O Natal para Fernandina e Anthenor

Uma pequena homenagem a meus avós nesse Natal, o primeiro sem o meu avô.

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PROSAS DO ERNESTO JATOBÁ

Segure o copo por baixo

Segure com as duas mãos

Enxó, compasso e formão,

fogo, farol, ferro e facho.

Eu procuro, mas não acho

A fulô do mulungu

Tive três anos no Sul

Mais meu mano Felizardo,

Copo branco, copo pardo,

Verde, amarelo e azul

Ajuê, Maria!

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Eu só queria fazer

O que me peito palpita

Caçar uma mulher bonita

Para com ela eu casar.

Se ela me rejeitar

Eu zangado brigo e ralho

Vou mandar comprar um baralho

Pra me divertir na praça.

Sem mulher também se passa

Quem tem mulher, tem trabalho

Ajuê, Maria!

Cartas de amor

Anthenor distribuía na fábrica a correspondência dos operários. Entre elas chegou uma para alguém que não estava mais lá. Era de um rapaz que morava no Rio e escrevia para a namorada.

Esperando talvez, que a carta fosse reclamada, Anthenor guardou-a por muito tempo.

Um belo dia ele perdeu a paciência e abriu a carta do pobre abandonado.

A missiva dizia o seguinte:

“Ai, que deu-me uma cedente, numa desconsolação, senti no coração um trespasso de repente.

Antes não fora vivente, porque cuidado não tinha. Quando a lembrança me vinha, dá-me novas do passado.

Adeus, flor do meu agrado. Aceite lembrança minha.”

Este era o teor da carta do coitado cheio de saudade da noiva ou namorada que o esqueceu e foi embora…

DITADO DO ANTHENOR

O homem tem que ter mulher em casa, nem que seja para brigar.

Memórias da Vovó Dina – TULIO

Tulio era carioca. Alegre, feliz, mocinho dos seus 19 anos. Muitos dos doentes saíam para andar pela redondeza da clínica. Saíam cedo antes do café. Depois era um Deus nos acuda para se recuperarem. Tulio era um dos fujões.

Hoje não existe mais o Sanatório Hugo Werneck. A tuberculose tem novos tratamentos.
O que foi feito das abnegadas irmãs, que era o sustentáculo daquilo ali, ninguém sabe. Eram quase todas estrangeiras, a começar pela cozinheira.

Apesar de todo sofrimento éramos felizes, pela harmonia e pela segurança espiritual que se irradiava de todos os doentes e acompanhantes.

Memórias da Vovó Dina – NAZARÉ E SUA MÃE D. ANITA

Quando cheguei ao Sanatório, Nazaré estava em repouso absoluto. Quando melhorou, ia para o terraço como outros, para tomar um pouco de sol e respirar o ar puro daquele lugar.

Chovesse ou não, fizesse frio ou não, as janelas do quarto não se fechavam.
D. Anita, sua mãe, parecia uma pata choca andando. Baixinha, gordinha, tagarela, como ela só.

Quando na hora do repouso, era um trabalho mantê-la calada ou falando baixo.
Soube depois que a menina Nazaré havia falecido.

Que Deus a abençoe.

Memórias da Vovó Dina – MARGARIDA E LENINHA

Eram irmãs. Pernambucanas. Fazia pena ver uma moça tão bonita e simpática, tão doente. Margarida veio para o Sanatório à custa de um tio muito rico. Leninha era sua acompanhante. Margarida não resistiu muito tempo. Leninha casou em Belo Horizonte com um bancário que ela conheceu quando ia receber dinheiro enviado pelo tio. Tempos depois me hospedei em sua casa, quando fui me operar. Não soube mais deles, o que é uma pena.