Memórias da Vovó Dina – parte 12

Retornando aos anos da menina Fernandina, como minha mãe me chamava, sentia que algo me faltava para completar minha vida.

Sonhava demais com coisa impossíveis de se realizar. Talvez por isso comecei a ler muito cedo. Assim que aprendi a ler, lia tudo que me caía nas mãos. Lembro-me de um Natal quando ganhei um “Almanaque do Tico-Tico”. Livro grande, de capa dura, foi o meu maior deleite durante muito tempo. Poesias, histórias, brincadeiras dos personagens principais que eram também o motivo de me fazer sentir como um deles.

Papai comprava todos os anos um Almanaque editado pela Igreja Católica. Lia e relia o ano inteiro o grande livro, para mim “enorme”, pois ali continha desde anedotas, histórias em quadrinhos, história de Santos e etc… Tudo que uma menina solitária podia ambicionar.

Foi tudo o que fiz até os 8 ou 10 anos, entre brincar de roda, tomar banho de rio, ir de casa para casa de minha avó e vice-versa, o que não constituía grande esforço, pois ela morava do outro lado da rua.

O que mais me aborrecia era que só achavam de ter sede quando eu apontava na sala: “Fernandina, vai buscar um copo d’água.” Trazia e a outra falava: “Vai buscar um pra mim.” Aí eu não esperava o terceiro pedido, voltava às pressas para casa. Nas primeiras vezes, mamãe se admirava “Já voltou?” E eu respondia encafifada: “A gente chega lá e só pedem água…” No fim ela só dizia: “Já sei, lhe pediram água.”

Agérico Lins, 1933

Um belo dia meu padrinho-avô Agérico pediu a minha mãe para me levar a Maceió. Vestido novo, chapéu e mala de roupa, estava pronta a feliz menina. Na estação tive a maior decepção da vida: fomos de segunda classe. Não sei se vocês sabem, no carro de segunda classe os bancos são, ou eram postos, no comprimento do vagão, de costas portanto, das janelas. Para cúmulo do desconforto era o trem que chamavam “da feira”. Gente de todos os lugares, desde Quebrangulo, com cestas, sacos, galinhas, crianças, gente suja, suada. E mais ainda: para maior “conforto”dos passageiros colocavam um assento duplo no meio do carro. Senti-me tão fora de órbita que o meu desejo era voltar para casa. Fosse atrevida como sou hoje e teria feito um “banzé” lá mesmo, com meu avô. Enfarpelada de chapéu e vestido novo, metida naquele carro de segunda classe, foi a maior humilhação que se possa submeter a uma criança de 8 anos que estava tão feliz por viajar e pela perspectiva de ver a capital que para ela era o paraíso.

Ao chegar em Maceió, de noite, foi a primeira coisa que falei para minha tia Idalina. Ela se voltou para o pai e falou:

– Mas papai, o Sr. teve a capacidade de trazer a Fernandina no carro de segunda do “trem da feira”?

– E daí? Chegamos, não foi? É mais barato e chega de mesmo jeito.

Assunto encerrado. Neta mais velha, para eles, a Fernandina era a mesma que os fizeram passar a maior vergonha da vida: nascer antes da hora.

Nunca fui perdoada e o pior é que seguindo o mesmo preceito, não consegui perdoá-los também.

Dizem as Escrituras que nós recebemos o que merecemos. Infelizmente uma menina de 8 anos guarda essas coisas como se um ferro em brasa a marcasse para sempre. Se tivessem sido fatos isolados – quem sabe eu teria realmente esquecido o desamor a mim dedicado. Mais de uma vez, minha avó olhava para mim (eu já moça) e dizia:

– Como você é diferente da que foi na outra existência. Laura era branca, cabelos claros. E bonita!

Laura havia morrido aos 14 anos. Minha mãe a conheceu como também a família toda e se davam muito bem. Em Fernão Velho todo mundo se conhecia – era uma grande Vila Operária. Laura praticamente se suicidara. A ignorância é um mal terrível. Foi proibida de comer coisas que não devia (não sei do que sofria) mas não atendeu a ninguém. Suspendeu-lhe as regras e os pulmões não suportaram o impacto e foi-se a futura Fernandina. Antes da reencarnação, o espírito foi doutrinado no Centro Espírita Vicente de Paula, em que meu avô era o presidente doutrinador (por sinal, muito bom). As oportunidades se sucederam para nossa redenção, mas aproveitá-las é um processo demorado e muitas vezes inútil. O preconceito, o orgulho familiar, a pequenez espiritual dá um mergulho tremendo na escuridão da ignorância e eis-nos regressando ao pretérito para recomeçarmos e fazermos sofrer.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

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