O CASAMENTO

Viviam juntos há 20 anos.

O Sr. Antonio era um homem trabalhador, carpinteiro de mão cheia, meio letrado, assinava mal e mal o próprio nome.

A mulher, d. Lucinda, dona de casa e como boa nordestina, lavava, cozinhava e ainda cuidava de oito filhos. Seriam dez, mas dois Deus levou, como dizia ela, como boa católica que era.

Um dia mudou-se para uma casa vizinha uma senhora meio letrada, metida a conselheira.

Tomou-se de amizade pela Lucinda e um belo dia no meio de uma conversa perguntou:

– Lucinda, quantos filhos você tem?

– Tenho oito. Tive dez, mas dois morreram ainda novinho.

– Que pena. Mas que mal lhe pergunte, você é casada com o Sr. Antonio?

– Não. Nós vive junto faz 20 anos.

– Meu Deus! Mas vocês precisam se casar!

– Pra que? Nós vive tão bem assim.

– Mas precisa sim. A benção é muito valiosa. Deus está ali presente, abençoando vocês. Não brinca com essas coisas, Lucinda. O casamento será uma benção para vocês e seus filhos.

– Mas os fio não foro batizados ainda. Você acha que estamo pecando contra Nosso Sinhô?

– Decerto que sim, fala com o “seu” Antonio. Quem sabe ele aceita?

– É sim, vou falá. Não custa, né?

Foi embora a vizinha e ela logo foi falar com o pai dos seus filhos.

Direta no assunto, pois não era de fazer rodeios, falou:

– Tonho, a vizinha nova me falou que a gente vive em pecado, que a gente devia casar.

– Pra que, mulé? A gente já vive junto faz tanto tempo, pra que essa besteira de casamento?

– Ora, Tonho, casamento não é besteira. É coisa de respeito. É de Deus. A gente se casa e batiza os fio.

– Você tem é medo que essa vizinha comece a espiá que a gente é amigado e não casado.

– Será que ela vai espiá isso? Não querdito. E dispois ela parece uma mulé muito séria.

– Tá bom. Faça como quisé. Mas, por favor, não me aparece mais aqui, estou muito ocupado.

Feliz, d. Lucinda foi terminar o almoço, arrumou a cozinha e chamou a vizinha para conversar.

– Então, falou com ele?

– Falei e ele disse que fizesse como quisesse. A vizinha me ajuda?

– Sim, senhora, vou falar com o padre sobre o casamento e os batizados. A data vocês escolhem, depois acertamos tudo.

Foi um reboliço. Fazer roupa para os filhos, para a noiva e obrigou o noivo a fazer um terno. Ele não queria, mas no fim, compreendeu que ficava feio casar com a roupa muito usada que possuía.

Um mês depois, com d. Maria como madrinha de todo mundo, seguiram para a Igreja.

Primeiro foi o batizado dos oito filhos e depois a cerimônia.

D. Lucinda de cor de rosa, toda feliz e o noivo dele terno de brim cor de cinza.

Ajoelharam-se diante do altar e o padre começou.

– Antonio, é de seu gosto casar com Lucinda de Jesus, como manda a Santa Madre Igreja?

O noivo respondeu:

– Oxente seu padre, depois de dez fio, o que o Sr. queria?

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