Memórias da Vovó Dina – MARINHO DE SOUZA VIDAL

Com esse nome tão pomposo, era a criatura mais simples que se possa imaginar.

Amigo cem por cento. Prosa fluente e engraçada.

O Anthenor na cama, ele ia visitá-lo todo dia e sempre tinha uma lorota para contar. Eu me ria a valer, o Anthenor fazia força para não rir.

Perguntei a ele por que isso com Marinho e ele respondeu: – “Para mexer com ele”.

Adorava sua Dolores. Haviam se conhecido quando ele foi trabalhar no Banco do Brasil, no Ceará. Segundo Marinho foi amor à primeira vista. Sempre cantava:

Foi ela o maior dos meus amores
Ai ai, ai ai, Dolores!
Razão do meu prazer, de minhas dores
Ai ai, ai ai, Dolores!
Eu com ela tive espinhos, tive flores
Ai ai, ai ai, Dolores!
(bis)

Dei o meu sorriso a Leonor
Dei o meu olhar a Beatriz
A nenhuma delas dei amor
Com nenhuma delas fui feliz
Porque existe alguém
Que é o maior dos meus amores
Ai ai, ai ai, Dolores.

Quem não conhecia a canção, uma marcha de carnaval, pensava que o compositor era ele, e imagine se ele corrigia! E cantava bem, o danado. Era entoado.

Dolores era o perfeito contrário dele. Não era chata, mas pouco falava. Era calma e muito boa mulher. Não fosse, não seria mulher do Marinho. Isso diz tudo, eu acho.

Tiveram 4 filhos: Paulo, Flavio, Eduardo e Fernando. Todos se casaram e deram vários netos ao querido casal.

Foi um grande amigo e nos visitava muito aqui em São Paulo. Fazia, com seu jeito, o nosso astral subir muito alto. Mesmo após a morte de sua companheira de tantos anos, ele nos visitava, pelo menos 2 vezes ao ano: aniversário de Anthenor e outra no segundo semestre. A passagem por São Paulo era antes ou depois de visitar a irmã Helena ainda viva no Rio de Janeiro. Ele sempre gostava mais de ficar conosco – segundo ele, a irmã só conversava depois de ler todo “O Globo” do dia, e como demorava!, afinal era tão velhinha e o jornal tão grande! Mas a visita era sagrada.

Uma das provas que temos registrado do humor de Marinho é a carta que ele mandou para Anthenor por ocasião do casamento da Haydée. Eles fizeram um convite todo diferente, com várias fotos dos dois em diversas fases da vida dela e do Deo e com o texto de praxe: nome dos pais, local, data e etc e finalizando uma citação. Bem, Marinho escreve uma carta ao Anthenor cobrando um esclarecimento sobre o convite. Aqui vai ela:

Belo Horizonte, 20 de março de 1978

Caro Antenor, meu amigo e meu irmão… eu já não entendo mais nada nesta vida. Estou tonto. Completamente tonto. (O Fued vai se aposentar mesmo. Só trabalha ate 31 deste mês).

Como eu ia dizendo, este mundo já não se entende, ninguém sabe para onde vai. Pois olhe que, há tempos, o nosso amigo Flavio Alberoni me manda um retrato de você, mais a comadredona Fernandina rindo, mas rindo a toda, rindo de engasgar… mas rindo de que, minha gente? Qual é a piada? … Ele mandou o retrato, mas não contou a piada e nós ficamos sem poder rir junto com vocês. Ou estão rindo de nós?

Convite de casamento

Agora, há dias, recebo um grande cartão, com diversas gravuras e, em baixo o nome da Haydée e de Deodato. Depois uma data – “22 de abril de 1978 20:00”. E não entendi bulufas. Procuramos interpretar as gravuras, mas neca de pitibiriba. Primeiro uma árvore, parecendo meio cortada e, ao lado, uma menina. Ora, se a árvore está cortada, vai cair em cima da menina. E parece que caiu mesmo, pois logo abaixo a menina está sentada numa poltrona de hospital, meio parada e com lápis na mão, parecendo que está anotando suas últimas vontades… e depois os galhos da árvore, nos quais aparece um menino, vestido de caubói e, logo depois, mais a ramaria da árvore. Será que ele subiu demais na árvore e desapareceu? Ou será alguma campanha ecológica, exatamente contra a mudança do aeroporto? Mas aí a menina já está maior e parece que ainda continua no hospital, agora em franca convalescência, no banco do jardim, perto de uma árvore, atrás da qual um cabeludo está espreitando… maroto… Depois um rapaz com guarda-pó asséptico. Parece que é o médico que cuidou da menina, tanto que, depois, ele a está amparando, ainda no jardim do hospital.

Só que a mão dele subiu muito na cintura dela… cuidado moça!… Por fim ela está sentada, com os olhos arregalados, meditando. “será que valeu a pena ter escapado da pancada da árvore?”. Depois uma série de pensamentos, tirados do livro “A imitação de Christo”, que aparece ali como “ The Imitation of Christ”. Não entendi. Ora, se os pensamentos estão escritos em português, por que o nome do livro esta em inglês? É… não dá mesmo para entender…

Por isso eu anotei o seu nome, ao final do cartão e recorro ao amigo, para que me tire da dúvida cruel. – O que vai acontecer no dia 22 de abril de 1978? Seu nome e o de outro casal estão ali anotados e com o endereço para consultas. E por isso, eu venho consultá-lo, na certeza de que, no dia 21.4.78 estaremos aí, se Deus quiser…

Um grande abraço do velho Marinho.

