Memórias da Vovó Dina – parte 20

meu pai Fernando na juventude

Esqueci de apresentar meu pai como dono de teatro (não sei se o nome é teatrólogo). A verdade é que um homem sem ocupação durante 5 anos tem que encher o tempo com algo que o satisfaça, o distraia e lhe dê um pouco de lucro.

Formou-se então a escola de arte do Fernando: Teatro José de Alencar. Não estou muito certa do nome, mas a verdade é que o negócio deu certo. Meu pai era diretor, ensaiador, e severo dono do troço. Ajudado por minha mãe, tia Ester, “seu” Teotonio (Teotonio Barbosa Leal), amigo de todas as horas e mais alguém que dispusesse a suportar os mandos de meu pai.

O “seu” Teotonio era um artista de mão cheia. Grande fotógrafo para a sua época e para a pobreza da nossa cidade (ele inventou a coloração da fotografia no próprio negativo), era o cinegrafista da companhia. Ainda me lembro (eu teria 2, 3 anos quando tudo começou) da casa do meu avô, na sala, no corredor, com aqueles enormes papéis pintados e “seu” Teotonio atravancando as passagens com as latas de tinta. Ele era um homem alto, moreno, rosto quadrado, cabelo liso, castanho, caindo sobre a testa. Enquanto pintava, conversava e dizia coisas de fazer rir. Não lembro se chegou a ser ator. Só sei que sempre gostei muito dele.

Faziam parte minha mãe, tia Ester, Sinhá (depois esposa do tio Getúlio), meu pai, Odilo Braga (um primo longe de minha mãe) e mais alguns que não dá para lembrar.

Esse Odilo deu um trabalhão para o diretor-ensaiador Fernando. Representava o papel com uma indiferença enorme. Perfeccionista ao extremo, meu pai tinha “arranca rabo” de “fedê” a fogo. Contava meu pai que o Odilo tinha mania, enquanto estava ensaiando, de mexer com a corrente do relógio que ficava no bolso da calça. Era uma briga constante. Enquanto mais falava um, o outro dizia que no dia da récita não tocaria na corrente.

O pior era o desgraçado, por não haver quem o substituísse; era sempre a figura principal.

A “trouche e a mouche” o negócio seguiu por vários anos. Poucos, mas o suficiente para distrair os habitantes daquela pacata cidade.

Contavam uma das cenas mais gozadas que aconteceu: era uma comédia e como precisavam de uns dois ou três soldados, papai convidou o Manoel Lucas, vizinho e amigo para fazer o cabo, ele e dois praças.

Pra começo de conversa o Manoel Lucas disse que não tinha jeito pra coisa. Meu pai teimou e levou a comédia para representação. Manoel Lucas teria que entrar em cena e dizer para o “criminoso”:

– Esteja preso!

Pegava no braço do prisioneiro e o levava. Tudo fácil, simples. Muito bem. Chegou o dia e o nervoso Manoel Lucas suava que só tampa de chaleira. Chega a hora e entra o cabo em cena, seguido dos seus dois companheiros de farda… pega no braço do “criminoso” e diz:

– Esteja preso!…” se volta para meu pai que estava em cena e exclama: – Eu não disse, Fernando que não dava para esta peste!!!

Houve muitas apresentações que a minha idade não dava para guardar. O pouco de que lembro era simplesmente deslumbrante. Sei também que fomos, Euzébio e eu apanhar flores do mato para enfeitar um túmulo que seria montado em cena. Lembro-me bem que estava nos bastidores olhando a cena. Sinhá imitando uma louca entrava cantando e se jogava sobre o túmulo chamando pelo homem que amava e que haviam lhe dito que fora assassinado. Eu teria uns 5 para 6 anos.

Também vinham atores de fora e se hospedavam em nossa casa. Teve um casal (não lembro o que representavam) que ao sair, ela me deu de presente um corte de tecido. Como era muito pano, a minha mãe fez um vestido para ela. Nunca esqueci o desgosto que tive por não ter um vestido daquele pano tão bonito.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

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