Memórias da Vovó Dina – parte 15

Minha vida não mudou muito depois da chegada do irmão que a minha mãe houve por bem arranjar. Talvez por não ter lhe dado muita atenção, lembro-me pouco da sua presença em nossa casa. Continuei brincando de roda nas noites de luar, tomando banho de rio, passeando quando havia ocasião, ia nas casas dos amigos e sei lá mais o que! Lembro-me que num domingo saímos, Magnólia e eu, passeando feito gente grande e fomos até a rua do Comércio. O rio estava cheio, pois havia chovido bastante.

Todo mundo ficou doido pensando no pior: morreram afogadas! Quando nós chegamos, na maior calma do mundo, o mesmo mundo desabou nas nossas cabeças. Nunca mais nos afoitamos a tanto.

Leonor, Iracema, José Pinto, Fernandina e Celina - início dos anos 30.

Em frente à nossa casa, vizinhos da minha avó Januária, moravam o Manuel Lucas e sua família: Carmina, a mulher e os filhos: Wladimir, Rubens, Rubenita, Carlito e depois Liege. Gente boa, alegre e trabalhadora. O chefe da família era alfaiate como meu tio Getúlio. O tio o chamava de “alfaiate de roda” (mulher que fazia roupa de homem). Um dia, passando uma procissão, ia um coitado numa roupa tão mal feita que o paletó parecia que tinha sido cortado enviesado. Juntaram tio Getúlio, Manuel Lucas e tia Ester a criticar a roupa do infeliz. Dizia meu tio que aquilo era arte de alfaiate de roda. Quando o pobre homem se voltou é que o Manuel Lucas viu que a roupa havia sido feita por ele. Nunca mais fez roupa nenhuma. Mudou até de profissão, tornou-se prestamista. Ia com Wladimir ou Rubens,vender tecidos em Cachoeira (Vila Operária vizinha de Rio Largo), Fernão Velho, Satuba e Utinga. Com eles ia também, com uma grande mala na cabeça, um homem que trabalhava para eles. Negro, alto, era conhecido como “Passa mão”, apelido que odiava.

No começo iam a pé por aquele mundo de meu Deus. O dinheiro era curto para o trem.

Quando a coisa foi melhorando, a vida se tornou mais fácil, mais leve. Já dava para comerem melhor, para irem ao cinema, para gastarem um pouco nas belas festas de S. João e Carnaval.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

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4 pensamentos sobre “Memórias da Vovó Dina – parte 15

  1. Os ditados sozinhos dão páginas. anotei vários quando em mudei para Miami e dava muitas risadas lendo aquilo tudo. Sozinha, pois não dava para traduzir para os gringos.
    A estória do colete não sei de quando é , mas a do pano ela tinha poucos anos. Quando vc voltar peça para ela te contar…boa viagem. Aproveite bastante e anote tudo para contar depois as suas aventuras.
    beijo

  2. Tomara que a vó conte a estória do coletinho de Migueteles e de quando ela cortou um tecido que estava na calçada…tem um monte de estórias que ela pode contar quantas vezes quiser, são sempre bacanas de ouvir. Ou ler.
    Estou adorando ler tudo, quando for para SP te dou uma mão digitando.

    • Dê, essa história não está na biografia dela. Essa eu já terminei de ler e editar, a tia Anajas e minha mãe estão orientando a vó para engrossar o caldo das histórias de Minas, porque ela foi muito ligeira para descrever esse trecho da sua memória – talvez pelo cansaço, parece que ela está escrevendo o diário há mais de dois anos…
      Mas, não se preocupe, ainda temos um caderno com 200 folhas frente e verso com pequenos causos reais ou fictícios que ela escreveu (somente esse ano!!) e que a tia Anajas está cuidando de passar para o computador. Pode ser que essa história esteja por lá – ou você pode sugerir à vó, ela continua escrevendo…
      Eu e minha mãe estamos fazendo as revisões e eu estou organizando as postagens, edição, identificação e tratamento das fotografias da família.
      Claro que você pode ajudar, converse com a tia para ver no que pode ser útil nessa transcrição. Ou com mais sugestões.
      Tô aqui em Rondônia acompanhando o blog, que tem texto no gatilho para mais uns 15 dias de postagem. Daqui a pouco o vô entra em cena nas histórias. Não é linda nossa vó com toda sua “memória curta”?
      bjs

      • A história dos coletinhos de Miguel Teles, estão entre os “causos” dela, que serão postados depois. Aguarde… Aliás, dele, Miguel Teles, tem mais de uma.

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