Penedo da Saudade, Coimbra

De lá fomos ao Penedo da Saudade. Fica na parte mais alta da cidade e de lá se vê o Rio Mondego, que banha Coimbra. De um bem cuidado jardim, ao longo do barranco de um lado e casas residenciais do outro, existem recantos convidando ao namoro e às confidências. Em três pedras de mármore branco estão gravados versos. Consegui copiar de dois. Estávamos com um pouco de pressa pois ainda teríamos que ir à Fátima e Batalha.

O primeiro é uma ode ao amor de D. Pedro por Inês de Castro e é o mais bem feito dos dois poemas:

PENEDO DA SAUDADE

Oh! Foi ali que El Rei Pedro

Suas mágoas em segredo

Veio outrora cantar,

E em troca de amarguras

Que ali sofreu … e doçuras

Quis-lhe – Saudade – chamar.

Mágico nome – Saudade!

Casado com a Liberdade,

Que meigo nome não é!

Oh! Nome tão só de encanto!

Oh! Nome que eu amo tanto!

Que no coração se lê!

Oh! Quem na tristeza imerso,

Se lembra ainda do berço,

Do tempo do seu nascer

No Penedo da Saudade

Contará a imensidade

As mágoas do seu sofrer.

(José Augusto Guedes Teixeira – 1860)

Já o outro é um soneto, meio de pé quebrado, e parece ser do filho do José Augusto. Bem inspirado, mas faltou qualquer coisa que costumam chamar métrica.

PENEDO DA SAUDADE

Há no lindo Penedo da Saudade

Dessa Coimbra de que eu gosto tanto

Uma tristeza quase soledade

Mas que alivia quase o pranto

Canta o Mondego ao fundo, o mesmo cano

Com que ele embala cada mocidade,

Levando ao mar o seu eterno encano,

Banhando a terra de felicidade.

 Salgueiros, choupos, numa e noutra margem,

Vão seguindo os caminhos que eu segui…

O luar, como o sol, doira a paisagem

E relembro nas suas oliveiras

As primeiras saudades que senti

E quero crer também que as derradeiras.

(Fausto Guedes Teixeira – 1930)

Esqueci de me referir a um trecho de discurso de Oliveira Salazar, pronunciado em uma das cerimônias na Sala do Capelo. São lindas as palavras e bem oportunas. Está escrito logo após a escadaria que externa que dá acesso à referida sala. Levo-as como presente do guia.

Estátua de D. Afonso Henriques, em Portugal dos Pequenitos

Portugal dos Pequenitos – O país em miniatura, transformado em recreação e educação para crianças onde funciona a creche Santa Isabel. Fundação do Dr. Bissaya Barreto. Rico filantropo, é médico em Coimbra. Solteiro e rico, dedicou toda a sua fortuna e carinho na sua Fundação. Ainda vive.

Quinta dos Milagres – Onde foi assassinada Inês de Castro – esse não vimos, nem o convento – o antigo Convento de Santa Clara. Abandonado por estar afundando. Ainda lá se encontra, escuro, feio e abandonado. Foi feito outro a cavaleiro da cidade e em sua capela estão os restos mortais de Santa Isabel.

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Coimbra, Portugal

Demos uma olhada em Coimbra e agradou; ruas estreitas e tortuosas, lojas pequenas, comércio incerto, mas não existe empurra, empurra. A cidade é mais velha que Inês de Castro, pois a infeliz Rainha foi assassinada aqui. Tem a Travessa do Gato, acho que ali se escondem gatos para fugirem dos cachorros – mora gente lá também. No Convento de Santa Clara está o túmulo de Santa Isabel, a Rainha que transformou os pães em flores para fugir da ira do marido. Tem a sua história a velha Coimbra, como todas as coisas velhas da macróbia Europa.

