Memórias da Vovó Dina – parte 25

Percival, sem data.

Esqueci de contar que o parto do Araken foi muito difícil e quando em junho fiquei grávida do Percival, fiquei apavorada, pois parto difícil marca muito a mulher. Tentei tomar um chá para abortar e não consegui. Fui falar com Sinhá que, na falta de minha mãe, ela era como se fosse a própria Regina. Eram amigas e comadres além de concunhadas. Bem, como ia dizendo, fui recorrer à minha querida Sinhá. Sentamos e ela recebeu o médico que lhe assistia a mediunidade, além do Dom Vital, e ele me aconselhou a não ter medo de nada. Ensinou que, quando fizesse 7 meses, tomasse uma colher de sopa de óleo de rícino com suco de laranja e repetisse aos 8 e 9 meses. Foi o melhor parto! Devia ter seguido nos outros filhos, mas só pensar em tomar óleo de rícino… me sinto repugnada até hoje. Covardia, sim senhor!

Vou fazer aqui uma volta em nossas vidas – as idas e vindas do vosso pai de Maceió para Rio Largo, despertaram a curiosidade do Sr. Gustavo Paiva, que era nada mais, nada menos que o presidente da Companhia Alagoana de Fiação e Tecidos. Quis saber a razão dele vir todo sábado para Rio Largo.

A deixa foi dada e Anthenor contou sobre a morte da mamãe, a solidão do meu pai e mais, que eu teria que ficar com ele até quando Deus quisesse. Aproveitou também para lhe dizer que o que ganhava como funcionário da Companhia não dava para viver com a família em Maceió. Impressionado ou arrependido do que havia feito com o meu marido em Rio Largo – havia tirado o acréscimo no rendimento que ele fazia através de venda de tecidos e etc, onde ganhava muito mais que o ordenado da fábrica, com a desculpa de quem trabalhava nela não podia ter outro negócio – o Sr. Presidente (que Deus o tenha), resolveu transferir o meu pai para o escritório em Maceió.

E fez mais, aumentou o ordenado do meu querido marido para míseros mil réis e fomos de nós de malas e bagagens, com acréscimo das tias, avó e Juraci, sem falar na empregada Ester.

Não pensem que a vida melhorou muito. Era muita gente – oito adultos e três crianças (Ariel, Araken e Juraci).

O minguado ordenado do seu pai e o pouco que o meu dava em casa, mal dava para suprir as necessidades de toda aquela gente. Até a tia Haydée arranjar clientes demorou bastante. Neste clima, em fevereiro de 1939, nasceu o meu Percival. Esforcei-me para amamentá-lo num seio só para não sacrificar mais ainda o orçamento da família. O interessante é que o bico do seio não rachou como dos outros filhos. Amamentei-o três meses e depois só Deus sabe como nos arranjamos. O José Pinto, meu irmão, era um peso morto. Não sei onde anda, não sei se no espaço ou ainda na infelicidade de sua vida. Que Deus o ampare.

A vida continuou até quando Deus na sua sabedoria nos deu nova vida. Anthenor para melhorar as despesas comprou uma venda, mercearia, bodega ou como queiram chamar. Ficava na mesma rua 7 de Setembro, no outro lado da rua. Era uma esquina, tendo do lado a estrada de ferro para Jaraguá. E a Fernandina é quem foi tomar conta e morar lá com os três filhos menores, ignorância quanto à venda… e o resto só Deus sabe.

Foram 6 meses de atropelo, de agonia. Não é que eu quisesse me sentir sacrificada naquela ocasião: é que eu não nasci para vender nada. No que errei, Deus que me perdoe.

O negócio começou em junho. Fizemos a nossa mudança e para não ser incômodo, enquanto eu não me adaptasse, Ariel ficou com minhas tias e meu pai, depois é que fui buscá-lo. Era perto, graças a Deus.

A minha, ou nossa sorte é que o João Rosa, filho de uma filha adotiva da vovó, estava conosco. Deu-nos uma ajuda tão grande que eu nem sei agradecer pelo que ele nos fez e valeu. Não sabemos dele e dos irmãos. Foram para o Rio de Janeiro. Que Deus os abençoe.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

Anúncios

2 pensamentos sobre “Memórias da Vovó Dina – parte 25

  1. fiquei feliz por descobrir este blog. Sou cria da familia das irmas candido, conhecidas em rio largo. Passei minha infancia ouvindoa s hsitorias de felicidade de uma epoca que ser perdeu no tempo, nomes como cia. alagoana, colegio gustavo paiva, tardes alegres no cinema, a creche de crianças da companhia, onde minhas tias trabalhavam, a banda de musica onde minha tia Ana tocava…como era boma queles tempos e como se perderam no tempo. Hoje parece um sonho, uma historia contada…muito bom ler historias que remetem a minha infancia, e a memoria de meus tios adorados, todos ex-trabalhadores da Cia Alagoana. Olival, Gerusa, Pastorinha, Pedro, Adalgisa, Zedoca, Cidao, Edith, Dourinha …queridos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s