz também como a outra. A mãe, vovó Anisia, foi a quem mais sentiu o casamento da filha. Depois da separação do casal votou ao infeliz um rancor enorme. Só não extravasava demais seu sentimento porque a capacidade de perdão da filha a desmoronava por completo.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

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3 pensamentos sobre “Memórias da Vovó Dina – parte 7

  1. Às vezes, a gente tem a nítida impressão que está passando um filme diante dos seus olhos e ela tem a audácia de dizer que a memória merece reparos. É humilhante para nós, pobres mortais!

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