Fotografias recentes

Alguns primos postaram fotos deliciosas da nossa matriarca em redes sociais.

Aqui estão algumas delas.

Por Nadine Farias

Por Nadine Farias

Por Neili Farias

Por Neili Farias

por Leticia Dos Reis Farias

por Leticia Dos Reis Farias

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A Partida

Esta semana nossa autora completou seu ciclo de vida e partiu. Deixará saudades a seus entes queridos, mas também a felicidade de ter-nos permitido ser parte de sua história.
Publico alguns textos e fotografias compartilhados por seus filhos e netos esses dias, a começar por um texto de Rodrigo Araês, seu filho.

“Minha Matriarca, Fernandina, faleceu hoje, às 9:21 horas da manhã, aos 98 anos de idade. Foi uma libertação do sofrimento que ela estava tendo, e creio que ela cumpriu toda a sua promessa de vida.
Coloco aqui um poema inspirado pela minha falecida sogra, Maria, três meses depois de seu falecimento. Acho que corrobora todos os sentimentos meus e de meus treze irmãos, além dos genros, noras, netos e bisnetos.
Amém,
Rodrigo Araês,

Partida

Fui embora
não fiquem tristes com a minha partida
pois nada que amo ficará perdido
É mais uma pena que me fará voar.

E, pairando, nem sentirei que a vida é breve
pois minha alma estará mais leve
lembrando todos a que pude amar.

Portanto, crianças, eu vos espero no eterno agora
Onde não existem idas e vindas, apenas memórias,
ilusões de um passado que se torna lembrança.

E chegarão até mim seguindo o rastro
do amor que permaneceu comigo.
Saberão enfim que nunca fui embora
que era falsa a minha despedida
que almas irmãs não se separam…

Rodrigo Araês Caldas Farias
São Paulo 08/03/96 – 9:10”

22/Maio/71 – 09h30

“Mônaco é uma joia engastada no alto do morro, que domina toda a baía que forma esta parte do mediterrâneo”.

Estamos seguindo em passeio para Mônaco. Estrada feita no morro, com chácaras, residências e hotéis construídos na rocha. O panorama é agradável, apesar do tempo nublado, pois está a chover em Nice. Espero que Mônaco esteja melhor.

Mônaco – Côte d’Azur – Riviera Francesa – Nice e todas as vilas, cidades, praias – ou lá o que seja que chamam por aqui – só têm uma finalidade: Monte Carlo!!!!

O Principado de Mônaco é uma das estórias da carochinha. Se houvesse sol veríamos melhor as belezas deste pedacinho de terra, conquistado por uma americana que aguenta galhardamente a vida insípida que é ser princesa, seja de um grande reinado, seja de um minúsculo principado.

Mônaco é uma joia engastada no alto do morro, que domina toda a baía que forma esta parte do mediterrâneo. Dista 30 quilômetros de Nice e no momento que se entra aqui se esquece Nice e suas ruas e avenidas que se tornam comuns diante da belezinha que é Mônaco.

Mônaco

Não existem ruas extensas, o tamanho do país não dá, a maior extensão, em uma praça talvez, seja onde está plantado o Palácio – castelo, residência do Príncipe Rainier e sua real família. A mudança da guarda lembra a opereta “O soldado de chocolate”.
A banda marcial toca as cornetas, suflam os seus tambores e, na frente, marcham os soldados que vão substituir os outros que estão na guarita, esperando os companheiros que os vão render. Todos de dolman preto e calças azul-marinho, com dragonas douradas, capacete preto com um penacho em vermelho e pontas brancas, cobrindo o coconuto do mesmo, cinturão branco, luvas brancas e os punhos vermelhos do dolman dão um contraste alegre aos soldadinhos de chumbo do Príncipe Rainier.

O trânsito, bem dirigido pela guarda garbosa e bem educada, dá maior realce ao bem cuidados País (se assim se pode chamá-lo).

Estamos sentados no carro, Lourdes e eu, esperando pelos três companheiros de aventuras, a saber por ordem de nascimento: Sr. Antenor, Sr. Diamantino e Sr. Waldemar. Eles foram assistir ao 13º Grand Prix. Hoje e amanhã haverá corrida de automóveis. O Waldemar é apaixonado por isso e o coitado estava a ponto de dar a luz, pois o tempo estava chuvoso, mas melhorou e parece que vai segurar. Em frente a nós está a Catedral e mais adiante está o museu. Depois iremos vê-los. (Não fomos….)

