O CEGO (HISTÓRIA DA MÃE REGINA – contada por ela)

Ele ia passando e ouviu a mocinha chorando. Uma voz zangada de mulher gritando:

– Sua vagabunda, não faz nada que preste e ainda fica aí pelos cantos chorando feito criança. Se não parar de chorar, eu lhe bato mais.

Parando com muito esforço e por medo a menina Ana replicou:

– Eu fiz, madrinha, a senhora é que não reparou.

O moço, encucado com aquilo, foi na casa vizinha e perguntou à dona na janela o que significava aquela violência. A senhora falou:

– Moço, é a mulher mais malvada que conheço. Já conversei com ela para deixar a pobrezinha em paz, mas não me atendeu.

– E por que ela faz isto?

– Essa menina é órfã de pai e mãe. E como a bruxa é madrinha dela, a recolheu em casa. Mas a coitadinha trabalha que só escrava. Tudo que ela faz, a tal madrinha acha mal feito e lhe dá uma sova. Isso acontece todo dia.

O moço pensou… pensou… e perguntou:

– Como se chama a menina?

– O nome dela é Ana, mas a chamam Aninha.

– Vou dar um jeito de salvá-la. A senhora me ajuda?

– Sim, senhor. Não tenha a menor dúvida!

Saiu o rapaz e foi se encontrar com os amigos que estavam em outra rua.

Estavam todos montados em belos cavalos. Eram ao todo quatro amigos que formavam um belo grupo.

Falou aos amigos do plano para salvar Aninha das garras da madrinha e eles aceitaram com alegria o ato de caridade do bom amigo Miguel.

Arranjaram emprestada uma bengala e lá se foi o nosso cavaleiro se fingindo de cego. Chegou à porta da megera e bateu. A vizinha estava na janela de sua casa atenta ao que ia acontecer, para salvar a pobre Aninha.

A megera atendeu e perguntou o que o cego queria:

– Eu quero uma esmola pelo amor de Deus.

Gritou a mulher, como sempre:

– Aninha traz pão e vinho para o cego…

– A esmola que eu quero, é que Aninha me ensine o caminho. Eu estou perdido.

– E para onde quer ir – se é cego por que não tem guia?

– É que ele me deixou agora mesmo. Disse que estava “apertado” e me deixou aqui na sua porta.

– Está bem. E aonde quer ir?

– Só até o fim da rua. A senhora não vai me negar esta caridade, não é?

Isso ele falou com muita humildade, quase chorando.

– Vem cá, Aninha. Vai com este cego até o fim da rua. Mas volta logo, pois ainda tem muito serviço em casa.

– Sim, senhora.

Voltando-se para o cego diz:

– Ponha a mão no meu ombro e vamos embora.

Deram alguns passos e o rapaz diz:

– Caminha Aninha, mais depressinha, sou curto da vista, não vejo o caminho.

O que ele queria era chegar logo junto aos companheiros antes que a madrinha achasse que a menina estava demorando muito e mandasse alguém atrás dela.

Quando Aninha se deparou com os cavalheiros, se apavorou e exclamou:

– Valha-me Deus e a Virgem Maria, nunca vi cego de cavalaria!

– Não tenha medo, Aninha, eu fiz isto para livrá-la da megera da sua madrinha. Venha conosco e prometo que você será feliz. A minha mãe é muito boa e vai lhe querer bem. Se você quiser, nos casaremos. Gostei de você desde que lhe vi. Vai com a gente ou quer voltar para sua madrinha?

– Você foi mandado por Deus. Já estou me sentindo muito feliz.

E assim terminou a história da nossa Aninha.

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