Estamos de volta para casa e depois de 50 dias tomando chá de carro por esta Europa sem fim. Não se pode dizer que a conhecemos nem a vimos, demos apenas uma ligeira olhada, como quem vai a um cinema para assistir um filme que nos agrada e depois de duas horas de projeção volta-se para casa com a sensação de que se fez um belo passeio. Não se pode ver tudo, é verdade, mas demorando um pouco mais nas cidades, mais dignas de nota, seríamos capazes de, mais descansadamente, visitar e anotar as coisas mais interessantes. Ainda assim demandaria tempo e naturalmente… dinheiro.

A trupe com a Fátima (pelo menos suspeito eu, pelo andar da carruagem ou ordem dos slides, que essa seja a Fátima)

Amanhã iremos ver Fátima e teríamos gostado também de ver Lourdes, mas infelizmente o tempo não deu. Essas visitas faremos como quem as carreira. Museus, igrejas, castelos e palácio, catedrais, parques e monumentos, ruas e praças – dariam matéria para três cadernos desses se pudesse, com eles nas mãos, tomar nota diretamente do local.

Sei que não tenho o direito de reclamar, nem o estou fazendo, recebi mais do que esperava, mas se algum dia ainda fizer tal viagem, o que não espero, terei o máximo prazer de fazer cada lugar por sua vez. Esta correria cansa e aproveita-se pouco.

Estátua de D. Joao III na Universidade de Coimbra.

Na hora da saída de Coimbra, o Sr. Diamantino fez por bem em nos levar a fazer uma visita à primeira Universidade de Coimbra – famosíssima. Estivemos primeiro na biblioteca; é de admirar que já naquela época se fizesse coisas pensando na educação no futuro. A delicadeza do trabalho de talhar é de embasbacar. A primeira sala é de história, literatura e geografia; em madeira verde e os desenhos em talha, entremeados de dourado tornam o austero ambiente alegre e brilhante.

A segunda sala é em vermelho e guarda os volumes de medicina, filosofia e ciência. A terceira sala, imitando a primeira na cor, tem em suas prateleiras história, literatura e geografia. Todas tem trabalho de talha entremeados de dourado e as grandes mesas que habitam em cada sala correspondem à cor do ambiente. Os desenhos são diferentes em cada uma delas. Foi fundada por D. João V, em 1724. Encimando cada porta tem o emblema dos ensinos correspondentes na Universidade, ou sejam: Medicina, Matemática, Direito, teologia, Retórica e Direito Civil. No fundo da última sala, em frente à porta e abaixo do último emblema, está o emblema do direito canônico e abaixo do mesmo a pintura do Rei D. João V.

O livro mais antigo data do século XII e eles têm de várias épocas, em diferentes línguas e vários manuscritos.

São 40.000 volumes a riqueza da biblioteca e os tetos, de incrível beleza, foram pintados por Antônio Simões Ribeiro e Nunes Vicente, portugueses.

As mesas são em pau rosa, ébano e mogno.

Subimos e depois de uma conversa do Sr. Diamantino com o simpático guarda, ele nos mostrou a Sala do Capelo. É muito bonita também, com suas pinturas. Foi sala do trono, pois antes de ser Universidade foi residência real. Foi D. Diniz quem fundou a Universidade. A Sala do Capelo é onde são formados os universitários e onde os homens considerados dignos são condecorados. Nós a vimos de um dos balcões onde ficam as damas convidadas especialmente para as cerimônias. Deve ser altamente emocionante ver um ente seu ser condecorado ali. Tem a orquestra que toca o hino de cada nacionalidade do homem chamado para receber o diploma ou a condecoração. A cerimônia da guarda com as lanças longas e as curtas (que não sei o nome) e o mestre de cerimônias com a sua comprida bengala. O negócio deve ser lindo!

25/Junho/71 – Espanha – Portugal

Saída de Salamanca às 8h30 – sexta-feira. Dormiremos em Coimbra – Portugal. Fronteira com Portugal – cidade de Fuentes Onôro, é bonitinha, cheia de roseiras floridas.

