11/Junho/71 – Parque Tívoli, Copenhagem, Dinamarca

Ontem à tarde fomos ao Parque Tívoli (parque de diversões) e gostamos tanto que voltamos à noite. Lourdes e o Waldemar foram fazer o “tour” e, como havia strip-tease, eu não quis ir. O Antenor ficou maluco para ver o Parque à noite e lá fomos os dois sem saber isca de inglês ou alemão ou dinamarquês. De noite é simplesmente deslumbrante!!!!! A iluminação em cores, arrumada artisticamente em fontes, restaurantes, árvores, lanchonetes, brinquedos de todas as espécies, jardins, avenidas.. vocês não podem imaginar o que é aquilo lá dentro. Os principais restaurantes são três: um pagode chinês, cuja iluminação principal é o vermelho, outro imitando estilo turco, onde a iluminação é variando para o verde e azul e o Bellé Terrasse, de inspiração francesa, todo em branco. Esse Bellé Terrasse tem teatro de variedades embaixo e o restaurante é no andar superior, comida francesa e italiana. Seu pai queria ir nesse, não quis ir, é muito requintado.

Parque Tívoli à noite (slide comprados durante a viagem)

As cervejarias, sorveteria, jogos e fontes são uma diversão para todo o povo que ali está se divertindo sadiamente. Os lagos, com flores, os pequenos bosques, nem sei dizer como tudo é belo e atraente. De tarde estava em um dos palcos uma orquestra com uma cantora, com música de mocidade e, à noite, no mesmo palco, músicas meio clássicas. Em outro palco vários números de acrobacias, verdadeiros milagres de equilíbrio, acompanhados de ótima orquestra.

Em umas avenidas a iluminação era em arco, em outras, lanternas chinesas dão um brilho avermelhado. As cores se confundem numa orgia adorável. A rapaziada não se cansa de correr, tomar sorvetes, refrigerantes, jogar, cantar, nem beijar, nem abraçar, montar nos inúmeros brinquedos como: trivoli, roda gigantes, carros antigos, carros modernos que se chocam mutuamente, barcos guiados pela água, montanha russa (donde se ouve gritos dos seus ocupantes), carros vikings numa velocidade incrível. Não sei como quem está lá dentro não é cuspido fora, de tão depressa que vai; é o paraíso das crianças, o céu dos adolescentes e a alegria dos adultos.

Jantamos, ou melhor, tomamos um gostoso lanche de salmão, pão, maionese e alface com meia garrafa de vinho. O cardápio era escrito em inglês, alemão e dinamarquês.

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10/Junho/71

Estamos esperando Lourdes e Waldemar para ver se alcançamos o ônibus para darmos um giro na cidade e conhecer os pontos mais interessantes. Um vento frio envolve toda a cidade dando-nos a ideia de que não saímos de São Paulo. Estamos no ônibus “Tour”, partindo da Praça e vai começar a peregrinação.

Tivoli, parque de atrações em Copenhagem

Alcançamos o Tívoli, uma espécie de parque de diversões. É permanente e é uma das maiores atrações das noites desta agradável cidade. Depois veio a Estação Ferroviária e o Museu de exposição permanente. Tudo isso são edifícios enormes em cor escura e esse Museu é exteriormente muito feio.

Tivoli, parque de atrações em Copenhagem

Palácio do Bispo – bonito e no jardim tem uma maquete da cidade que ele fundou: Copenhagen. Edifício enorme é o antigo mercado de arenques, onde havia negócios com todo o mundo e depois mercado de carnes.

O Museu foi doado por uma cervejaria (não sei qual) ao país. Na entrada tem a estátua do famoso Rodin “O pensador”, fora outras que circundam todo o edifício.

Museu Nacional – antigo mercado

Tribunal – construído há 1.200 anos

O Rei Cristiano IV foi o segundo fundador da cidade, uma espécie de sultão dinamarquês, pelo que se sabe, teve cinquenta filhos; dizem aqui que ele foi o pai da Europa, pois vários filhos casaram nas cortes europeias. Construiu para a sua favorita um lindo parque, que ainda hoje embeleza a cidade, um castelo e uma fortaleza. Dizem também que existem poucas famílias na Dinamarca que não tenham por avô ou bisavô o Rei Cristiano IV. Não foi prolixo só em mulheres e filhos, foi também um grande benfeitor desta cidade que, como dizem os filhos dela, foi seu segundo fundador.

