PALAVRAS DO RODRIGO POR OCASIÃO DOS 74 ANOS DO NOSSO CASAMENTO

Disse minha mãe que a benção do casamento são os filhos. É justo, portanto, que os filhos aqui presentes os abençoem.

Junto aos filhos, sobrinhos, primos, genros, noras e netos sem contar a plêiade de amigos. Tivemos muita sorte de pertencermos à família que vocês criaram, mas só a maturidade nos fez reconhecer o quanto de sorte foi.

Patriarca e Matriarca:

Aceitem o nosso amor e carinho incondicionais, pois a vocês devemos nossa vida.

O inesperado demora séculos para ser construído, esta festa demorou 74 anos.

Sabemos que no tempo do Percival a festa seria mais grandiosa e mais organizada, mas certamente não seria mais amorosa que esta, seria, no máximo, igual.

Patriarca sorria para a vida, ela abençoa toda sua vida, toda a sua grandeza.

Matriarca sorria para a vida, ela abençoa o baluarte que sempre nos amparou.

Caros avós:  a tradição continua, o amor permanece.

Caros irmãos, abramos o coração, sejamos o exemplo, sejamos felizes.

Pai, Mãe, Anthenor e Fernandina, nós os amamos.

Em nome do Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.

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NOSSA FESTA – 7 DE OUTUBRO – 74 ANOS DE FELICIDADE

Linda…Linda…linda…

O meu bouquê de noiva foi rememorado pela idéia da nossa filha Anajas.

O bouquê da noiva de vinte anos, foi feita por Idalina, tia do meu coração. Já estava doente e prometeu criá-lo. Foi a Maceió e comprou cetim branco para a confecção. Quando o trouxe para mim na manhã do dia 7, passando pela loja do tio do Rodrigo Mota, a sra D. Otelina, admirada, perguntou à Dola:

– Que lindo está este bouquê… mas onde você arranjou tantas cores de cetim?

– Mas são todos brancos!

– Não, Idalina, repare bem, cada lírio tem uma cor suave de azul, rosa, amarelo, creme.

E assim o meu bouquê de noiva, já sabia, pelas mãos da minha querida tia, quantos e como seriam os meus (nossos filhos)!!

Aroni tem duas mães. Ela foi minha em primeiro lugar.

A cerimônia de ontem foi idealizada pela Anajas. De cada filho e filha, recebi um lírio e de cada genro ou nora, um cravo branco.

Sou a mãe – mulher mais feliz do mundo.

Deus os ilumine, abençoe e ampare.

Fernandina e Anthenor, 74 anos de casamento

1935 – 7 de outubro – 2009

Estamos completando 74 anos de amor e muita paz.

Catorze filhos. O amor é sempre o mesmo. A idade não importa.

O que importa é a família… filhos, netos, bisnetos e amigos aos montes.

Juraci – Marinete. Os filhos do coração.

E tem a Vera que está conosco há 20 anos.

Até quando, meu Deus?

Que haja Paz e muitas Bênçãos.

Deus nos abençoe.

O CASAMENTO

Viviam juntos há 20 anos.

O Sr. Antonio era um homem trabalhador, carpinteiro de mão cheia, meio letrado, assinava mal e mal o próprio nome.

A mulher, d. Lucinda, dona de casa e como boa nordestina, lavava, cozinhava e ainda cuidava de oito filhos. Seriam dez, mas dois Deus levou, como dizia ela, como boa católica que era.

Um dia mudou-se para uma casa vizinha uma senhora meio letrada, metida a conselheira.

Tomou-se de amizade pela Lucinda e um belo dia no meio de uma conversa perguntou:

– Lucinda, quantos filhos você tem?

– Tenho oito. Tive dez, mas dois morreram ainda novinho.

– Que pena. Mas que mal lhe pergunte, você é casada com o Sr. Antonio?

– Não. Nós vive junto faz 20 anos.

– Meu Deus! Mas vocês precisam se casar!

– Pra que? Nós vive tão bem assim.

– Mas precisa sim. A benção é muito valiosa. Deus está ali presente, abençoando vocês. Não brinca com essas coisas, Lucinda. O casamento será uma benção para vocês e seus filhos.

– Mas os fio não foro batizados ainda. Você acha que estamo pecando contra Nosso Sinhô?

– Decerto que sim, fala com o “seu” Antonio. Quem sabe ele aceita?

– É sim, vou falá. Não custa, né?

Foi embora a vizinha e ela logo foi falar com o pai dos seus filhos.

Direta no assunto, pois não era de fazer rodeios, falou:

– Tonho, a vizinha nova me falou que a gente vive em pecado, que a gente devia casar.

– Pra que, mulé? A gente já vive junto faz tanto tempo, pra que essa besteira de casamento?

– Ora, Tonho, casamento não é besteira. É coisa de respeito. É de Deus. A gente se casa e batiza os fio.

– Você tem é medo que essa vizinha comece a espiá que a gente é amigado e não casado.

– Será que ela vai espiá isso? Não querdito. E dispois ela parece uma mulé muito séria.

