O Natal para Fernandina e Anthenor

Uma pequena homenagem a meus avós nesse Natal, o primeiro sem o meu avô.

Anúncios

Memórias da Vovó Dina – Sanatório Hugo Werneck

Saí de casa para fazer umas compras e encontrei o carteiro. Nosso conhecido, perguntei ao simpático rapaz se não havia algo para mim. Ele disse que sim e entregou-me uma carta que não era do meu marido. Remetente: Guiomar Berenger. Não sabia quem era. E ali mesmo, abri a carta. Continuei andando, lendo a carta e chorando. Não sei como não tropecei. A carta dizia:

“Conversei com Dr. Orlando, médico de Anthenor, para saber realmente o estado dele”. (Guiomar estava no sanatório acompanhando o marido e, por sinal, eram vizinhos de quarto). A resposta do médico foi esta: – ‘D. Guiomar, a doença maior do Anthenor é a falta enorme que ele sente da família’.”

Cheguei no escritório onde trabalhava meu pai e entreguei a carta para que ele lesse. Leu-a com bastante atenção e voltando-se para mim, disse:

– Se é assim, prepare-se para viajar.

Foi uma revolução. Nunca tinha viajado de avião, mas se a gente for pensar naquilo que precisa fazer pela primeira vez, o medo supera a necessidade, não é mesmo?

Tive que fazer compras em roupa, costurar, planejar, etc, etc, etc. Não lembro quanto tempo levei até tudo estar pronto. O velho Fernando foi quem providenciou tudo.

Meus filhos ficaram com tia Haydée e tia Ester.

documento de Anthenor

Não participei ao meu marido que iria ficar com ele, quanto tempo, meu Deus?

O avião teria que pousar no Rio. Não havia vôo direto para Belo Horizonte. Iria para casa do Saulo Costa, um colega do Banco do Brasil que foi requisitado para receber-me no aeroporto. Ninguém me conhecia. Deve ter havido correspondência entre meu pai e Anthenor. Só sei que foi tudo facilitado para a “donzela” viajar. Desci no Rio e foi aí que me lembrei que não havia trazido nenhum endereço ou roteiro para guiar-me. Papai havia me dito que alguém ia esperar-me, mas quem?

Fiquei na sala de saída dos passageiros, em pé com os mesmos, indo para embarcarem e eu como se fosse, como ia realmente entrar.

De repente ouvi alguém me chamar, era o Saulo com a mulher. O alívio que senti foi enorme. Até hoje os abençôo por isso.

No dia seguinte voltei ao avião. Não sei se era o mesmo. E de lá para Belo Horizonte, não enjoei (na véspera só não coloquei as tripas para fora, porque elas não ficam no estômago).

Baixou o avião, desceu todo mundo e a marinheira de primeira viagem, não se lembrou de ir também de ônibus como os outros. Esperando o quê? Quando alguém da sala de espera perguntou-me se queria um táxi.

Lá fui eu até a capital de mala e cuia ao encontro do meu bem querer.

O carro parou na Agência e se aproximou um homem todo paramentado, só não de chapéu. Uma pessoa completamente estranha para mim. O meu marido estava gordo, quase careca e de bigode! Só o reconheci quando deu o maior sorriso de felicidade!

No mesmo táxi fomos para o sanatório. Quando tempo levamos, não me perguntem. Estávamos tão enlevados que parecia que o tempo não existia.

A vida no Sanatório era uma rotina só. Os visitantes, quero dizer, os acompanhantes iam para o refeitório. Era um salão enorme cheio de mesas para quatro pessoas. Sentávamos nós três em uma mesa: Guiomar, Zilá e eu. Almoço e jantar a mesma coisa. Muitos internos iam para o refeitório. O Anthenor não. Ainda estava de repouso absoluto. O repouso era tão grande que fiquei logo grávida nos primeiros encontros. Não posso lhes dizer o quanto fiquei envergonhada com o sucedido. Fui até ao médico para ver se era engano. Quis enganar a mim mesma.