Almoçamos em um restaurante franco-italiano chamado “Saint Nicole”, onde comemos muito bem, aliás.

Voltamos a Nice pelas 15 horas. Os dias aqui são enormes, o alvorecer começa pelas 4h30 da madrugada e o anoitecer por volta das 20h30.

Não tenho tido a lembrança de marcar as horas, mas é mais ou menos isso.

Jantamos às 21 horas no restaurante “O Pizzicato”, baseados na cozinha italiana e, como o outro – Palermo, a agonia é a mesma, o corre corre é qualquer coisa de notável, a diferença é que este último tem mais espaço, mas nem por isso deixa de ter as suas aperturas.

O Sul da França compreende toda a costa, a que dão o nome de Riviera Francesa. Costa Brava é onde o mediterrâneo banha a Espanha. Côte d’Azur é a parte em que se localiza Mônaco. É muito bonito tudo o que a natureza criou por aqui e a mão do homem aplainou ao seu bel prazer. A natureza agreste, com seus montes rochosos, sua afamada Fraldas dos Pirineus, suas ravinas, apesar do burilamento por que passou é um perigo constante para o viajante, mesmo de dia. As estradas são em curvas fechadas para subir as escarpas quase indomáveis e, quanto mais abrupto é o terreno, mais perigoso e acidentado, aí se vêm belas casas de veraneio, residências, pequenos bangalôs, hotéis e restaurantes. As flores, de todas as espécimes, dão um encanto todo especial às paisagens.

Não simpatizei com Nice. Como disse anteriormente, prefiro Cannes. Tem aqui tudo que se pode desejar para viver, comer e se divertir. É só ter dinheiro. A mescla de raça dá um toque diferente a esta terra cheia de barulho e de gentes.

No comércio se misturam lojas onde vendem de tudo, restaurantes, cafés e casas de chá de todos os jeitos e modos. Uns têm cadeiras e mesas nas calçadas (aliás é típico da Europa, desde Portugal se vê isto), outros são do lado de dentro. A maioria dos restaurantes expõem suas comidas nas portas de entrada, cruas ainda, mas arrumadas de modo como ficarão depois de prontas. A ideia é prática e apetitosa, mesmo que não estejam cobertas na vitrines dos balcões frigoríficos, não existe perigo de deterioração, porque acima de tudo não existem as amaldiçoadas moscas. É tudo muito limpo, mesmo as ruas apesar da multidão que as infestam.

Mas, o que maior tristeza nos causou em tudo isso é a prostituição às escancaras que existe aqui. Já às 20 horas “elas” já estão pelas esquinas, de pernas à mostra (todas, com raras exceções, vestem short), arrumadas de cara e cabelo, são moças e bonitas, um chamariz perigoso para as sem muita firmeza da vida quererem imitar Deus! Quando será que essas coisas terminarão!?? Quando terá fim tanta miséria???!!!!!

Barcelona, Espanha

Visitamos um local que se chama simplesmente “Pueblo d’ Espanha”. Talvez o nome não signifique para nós a beleza e a propriedade que são resultado do monumento.

É em forma de cidadela romana e lá, entrando pela enorme porta que enfeita e guarda a entrada, chega-se a um recinto de grandiosa harmonia no seu efeito. Empregando o termo brasileiro – o negócio foi bem bolado. É como se todo o edifício fosse a própria Espanha. Dentro estão as suas províncias em distribuição na posição real em que se encontram na geografia. No centro, onde deve estar Madri, fizeram uma cópia da “Plaza Mayor”.

Cada província é uma espécie de loja onde estão expostos os produtos manufaturados naqueles lugares. Levaríamos todo o resto da tarde e talvez não víssemos minuciosamente as curiosidades que lá se encontram. Ficamos até onde o dinheiro chegou e o estômago consentiu, pois era hora do almoço e estávamos morrendo de fome.

Monumento a Cristóvão Colombo, Barcelona

Vimos a manufaturação de vidro. Ainda não tinha visto e ficaria sentada o resto do tempo só apreciando o manejo único, que é grandemente agradável de se ver. Estavam fazendo uma grande garrafa verde para bebida. Não sei dizer ou descrever o negócio todo. A bola de vidro derretido sai do forno vermelho coral e, poucos minutos depois está verde folha. Os homens trabalham numa agilidade enorme é claro, e como eram dois grupos que trabalhavam, ficamos mais a ver o 2º grupo, pois era lá que o homem soprava o vidro. Interessantíssimo, porém, mais interessante eram as bochechas que o homem fazia, parecia que estava a tocar um trombone de vara.

