MARIA JOSÉ (ZEZÉ)

Era uma mulher alta, talvez 1,79 m de altura. Alva de cabelos anelados, talvez tingidos de acaju não muito forte. Rosto largo, olhos grandes e claros, boca grande, lábios carnudos.

Não era propriamente bonita, era, isto sim, muito vistosa – chamava atenção. Vestia-se muito bem. Vivia com a filha de seis meses e era ajudada por uma mulher idosa que lhe tinha muita dedicação.

Conheci essa criatura ainda menina. Morávamos na mesma rua, ela vivia em casa de uma tia, irmã do pai. Órfã de mãe, o pai deixou-a lá para ser acabada de criar. Ajudava a tia a criar os primos, que não eram poucos, e mais os afazeres da casa.

Um feio dia, o patife do marido da tia se acha no direito de cobrar pela manutenção precária que lhe dava e possuiu a pobre Zezé. Ela teria uns 13 ou 14 anos.

Expulsa de casa, o pai a levou para Maceió onde, sem apoio e sem instrução e sem ter para quem apelar, caiu na prostituição.

Teria talvez 28 ou 29 anos quando conheceu aquele que mais tarde foi o pai de seu filho. Era casado e a desculpa maior – que sempre é a mesma – é que a esposa era doente.

E foi aí que nos encontramos. Nossas casas eram vizinhas na Rua do Macena. Todas as tardes em que não recebia visita do citado cidadão, ela ia ao cinema. Bem arrumada e elegante, se valorizando pelo aprumo e seriedade.

A filhinha era um encanto de menina e bem cuidada e o sossego era o traço principal daquela casa.

Quando nasceu a minha filha Regina me foi difícil amamentá-la. Por essa época ela havia tido um filho. E ela, a Zezé, por intermédio da sua empregada, se ofereceu para amamentá-la. Levei a criança na casa dela…. e quem disse que ela pegou o seio da Zezé?

Então a minha boa e querida vizinha passou a mandar o leite dela duas vezes por dia para que minha filha, doente como era, pudesse comer algo valorizado.

Conversando com a sua caseira, a empregada me disse que ela não pojava, isto é, o leite não saía com facilidade. Como sabia o quanto isso doía, mandei pedir que não mandasse mais, pois a menina estava melhor, quase boa.

E assim, tenho uma dívida de gratidão enorme com a Zezé. Passaram-se os tempos e quando fui morar na rua 7 (Maceió), uma tarde ela passou indo à casa de uma costureira que morava pouco adiante da minha casa. Eu a vi e fiquei esperando que voltasse. Quando voltou, chamei-a.

Muito acanhada, atendeu-me. Convidei-a para entrar e ela relutantemente entrou e sentou perto da porta de saída. Perguntei pela sua vida e a infeliz relatou:

O pai dos três filhos ficara viúvo e a abandonara, casando com outra que seria da sociedade. Ficou sem recurso nenhum. Apelou para um advogado (Mario Saraiva) que obrigou o “grande” homem a dar uma mesada – o “grande” homem era empresário – só que o que patife dava não era suficiente. E ela então, voltou para a prostituição. Chorando ela me contou sua triste vida e pediu que quando a encontrasse na rua não a cumprimentasse. Achou, talvez, que me diminuiria com isso.

Só peço a Deus que a abençoe onde estiver.

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