Viagem no navio Rosa da Fonseca – parte 6

Dia 12 de junho de 1969

Faltam 20 minutos para as 6h. Ainda não anoiteceu, o que é fácil ver aqui no Norte. Desde cedo que estamos em águas paraenses. Chegaremos ao porto lá pelas 22h. O calor é bravo e eu não trouxe um vestido de linho. Acabei de por de molho em água de sabão o de jérsei. Estava muito suado e o jérsei suado tem um cheiro horrível. Eu vou subir agora. O ar refrigerado do navio nos alivia um pouco da temperatura de fora e por isso vou ficar no salão de leitura até a hora do jantar. Seu pai já tomou três banhos até agora. Até logo.

Dia 13 de junho de 1969

Belém na década de 60.

23h – O navio saiu às 10h não sei se por ter passado mais tempo em Belém do que em Fortaleza, o fato é que Belém me encantou.

Quem não a vê, não pode fazer uma idéia do que seja aquilo. É grande, bonita e alegre. Mesmo as ruas estreitas de Belém velho e as ruas sujas do cais e proximidades, simpatizamos  são enormes e agradáveis. Muito bem delineadas e cuidadas. Em todas elas existem belos monumentos históricos – mas, vamos ao princípio.

Chegamos à noite e demos uma volta atrás de sorvete (a falha que não existe em Fortaleza – em Belém não existe uma boa e agradável sorveteria). Em Fortaleza em qualquer ponto da cidade tem boas, pequenas, mas agradáveis. Em Recife também tem agradáveis sorveterias. Em Belém só têm em ruas estreitas e de pouco movimento. No centro tem um em caixas como Kibon, fabricação da casa, que vendem nas ruas ou nos bares e restaurantes. São todos bem batidos e de fruta mesmo. Não encontrando o que queríamos, fizemos outro lanche no próprio cais, na entrada para a cidade, onde tem um monumento à Antonio Teixeira, fidalgo português (pelo menos a roupa o indica), muito elegante, com o seu chapéu de plumas (vou procurar saber o que ele fez para dizer).

Depois se inicia a cidade propriamente dita com o cruzamento de duas avenidas: Presidente Vargas e Castilho França. As mangueiras que enfeitam, na minha opinião,  enfeiam  a cidade,  algumas têm mais de cem anos. Algumas carregam tanto que quebram galhos e às vezes a própria árvore.

Na Avenida Presidente Vargas está a maior parte dos bancos, os correios, casas de comércio, restaurantes e bares. A Praça da Republica é imensa, sombria. Tem um monumento à Republica muito bonito. Fomos à casa do Sr. Bensadon, muito simples e de uma simpatia extrema. Vivem três famílias em uma só residência. Todos centralizados por d. Sol. Ele, os filhos casados têm ao todo nove filhos. Já imaginaram esse povo todo recolhido, conversando, gritando (as crianças), teimando… coitada da velha senhora. Não é à toa que se chama Sol (a acolhida é total).

Fizemos lá uma refeição e nos convidaram para voltar, almoçarmos com eles.

Na volta eu não quis, não sei porque, descer. Estávamos cansados. A viagem foi muito agradável, é verdade, mas o sobe e desce cansava e cansamos muito.

Arrependo-me até hoje da grosseria. Tenho pra mim que eles estavam nos esperando para também mandar alguma lembrança aos parentes. A verdade é que Sr. Bensadon se afastou de nós.

Houve um fato interessante com a família desse senhor. Ele tinha uma filha chamada Ester, a mais velha que estava noiva de um primo. Eram judeus e o noivo também. Vocês sabem que judeu só se casa na sua grei.

O casamento foi muito bonito, com recepção e tudo mais.

Quando já estavam casados há uns dois meses, o pai foi visitar a filha e encontrou-a chorando. Grávida já, disse ao pai, que ficou preocupado ao ver as lágrimas da filha, que era devido ao estado que se encontrava. Não sei se o pobre homem acreditou. Passados alguns dias, voltou em visita a Ester. O quadro era o mesmo. Ele forçou-a a contar e ela chorando mais ainda, confessou que o abençoado marido a espancava.

Imediatamente mandou a filha pegar tudo que era dela e a trouxe de volta ao lar onde nunca devia ter saído. Lá deu a luz a uma menina.

Não tivemos mais notícias deles.

O Sr. Bensadon era fiscal do Banco do Brasil e por isso sei deste drama todo.

Uma ocasião ele chegou à nossa casa cansadíssimo. Morava longe de nós e veio a pé até ali. Os judeus têm o dia do perdão e isso parece ser a celebração e que levam muito a sério.

Eu perguntei a ele se tinha perdoado ao filho que havia casado com uma cristã. Ele praticamente não me deu nenhuma resposta.

Era uma boa alma o nosso amigo Bensadon.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minhas Viagens)

*a fotografia dessa postagem faz parte da edição especial Retrato do Brasil, da Revista Manchete, de 1968.

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