Memórias da Vovó Dina – parte 18

Chegou em Rio Largo em 24.11.24, no trem da manhã e logo foi à vendola que meu avô havia adquirido, a qual tinha o pomposo nome de Fortaleza. Ficava numa das partes mais feias e pobres da cidade que, como cidade, não era lá grande coisa.

Lá me encontrou amontoando moedas de cobre em cima do balcão. Meu avô não gostava que eu mexesse em dinheiro por causa da sujeira e também pelo mau cheiro que tem o cobre.

A primeira impressão que tive dele é que era um menino feio, magro e pálido. O que chamava a atenção eram os olhos grandes e esverdeados com tons de amarelo.

Fomos apresentados, mas estou quase certa que não nos falamos. Se eu era acanhada com estranhos, ele era muito mais. Quanto mais que estava complemente fora do seu ambiente. Já havia completado 10 anos em maio e eu 9 em fevereiro. Devia ser do meu tamanho, mas era mais magro do que eu. Cabelos louros abundantes, ninguém diria que um dia ficaria careca.

Fernandina, ao centro, está ao lado de Anthenor. Magnólia à direita (vovó Dina não se lembra quem é a garota à esquerda) - Rio Largo, anos 30.

Fomos os maiores amigos de brinquedos. Ensinou-me a pescar e empinar papagaio (que nunca aprendi). Eu era o seu mundo, mas fui tão burra que só consegui entender isto muitos anos depois.

Foi matriculado na Escola Pública, cuja professora, D. Adelaide Loureira, encantou-se com a inteligência do aluno. Infelizmente só estudou um ano. O resto foi por sua própria conta. Logo precisou trabalhar porque a míngua em casa do meu avô não era fácil de aturar.

Ninguém se interessou pelo futuro do moço, ávido de aprender. Nem mesmo meu pai, que sabia o quanto era duro aprender sozinho.

O amor que se aninhou no coração do menino triste e tímido, que não fui capaz de entender, foi levado até minha mãe, como se aquilo o consolasse da indiferença da filha, que se tornou a sua razão de viver.

Filho de pais pobres, analfabetos, vivendo como trabalhador do campo em fazenda alheia, mal tinham para se alimentar decentemente.

Família numerosa, a única que tinha alguma alegria para conversar e viver era a mãe, d. Joaninha. Quando a conheci, já a via velha, sofrida. Às vezes, quando lhe dava na telha, deixava os filhos entregues ao marido e ia passear, rever os amigos e parentes. Passava uma semana e voltava para continuar a labuta.

A minha sogra casou a primeira vez aos 13 anos, com um homem duns 30. O pai dela, Sr. Francisco Bezerra, forçou-a a esse casamento não sei se por ter menos uma boca para alimentar, não sei se por não gostar da filha ou por ambição. Ele dizia que o tal era rico e com isso destinou a criança a um casamento criminoso. Ficou viúva aos 15 anos com dois filhos: João e Alice. O pobre infeliz era hidrópico – e toda a herança que deixou foi um cavalo, uma casa e um pedaço de terra. O velho Francisco vendeu tudo e enfiou o dinheiro no bolso, para não dizer em outro lugar. Moravam todos na cidade de Capela (Al), para onde ele tornou a trazer a filha e os netos. Ela, para sustentar os filhos, lavava e passava para fora.

Aos 17 anos, reencontrou o Joaquim (a quem ela já conhecia e era apaixonada desde antes do primeiro casamento) e se casaram. Levou consigo a menina Alice. João, um parente levou para o Rio de Janeiro e ela não mais teve notícia dele. O primeiro filho do Sr. Joaquim logo chegou. Artur, seguido de Dionília (mãe do Calheiros). Os outros, nem o próprio Anthenor sabe a sequência. Seriam 11 com mais dois do primeiro matrimônio, o martírio da minha sogra estava completado com as necessidades da vida, a braveza do marido e o trabalho rude de quem vive na roça.

O Anthenor devia ser o terceiro ou quarto Filho. Tinha mais Maria, Sebastiana e Benedito. Francine, que foi para Bebedouro estudar e ficou uns anos em casa de uma irmã do pai, tia Zefinha, uma das melhores mulheres que conheci em minha vida. Mulher simples, tinha adoração pelos sobrinhos e na sua pobreza acolhia com carinho a quantos a procuravam. Dionília e Joaquim (este era filho de uma outra irmã, Tereza), estudavam em Maceió e moravam com ela, em Bebedouro. Ele tinha aulas no Orfanato São Domingos e ela conseguiu frequentar até o primeiro ano do Normal. Largou tudo e fugiu, apesar dos conselhos, com um Calheiros de má fama. Preguiçoso, vagabundo e como bom Calheiros que era, briguento.

Tinha uns 15 anos quando fugiu. Tia Zefinha e o marido foram buscá-la e fizeram o casamento. Teve um menino, José, e não suportando os maus tratos, fugiu, largou marido e filho e voltou para a casa da mãe. É isso que o nosso sobrinho Calheiros não consegue perdoar. A mãe tê-lo abandonado com o pai. Graças a Deus, o menino José encontrou alguém que lhe serviu de mãe. Trabalhava na fábrica de Rio Largo (Fábrica Progresso) e sustentava os dois até a idade que o José Calheiros pudesse também trabalhar e, consequentemente, ajudar um pouco. Depois foi ser aprendiz de alfaiate e muito depois, foi para o Banco do Brasil em Guaratinguetá, sob os auspícios do tio Anthenor.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

Anúncios

3 pensamentos sobre “Memórias da Vovó Dina – parte 18

  1. Maira….muito bom acordar domingo e ter como companhia esta bela história.
    Maravilhoso o que vc está fazendo…Obrigada…
    bjsss saudades

  2. Dê, fique tranquila, o vô estará presente nos próximos textos. E logo mais vem o casório, os filhos…
    Que legal que você está acompanhando diariamente 🙂

  3. Nunca tinha visto essa foto. Quando é que ela volta o papo para o vô? Nada contra o Calheiros mas quero saber dos dois…
    Incrível a vó não saber quem é a moça da foto. Praticamente um milagre. E eu com dificuldade para decorar telefones.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s