– Tá bom. Faça como quisé. Mas, por favor, não me aparece mais aqui, estou muito ocupado.

Feliz, d. Lucinda foi terminar o almoço, arrumou a cozinha e chamou a vizinha para conversar.

– Então, falou com ele?

– Falei e ele disse que fizesse como quisesse. A vizinha me ajuda?

– Sim, senhora, vou falar com o padre sobre o casamento e os batizados. A data vocês escolhem, depois acertamos tudo.

Foi um reboliço. Fazer roupa para os filhos, para a noiva e obrigou o noivo a fazer um terno. Ele não queria, mas no fim, compreendeu que ficava feio casar com a roupa muito usada que possuía.

Um mês depois, com d. Maria como madrinha de todo mundo, seguiram para a Igreja.

Primeiro foi o batizado dos oito filhos e depois a cerimônia.

D. Lucinda de cor de rosa, toda feliz e o noivo dele terno de brim cor de cinza.

Ajoelharam-se diante do altar e o padre começou.

– Antonio, é de seu gosto casar com Lucinda de Jesus, como manda a Santa Madre Igreja?

O noivo respondeu:

– Oxente seu padre, depois de dez fio, o que o Sr. queria?

Memórias da Vovó Dina – parte 24

Antenor Araken, aos 7 meses

Antenor Araken chegou um ano depois do primeiro filho. Foi uma fase muito difícil. Com 15 dias de nascido o menino adoeceu e eu também. Tive mastite que se transformou em 13 tumores. Praticamente perdi o seio esquerdo. Se tentasse dar de mamar, ele inflamava novamente. O Araken sofria de gastrenterite. Esteve assim durante 3 meses, até que o levamos a Maceió. Quem o curou, abaixo de Deus, foi o Dr. José Baía – que Deus o abençoe.

Durante todo esse drama de doença, meu pai, por ser membro do Integralismo, foi preso, como também meu tio Getúlio. O Anthenor para não acontecer o mesmo ficou refugiado em casa dos nossos amigos e compadres: Carmina e Manuel Lucas.

Tia Ester foi para Maceió e de lá mandava refeição para os dois que estavam na penitenciária. Tio Getúlio só ficou 15 dias preso e meu pai mais um mês. O idiota do Getúlio Vargas além de trair o enganado Plínio Salgado, deu o tal golpe de Estado e como “consolo” para o seu coração patriota, mandou que prendessem os integralistas. Se o Integralismo seria bom ou não para o Brasil, só Deus sabe. O pior foram as injustiças que praticaram. Enfim, tudo acabou, apesar do sofrimento.

Em Rio Largo fomos todos para a casa da minha avó e tias, que tinha também Juraci e tia Bertulina: Sinhá com os quatro filhos eu e os meus dois rebentos – Ariel com 1 ano e meses e Araken com 2 ou 3 meses, doente de fazer dó. Eu com o seio que não podia tocar. Lá consegui fazer um tratamento espiritual – já havia começado com outra pessoa e a moça que recebia um Preto Velho terminou o tratamento. Essa brincadeira levou cerca de 5 meses.

Quando papai e Anthenor voltaram, já havia passado mais de mês desse sufoco. Não foi fácil. Dinheiro pouco, preocupação aos montes.

Sinhá com os filhos voltaram para casa logo que o tio chegou. Desafogou mais, pois eram menos cinco para ocupar espaço, já em si tão pequeno. Eram apenas dois quartos mais ou menos grandes e um pequeno para minha avó. Na sala, não me lembro bem, ficaram Sinhá e as quatro crianças. No primeiro quarto ficaram eu com os dois filhos, mais tia Haydée e tia Ester. Juraci e tia Bertulina não sei onde se agasalhavam. A minha cabeça no ar, mais a doença, mais o dinheiro curto, mais a ausência do meu marido e de meu pai, eram de me fazer perguntar: “até quando, meu Deus?”

Vencemos com lágrimas ou sem elas. Vivíamos sob regime de economia brava. Sem a tia Ester, a responsabilidade da cozinha e da despesa ficou nas minhas costas. A Sinhá não era de muito auxílio, pois os 4 filhos não lhe davam muita trégua. A tia Haydée vivia na máquina, costurando. Eu e tia Bertulina revezávamos no serviço da casa. A pobre mulher saía pela manhã depois do café para lavar toda roupa da casa no Mundaú. Chegava pouco depois do meio dia e cheia de canseira e fome. Guardava o almoço da pobre com todo o carinho que o meu tempo concedia. Fui melhorando aos poucos, com a proteção dos bons espíritos e Deus que nunca nos desamparava. Com os conselhos e orientação do Preto Velho, fui sarando aos poucos.

Voltamos em janeiro para nossa casa e tia Haydée continuou conosco, pois eu sozinha não daria conta do recado. Meu pai voltou ao trabalho e meu marido à sacrificada vida de viajante. Trabalhava em Maceió e vinha todo sábado para Rio Largo de trem ou de carona com o Sr. Gustavo Paiva. Em fevereiro perguntamos à tia se eu poderia passar o Carnaval em Maceió. O seio estava quase curado, mas havia o problema do filho Araken. Tinha uma empregada e ela concordou. Desta forma, domingo de manhã seguimos viagem. Segunda-feira de tarde nos telefonaram pedindo que voltássemos pois a tia teve uma indigestão e não passava bem. Acabou o meu passeio e voltei para a labuta mais cedo do que o previsto.

