Memórias da Vovó Dina – parte 27

Anthenor, Fernandina e Adelino Simões (padrinho de Anajas), Minas Gerais, 1949.

Depois do nascimento do Rodrigo, seu pai adoeceu seriamente. Veio o diagnóstico: tuberculose.

Mal se alimentando, cheio de preocupação no trabalho e dar conta da família, o nosso querido Anthenor não suportou a carga pesada que era a sua vida. O médico logo o aconselhou: ir para Belo Horizonte.

Mas antes dessa tragédia, nos mudamos para uma casa melhor. A dita cuja era situada em uma continuação da rua 7, com o pomposo nome de Feliz Recreio. Mas antes não tivéssemos. A casa era mais cara e naturalmente a despesa maior. Mas infelizmente a vaidade falou mais alto. Mudamo-nos e poucos meses depois ele seguia para o Rio para saber o que fazer até ir para o Sanatório Hugo Werneck, um dos melhores de Minas. Tudo isso aconteceu em 1945.

O Ariel, Araken e Percival não assistiram à partida do pai. Ele tinha providenciado para eles irem para União, onde ficaram com o Rodrigo.

O negócio não foi fácil. Depois de meses, recebi uma carta da amiga Guiomar. O marido Jorge Berenger também doente (os quartos eram vizinhos) tinha por acompanhante a mulher. Na carta ela me dizia que havia conversado com o Dr. Orlando (médico do Anthenor) e ele disse que o pior do Anthenor era a saudade que ele tinha da família.

Saí lendo a carta pelo comércio chorando e fui chegando onde trabalhava meu pai. Mostrei-lhe a referida e ele disse: – Se é assim, você vai…

Preparei-me com roupas de inverno (tenho pavor do frio) e mais coisas que não tinha (aliás, eu não tinha muita coisa). Como seria eu no avião?

Passei sete meses com meu marido no Sanatório. Não fosse o triste espetáculo de tanta gente moça condenada por uma terrível doença quase sem cura – naquela época – até que era bem razoável lá estar conversando, contando histórias, falando da vida alheia e mais coisas que não vem ao caso dizer.

Flávio Alberoni

O resultado da minha ida e da melhora do meu Anthenor é que fiquei grávida do Flávio Alberoni. Fiquei mortificada, envergonhada… mas fazer o quê? Deus nos dá a força para as provas da vida. Ninguém que eu saiba lamentou a minha situação. Pelo menos pessoalmente. Fiquei sete meses até o “seu” Anthenor se operar, o que aconteceu no dia 6 de janeiro de 47 (dia dos Reis).

A Neném, uma parenta nossa que trabalhava no Mercado Central, forneceu-me frutas para sucos. Eu deixava de noite tudo pronto num jarro e durante a noite o coitado do meu marido tomava um ou dois copos de suco. Disse-me o médico que foi a melhor convalescência que ele viu.

A operação brutal como a tal da toracoplatia, dificilmente haverá outra hoje em dia.

Precisei voltar em fins de fevereiro, pois a minha gravidez estava muito avançada – seis meses e meio, quase sete.

Ao chegar em Alagoas alguém julgou que eu não daria a luz entre o fim de abril e começo de maio. As fofocas não se cansam de nascer. É só perdoar e procurar esquecer.

Vamos fazer de conta que isso não aconteceu. A consciência limpa é uma boa resposta.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

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5 pensamentos sobre “Memórias da Vovó Dina – parte 27

  1. o sr Marinho foi meu padrinho de batismo,lembro da d. dolores que usava um milhão de pulseiras de ouro bem finas que me diziam ser chamadas pe pulseiras de escravas ( depois em Miami soube que são muito comuns em Cuba, as d~ao para as meninas desde que s~ao pequenas)voltando as da D.Dolores, ela as ganhava uma para cada ano de casada. No meu casamento ele compareceu,e perguntou para o v^o se precisava colocar paleto para ir ao civil que foi no cart’orio. O v^o disse que ele devia fazer o que achava melhor, e ele foi de malha de la ( estava um frio do c~ao). na hora da foto ele ficou todo sem gra’ca pois n~ao estav bem vestido e falou pro v^o: mAs voc^e disse que eu n~ao precisava de palet’o ( o V6o estava alinhado e cheiroso como sempre ,e respondeu: Era l’ogico que precisava vir de paleto Marinho, quem j’a viu ir a um casamento vestido assim , agora vai ficar na foto parecendo crian’ca!! Foi engra’cado, os dois juntos era uma piada de se ver.

    • Só que as pulseiras foram ficando caras e pesadas, para o braço fininho da Dona Dolores, que ele chamava de Totôi.Infelizmente, acabou tendo de abandonar a idéia, mas ela chegou a usar dezenas delas. Dona Dolores era também um amor de pessoa.

  2. Pedi a mamaãe para falar dos amigos que fizeram naquele sanatório, pois eles enriqueceram nossas vidas também: Sr Marinho e Edgar Falcão. Mais tarde enviarei para vc Maíra. Os netos mais jovens não tiveram o prazer de conhecer o saudoso Edgar, mas o Sr Marinho foi uma presença marcante nas nossas vidas. Ele vinha pelo menos, 2 vezes ao ano nos visitar. Era o bom humor encarnado, maravilhoso. Uma lembrança boa é que quando vinham de ônibus (ele e D. Dolores) para se hospedarem em casa, vinha parando o táxi em butecos e telefonando, 2, 3 vezes, mas não dizia quem era, só dizia: “estamos chegando” e nós sem saber que era a peça. De repente, parava um táxi na nossa porta e saltava o casal. Era muito divertido. Só por isso, não dá nem para lamentar muito a doença do pai. Os frutos foram sem preço.

  3. Sem um pedaço do pulmão, sem não sei quantas costelas, mas eu me lembro do vô na praia brincando de quem tinha mais fôlego.Ele ganhava de todos.E vem me dizer que só tinha frutas naquele suco!!

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