O CEGO E A BATATA

A casa que morava minhas tias, minha avó e meu pai com a Maria, ficava numa esquina da rua 7 com a R Arueira.

Indo para Arueira ficava à esquerda da estrada de ferro Maceió-Jaraguá.

Depois da linha de ferro, havia um córrego, o mais sujo que se possa imaginar e uma ponte para chegar na outra rua.

Estou procurando descrever isso para que vocês possam entender o drama da D. Januária.

O cego com seu guia, filho de uns 6 anos, passava toda semana pela janela da Arueira, pedindo esmola. A minha avó nunca deixou de atendê-los. Nesse dia, ela lhes deu uma batata doce que havia sobrado do café da manhã.

E disse ao pedinte: – Não é resto. Tirei da mesa do café agora mesmo.

Eu estava lá e vi o que se passou.

O nosso cego ao invés de por a batata na sacola, a pôs no bolso do paletó. Nós notamos o gesto do infeliz.

Ele agradeceu, atravessou a rua pela estrada de ferro e ao chegar do outro lado, antes de pedir esmola, meteu a mão no bolso, pegou a batata e jogo-a no riacho Salgadinho.

Na semana seguinte veio novamente:

– Uma esmola pelo amor de Deus.

Mal esperava ele, a recepção que recebeu. Minha avó subiu nas tamancas e ele ouviu poucas e boas. O infeliz ainda quis dizer que não tinha feito aquilo.

– Fez sim, senhor. Eu vi e minha neta também. Fiquei reparando porque você colocou a batata no bolso e não na sacola. Não me peça mais esmola. Você não merece.

O infeliz se calou, não tinha razão.

É como diz o ditado: Além de pobre, besta.

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