Memórias da Vovó Dina – EDGAR FALCÃO

Edgar foi outro grande amigo que Anthenor. E se males há que trazem algo de bom, como ingenuamente se diz, as amizades, sólidas e permanentes, construídas nos dias tristes do Sanatório Werneck tiraram um pouco do amargo travo daqueles momentos e trouxeram muitas alegrias nos anos seguintes.

Edgar José Falcão, carioca, funcionário do Banco do Brasil, altão, simpático, maduro de idade e de nascença (assim parecia), inteligente que nem, era o protótipo da pessoa bem educada, de modos fidalgos, de fala mansa e refletida e gestos moderados.

Órfão de pais e por ser o mais velho se responsabilizou pela mãe e irmãs. Se não me engano eram 6 ou 7.

O Rio de Janeiro, onde nasceu e moravam, tem um clima muito forte em calor e a má alimentação e a preocupação com a família arruinaram a saúde do nosso amigo Edgar.

Nem por isso deixava de ser alegre e feliz. Quando nos encontrávamos, sempre cantávamos o samba “Edgar chorou quando viu a Rosa”.

Fez duas ou três operações de toracoplastia. Muito alto, andava todo envergado. Não chegou a engordar, continuou magro como sempre foi.

Quando voltou ao Rio, já curado, casou-se com a Míriam.

Pelas voltas do mundo e decerto por influência do amigo Anthenor, transferiu-se para o BB de Itajubá, recém-casado com a Míriam -, oxitonamente para Anthenor (Araken que me ensinou essa palavra metida à besta, mas para mim é que o acento era na última sílaba, ou seja, Miriâm – mais ou menos assim). Em obediência à lei dos opostos, Míriam era a parte animada, extrovertida e impulsiva do casal, sempre exercitando a compassividade do marido.

Passaram a morar numa casa ampla, de pequeno quintal, em que Míriam, enquanto se enfronhava nos mistérios da culinária, criava algumas galinhas, todas tratadas por nome próprio, modo da dona relembrar os parentes distantes. Não tendo chegado ainda filhos (com o tempo, aportaram dois, José Eduardo e Edgar), a casa deles tornou-se refúgio para alguns de meus filhos. Refúgio no qual o mais assíduo, Araken, se aboletava sem cerimônia, servindo-se da mesa generosa (desassombradamente testando os emergentes dotes culinários da Míriam) e dos bem seletos livros da estante do Edgar, entre os quais pontificava o Dicionário de Francisco Fernandes, da Editora Globo, que ele, feito maluco, lia e relia, buscando a solução de charadas da seção de uma revista. Coisa de desocupado. Além disso, eles tinham uma coleção dos gibis da Disney que era um deleite para as crianças.

Passados poucos anos e um desastre de automóvel que quase matou os dois, o casal mudou-se para Valença, no Estado do Rio e, posteriormente, para o Rio de Janeiro, onde Edgar, aposentado, tornou-se colaborador importante da seguradora Atlântica Boavista. Mas, perto ou distante, continuaram, Míriam e Edgar, sendo amigos dos mais queridos.

Seria o caso de dizer: bendita tuberculose!?

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4 pensamentos sobre “Memórias da Vovó Dina – EDGAR FALCÃO

  1. É engraçado como os amigos dos meus pais eram tão presentes em nossas vidas. Edgar era um ser especial e entre todas as lembranças boas, trago uma durante a minha gravidez tào solitária. Foi um amigo muito querido, com seu gesto carinhoso, sua palavra amiga, foi um PAI e bendigo todoa oa momentos que passamos na sua companhia.E como disse o Alcides, ele com a Miriam fizeram do Rio um lugar especial.
    Anos depois, com Neili já com uns 4 anos, eles nos mostraram o Rio com toda a sua beleza, além de nos levar para sua casa em Petrópolis, onde pude assaltar sua biblioteca e me deleitar com os romances antigos da minha mocidade (recente, é verdade). Eita tempo bom!

  2. Como vivíamos rodeados de pessoas com nomes diferentes ( fui gentil ,fala a verdade !!!) sempre achei que o nome dela era Miriân! Que choque tive agora.

  3. O Edgar era uma figura.Exatamente como a senhora o descreveu: andava curvado e era magro de virar tripa.
    O sujeito simpático e a mulher, Miriam, nos receberam muito bem, lá no Rio de Janeiro, a mim e à cara-metade, sua filha (claro que não a preferida). Uma cordialidade sem tamanho, misturada com simpatia e afeição.

    Só não sabia que ele tinha a tal coleção de gibis da Disney: teria me instalado no apartamentodeles e saído de lá no fim das leituras, qualquer que fosse o dia, adiando tudo o mais. Claro que iria levar bronca da Siomara, mas isso é uma outra história.
    Como a senhora vê, não é só a meninada que gosta de gibis.
    E, depois de visitá-los, o Rio de Janeiro, que é lindo mas é uma desgraça de cidade, ficou mais simpático no meu coração. Tinha gente boa,conhecida, que valeria a pena revisitar sempre. Não só por causa dos gibis, eheheh.

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