Dessa carta dá para ter uma idéia do humor do querido amigo. Ele era um ou dois anos mais velho que Anthenor, mas mesmo já com dificuldade de marcha, nunca deixou de fazer suas 2 visitas anuais. Era sempre uma festa, uma alegria. Anajas ia buscá-lo no aeroporto e ele vinha todo serelepe de braço dado com a comissária, todo feliz com um sorriso maroto. E só largava o braço da moça quando chegava perto dela e era “entregue”. Católico praticante não deixava de ir à missa aos domingos, mesmo aqui em São Paulo. Frequentava a igreja da rua Eucaliptos, nunca faltava.

Nas nossas bodas de ouro, Anajas pediu a ele que dissesse algumas palavras em nome dos amigos e foi um belo discurso. Pena que se perdeu no tempo.

Outra que ele contava com muita graça, foi quando foi a Portugal com Dolores, seu filho Paulo e sua nora. Certo dia foi à farmácia comprar shampoo para o filho e quando fez o pedido para o balconista, este disse: “Estás brincando!”- Marinho era totalmente calvo. Ele deu boas risadas e deve ter contado com muita graça para seus parentes portugueses, porque esses pediam para repetir a história para quem chegasse.

Quando ele faleceu, Araken e Anajas foram ao enterro em Belo Horizonte. O velório foi no próprio cemitério. Para acompanhar o sepultamento foi necessário percorrer um longo caminho e subir uma ladeira danada de íngreme, sobre a qual Araken fez o seguinte comentário: “- Foi a última piada do Seu Marinho”. Não deu para deixar de rir.

Enquanto vivermos, teremos saudades dele.

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6 pensamentos sobre “Memórias da Vovó Dina – MARINHO DE SOUZA VIDAL

  1. Naja, dê uma conferida no seu computador, quem tem digitado tudo isso não tem sido eu ( que só escrevo comentários), não faz muita diferença ( espero/acho) mas as pessoas estão respondendo como se fosse para mim. mas é emocionante ver quantas pessoas estão e foram ligadas pelos meus avós. O mundo é realmente uma ervilha.

  2. Oi Denise,

    São tantas histórias… e como é bom relembrá-las !
    Desde bem pequena me lembro de seus avós e do enorme carinho que tem conosco.
    Aliás, certa vez, eu devia ter uns 4 ou 5 anos, em uma visita a casa dos meus avós maternos em Sete Lagoas, Da. Fernandina levou uma boneca de presente para mim. Eu era bem tímida com pessoas que via pouco, como a maioria das crianças, fiquei escondida atrás de minha mãe ao agradecer o presente. Sua avó perguntou qual seria o nome da boneca e eu respondi bem baixinho : Fernandina !
    Durante os anos em que vivi em SP, na Av. Macuco, pertinho de Sr. Anthenor e Da. Fernandina, fui acolhida como parte da família. Eles foram meu “porto seguro” em SP. Conviver com eles, os filhos e netos foi um prazer ! Tenho ótimas memórias de algumas tardes passadas conversando na sala, dos lanches a tarde… e muita saudade também !
    E falando do Marinho, sempre que ia a SP, meu avô preferia ficar hospedado com seus avós do que em minha casa. Dizia que gostava mais da movimentação da casa deles e, que se ficasse em minha casa, ele perderia irrecuperáveis horas de bate-papo com Anthenor e Fernandina. Sem mencionar que ele era super mimado por todos, especialmente por Anájas !
    A amizade dos nossos avós era algo raro e precioso ! Imagino que os dois estejam sentados em cadeiras de balanço, trocando idéias e lorotas, e se divertindo juntos !
    Obrigada por escrever estas memórias !
    Meu abraço carinhoso a você, seus filhos, marido (meu ex-aluno !), seus pais, Anajás, Araken, e a toda a grande família.
    Beijo especial a “nossa” avó Fernandina.
    Luciana

  3. Olá, Denise!
    Eu sou a Leila, esposa do Eduardo.
    Eu tenho a felicidade de fazer parte desta família maravilhosa.
    Seu Marinho foi um exemplo de vida para nós. A sua alegria a sua dedicação a família, aos amigos as pessoas em geral me encantava.
    Eu pude ver de perto o quanto ele gostava do Sr. Antenor e Da. Fernandina.E de todos vocês.
    Obrigada pelo carinho.

  4. Oi,
    Eu sou neta do Vô Marinho, filha do Paulo, e, como o tio Flavio, me emocionei com o carinho de vocês por ele. Ele realmente gostava muito do Sr. Antenor, com quem tive o prazer de almoçar uma vez aqui em BH. Ah, e uso bastante a batedeira que ele me mandou de presente de casamento.
    Obrigada pela lembrança.

  5. Denise,
    Não sei se voce se lambra de mim. Sou Flavio, o 2º filho do Seu Marinho e de Da. Dolores.
    Estou indo amanhã a Portugal e resolvi ver se descobria alguma coisa de nossa familia por lá, no Google.
    Tive a enorme satisfação em me deparar com seus comentários sobre o papai.
    Emocionei-me ao ler as histórias do Seu Anthenor e Da.Fernandina e o papai.
    Eles sempre se gostaram muito.Anthenor era o irmão do papai.
    Obrigado pelos maravilhosos comentários. Foi uma grata satiafação!!!

  6. Reli o que foi postado, visto que quem digitou fui eu e não deixei de emocionar-me novamente. Sr Marinho era incrível. Com certeza está em bom lugar. Somos previlegiados por termos conhecido um ser como ele.

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