Em março retornei a Maceió levando o Araken ao Dr. José Baía. Graças a Deus, ele curou o meu filho, que ficou gordo e sadio.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

Memórias da Vovó Dina – parte 23

O meu casamento foi marcado pelas mudanças.

Primeiramente fomos morar em casa de uma senhora que gostava muito de meu marido – d. Sinhá Zau. Ela foi experimentar e ver se conseguia morar com a nora. O filho, Otavio Zau, casara em segundas núpcias e ela, a sogra, não gostava ou não gostou da escolha do filho. Otávio ia montar uma fábrica de guaraná. Não deu certo e d. Sinhá pediu a casa de volta, que apesar de boa – três quartos, sala de jantar, cozinha – faltava uma útil dependência: não tinha banheiro. No fundo das casas passava o bicame ou aqueduto, que fornecia água para a fábrica de tecidos e consequentemente para as casas de toda aquela região que davam os fundos para o bicame. Servia de banheiro de despejo dos urinóis e água para limpeza. Água de beber e cozinhar se comprava e guardava em potes de barro.

Mas voltando à vaca fria, isto é, à desocupação da casa, voltamos de mala e cuia para casa de meus pais, pois apesar da promessa do Dr. Malcher, ele não nos arrumou moradia.

Casamos em outubro e ficamos até começo de janeiro em nossa primeira casa.

Viemos para casa do velho Fernando. Ainda hoje penso como coube toda a nossa tralha naquela casa que era menor que a outra. Logo estava grávida e graças ao bom Deus não tive enjôos. Em março veio a minha tia, que estava muito doente, ficar também em nossa casa. Ficou dormindo na sala com minha avó, pois não havia outro cômodo. Num quarto ficavam meus pais, no outro, eu e Anthenor, no terceiro que era pequeníssimo, ficava meu irmão José Pinto.

Em abril Idalina morreu, deixando minha avó mais do que desolada, desesperada. Apesar de se dizer espírita, não aceitava a morte da filha. Ficou tão magoada que resolveu não usar mais a mediunidade para nada. Nem para curar mau olhado.

Fernando Ariel, o primogênito, com 1 ano de idade, 1937

Em outubro nasceu Fernando Ariel. Criança grande, muito branca, olhos azuis, louro (era meu filho?). A mãe era tão diferente dele que não quis mamar. Não aceitou o seio por mais que tentasse. Foi criado com leite condensado. Era um menino forte e bonito. Quem o vê hoje com aquele barrigão não diz.

Foi a maior alegria da minha mãe a chegada do neto. Só esteve com ele 8 meses. Morreu repentinamente aos 39 anos.

Quando Ariel tinha cerca de 4 meses, nós fomos a Rio Largo. Ao chegarmos, mamãe com o amor e alegria por nos ver, especialmente o neto, pegou-o no colo e correu para mostrá-lo à Sinhá. Nós éramos vizinhos e a maior comunicação era feita por trás das casas conjugadas. Para subir para casa do tio Getúlio, havia uma escada de cimento de uns 5 ou 6 degraus. Ao voltar com a criança, ela perdeu o equilíbrio e caiu lá embaixo no quintal. Tinha uma altura de uns dois ou dois e meio metros. Feriu a cabeça donde saía muito sangue aos jorros. Havia se ferido no alicerce. Quem a tirou de lá foi o marido de Magnólia, irmã de Sinhá que haviam chegado também de Maceió.

Ainda hoje me pergunto como ele, o Santana, conseguiu trazê-la. Pesava uns 80 Kg, a pobre da minha mãe. Ariel sofreu algumas pequenas escoriações. O Anthenor foi correndo chamar o meu pai na fábrica. Ele disse que foi a primeira vez que o viu correr. Enquanto isso, acudíamos minha mãe meio desmaiada, sentada numa cadeira. Molhou com o sangue do corte uma toalha de banho. Quando meu pai chegou, fez o curativo e levou-a para deitar. Isto aconteceu em fevereiro. Pela semana santa foram ela e meu pai ficar conosco uns dias em Maceió.

tia Ester (de óculos), vó Regina (de vestido florido), Fernandina (sentada e em primeiro plano, em dupla exposição) e tia Haydée, sentada à direita.

Em 17 de junho de 37 ela faleceu em consequência de um unheiro preto (espécie de panarício) que lhe apareceu no polegar da mão direita. Foi operada cruamente na quarta-feira, mas a diabetes e a grangrena a levaram às 6 horas da manhã da quinta feira. Aos 39 anos faleceu minha mãe de saudosa memória. Deus a abençoe. Idalina, sua irmã, tinha falecido no ano anterior aos 29 anos. Meu avô Agérico, pai delas, tinha falecido em 35, um mês antes do meu casamento.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)