17/Junho/71 – Londres

Saímos cerca das 9h e fomos acertar o “tour” diretamente na agência, porque às vezes o Waldemar faz isso no hotel.

De lá seguimos para o célebre Museu de Cera. É de espantar como pode alguém criar as coisas assim. Não vimos tudo. Além de não dar tempo, estão arrumando qualquer parte lá dentro. Tem salas fechadas e muitas figuras da história não vimos. Personagens da Revolução Francesa, por exemplo, só vimos algumas. Os criadores, como Robespierre e sua cambada, menos Danton. Os Reis Luiz e Maria Antonieta não vimos. Mas deu para satisfazer aquilo que visitamos em duas horas.

Achei interessante a inclusão, na sala dos “Heróis de Hoje e de Ontem”, do rei Henrique VIII, suas seis esposas e mais a rainha Elizabete I, filha do referido rei.

Madame Tousseaud foi a criadora do Museu de Cera. Na Revolução Francesa, presa como protetora dos nobres, foi obrigada a moldar em cera as cabeças dos decapitados, seus amigos.

Tem uma cena dela sentada na cela, na sua frente uma vasilha com cera quente, uma cabeça decapitada em cima da outra mesa. Ao seu lado direito um soldado e do esquerdo um personagem da Revolução. É impressionantemente bela e trágica a cena. A sala dos horrores, onde estão todos os criminosos, principalmente os antigos mais famosos, dá arrepios e piedade pela péssima celebridade que o homem é capaz de adquirir quando se inclina para o mal.

A sala dos homens célebres – presidentes, senadores, lordes, cardeais, papas, criadores do protestantismo, os mandantes da China revolucionária, reis e imperadores estrangeiros.

A sala do trono – com a Rainha Elizabete II, o Príncipe Felipe, o Príncipe Charles e a Princesa Ana. Ela em pé, em frente ao trono, ele mais atrás. O filho abaixo do tablado, com um pé no primeiro degrau e a mocinha no lado oposto, do lado do pai. No centro, a corte, incluindo a Princesa Margarete e seu marido. Duque e Duquesa de Kent e por aí afora. Gente de título das nobrezas inglesas e seus países vizinhos.

O Pelé, se sabe que é ele, por ser o único herói no esporte preto e porque usa o traje da CBD. Com uma bola na mão e aos pés a Taça do Mundo. Não é possível descrever tudo, principalmente de memória.

Encerra-se a visita com o Planetarium. Além de ser escrito em inglês o negócio não foi todo apresentado. Foram só vinte minutos de cabeça para cima.

De lá do Museu fomos fazer compras na carreira. Fazer compras com o Waldemar é melhor não ir. O mocinho fica num nervoso que dá vontade de lhe dar umas palmadas. Tivemos que voltar ao hotel, tomar banho, trocar de roupa e ir ao “tour”. Pensamos que era ônibus, mas como só éramos nós quatro, eles nos mandaram um carro com um simpático espanhol servindo de guia e chofer.

O que vimos em Portugal e Espanha nos agradou pelo ineditismo. Vimos folclore na fonte e são coisas que agradam em cheio. Mas como ia dizendo: o moço nos levou a uma Taverna que se chama simplesmente “Sherlock Holmes”, só servem bebidas. E é um ambiente quase fúnebre. O inglês fala baixinho, bebendo com toda calma, como se estivessem tratando do negócio mais sério do mundo.

É um caso interessante: desde a Suíça que não se ouve barulho. Ninguém buzina, não se grita nem se fala aos berros. Nos grandes Magazines, parece que está quase vazio. Quase que se sussurra, na Inglaterra é talvez mais sério. O inglês fica olhando sem ver a sua bebida e de vez em quando toma um gole; cofia os bigodes, quando os tem, fuma seu cachimbo, em pé ou sentado, sempre calado, pensando. Os sentados em dois ou três falam baixinho, sempre bebendo e sorrindo às vezes. Fomos até em cima, onde fica o restaurante e lá, ao lado do mesmo, tem um quarto pequeno com todos os apetrechos que a imaginação de Conon Doyle disse pertencer ao detetive de sua criação.

