Viagem no navio Rosa da Fonseca – parte 7

Dia 13 de junho de 1969 (continuação)

Vimos o Teatro da Paz. Uma beleza em arquitetura e decoração (você precisa vê-lo Haydée). Não gostei do externo do Palácio do Governo. Dizem que o interior é muito chique. A residência do governador é que é linda. Toda pintada em rosa e branco, estilo começo do século, mas em grande conservação. Feia e grande também é a Prefeitura. Tem até mangueira nascendo nas platibandas. Fica ao lado do Palácio do Governo. Gostei imensamente de um grupo de escultura em bronze que fica em frente ao Teatro. São duas praças com as efígies de Carlos Gomes e Henrique Gurjão. Na frente tem um anjo estendendo uma palma de louros à deusa da música. Seguimos de carro para o Parque Zoológico “Rodrigues Alves”. Muito grande e é mais um bosque. Achei-o um pouco abandonado. Tiramos várias fotos. Aí explicarei melhor.

Almoçamos no Círculo Militar onde existe o Forte Castelo que data da fundação da cidade. O Tiro de Guerra estava fazendo exercício. Se o calor matasse aqueles coitados estariam duros e enterrados. De igreja, só vimos uma – igreja de Nossa Senhora da Paz, muito linda.

A Basílica de Nazaré e o Museu Emílio Goeldi nós não vimos, não deu tempo. Aliás, algumas horas é muito pouco tempo para tanta beleza. Seja Belém, Fortaleza ou Recife, ou melhor, qualquer outra parte do Brasil.

Entramos no Rio-Pará na quinta-feira, dia 12. Ouvimos pela tarde uma conferência engraçadíssima feita pelo médico de bordo sobre o Amazonas – costumes beira de rio, descoberta, lendas e etc. Ele tem facilidade de expressão e além de feio, o que nele é predicado, é gaiato.

Hoje é domingo e somente na segunda de madrugada chegaremos a Manaus. Ainda estamos em território paraense. É água que não acaba mais. Estamos passando agora e avistando a cidade de Prainha. Só termina o estado do Pará quando alcançarmos o município de Santarém.

Entraremos então no Estado do Amazonas cuja primeira cidade é Óbidos.

Existe um costume interessante entre as pessoas que moram na beira-rio. Durante seis ou sete horas o navio passa num curral no rio Pará. E vão surgindo das margens, canoas – tipo piroga – com mulheres, crianças de todas as idades e homens, velhos e moços. Gritam para os do navio: – Joga cunhado! Joga cunhado! – E do navio, tripulantes e passageiros, jogam sacos de plásticos com pães, sabonetes, roupas, fósforos, velas, sal e etc. O negócio é doloroso por se ver tanta miséria a céu aberto e interessante pelo ineditismo. E perigoso também, tem canoas com uma criança apenas. Pequenas. Uma, eu vi, não teria a idade da Agnes (8 anos), apanhando naquela ânsia, um ou dois sacos de plástico. Às vezes o saco se rompe e é pão para todos os lados. Assim, mesmo na correnteza forte que faz o navio, eles avançam que até enche de água a canoa. Avançando demais eles se jogam na frente do barco e o mesmo adverte do perigo, apitando insistentemente.

Tomara a vida que um dia vocês possam fazer esta viagem e aí então se descortinará diante de seus olhos as belezas ainda virgens para mim, que para vocês já não serão tão virgens assim, destes Brasil tão belo, tão pujante, tão querido e tão esquecido dos homens do poder.

Quando eles chegam a dar um passo para frente, parece que logo se arrependem e, ou ficam parados apreciando o pouco que fizeram, como se não tivessem obrigação de fazê-lo, ou dão um passo atrás, desmanchando o que quase sempre é feito com sacrifício alheio. Esperemos com toda a fé que esta se torne realmente no Brasil, Coração do mundo, Pátria do Evangelho.

No começo desta lenga-lenga eu me referi a uma senhora que se parece com a Dalila Janotti. Até risquei depois, ao que a ela me referi. Ela tem a boca ligeiramente torta. Mas a pobre tem tanta cicatriz que parece ter sido conseqüência de um acidente. A mulherzinha canta que é um espetáculo. E, ao comentário de diversos passageiros sobre Belém, ela se referiu ao diretor com quem havia trabalhado na rádio Marconi no Rio de Janeiro. É uma senhora muito simpática que fala muito bem e também tem muita elegância, apesar da idade. Ela já deve ter seus 60 janeiros bem vividos. Foi locutora em vários rádios no Rio e a última, a Marconi. Seu nome é Iracema de Barini Filberberg. A mulherzinha dança bem que dá gosto ver.

Fizeram uma festa de Santo Antonio hoje (15) com quentão, quadrilha, amendoim torrado e batata assada.

Saímos de lá às 15 para meia noite e ainda estavam numa animação única. Tudo em bandeirado, botões, lanterna e uma imitação de fogueira. A festa feita na popa do navio para todos apreciarem. Só para poder apreciar aquela orquestra, eu ficaria o resto da noite. Mas o seu pai sabem como é! Para ficar sozinha não dá por causa da chave… o melhor é vir mesmo para a cama.

Antes, às 7 horas da noite alcançamos a cidade de Santarém. Nela se unem os dois rios: o Tocantins e o Solimões. Nós vimos o pôr de sol mais lindo que jamais vi. Uma senhora estrangeira ficou tão entusiasmada que comovia. Ela o comparou com a Aurora Boreal. Era todo em vários tons de vermelho alaranjado e os raios em azul marinho!

(continua… aguarde a próxima postagem de Minhas Viagens)

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