Cidade Vilar Formoso – Portugal, bem arrumadinha, jeitosa, somente aduaneira e local do restaurante onde tem uma filial do Banco Borges e Irmão. As residências são feias pra burro, enquanto que no lado espanhol são verdadeiros postais.

Compramos cerejas em Guarda, no vale do Mondego. Deliciosas. O carro parou e aproximaram as mulheres com morangos e cerejas, eram apenas três, mas pareciam dez, pelo barulho que fizeram e, para nos livrarmos delas, deu o que fazer. Pelo gosto do Waldemar teria comprado todas as frutas, tem pena de todo mundo, o danado, e uma delas era velhinha, parecida com Dona Joaninha.

Estamos almoçando em Gouveia, na Estalagem D. José. O local é bastante agradável e para lembrar o Brasil tem dois pés de café. Mesmo que queiram eles nunca darão nem flores, pois estão plantados em vasos. A dona disse que tem dois irmãos brasileiros: um nascido em São Paulo e outro no Rio de Janeiro. Diz o Sr. Diamantino que português mentiroso é pior que jocão. Será??

De Guarda para cá (Coimbra, onde chegamos às 16h30) a topografia mudou sensivelmente. É delicioso ver pinheiros, eucaliptos e oliveiras se confundirem com samambaias, roseiras silvestres, rios, córregos, serras, pedras, aldeias, plantações agrícolas… é de encher o coração com saudades da nossa terra, tanto se parecem, menos as roseiras, que aqui são em profusão. As referidas flores sobem de monte acima enfeitando as pedras e subindo pelas árvores, formando muros em vários tons de rosa. Dá vontade de parar o carro e enchê-lo de todas as que estão ao nosso alcance. Na Espanha, eram rosas brancas, aqui são cor de rosa. Ninguém planta, nascem ao léu, enfeitando a primavera. Descobrimos um enorme pé de amoras e a Lourdes desejou comer, quis subir mas não teve jeito, era muito alto. Eu bati um galho seco e caíram algumas que ela lavou num chafariz. Tudo isso na beira da estrada, perto do rio que depois se transforma no Mondego, que banha Coimbra.

Os nomes das aldeias portuguesas são a coisa mais pitoresca que existe: não posso saber todas, mas vai algumas com o auxílio do Sr. Diamantino: Leomil… (não escreveu mais nada neste trecho)

Passamos por três serras: a da Estrela, da Lousã e a do Caramunho. Até Guarda, ou melhor, desde a Espanha, em grande parte do caminho o terreno é pedregosos demais. De Guarda para cá melhorou, embelezando a paisagem.

Fronteira da Espanha com Portugal: “encontramos um rebanho de carneiros, tinha mais de mil, esperamos que o dono encontrasse o local conveniente para tirá-los da estrada, o que demorou uns 20 minutos”.

Antes da fronteira (Espanha) encontramos um rebanho de carneiros, tinha mais de mil, esperamos que o dono encontrasse o local conveniente para tirá-los da estrada, o que demorou uns 20 minutos. Quem vinha ao nosso encontro podia passar, mas nós que íamos na mesma direção, não dava. Era carneiro que não acabava mais, tinham três pessoas tocando o rebanho, um cachorro e um burro.

Comentário: vou abrir aqui uma vaga para um comentário que esqueci de fazer e que agora, relendo o caderno, me lembrei. Falei atrás que Paris é maltratada com relação à sua conservação. Existe ali uma exceção: o Rio Sena. Ver o Tamisa (Londres) e o Sena é ver o universo das duas capitais. O Sena é limpo, embelezado por avenidas marginais, clubes aproveitando as suas águas para navegar, ilhotas gramadas, tudo lindo que se vê do alto a Torre Eiffel. O Tamisa nem dragado é. Sujo e feio é a nota triste de Londres; se ele fosse tratado como o Sena, Paris se envergonharia ainda mais. Ainda bem que se salva o rio em Paris.