Na hora do repouso, das 3 às 4 da tarde, tínhamos que fazer silêncio. Muitos iam para o salão destinado para isso. Outros iam para passear. Não sei, nunca perguntei aonde iam.

Lá conheci Marinho, Edgar Falcão, Margarida e sua irmã Madalena ou Lena, d. Anita e a filha doente Nazaré, os irmãos gêmeos Bruno e Breno, Valdir Pires e mais outros que me falha a memória.

Esses dois irmãos, a Irmã, que era responsável por aquele andar e pela tranquilidade dos doentes, colocou-os no mesmo quarto. Pra que? Um dia os dois se engalfinharam e se ela não chega para separá-los, o negócio teria sido bem pior. Não se soube a razão da briga. A Irmã colocou cada um em um quarto, para haver paz e harmonia.

O tratamento do meu querido não estava tendo a melhora que o médico esperava. Então o resultado seria a toracoplastia*, a operação mais brutal que se possa imaginar. E no dia dos reis, 6 de janeiro de 1946, o Anthenor operou.

Os nossos primos que moravam em Belo Horizonte, a Chiquinha e o marido que trabalhavam no mercado com frutas, forneciam às mãos cheias, abacaxis, mangas, goiabas, maracujás, laranjas e tudo que a amizade deles ditasse para nos favorecer.

E transformavam tudo isso em sucos para alegria do meu marido.

O médico, dr. Orlando, disse que nunca um doente ali havia tido uma tão boa recuperação. Eu deixava muito suco para ele tomar na madrugada.

Uma noite eu dormi demais e quem deu o suco foi o Sr. Wenceslau, o enfermeiro mais dedicado que um doente pode ter. Um alemão alto, mais para gordo, simpático como ele só. Servia aos doentes de todo o sanatório.

Em fevereiro voltei para Maceió. Não podia demorar mais. Não tinha como parir lá. Estive 7 meses em Belo Horizonte. Em maio, no dia 2, nascia Flavio Alberoni. Em setembro voltava curado o nosso querido Anthenor.

Fomos para União, devido o clima ameno de lá. Então mais uma gravidez. Voltamos em janeiro e como o Anthenor não suportava o clima muito quente, fomos para Ouro Fino em Minas Gerais.

*toracoplastia: Ressecção parcial ou total de várias costelas, a fim de provocar o colapso do pulmão por retracção da parede torácica.

Chegada da Anajas

Quando foi chegando o dia de dar à luz a Fernanda Anajas, pedi à minha querida madrasta e a meu pai se poderiam ficar com o Flavio Alberoni, que só tinha um ano, enquanto eu estivesse na maternidade e de repouso, que seria mais ou menos um mês.

Imaginei que seria muito trabalho minhas tias ficarem com 9 crianças e mais de quebra uma recém nascida com uma mãe meio doente, quando voltasse para casa. Além disso, o menino estava começando a andar.

A tia Haydée trabalhava na máquina, a tia Ester era a única na cozinha e no movimento da casa. Era muito trabalho e eu não poderia ajudar muito.

Eles compraram até roupa para o meu filho. Ele não parecia um neto e sim um filho muito querido.

Quando o trouxeram de volta, um mês depois, o desagrado da tia Haydée foi muito grande.

Eu, no entanto, fiquei muito feliz e até hoje agradeço a eles o bem que nos fizeram.

ARONI – a filha

Anthenor ia ao casamento do Juraci e quando estava se aprontando para viajar, perguntou-me: – O que você acha de trazer uma filha da Sebastiana (irmã dele)?. Respondi: – Meu querido, quem criou 13, cria 14.

Sem mais conversa, fiquei aguardando.

Quando voltou trazia pela mão a menina Aroni.

Magrinha, triste, afinal de contas, não nos conhecia. A expectativa devia maltratar o coraçãozinho.

A menina foi uma revelação. Tornou-se mais uma filha nossa e uma irmã para os primos. Não fazemos diferença entre ela e eles.

Viemos de Itajubá para São Paulo e Aroni ficou em casa da Amelinha, mãe da Yedda, para cuidar dos dentes.

