Memórias da Vovó Dina – parte 16

Meu pai era o festeiro da rua do Coqueiro. Não dançava. Só coco ou quadrilha. Nas festas de S. João, de ponta a ponta da rua, aonde a vista alcançava, só se via mastros e fogueiras. Quando chegava a noite era um nunca acabar de fogos de toda a qualidade. Com as fogueiras acesas parecia o dia embelezado por mastros de toda espécie de plantas: mamoeiros, galhos de árvores grandes, palmeiras; fogueiras grandes e pequenas, feitas em barris ou lenha cruzada, bandeirolas de papel de seda enfeitando os mastros e as casas.

Tudo preparado para se dançar, cantar em serenata, comer bolos e doces, soltar fogo chinês, rodinhas coloridas, traque de chumbo, diabinho, buscapé, rojão… a saudade é grande de um tempo que feliz, ou infelizmente, não volta mais.

Meu pai era quem animava tudo isso. Os melhores cocos (dança folclórica alagoana) e quadrilhas eram organizadas por ele, assim como os blocos de Carnaval.

Para nós, crianças, isto era o céu. Era para mim a reunião de tudo que sonhava. Animação, festas, dança, música e gente reunida cantando com vontade de que aquilo não acabasse nunca mais.

Fernandina, com 14/15 anos

A menina quieta, retraída, se transformava quando havia festas, danças, passeios, picnics. O “esquenta mulé”, orquestra de pífanos do “seu” Marcos, animava qualquer festa de santo, cavalhada… e o que inventasse o homem do nordeste para afogar a vida dura e sem graça do dia a dia. A orquestra de pífanos é composta de três a quatro pífanos, uma zabumba, duas caixas, um triângulo e às vezes pratos de metal e reco-reco. Sai às ruas com uma pessoa (homem de preferência), vestida com uma grande toalha passada de través no busto, cobrindo o braço que carrega a bandeja do Santo. Na bandeja com um pano bordado, flores e o Santo, para receber esmolas para a festa que vai-se iniciar dali a uns quinze dias.

O homem com o Santo ia na frente do “esquenta mulé” coberto com um guarda-sol para, com certeza, não tostar o santinho.

A crendice é um troço que comove quando se recorda um passado feliz, apesar de todas as aperturas. Nas festas de S. Benedito, na praça do mesmo nome, tinha de tudo que os namorados gostam e as crianças adoram. Trivoli, gangorra, balanços em barcos, roda gigante, pipocas, barracas para se jogar a sorte, algodão doce, cocadas brancas e escuras, amendoim cozido, torrado e cru, rolete de cana, caldo de cana, farinha de milho, farinha de castanha de caju, farinha de amendoim. Essas farinhas eram vendidas em saquinhos de papel. Guarda chuvinhas feitos de papel de seda. Um sonho para criança nenhuma botar defeito. As farinhas eram feitas com grãos torrados, pisados no pilão, peneirados em peneira fina. Juntava açúcar, bem misturados, não muito doce e eram postos em saquinhos de papel, coloridos ou não. Uma delícia!

As barracas da sorte tinham espalhadas nas mesas um encerado com os “bichos”do jogo pintados. Com a roleta girando, punha-se a ficha no número ou “bicho”escolhido. E ganhando, escolhia-se o prêmio que estava lá exposto. Tinha coisas lindas. Quando fiquei noiva, o Anthenor arrematou um monte de coisas para nós. Tinha sorte o danado! Continua tendo, graças a Deus!

Meu pai não tinha dinheiro para que eu pudesse me divertir à vontade e comprar coisas que o meu apetite se satisfizesse. Se o dinheiro chegasse, quem sabe eu teria uma indigestão atrás da outra… Essas festas eram anuais e ao meu ver cada ano era melhor que o anterior. Aconteciam os acidentes, mas não dava para desmerecer o brilho nem o valor delas.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s