Memórias da Vovó Dina – parte 8

Recordando os casamentos da família da qual faço parte, é com admiração que noto quanto eles foram mal apreciados. A começar pelo dos meus pais, Regina e Fernando. Conheceram-se em Fernão Velho, cidade operária pertencente ao município de Santa Luzia do Norte. Meus avós paternos moravam lá pela força do trabalho do filho mais velho, Fernando. Com 24 anos já era gerente da estação da estrada de ferro Great Western Brasil Rawley. Começou como telegrafista e logo subiu de posto. Autodidata, era o orgulho da família, principalmente da mãe, que o via como a um deus.

Os meus avós maternos foram para Fernão Velho mais ou menos no começo de 1912. O meu avô era maestro. Havia vindo de Passo de Camaragibe para Maceió como tenente da polícia, regendo a banda de música da tal corporação. Saiu para ir trabalhar no Tesouro do Estado e por saberem da sua capacidade como maestro, foi convidado pelos donos da fábrica de Fernão Velho (Família Machado) para organizar e reger a banda de música do Centro Operário. E como a distância de Fernão Velho era apenas de 10 ou 15 minutos de trem, ele achou por bem levar a família para lá. Só o avô ficava em Maceió durante o dia no trabalho. De tarde ia para Fernão Velho e de manhã ia para Maceió. Devia ser cansativo, mas nessa época ele deveria pegar um touro pelo rabo.

Banda Masculina da Companhia Alagoana de Fiação e Tecidos, regida pelo maestro Agérico Lins, avô materno de Fernandina.

Regina, com 14 anos, ainda ficara em Maceió em casa da avó Emília. Em um mês ou dois, viajou para ficar com a mãe e os irmãos. Foi com o tio Macário, irmão mais moço da minha avó. Ao saltar do trem, na plataforma, a meia lhe deslizou pela perna e ela se curvou para arrumá-la. Neste momento Fernando a viu e achou que aquela menina era a coisinha mais linda que ele já vira. De baixa estatura, cheinha de corpo, cabelos pretos, branca e corada, era um postal para qualquer rapaz que a olhasse e admirasse. Fernando pensou que o tio fosse seu namorado, mas a irmã Ester, que logo foi visitá-la, deu notícia da verdade. Macário era apenas tio. Muito moço sim, mas não passava de parente. E logo o namoro começou. Devido ao escândalo provocado pelo irmão Odolino, saíram mais cedo do que esperavam de Fernão Velho.

Odolino com 16 anos se armou de homem e seduziu a namorada Isaura. Daí apareceu o indesejável filho para desgraça, não da pobre menina e sim, da nobre família Lins na pessoa da minha avó. O pai de Isaura foi em casa do rapazinho e narrou o acontecido. Minha avó disse que nada se podia fazer devido a pouca idade do (safado) querido filho. A menina tinha 15 anos, talvez. O pai dela exigiu o casamento e meu avô aceitou. Enquanto se preparava os papéis para o enlace, Anísia com toda a sua fúria, foi à Capital providenciar o alistamento do filho no exército. Não se sabe como, mas a verdade é que apesar da idade, logo depois do casamento, Odolino foi incorporado no 20º Batalhão de Caçadores. Não nasceu para aquela vida. Quando se reformou, já em Santa Catarina, ainda era 1º sargento.

Fernando, pai de Fernandina, na praia com acompanhante não identificada

Voltemos ao namoro Regina – Fernando que é o que nos interessa agora. O pai Agérico arrumou emprego em Pilar como maestro, e para lá foram de malas e bagagens. Já não era possível o pai viajar todos os dias para ir se juntar à família, Pilar ficava fora de mão. Não havia estrada de ferro e então ele passou a ir de 8 em 8 dias. Fernando, para ver a noiva (se tornaram noivos antes da ida para Pilar), ia de bicicleta. A estrada era manga de colete, era o que chamavam trilha de cabra. Tanto era assim que ao voltar uma noite, ele se perdeu. Sem direção, morrendo de fome e sede, amanheceu em pleno Tabuleiro do Pinto. Para matar pelo menos a sede, urinou na mão e bebeu. Não acredito que tenha satisfeito a necessidade, mas como dizem que a fome tem cara feia, a sede tem mais ainda. No Tabuleiro não havia uma gota dágua. O solo rachado pelo sol inclemente não medrava nem mandacaru.

Preocupava-se cada vez mais com a própria situação financeira e com o sofrimento da noiva, cuja vida não era fácil em casa dos pais. Encarregada do serviço mais pesado, não tinha folga nem para se divertir um pouco. Desde menina, nem brincar de roda com as outras crianças lhe era permitido. Saiu da escola aos 10 anos de idade para ajudar a mãe nos misteres da casa. A mãe teve 18 filhos e ela como filha mais velha assumia todo o encargo, não só da cozinha como de todo o resto. Encarado do ponto de vista amoroso os dois se bastavam. E o amor foi tão grande que chamaram a filha antes da hora.

Pouco tempo depois a família saiu de Pilar e foi morar em Maceió. Lá descobriram a gravidez da pobre menina e trataram da celebração do casamento antes que o escândalo estourasse de uma vez. Mesmo desempregado, Fernando se casou e levou a envergonhada mulherzinha para casa dos pais, onde ela encontrou amor e compreensão. Não foi nem um pouco fácil a situação da Regina, envergonhada e tímida como era, saber que as más línguas a apontavam como a pior das mulheres. Se não havia fartura de alimento, havia fartura de amor dentro do lar pobre e simples que a acolheu.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

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