Fomos ao cabeleireiro, Lourdes e eu, fizemos as unha e cortamos cabelo. Em primeiro lugar nos lavaram os cabelos, não nos perguntaram se queríamos que o fizessem. É uma norma deles. Para cortar ou pentear, os cabelos têm que ser lavados. Os meus quem lavou foi um adolescente, cerca de 12 anos. Aquilo lá enxameia de homens e mulheres, sendo homens mesmo… depois tiram o excesso de água com a toalha e cortam, aliás muito bem, diga-se de passagem. Não foi a mesma moça quem nos fez o serviço, apenas a manicure foi uma só, apesar de ter várias.

Os homens e as mulheres fazem o mesmo serviço, menos os que estão aprendendo, é claro. A moça que nos fez as unhas deve ter gasto cerca de 20 minutos, e são bem feitas, só não gostamos do preço: 100 cruzeiros as duas. O luxo e a vaidade da mulher afunda qualquer homem, se ela não pensar duas vezes no que vai fazer…

Vamos sair agora, pela manhã, em caminho da França. Dormiremos em Aix-en-Provance.

20/Maio/71 – Barcelona, Espanha

Uniram-se: a simpatia, a beleza, a deferência. Acredito que Barcelona seja a fina flor de Espanha. É uma menina-moça eterna fazendo sua “entrée” na alta sociedade do mundo.

Ao contrário do madrileno, o habitante de Barcelona, em geral, é simpático, tratável. As vendedoras, então, encantadoras. Não se pode descrever esta cidade. É preciso vê-la.

Ao contrário das cidades por onde já passamos: seja de Portugal, seja da Espanha, incluindo Madri e Lisboa, onde a influência moura é notável, Barcelona tem característica romana. Não italiana, romana mesmo. Fortes ou cidadelas, inúmeras fontes, estátuas, construções públicas, jardins e uma série de outras coisas.

O porto é bom, não tão grande como disse o guia (10 km), mas serve bem aos seus intentos. Fomos à Praça da Catalunha ver a “feira de passarinhos de Barcelona”. Vende-se ali, principalmente, flores e pássaros. Nunca havíamos visto hortênsia branca e salmon. Vimos hoje. Tem uma variedade imensa de geraniuns. Flores tropicais que talvez nem no Brasil se conheça.

Não sei de onde vem. Rosas, cravos amarelos com as bordas das pétalas em rosa vivo, brancos em vermelho! Arranjos florais sem arames para matar as pobres flores… Não sei descrever aquilo que vimos, é bonito demais. Fomos à feira de metrô. E chegamos num suspiro.

Mas o mais bonito é o que eles fizeram do morro onde está encarrapitado um forte construído pelos romanos. Desde a base até o ápice é um jardim de notável beleza.

Tiramos várias fotos e o Waldemar filmou um pouco apesar de ter perdido algum filme – tapetes de flores amarelas, brancas, vermelhas e rosas.

Nos morros que suportam as estradas para subidas, fizeram jardins tropicais de rara inspiração. Pedras, cactos, geraniuns, flores campestres de variedade imensa e cores várias, se confundem numa profusão de encantar. Vai-se subindo, e enquanto mais se sobe mais bonito nos depara.

Lá em cima tem um jardim de canteiros iguais em dois. São retangulares. Canteiros de bocas de leão (dois), dois de cravinas e estavam preparando dois de dálias. Disse o jardineiro que as haviam recebido do México. No centro fica o caminho que vai para o edifício da TV. E seguem então os canteiros formando outra série de dálias, cravinas e bocas de leão.

As cravinas são em todas as cores: até brancas, que eu não conhecia. Na extremidade de cada conjunto desses enormes e belos canteiros, tem outro em oval, com florzinhas roxas, e no centro uma estátua estilo romano representando qualquer deusa. Essas flores não são salpicadas, todos os canteiros, os morros, os tapetes nas beiras altas do forte são compactos. É como se fosse um imenso “bouquet” de flores várias enfeitando essa grande cidade.

