CHICO

O macaco era da tia Haydée. Vivia em cima da porta de duas folhas, comendo banana ou o que lhe dessem. Com uma fina corrente presa à cintura para não fugir, fazia lá suas estripulias.

Tia Ester não gostava dele, como não gostava de bicho nenhum. Gato, cachorro eram com a irmã, porém, o trabalho de cuidar era da tia Ester.

O macaco é um bicho porco. Sujava a porta e o chão em que vivia e o trabalho de limpar, já viram de quem era!

Tia Haydée devia ter uns 10 anos quando isso aconteceu, era a mimada da casa. A escola que freqüentava ficava bem em frente, do outro lado da rua. Dava para ouvir bem o que se passou em casa de meus avós.

Na sala de viver que era a sala da frente, ali se recebia, se conversava e se trabalhava. Meu tio Getúlio, como alfaiate, na máquina de costura e na enorme mesa de corte. Tinha também uma marquesa (sofá antigo), grande, que devia caber folgadamente mais de 5 pessoas sentadas. Tinha, ainda, uma máquina de costura da minha avó e o bastidor onde trabalhava tia Ester, fazendo filé para ganhar uns trocados. O bastidor ficava perto da porta onde se empoleirava o Chico.

Numa manhã estavam todos trabalhando e tia Haydée na escola. As três janelas da sala que davam para a rua estavam abertas para entrar o sol e o vento (caso estivesse ventando). Tia Ester usava pince-nez (óculos sem aro). Tirou os benditos, colocou-os em cima do risco do bordado junto ao carretel de linha e dirigiu-se à cozinha para ver a panela do feijão. Quando o macaco Chico viu que não tinha ninguém na sala, nem a sua arquiinimiga, não hesitou; desceu pela porta abaixo, pegou com as duas mãos o carretel e começou a malhar as lentes do pince-nez.

A tia Ester vindo pelo corredor, viu o grande espetáculo e gritou:

– Chico, o que você está fazendo?

Ele, mais que depressa, correu porta acima e começou a guinchar, chamando a dona que estava no outro lado da rua.

Nem a presença da tia Haydée evitou que ele levasse a maior surra que um pobre macaco pode levar.

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Um pensamento sobre “CHICO

  1. Relendo isso, me vem a lembrança de que mamãe não frequentou escola. Como bem dizia ela, vovô era metido a granfino mesmo, sua filha estudava com professores particulares! Veja só, não tinham nada, mas a filha estudava em casa. Por outro lado, temos que reconhecer, mamãe escreve um portugues impecável e até francês arranhou! Chic, hein!?

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