Pouco depois veio embora para nossa casa, onde viveu até casar com o nosso querido Raphael, o vizinho da frente.

É feliz, nós sabemos. Tem dois filhos: Rafael e Simone e duas netas, filhas da Simone: Giovana e Gabriela.

Uma ocasião, ela me disse: – Tia, por que não me mandaram buscar mais cedo?

O interessante é que Anthenor tinha ido com o propósito de trazer a Benicia, filha mais velha, mas esta não quis vir e assim, ele trouxe a nossa filha Aroni, que renasceu na minha cunhada Sebastiana, para nossa felicidade e de toda a família.

laço de fita

Fernandina e seus filhos Ariel, Percival, Regina, Failde e Araken - anos 40, Maceió.

para Letícia

em pé: Regina, Ariel, Araken e Percival (fazendo careta); sentados: Failde, Alberoni (no colo de Anthenor), Anajas (nos braços de Fernandina) e Rodrigo

Era outubro de 1948 e estavam todos a caminho do estúdio fotográfico para tirar o retrato da família. De última hora, foi decidido que a tia Ester e tia Haydée iriam junto, o que obrigou os irmãos Ariel, Araken e Percival a fazerem o trajeto até o estúdio a pé. Irritados, no caminho combinaram fazer careta para as fotografias em represália. Porém, o registro denuncia que apenas o tio Percival foi até o fim com a brincadeira.

Memórias da Vovó Dina – parte 33

Siomara

O médico havia recomendado só ficar grávida após 2 anos de cirurgia. Com 1 ano e alguns meses depois nascia Siomara. Por isso foi cesárea. O interessante é que Ester, Agnaldo e Arnoldo foram partos normais! Dá para acreditar?! E assim se confirmou a profecia da parteira D. Evangelina Botelho, quando eu tive a menina morta: – Quando você tiver o décimo filho, vai ter problema.

Acertou na mosca.

O melhor ou o pior de tudo é que quando tive a Haydée, a minha tia, que era quem me assistia nessas horas, me disse:

– Se você tiver outro filho, não me chame.

Chamei então, Adalzinda. Foi ela quem me socorreu. Estava certa que a criança chegaria em fins de maio, mas criança não diz quando nasce, e ela ficou conosco cerca de 2 meses. Abençoada seja, pelo apoio que nos deu.

A tia não gostou de ter sido substituída. Não se lembrava do que havia me dito. Ela devia estar muito cansada. Realmente, ela e a tia Ester trabalhavam muito. Na casa em Maceió, ainda tinha vovó Januária, tia Bertulina e Jurací.

Irmãos e amigos reunidos: aniversá‡rio de 2 anos da Siomara (1954)

A tia Haydée era costureira e tinha uma grande clientela. Caprichosa como ela só, não admitia um erro na costura.

Ester, aos 7 anos (São Paulo)

Sei disso porque aprendi a costurar com ela. Failde e a irmã Floristela não suportaram a perfeição da tia. Desmanchar costura não era com elas. A aprendizagem aconteceu em Rio Largo.

Itajubá foi a nossa vitória, tanto no trabalho do Anthenor, como na vida de um modo geral. Bons colégios, boas vizinhanças, amigos simples e bons. Gente simples e cordata.

Em Ouro Fino ficamos 2 anos e 9 meses. Em Itajubá ficamos 9 anos e 9 meses. Não sei por que os nove meses, mas a verdade é que aconteceu tudo isso, até virmos para São Paulo.

Agnaldo e Arnoldo

O resto vocês conhecem de sobra.

Fomos felizes ontem e depois. Havia os tropeços que muitas vezes não podiam ser evitados. Vencemos com o amor multiplicado pela família que é o nosso verdadeiro tesouro.

Ele, o nosso Anthenor partiu para as plagas do infinito, mas venceu galhardamente a vida afanosa, escolhida pelo amor imenso que tinha por nós.

Deus na sua infinita bondade nos deu por acréscimo, o que mais precisávamos: Paz, Amor e União.

(fim das postagens da série Minha Vida)