Memórias da Vovó Dina – parte 13

Cheguei em Maceió em má hora. Tudo foi contra mim nessa viagem. Tia Gonda lá estava com o marido, o coitado Nicomedes. Vítima da tirania da vida e da mulher, era um homem doente, sem sorte. Inteligente ao extremo, se via na contingência de recorrer ao concunhado quando a fome batia à porta. E lá estavam eles vivendo às custas do meu avô e Idalina, que não tolerava tia Gonda nem as suas superstições.

Sinceramente não consigo entender como meu avô e Nicomedes nunca deram um basta naquele mal entendido das duas irmãs. Tudo era motivo para discussão e o ambiente carregado de influência negativa dava asas para doenças e outros bichos.

Assim mesmo ainda passei umas três semanas. Meu avô ia toda semana a Rio Largo, pois ele estava regendo a Banda de Música da Companhia Alagoana. Num domingo ele chegou com a notícia:

– Sabe que sua mãe não gosta mais de você?

Eu fiquei muda olhando para ele, esperando a razão dessa conversa boba. E ele continuou, não sei se feliz ou pesaroso:

– Ela adotou um menino. Está criando o José.

José Pinto, Celina, Iracema, Fernandina e Leonor - meados dos anos 20

Parece que na hora não acreditei muito na história, mas me apressei em voltar para casa na semana seguinte. Era verdade. Minha mãe tinha conseguido a cruz da sua redenção: José Pinto de Araújo Barros. Doente, pois sofria de bronquite asmática, pálido, barrigudo (tinha vermes até no caroço dos olhos), feio e devido à doença, mimado pela avó, d. Glória.

Antes de falar sobre meu irmão e filho da minha mãe , José, vou narrar um acontecimento que se passou em Maceió durante a malfadada viagem de segunda classe e que marcou a minha vida de menina tímida e simplória.

Estava lá em casa de meus avós, passando uns tempos a mulher de tio Odolino, Natália, para ver se ela se adaptava à família e à cidade. Ele havia se casado com ela em Florianópolis, onde estava servindo o exército (não confundir Natália com Isaura, com quem ele era casado desde os 15 ou 16 anos – não confundir alhos com bugalhos). Voltando ao casal: o meu tio estava no hospital e Natália ia todos os dias visitá-lo. Fui convidada para ir também. A nossa amiga Natália passou na confeitaria e lá comprou bombons, balas e biscoitos para o querido nubente. Não ganhei um para remédio. Nem da mão dele e muito menos da dela. Aquilo me deu uma raiva dos diabos.

Muito bem. Ao chegar lá começaram a conversar e malhar o que puderam da vida de Dola. Ela tinha um namorado, estudante de medicina, rapaz bonito, de boa família. Diziam os dois que meus avós não falavam nada porque o rapaz era rico, futuro médico etc e tal.

Aquilo foi de tal forma doído para mim que no outro dia, quando Natália me chamou para acompanhá-la, recusei.

Assim que ela saiu, com a pergunta da minha avó porque não quisera ir com a nora, eu, muito “ancha” do que estava fazendo, contei tudo. Desde as compras na confeitaria até a conversa no Hospital.

O resultado de toda fofoca é que, com a saída de meu tio do Hospital, a minha avó relatou,  censurando-o pela “calúnia” sobre o namoro da filha.

Não deu outra: ele, em Rio Largo, falou a minha mãe sobre o que havia feito a linguaruda. Minha mãe me chamou na frente do dito cujo, e eu confirmei, envergonhada do papelão.

A lição é mais do que óbvia: nunca mais passei adiante conversa de ninguém. Só não apanhei por não haver negado nada.

Contei toda história e não sei realmente se meu tio procurou compreender as razões e a atitude de uma menina de 8 anos, sempre relegada ao segundo plano pela família de sua mãe, com exceção talvez, de uma tia Idalina.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

Anúncios

Um pensamento sobre “Memórias da Vovó Dina – parte 13

  1. Querida Fernandina:
    Estou gostando muito dos teus relatos e fico impressionada com tua memória, já que há uma riqueza de detalhes muito grande.
    Interessante também ,a análise minuciosa que fazes da personalidade de cada um, alguns deles meus parentes, com suas virtudes, fraquezas,vitórias e fracassos.
    Achei a idéia do blog maravilhosa. Continua Fernandina ,com a ajuda de tua neta Maíra,a nos entreter com tuas ricas histórias.
    Obs.: Fiquei pasma com o fato do meu avô Odolino ter sido obrigado a casar tão cedo.Dezesseis anos! Ninguém merece! Beijos da prima Júlia.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s