Uma mesa onde estão uma lupa, um cachimbo, candeeiro, os vários recursos para disfarce. A mesa é redonda, forrada com uma toalha, me parece branca. Nas paredes tem várias gravuras. O violino em cima de uma cadeira, na lareira vários retratos e muita coisa mais que me foge. Mas o mais impressionante é um manequim, com a fisionomia do Sherlock Holmes, com um buraco de bala na fronte. Diz que ele se suicidou. Fora do quarto tem vários retratos e desenhos e cenas de filmes. O que não faz a imaginação para ganhar dinheiro! Até a cabeça do cachorro que o ajudou – em alto relevo, dentro de um quadro, em azul, dá um efeito de vida formidável.

Não fosse em inglês, iria me fartar de ler as gravuras e recortes de jornais que enfeitam todas as paredes da Taverna. Tudo colocado em molduras como coisa preciosa que é. De lá seguimos para outra Taverna em moldes diferentes. O rapaz estava nos mostrando a diferença entre a vida antiga e a moderna em Londres. A nova Taverna é o que nós chamamos de êi-iê. Aliás, a rua inteira pertence a eles, é um dos comércios mais caros da terra.

Londres

As ruas londrinas são largas, limpas e alegres. Esta não foge às regras (não tivemos o nevoeiro e parece que ultimamente não tem havido). Existia mais por causa do carvão betuminoso que queimavam nas residências, mas agora, diante do decreto de lei, os teimosos ingleses deixaram de queimá-lo e daí acabou o nevoeiro (quase).

Mas, voltando ao assunto taverna, esta se chama Trafalgar e fica na rua do mesmo nome. Tem uns dezesseis metros de frente e nas janelas tem vidros vermelhos. É térrea e lá dentro tem, no lado direito (como a outra), um balcão semi circular. Moças de short preto de veludo e blusa vermelha, despacham as várias bebidas pedidas. Moços e moças sentados em cadeiras em forma de cavalos (os lados das mesmas) fumam, bebem e namoram. A meia-luz prejudica a visão e junto com a fumaça dos cigarros – mais duas horas e ninguém respira lá dentro. Gente de todas as nacionalidades se misturam para arrebentarem os tímpanos. Disse o rapaz (guia) que lá pelas 10h da noite começa uma fila que não tem tamanho. Aliás, é a única Taverna ou Cabaré que tem fila em Londres (será que em outro lugar existe isso?). A rapaziada lá estava a ouvir a sua música (?) até o mais alto som, todos felizes, sem pensar que tudo na vida é transitório. Querer viver demais no presente para cansar demais no futuro.

Já eram 9h15 da noite e rumamos então para o restaurante onde tínhamos de jantar. Lá é Teatro-Boite-Restaurante. É grande toda vida. Tanto que tem dois toilettes para senhoras e cavalheiros, embaixo na entrada e lá dentro, no terceiro pavimento. Embaixo, onde está o piso, tem pista de dança que no momento preciso dá uma “subida” e se transforma em palco e muito bom. O show foi muito bom, apesar da opinião em contrário do nosso caro amigo Waldemar. Ele disse que em Paris é bem melhor. Eu lhe respondi que, enquanto não estivesse em Paris, Londres nos servia perfeitamente. O que ele gosta mesmo é de mulher pelada, isto sim.

Mas enfim, a gente se satisfaz com o que tem em mãos e apreciamos grandemente as bailarinas, bailarinos e ótima orquestra. Depois do intervalo chegou a vez de um trio americano, negros, fabulosos. Acompanhados de grande orquestra, eles cantaram e dançaram a valer. O mais velho, que é pai do mais moço, cantou pouco. Grandes!!

Enquanto isso nós jantávamos, no escuro, peixe, não engolimos espinho por milagre. Saímos de lá às 23h, foi a melhor noite depois da Espanha.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s