Se houvesse tempo de descrevermos todos os lugares por onde passamos, todas as cafeterias onde entramos para tomar um lanche à noite, porque o jantar do hotel não nos agradou, todas as praças, monumentos, edifícios, grandes lojas, pequenas lojas etc., não haveria caderno que chegasse e somente uma taquígrafa (Siomara?) nos satisfaria se conseguíssemos realizar tal intento. A Europa é um imenso jardim apelidado de Velho Mundo.

Os canteiros diferem entre si pelas variedades de flores. O jardineiro que muitas vezes se transforma em um rude e ignorante hortelão, muitas vezes não soube, e talvez por muito tempo não saberá, conter os choques de perfume das suas flores. Quando há paz entre elas (as flores) existe suavidade no ar e aí então todos aspiram as fragrâncias com verdadeiro deleite.

Os brotinhos, mais felizes e alegres se tornam capacitados para se transformarem em flores mais belas e perfumadas. Tudo dependendo do cuidado extremoso do querido e velho jardineiro. Queira Deus não se torne ele, jamais, um antipático e resmungão “hortelão”.

18/Maio/71

Estamos saindo de Zaragoza – andamos que só má notícia, guiados pelo “perdigueiro” Antenor, para conhecermos a cidade em expresso canelinha. Ele queria encontrar a Catedral de Nossa Senhora Del Pilar e o que encontrou foi fundos de casas e vielas – vimos depois a bela Igreja com orientação do Sr. Diamantino.

Paramos um pouco em Lérida para o carro tomar “gasosa” ou gasolina como deve ser chamada por nós. Tomamos um cafezinho, Lourdes e eu. O Waldemar um Campari e o Sr. Diamantino um leite.

Ao sairmos de Zaragoza a paisagem mudou completamente. Do lado esquerdo, montes e montanhas de pedra, cobertas por uma vegetação que parece ser reflorestamento.

Fizeram na Espanha o mesmo que acontece com Minas Gerais. Não existe floresta nesta parte do País – Noroeste – É tudo seco, árido.

Do lado oposto, são campos cultivados. Trigo, uva, cevada, pastos, pêssego, que sei eu?

Enquanto em Portugal os campos cultivados com cereais são entremeados de árvore da cortiça, olivais, parreiras, pereiras e etc., aqui não existe cortiça. Existe mais pereiras, oliveiras e pessegueiros. Mas as flores de campo – papoulas vermelhas, margaridinhas brancas e amarelas, urzes azuis, florzinhas roxas, são iguais nos dois países. É um encanto! Para nós, que não somos poetas, nos faz falta rimar para enaltecermos tanta beleza natural!

Entre Guadalajara e Cifuentes

Ótima comida, ótimo vinho, bem servido, local campestre ao lado de um trigal. Me deu vontade de lá ficar o resto do dia, pois lá fora estava chovendo e um frio de rachar. Felizmente ao entrarmos em Zaragoza o tempo melhorou. Os filhos desta terra devem ter um orgulho enorme dela.

Primeiro por ser terra de Goya, o grande pintor, e segundo pela simpática atração que nos inspira.

Zaragoza

Zaragoza, vaga ao primeiro golpe de vista. Como entrada de cidades, quer grandes ou pequenas, dá-nos má impressão com seus edifícios de apartamentos, com florestas de antenas de televisão nos telhados. Mas à proporção que vamos entrando, descobrimos que Zaragoza é uma mulher bonita, vestida para um baile de máscaras. Tirar-se-lhes a máscara e se apresenta a beleza que é a terra de Goya e do Rei Fernando, o católico. Pena ficarmos tão pouco aqui. As galerias no centro comercial, dão um ar festivo à linda avenida em que se localizam.

Chegamos às 7h da tarde (em dia de sol, às 9h ainda é dia) e jantamos às 9h30, ou seja, 21h30. Saímos para fazer o quilo, como diz o Antenor, e fomos ver as galerias.

Na volta tomamos chá com torradas. O Waldemar tomou um conhaque quente (ficou fumaçando que só locomotiva). Regressamos ao hotel à meia noite.

Notamos que alguém esteve em nossos quartos. A luz do nosso estava acesa e no dos amigos rasgaram o involucro de uma cesta de doces que o Waldemar havia comprado e de certo tiraram algum, pois esta gente não tem anda de boba.

Não sentimos falta de mais nada. Deus queira que dê uma dor na munheca do sem vergonha que fez isso toda vez que for mexer no que não deve – a Lourdes sentiu falta de uma moeda, presente de filha.