Construiu castelos, lagos (o Tívoli é artificial), museus e um mundo de coisas que honram ao seu antigo Rei. Existe aqui o Tívoli Parque e Lago Tívoli. Os lagos naturais são em três com água doce. Tem um fato interessante, narrado com crítica pelo guia: a Embaixada dos Estados Unidos e União Soviética são divididas pelo cemitério.

Igreja inglesa (anglicana) num belo edifício e em um gramado bem cuidado o busto de Churchill. Ao lado desta igreja existe uma fonte enorme que é um monumento: ela marca o local da fundação da cidade, se chama Fonte Gefion.

Estátua da Pequena Sereia: “Ela tem uma expressão triste de quem perdeu o amor e foi obrigada a ir para muito longe dele”.

No Parque, construído por Cristiano IV, existe ainda de notável um monumento aos marinheiros mortos na I Guerra Mundial e ao soldado, bem mais moderno (atual), a Associação do Ya (Club ou Real). Tem ainda, na beira do mar que bordeia o Parque, a estátua da Sereia. Ela tem uma expressão triste de quem perdeu o amor e foi obrigada a ir para muito longe dele.

Lá ao longe se vê uma ilhota com uma fortaleza. Dista de Suécia cerca de 3 km.

Bairro Porto Novo – construído por Cristiano IV, tem barcos mais rápidos para serem usados nos canais.

Existe uma estátua do fundador de Copenhagen, Bispo Absalon, muito bonita e muito coberta de excremento dos pombos.

Academia e teatro reais no mesmo quarteirão. Por fim, dos monumentos históricos que consegui registrar, existe a residência dos Reis, construída por Frederico V, Igreja, Palácio Real, palácio onde mora sua filha e outro onde funcionam para recepções e hospedagens de estrangeiros importantes. O Rei atual, Frederico IX, tem 73 anos, é tetraneto do idealizador das residências.

Lavei um lenço grande de cretone (estou resfriada) às 6h manhã e às 8h estava enxuto, dentro do banheiro!! Diz o Antenor que até os velhos ficam enxutos.

 

Copenhagem

São 150km até Copenhagen. Estamos procurando um restaurante para almoçar, são quase 13h.

O restaurante é um encanto, um capricho de dona de casa, nem todas, pois infelizmente não tive tempo nem recursos para o capricho e agora já passou da época para os interesses materiais, embora talvez se pense de outra maneira.

Quem serve no restaurante é uma senhora falando inglês, para o entendimento do Waldemar e do Sr. Diamantino. Cada janela tem uma cortina vaporosa com renda e entre elas um complemento em fazenda estampada, de muito bom gosto – Motel Guldborg.

Hotel 3 Falcões – Copenhagen-Dinamarca

Nunca em toda a minha vida sonhei com esta viagem, muito menos estar hoje em Copenhagen. Só desejo, sinceramente, que um dia vocês possam fazê-la….

A cidade atraí pelas suas ruas amplas, avenidas imensas, povo simpático e educado. Os nossos motoristas de táxi deveriam ter umas aulas de educação para imitar um pouco os europeus. Até agora não encontramos nenhum mal educado, caladão sim. Mesmo os italianos, que neste ponto são bem irmãos nossos, têm um pouco mais de cortesia. Hoje pegamos um táxi (taxa – como fala o dinamarquês) e nos deparamos com um senhor que nos mostrou a cidade com a maior deferência. Fala pouco o inglês, mas deu para o Waldemar entender. Mostrou-nos os pontos mais interessantes da cidade e amanhã iremos de ônibus para ver melhor. Hoje à noite, seu pai e o Waldemar vão ver as loiras nuas de Copenhagen. O negócio é tão sério que o Waldemar pediu à Lourdes para não ir. Sim, porque ela indo ou não, sinto muito mas não irei. O mundo noturno já tem espectadores demais para suas pornografias, não precisa ser aumentado pela minha “persona grata”.

