Memórias da Vovó Dina – parte 19

O Joaquim primo, que tinha um poder aquisitivo bom para a época, jamais se lembrou da tia Zefinha. – Que a ingratidão das criaturas nunca lhe sirva de pedra de tropeço!

O meu cunhado José Braga veio muito depois. Era o paparicado da família, ninguém precisa ser rico para por a perder um filho com excesso de carinho.

O irmão Benedito morreu ainda criança e outros bem pequeninos.

Quando o menino Anthenor veio para Rio Largo, o irmão Artur ficou com o encargo do trabalho junto ao pai. Sim, porque o seu Anthenor também pegava seriamente na enxada. Fez falta, mas como disse o Caetano (dono da fazenda em que viviam) ele iria ajudar muito mais depois.

A sua preocupação maior era trazer o irmão José para estudar… mas aí já é outra história.

Depois de casado, projetou trazer Sebastiana para que houvesse para a moça melhor posição na vida. Mas ela já estava embeiçada pelo José Teotonio Macena. Fizeram de tudo para a não realização desse casamento. O homem era mulato escuro e como não importa a condição social ou financeira do nordestino, o que ele não quer é ver um filho casado com um escuro. Mesmo que a pele seja clara, mas tendo o cabelo pichaim, é negro e acabou a história. O José era escuro, mas o cabelo era quase liso. Nem isso o favoreceu: continuou sendo negro até morrer. Homem bom, sossegado até demais. Tinha um grande amor pela mulher e só ela o decidia a ir para o trabalho na lavoura, estivesse grávida ou não, barriga imensa, só iria se ela o acompanhasse. Não que ela ficasse parada, pegava também na enxada. Dizia a minha sogra:

– O Zé Teotonio é tão sem vergonha que se a Sebastiana não for com ele para o eito, ele fica em casa coçando os … deitado na rede.

E sabem quantos filhos tiveram nessa condição? Uns 12 ou 13 – criaram sete.

No pouco de terra que tinham para plantar, o tal de Mario Gomes tirou para plantar cana, então eles vieram para Maceió. Ficaram em Bebedouro até que foram tomar conta do sítio que foi do meu pai, em Maceió, no farol.

Com a timidez e a tristeza arraigada no espírito, com a vontade firme de vencer e ser “alguém”, o Anthenor foi suportando a situação de “filho dos outros” em casa da minha avó. Nunca tratou as minhas tias como iguais a ele. Eram D. Ester e D. Haydée. Havia como um muro de permeio entre ele e a família que o acolhera por força de vontade do meu avô.

Meu pai, indiferente, meu tio não era menos e meu avô, apesar do gesto caridoso de trazê-lo, era um zero à esquerda naquela família de orgulhosos. Olhando cruamente as ações dos meus avós, tios e afins, é que eu vejo quanto de orgulho existia em toda aquela pobreza. Pobreza de espírito e material. O trabalho do meu tio Getúlio, pouco lhe rendia (alfaiate). Minha avó deixou de costurar aos poucos. Não tinha muita saúde e nunca se tratou que eu saiba. Tia Ester fazia filé para fora. Aquilo é demorado e enfadonho. Tia Haydée, mocinha, pouco se preocupava com essas coisas que praticamente não lhe diziam respeito.

Meu pai, casado com mulher e filha, passou 5 anos sem trabalhar. O meu avô, o seu serviço era azeitar o mancal (eixo) do sol, ou seja, não fazia nada e com o respeito próprio, orgulho e quase brisa, vivia a Família Caldas. Foi nesse ambiente de quase hostilidade e pobreza imensa que eu vivi e depois aquele que iria compartilhar comigo a vida de trabalho, tristezas e alegrias, que é o resultado da imensa família que constituímos.

Minha mãe era, pode-se assim dizer, a única equilibrada de toda aquela barafunda de entra e sai de gente naquela casa. Sim, porque ali não faltava quem fosse cantar, conversar “miolo de pote”, falar da vida alheia e etc.

Em pé: tia Ester e Dr. Romeu, um dentista, amigo da tia Ester; sentadas: a esposa do dr. Romeu e tia Haydée.

Tia Ester tocava flauta violão. Qualquer bicho careta que tocasse e cantasse se reunia lá para animar um pouco o ambiente. Apareceram por lá: Augusto Calheiros, Jararaca e Ratinho, Otaviano Romeiro e mais alguém que pouco me interessavam. Só me lembro de Otaviano. Era um mulato alto e bonito. Não chego a jurar, mas para mim ele foi a paixão da minha tia Ester. Tocava saxofone e também cantava. Eu devia ter os meus 7 ou 8 anos. Ele estava de passagem para o Rio de Janeiro (como os outros também), vindo de Santa Luzia do Norte.

Naquelos idos tempos, Santa Luzia do Norte era sede do município ao qual pertenciam Rio Largo, Fernão Velho e Utinga e me parece que Satuba. Um dia perguntei ao meu pai como era que Santa Luzia do Norte podia ser sede de município, pois além de ser uma porcaria de cidade (Rio Largo para mim era o máximo), a própria prefeitura era localizada em Rio Largo. E ele sabiamente me respondeu:

– Quem pode entender os homens? Nem eles sabem o que fazer daquilo que dizem mandar. Política é assim mesmo! Qualquer dia destes irão compreender que isto não tem cabimento.

Não se passaram muitos anos e tudo passou a ser o que já devia ter acontecido: por obra e graça do “seu gunverno”, nossa “cidade” passou a Cidade.

Mas voltando ao Otaviano Romeiro: tia Ester o levou lá em casa e minha mãe ficou encantada com ele. Cantaram e tocaram a tarde toda. Mamãe tocava um pouco de flauta e cantava como pouca gente. Linda voz, linda mulher. Pena ter engordado tanto e aí foi mais a moléstia atacá-la: diabetes.

O Otaviano foi para o Rio e de lá escreveu e mandou fotos para a tia. Organizou um jazz e como bom compositor que era foi fácil vencer. Tornou-se o Fon-fon, para os cariocas.

Turunas da Mauricéia

O Augusto Calheiros veio com um grupo de não sei quantos. Quando ele esteve lá, eu era bem menina. Isso aconteceu bem antes do Otaviano. Esteve em casa de minha avó por serem conhecidos desde Murici. Vovó conheceu a mãe deles (eram dois irmãos) e era uma coitada. Era negra e pobre (negro e pobre naquele tempo era pleonasmo). Dizia minha avó que muito bonita e isso atraiu um outro Calheiros que lhe deu os dois filhos que criou como doméstica na cozinha dos mais favorecidos da sorte.

O grupo de Augusto vinha de Recife e passou por Rio Largo também rumo ao Rio. O grupo tinha por nome Turunas da Mauricéia. Fez enorme sucesso.

Cantava bem o diabo do homem, valsas, emboladas, canções dolentes e alegres… uma beleza. Sei disso por causa dos discos do meu avô Agérico.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

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