Memórias da Vovó Dina – parte 9

O segundo casamento mal recebido foi o do tio Getúlio. Minha avó nem queria ouvir falar. Namorou a Sinhá um par de anos. Ela, nascida Sebastiana, era filha de d. Santa (Santina) e o pai Sebastião Mello, que vivia de “panete” levantado, não parava em casa. Só aparecia por uns meses, deixava um filho na pobre coitada e sumia lá pelas bandas do Norte. O filho mais velho, José Luiz era o “cu”da preguiça. Também herdou o “faniquito”do pai. Mentiroso, adorava contar bravatas, seduções até em mulheres casadas. Vinha depois Oswalda, a tirana da casa. Todo mundo tinha medo dela. Alta, muito branca, cabelos longos e claros, bordava muito bem – ela e Sinhá bordavam para ganhar uns minguados mil réis e ajudar a mãe costureira/alfaiate.

A Oswalda tinha mania de limpeza e de ordem. Era chamada de Vale por todos. Geralda, a Dina, morena, miúda, olhos e cabelos pretos, era alegre por natureza, apesar da vida dura. Casada com Quincas (Joaquim), marceneiro de profissão, trabalhador ao extremo, tinha um grave defeito: não tomava banho. Bem se diz que mulher só não casa com sapo porque não sabe qual é o macho. Só as provas espirituais explicam certas uniões entre homem e mulher. A Dina era uma bonita morena e simpática. Tiveram 4 filhos. Todos tinham a cara angulosa do pai. Não era mau homem. A ignorância faz do homem um ser à parte. Desgracioso, meio corcunda, o pó da madeira devia lhe grudar nos cabelos, sem falar no corpo. Dormir com o infeliz não devia ser fácil. Para completar, o aspecto de tísico lhe dava uma cor cerosa.

Enquanto eu, menina, não saía da sala da casa da d. Santa, raramente passava da sala da casa da Dina. Em frente era a oficina da marcenaria e lá ficava eu horas inteiras vendo os homens e os aprendizes plainarem, serrarem, colarem, montarem as peças que se transformavam em cadeiras, mesas, armários, camas… era um nunca acabar de movimento e a menina curiosa achava o máximo.

Euzébio

Depois da Dina vinha Eutíquio, Euzébio e Magnólia. Eutíquio largou a cidade e foi para o Rio de Janeiro ser marinheiro. Conseguiu e se deu muito bem. O pobre do Euzébio, marceneiro como o cunhado, que lhe ensinou tudo o que sabia, foi o sacrificado para assumir a responsabilidade da família. Mais não fez porque não pode. Quase sem estudo, não teve vagar para aspirar coisa melhor.
Sinhá era a terceira filha da casa. Humilde e simples, não era o que se pode chamar de beleza. Tudo fazia para agradar a ranzinza futura sogra e nunca conseguiu. Muitas lágrimas derramou fazendo confidências à minha mãe. O mais de admirar era que a ojeriza da vovó pela coitada da Sinhá se transmitia para tia Haydée, moça já precisando também do apoio de amigos e familiares para o seu torto namoro, noivado e casamento.

Magnólia, 1936

Tem coisas nesta vida que a gente, por mais que tente, não consegue entender. O orgulho e o preconceito superam o sentimento da tendência amorosa que se deve ter para com aqueles que devemos aceitar e amar. Pelo bem do filho Getúlio, que tudo fazia para suprir as necessidades da família, era que deviam ter procurado compreender o espírito nobre daquela que era simplesmente Sinhá. O casamento só se realizou depois que tio Getúlio começou a trabalhar na fábrica, onde o irmão conseguiu localizá-lo.

Da filha mais moça, por enquanto direi apenas que era minha companheira de folguedos. Era mais velha do que eu um ano, gordinha, bonita, simpática, cabelos castanhos e olhos idem. Magnólia era mimada por todos da família.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

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4 pensamentos sobre “Memórias da Vovó Dina – parte 9

  1. Quando eu estava grávida da Laura, o vô resolveu que um bom nome para o bebê seria Eutiquio se menino e Zulmia se menina. Quase caí das pernas quando ele disse que Eutiquio era nome de verdade, que era irmão do seu Eusébio, que eu conhecia de Maceió, aonde comí o melhor sururu de capote que alguem pode comer. De Zúlmia não vou comentar….

  2. Essa viagem a que Siomara se refere, tem uma das coisas que mais me marcou e lembro com muito carinho. Tem como protagonista o Sr Eusébio. Estávmos hospedados na citada casa da praia e era fim de tarde e fomos à praia. Lembro como se fosse hoje, ele de calção de banho dentro do mar de Paripuera que era um lago de tão tranquilo e o sol se pondo de um lado no horizonte com todas as tonalidades de vermelho, lindo, lindo, e do outro lado a lua cheia nascendo na sua cor branca, enorme, e ele: “Fernanda, a lua aqui, nasce pingando, pingando”. Deus do céu, não dá para esquecer aquela maravilha! e a pessoa do Sr Eusébio, doce e querida criatura!

  3. Conhecemos seu Euzébio já de algumas vezes que ele tinha vindo nos visitar, não lembro se ainda em Itajubá, ou já aqui em São Paulo. Mas foi somente quando da nossa primeira visita a Maceió, da Anajas e minha, que estivemos mais de perto com ele e vimos a pessoa deliciosa que era. Homem simples, carinhoso, transbordava amor pela mulher e filhos. Nos recebeu de braços abertos e não sabia o que fazer para agradar. Ficamos hospedados em sua casa em Paripueira, naquela época ainda uma praia de pescadores, uma casinha simples, mas gostosa e confortável. D. Sílvia, sua esposa, secundou-o nessa recepção e preparou refeições maravilhosas, inesquecíveis. Isso em janeiro de 1972, uma viagem inesquecível. No Banco do Brasil, eu era colega do seu filho Silvio, que hoje mora em Bauru, mas que tem um profundo amor pelos meus pais, que considera seus segundos pais.

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