Memórias da Vovó Dina – parte 14

Meu tio, homem bonito, letrado, conversador, namorador, de moral não muito forte, foi depois, pai de 8 filhos. Adorava jogar e não tendo muito o que fazer por força da profissão, andava de um Estado a outro frequentando cassinos. Profissão de militar era e é até agora, um pouco dúbia nas suas atribuições. Que faz um sargento, um tenente, um major, um coronel, um capitão? Somente mandar. Infeliz do soldado e do cabo que lhe cair em desgraça. Dizia ele que não foi feliz como militar. Não acredito muito nisso pois o nosso amigo era muito safado para não se adaptar à vida de caserna. Como disse atrás, ele foi muito moço para o quartel e logo se viu transferido para longes terras. Lá em Santa Catarina logo encontrou quem se apaixonasse pelos seus belos olhos negros. Moreno, cabelos negros, elegante, belas feições. Infelizmente para Natália, o ciúme unido à paixão que nutria pelo Sargento Odolino a fez sofrer demasiado. Aonde ia o sem vergonha deixava duas ou mais namoradas.

Uma ocasião, foi transferido para Sergipe e logo que chegou entrou de namoro firme com a irmã do governador (minha mãe guardava o retrato que ela havia ofertado ao “moço bem comportado”). Natália, sem notícias do “santo esposório”, resolveu ir atrás dele. Assim que chegou em Aracaju perguntando pelo maridinho recebeu de pratinhos a notícia do namoro dele com a irmã do Governador. Terra pequena sabe-se da vida de todo mundo e a dele não fugia à regra. Ela fez um barulho dos diabos e com toda a razão, diga-se de passagem, e voltou no primeiro navio para Florianópolis. Ele foi atrás e até ser perdoado deve ter custado um bocado. Vivia praticamente às expensas da família dela. Silvia, uma irmã dela, foi quem mais os ajudou. Ele viajava e nada deixava em casa. Essas viagens, geralmente para Alagoas, eram para sugar da mãe o pouco que a coitada conseguia economizar.

A vida do meu tio daria um romance bastante depressivo. E no entanto, apesar de tudo isso, todos gostavam muito dele. Alegre, brincalhão, contador de piadas, era a atração das festas em que se apresentasse. A mulher, forçada a suportar as loucuras do marido e a criar como podia os filhos que nasceram da torta união, era a Tataia brava de todos eles.

Para contar mais uma aventura dele, ouçam ou leiam mais esta: estava eu em Belo Horizonte, quando da doença de Anthenor, quando ele foi para aquelas paragens, diz que era para ver a mãe. Hospedou-se em Maceió (a mãe estava em Rio Largo) em nossa casa que estava entregue às minhas tias, Ester e Haydée. Como chegasse todas as noites muito tarde, elas lhe pediram para chegar mais cedo. O trabalho delas era muito intenso, pois eram seis crianças para cuidar, as minhas, que haviam ficado com elas, mais o Juraci. Às 9 horas estavam loucas para se deitarem e o “marvado”chegava lá pelas 10 horas ou mais. Não gostou muito do pedido, pois ele estava de namoro firme com a filha de um médico no bairro do Farol. Nós morávamos no fim da rua 7 de setembro, rua Feliz Recreio, se não me falha a memória, que era o pedacinho da rua que desembocava na Praça Sinimbú. Era, portanto, uma tirada e tanto para o desmiolado “dandy”.

Um belo dia recebeu um telegrama da mulher pedindo urgente a presença do “papai”, pois a filha mais nova havia “fugido” com o namorado. O homem ficou sem saber o que fazer. Saiu zunindo com o telegrama na mão e foi até o Farol se despedir da namorada e dizer-lhe a razão da viagem repentina. Ele chegou dizendo às tias que quase apanha. A moça não sabia que ele era casado. Alegre e feliz levou a vida “flauteando”. A mãe o adorava e minha mãe também. Quanto ao pai e irmãos, não sei dizer. Talvez só houvesse tolerância da parte deles.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

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