Ópera de Copenhagem

Irei ao Moulin Rouge, porque dizem ser arte verdadeira, não existindo simplesmente exposição de sexo. O Waldemar acha a coisa mais natural do mundo e não acha que eu tenha razão em não querer ver. Nós vimos as coisas por outros olhos. O nu, no meu ignorante julgamento, é para ser visto como beleza, se assim se consegue compreender.

Mas fazer do nu meio de vida para gozo sexual, exposição de sexo, como quem vende mercadoria, não aceito esta teoria. O sexo é coisa divina, não é disfarce de bacanal nem de prostituição. Enfim, cada um enterra seu par como pode.. e isto tudo é visto a peso de ouro, custa uma nota ver esta porcariada toda.

Waldemar e Antenor terminaram não indo ao cabaré….

Vimos uma rua tipo Barão de Itapetininga, só que bem mais larga e tem até mesas de restaurante na rua. É comercial também, tem bonitas lojas e coisas lindas e diferentes em exposição.

Zurich, Hamburgo e Copenhagen têm alguma semelhança por causa das águas que banham. Zurich tem um lago enorme, bonito toda vida. Hamburgo também tem lago e é porto fluvial, pois o Rio Elbe lhe serve para isto. Como disse atrás, não deu para ver direito, apesar do nosso hotel ficar pertinho do lago, só da janela pudemos ver qualquer coisa. Às 21 horas ainda era dia, mais por isso deu para apreciarmos. Os dias aqui ficam cada vez mais longos, pois às 3 da manhã já está claro. Não sei as horas em que começa a amanhecer.

Copenhagen tem canais cortando vários pontos da cidade e o mar que lhe dá um grande porto livre. Somente em Zurich tivemos realmente água doce no banheiro, o resto é salobra demais. Em Madri foi um pouco melhor, mas mesmo assim talha sabão que é uma beleza.

Dinamarca

Saímos em direção da Dinamarca.

Temos que atravessar o mar na altura de Puttgarden. De Hamburgo até aqui a paisagem é deslumbrante aos nosso olhos de brasileiros, que não conhecemos essa ordenação nas coisas bem feitas dos europeus. Isto o sulista brasileiro conhece em parte.

Hamburgo é uma linda e atraente cidade. Ontem demos uma volta de táxi e apreciamos a beleza da iluminação que ajuda a ver melhor as bem arrumadas vitrines. Só nos deu vontade de saltar e andar pelas ruas comerciais comprando com os olhos aquilo que desejaríamos possuir; mas o sono não deu e ainda tínhamos que fazer uma arrumação nas malas para diminuir a bagagem e, consequentemente, o peso delas.

A nossa bagagem aumenta a olhos vistos e o carro está sentindo o resultado disso. Não sei como iremos fazer, pois temos ainda muitas compras a fazer em Paris e Londres.

O que mais gosto dessas casas, nas zonas agrícolas, é a uniformidade até nas cores. Não existem casas caiadas ou pintadas, são de tijolo cozido. E tem mais uma coisa, não existem nas cidades grandes os tais arranha-céus. Mesmo em parques residenciais o máximo de altura são quatro andares. Todos têm sacadas e flores embelezando tudo com uma graça de donzela vaidosa.

Estamos entrando no navio com carro e tudo (a bagagem que diminuímos é para tirar parte do peso nessa viagem). Deixamos o resto da matulagem no hotel, pois retornaremos depois de visitarmos Copenhagen e Malmo.

Como escrevi acima, o navio engoliu um monte de automóveis e até um trem de passageiros. Essa parte do Báltico é mansa como um rio. Diz seu pai, com a confirmação do Sr. Diamantino, ser um braço de mar que separa a Alemanha da Dinamarca.

É imenso e calmo, mas as águas não têm beleza pois o céu vive encoberto. O sol não aparece em Hamburgo e quem o quer ver vai passear na Dinamarca. O mar aqui não tem a agonia que encontramos em Nápoles. O navio vai devagar, seguro e firme ao seu destino, que seja sempre assim pelos tempos afora…

Dentro do mesmo se encontra de tudo: lojas, restaurantes, gente como se estivesse nas ruas, comprando e apreciando as vitrines, comendo sentados nas mesas junto às nossas e até câmbio para troca de dinheiro. O navio aportou depois de uma hora de agradabilíssimo trajeto.