Memórias da Vovó Dina – parte 22

Com 14 anos de idade tomei lugar na escola para substituir d. Maria José Gomes, que ia dar a luz. O que me salvou neste meu “ensino” é que eu lia muito, mas como professora era uma verdadeira droga. O meu estudo se limitou a estudar em casa com o professor Ferreira. Mas a minha preguiça como estudante não me ajudava muito. Matemática então nem se fala.

Substituí por duas vezes d. Maria José e com 18 anos fui efetivada. Devido à saída dos menores das fábricas, o contingente de alunos aumentou consideravelmente, daí precisarem de mais professoras. E lá se foi a Fernandina de professora. Até que para filhos de operários, os coitados, não me saí muito mal. De manhã eram meninos e de tarde eram as meninas.

Por dois anos fizemos festas para o encerramento das aulas. Meu pai, o prof. Ferreira, o prof. Japiassú e eu, ensaiamos, projetamos, nos descabelamos, mas levamos a cabo as representações que não ficaram de todo más. Não foi fácil ensaiarmos mais de cem crianças. As roupas, fantasias, cenários, palco e orquestra foram cedidos pela fábrica. O Dr. Malcher, o gerente, com o consentimento do Sr. Gustavo, nos deu carta branca.

Nessas horas eu não sentia canseira. Era meu mundo!

No primeiro ano o meu organismo baqueou um pouco. A conselho médico fui passar umas férias no interior (Atalaia), numa fazenda de amigos e parentes da Tininha (afilhada da minha mãe). Seguimos viagem tia Ester e eu para só passar oito dias. Ficamos doze. O caminhão que fazia o transporte quebrou e não teve como viajarmos de volta. Foi muito proveitoso. Graças ao carinho de uma família que não nos conhecia, a boa educação de nos bem receber, a magrela ganhou uns quilinhos e com isto teve mais um ano como professora.

Com muitos senões, aqui praticamente se encerra minha vida de solteira.

cartão postal, presente de Fernandina para Anthenor

Namoro contrariado pela família do meu pai que praticamente havia criado Anthenor: a minha avó, a tia Haydée e um pouco a tia Ester (pelo menos nunca se pronunciou), era com a cara feia que aceitavam a minha escolha.

Com a morte do meu avô paterno e a saída do pai do Juraci do cenário restava ao moço casadoiro arcar com as despesas da casa. Só despesas, porque ele não mandava bulhufas. Tia Haydée me disse que o rapaz não tinha nenhum futuro. Eu havia negado que o namorava, por medo, por timidez ou sei lá o quê. Diante da minha negativa, o Rodrigo Mota foi informado e consequentemente o Anthenor também. O bobo (caso possa chamá-lo assim) falou até em suicídio. Foi uma fase atormentada de leva e trás, lágrimas e chateação. Diz o Anthenor que até hoje o “seu “Fernando , meu pai, não deu minha mão em casamento. Não respondeu a sua carta e a resposta deve ter sido dada através da minha mãe.

dedicatória da noiva no verso do cartão postal

Onze meses e onze dias depois de noiva nos casamos no civil, em casa dos meus pais, no dia do aniversário da minha mãe. Casamento simples, festejado com um almoço (o evento foi realizado às 8 horas da manhã, pois o juiz teria que viajar para Maceió no trem das 9h). Ficamos até à tarde, quando fomos para nossa casa.

No meu casamento tinha pedido às minhas alunas que me levassem cravos brancos. Elas os trouxeram na véspera – domingo. Coloquei-os n’água e de manhã prendi-os nas fitas para por no buquet que Idalina trouxe quando veio com o Rodrigo ao casamento que, como sabem, foi às 8 horas da manhã.

Fernandina com seu buquê de lírios brancos, no casamento (26 de outrubro de 1935)

A tia Ester chorava que só bezerro desmamado, não sei se com pena de mim ou por ter que viver daquela data em diante sob as expensas do meu pai e do tio Getúlio. Nunca lhe passou pela cabeça que o meu marido nunca as deixaria sem a sua ajuda. Ajuda esta que se estenderia por todos os anos da vida delas – sem falar no Juraci, meu primo de grata vida. Gostamos muito dele, mas que deu muito trabalho, isso deu. É um bom homem com referência ao coração. Tolerante com seus semelhantes, mas infelizmente, mal para si mesmo. Amigo da cerveja e cigarro, não cuida da saúde, não querendo compreender que ela, a saúde, é o melhor prêmio que se tem na terra. Sofrem com isso a dedicada Marinete (a nossa Nanete) e os filhos. Não nos referimos a nós, por não morarmos juntos. Seria um tormento maior se assim fosse, pois ele não nos ouviria e seria navegar em canoa furada. Só espero em Deus que o seu espírito (quando morrer), não se atormente demais pela vida estacionária que procurou. Ainda bem que os filhos não lhe seguem o caminho. Não fumam, não bebem, graças a Deus.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s