Memórias da Vovó Dina – parte 10

Zé Maria, 1926

O casamento da Idalina foi um desastre, como já contei, o da tia Haydée um desastre e meio.

Mais um que também se pode dizer que foi um fracasso, aconteceu ao tio Zé Maria, irmão de minha mãe.

Não sei bem se o fracasso foi para ele ou para a querida Gilda, que deu o melhor de si para que desse certo aquele casamento, que eu, particularmente, qualifico de sem graça. Eis a história:

Gilda teria de 13 para 14 anos. Era morena clara, cabelos pretos e olhos pretos, grandes e expressivos. Simpática, educada, inteligente. Era também boa filha e boa amiga. Seu nome era Astrogilda mas era simplificado para Gilda. Era sobrinha e filha adotiva de uma professora, d. Mariazinha e seu marido Ramiro Cardoso. Em Rio Largo, como aliás toda cidade pequena, todo mundo se conhece e priva da intimidade uns dos outros. A diferença de idade entre nós duas seria no máximo de 3 anos.

Como o tio Zé Maria vinha muito à nossa casa, o namoro começou logo, sério da parte dela e para matar o tempo da parte dele. Meu tio era de pequena estatura, olhos meio puxados como de chinês, alegre, insinuante com as moças, principalmente quando elas lhe davam atenção. Não creio que Gilda tivesse alguma esperança de um dia casar com o dito cujo, mas como o coração é terra que ninguém vai, sabe-se lá o que ela sonhava!

Um belo dia a mãe verdadeira da nossa heroína resolveu tomá-la de volta da mãe adotiva que era na realidade sua própria irmã. A desculpa era que o pai iria com toda a família para São Paulo e queriam levar a Gilda com eles. D. Mariazinha e Sr. Ramiro só faltaram ficar loucos. Eles criavam a menina desde pequenina (nunca tiveram filhos seus). D. Mariazinha pediu à irmã a criança logo que ela nasceu e confiou que a “abençoada” mulher jamais pediria de volta a sua adorada filha. E o impasse estava criado. Ou ela entragaria de volta a mocinha, ou a irmã iria à Justiça.

Desesperada, d. Mariazinha recorreu a meu pai para que a aconselhasse. Meu avô Agérico estava lá em casa na ocasião e o conselho de ambos, meu pai e dele, é que ela fosse falar com o Intendente (uma espécie de prefeito). Eu fui enrabixada com eles. Meu avô, d. Mariazinha, tia Ester, Gilda e eu. O parecer do Sr. Antonio Vaz de Castro era que ou ela entregava a menina ou teria que casá-la para poder conservá-la. Devido ela ser de menor idade não havia outro recurso. Meu avô sabendo do namoro do filho com a Gilda disse que, se era só isso, estava tudo resolvido: a menina se casaria.

Nessa mesma tarde meu avô seguiu para Maceió para falar com o filho, enquanto tia Ester e d. Mariazinha foram de carro até Pilar buscar a certidão de nascimento da Gilda.

Foi um corre-corre para homem nenhum botar defeito. D. Mariazinha escreveu para a irmã em Fernão Velho pedindo que esperasse um pouco até ela resolver o que faria (a mulher tinha pedido 8 dias de prazo). Com a boa vontade do Intendente e a simpatia do Juiz de Direito o casamento se realizou em menos de 15 dias. Até aí tudo bem. Mas como a Gilda era menor, tiveram os dois que esperar 1 ano (de janeiro a janeiro), para a celebração do casamento religioso. O noivo ia e vinha de 8 em 8 dias para noivar. Ficaram chuchando no dedo 12 meses. Acredito que nem um beijo trocaram.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

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