Memórias da Vovó Dina – parte 11

Com a realização do religioso, o casal foi morar com os pais dele em Maceió. O tio trabalhava lá, era empregado em uma loja e o que ganhava não dava para alugar casa e sustentar a mulher. A Gilda sofreu que só suvaco de aleijado na casa dos sogros. Não era fácil viver com a d. Anísia. Tinha uma carência de afeto enorme. Não sei se devido à pouca idade, certo é que o isolamento em que vivia devia afetá-la profundamente. O amor do marido devia ser uma mescla de tolerância e piedade pela menina-moça que lhe impingiram como esposa. O mais compreensivo era meu avô.

Nesse meio tempo, meu tio perdeu o emprego. Resolveram vir para Rio Largo. O sogro (Sr. Ramiro) lhe montou uma mercearia. Primeiro, para facilitar a vida do casal, foram morar todos juntos. Quando nasceu a primeira filha, creio que o tio Zé Maria já estava “cheio” da convivência com os sogros. A casa era pequena, com dois quartos e a sala tinha sido transformada em mercearia. Além disso, tinha um corredor, sala de jantar, cozinha, banheiro e um pequeno quintal.

Viver com a minha avó não foi fácil para a Gilda e viver com os pais dela naquele ninho deve ter dado a ideia ao meu tio de um condenado.

O Sr. Ramiro era um bom homem, coitado, mas não tinha muito o que se chama ainda hoje de educação doméstica. Não entremos no mérito da questão, mas o casamento Ramiro-Mariazinha só se realizou pela vontade férrea da noiva. Cachoeira em peso se admirou da coragem dela. Eram três ou quatro irmãos e o pai na Fábrica de Tecidos. D. Mariazinha era professora primária. Fez de tudo para que, pelo menos, ele soubesse se vestir. Gordo, barrigudo, camisa fora das calças, moreno, feições mais para feias, era aquilo que o mineiro diria: coitado, tão sem graça!

Ela não era melhor em beleza, mas se vestia corretamente. Com o pouco que ganhava como professora e o açougue do marido, criaram a menina Gilda da melhor forma possível. Não frequentou colégios porque lá em Rio Largo nem isso tinha (anos depois instalaram o Colégio Batista ao lado do Templo, mas mesmo assim tenho certeza que ela não teria ido, devido à religião). A própria mãe-tia foi quem lhe ensinou e a inteligência da menina completou o que ela mais necessitava.

Mas, como dizia, o meu tio se via encurralado. Não fosse a bondade e meiguice da mulher, ele teria jogado tudo para o alto. Depois de um tempo, junto com o pai de Gilda, ele conseguiu, não sei por qual arte (pois dinheiro era manga de colete), montou ele próprio uma bodega, venda ou mercearia, ou sei lá que nome tenha. Lá tiveram três filhos que Deus na sua infinita bondade levou com meses de nascidos. Só ficou Selma, a neta que veio preencher a lacuna que Gilda havia deixado em casa dos pais.

A sorte da nossa Gilda é que havia em casa de D. Mariazinha, uma empregada que se afeiçoou enormemente a todos eles. Ela, Juventina, tinha uma filha que se chamava Antônia, que era a pagem da Selma. Essa Juventina, por apelido, Puti, foi o anjo bom da mãe de Selma.

O tio Zé Maria, não suportando mais a lida de merceeiro, resolveu entrar para a Fábrica de Tecidos. Conseguiu e não sei realmente se a vida, com relação ao dinheiro, melhorou.

D. Mariazinha continuava ajudando e a vida da Gilda era a tristeza de sempre. Ela não fazia confidências, mas o jeito dela, apesar da alegria que demonstrava, era de quem não tinha motivo para ser feliz. Quando chegou a doença para a pobre coitada, eu já era casada e morava em Maceió. Tio Odolino por essa época estava lá de passeio na casa da mãe. Depois de idas e vindas de Rio Largo para Maceió, foi constatada a verdadeira causa dos gânglios no pescoço da pobre Gilda. O médico achou que ela ficaria melhor morando em Maceió e veio então, com o cunhado e a Juventina, para seguir o tratamento necessário daquela época. A tuberculose levou 9 meses para levá-la. Nesse tempo todo, o marido veio vê-la uma única vez e a filha, trazida pela avó, duas vezes, senão estou enganada. Com a Gilda morta, deu-se o maior drama da pequena família. O tio Zé Maria voltou a morar com a mãe (morava com minha avó em Rio Largo desde que ela ficou viúva, mais a tia Gonda). E por raiva da sogra, amor pela filha ou falta de caridade, levou com ele a única alegria que restava na vida dos dois (D. Mariazinha e Ramiro).

Selma, Rio Largo, 1945

Em pouco tempo, dois anos talvez, sucumbiu de sofrimento com a separação da neta, a avó de Selma, d. Mariazinha. Morta a coitada, a vida da Selma foi o que se costumava dizer: “aquela água”. A pobreza da minha avó Anísia, o zelo excessivo que se tinha pelos jovens, o abuso do poder dos mais velhos e o desprezo que existia para com os avós maternos da menina, tudo isso junto, deu para que ela esconjurasse a vida que levaria daí por diante. A revolta, a mágoa, a falta da abundância que não existia em sua nova residência, tudo influiu para a infelicidade da criatura órfã de tudo, até de amor. Não soube, com o tempo, compreender a necessidade do sofrimento e com isso não soube perdoar a ninguém que contribuiu para o seu desprazer da vida.

Quando vovó Anísia teve que recorrer à sua tolerância para suportar-lhe a velhice, foi com desespero que aceitou o cargo. A infeliz mulher não tinha para onde ir. Quem ajudou-a na doença foi Benedito, o marido da neta. Os encargos da família (Selma teve cinco filhos), obrigada a trabalhar fora de casa para ajudar no orçamento precário do marido e ainda suportar a doença-velhice da pobre Anísia, era demais para os nervos da Selma. Mesmo com a ajuda do marido, era terrível para ela que, na sua auto-crítica, não existia maior sofredora.

Mais um casamento idiota, mais uma fracassada união.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

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Um pensamento sobre “Memórias da Vovó Dina – parte 11

  1. Maíra,

    Ontem estive numa reunião com sua mãe, sua tia e com seu irmão Leonardo. Que pessoas incríveis ! Leonardo me encantou desde o primeiro dia, cheio de vida, de arrojos, de planos, e tão novo… Sua mãe e sua tia Fernanda, mulheres de vozes fortes, de atitude, de coragem… família linda, e agora, vindo aqui, colho todo esse mel, toda essa história de bagagem imensurável…

    Esses tesouros são o chão pelo qual pisaremos o resto de nossas vidas… e, se olharmos bem, são essas as heranças preciosas que se herda.

    Grande idéia !

    Voltarei sempre…

    Um beijo grande e carinhoso,

    Solange Maia

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