Sogra ou mãe?

Eu estudava na ETI Lauro Gomes, em São Bernardo do Campo, nos idos anos de 74/75. Lá tinha um professor com voz tonitroante, chamado Rodrigo. Era um ser esquisito, porque ensinava matérias como amplificadores operacionais mas também falava de outras coisas, que nada tinham a ver com os tais amplificadores. Falava coisas ligadas à alma e à essência do ser. Um sacrilégio para um professor de eletrônica, ainda mais naqueles tempos de ditadura.

Um dia o procurei, já não me lembro exatamente o motivo. Ele estava na sala dos professores e me perguntou qual a diferença entre o zero e o um. Eu pensei bem e disse que achava que eram essencialmente a mesma coisa. Ele provavelmente achou minha resposta razoável, acredito, e me convidou para uma reunião espiritualista na casa de sua mãe, a Matriarca, na Vila Mariana. Eram reuniões de quarta-feira – e eu não tinha a menor idéia do que se tratava.

Quando apareci na primeira reunião em que fora convidado, vi uma pessoa: Siomara. Olhei pra ela e me disse: é ela, a minha metade. Não contei a ninguém, mas acredito que a recíproca foi verdadeira. E instantânea. Depois das reuniões ficávamos a ouvir música MPB na sala da casa, e na segunda ou terceira reunião Siomara veio e me arrancou um beijo. Eu ainda era cheio de vergonhas e de medos adolescentes, mas não resisti, confesso, àquele primeiro doce beijo. Aí, a certeza que tive quando a vi, pela primeira vez, se transformou numa certeza de 35 anos de convivência.

Dona Fernandina, a Matriarca, que ainda não era minha “sogra”, começou a notar que eu não ia embora depois que acabavam as reuniões, ficava ali na sala de estar namorando até tarde, enrolando pra ir embora. Um dia ela veio com um copo de leite quente e me disse:

– Tome este leite meu filho – e vá para sua casa! (com a doçura e a candura com que sempre me tratou).

Pouco tempo depois estava casando com sua filha, mas nunca a vi como sogra. Sempre a chamei de mãe e a vejo assim até hoje, como uma segunda mãe. Nestes anos todos convivi mais com ela do que com minha própria mãe, a quem vejo com muita pouca freqüência.

É do ventre dessa mulher bendita que nasceu Siomara, ou Mamaia, como eu e íntimos a chamavam  carinhosamente. Que me deu 3 filhos benditos. Que infelizmente daqui partiu e nos deixou com uma saudades sem tamanho e sem precedentes.

Felizmente ainda posso visitar a Matriarca e, ao ve-la, beber um pouco da água da fonte que tudo gerou. Ou tomar um copo de leite e beber um pouco mais de vida.

Mãe e filha na véspera de Natal de 2010

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