Memórias da Vovó Dina – Sanatório Hugo Werneck

Saí de casa para fazer umas compras e encontrei o carteiro. Nosso conhecido, perguntei ao simpático rapaz se não havia algo para mim. Ele disse que sim e entregou-me uma carta que não era do meu marido. Remetente: Guiomar Berenger. Não sabia quem era. E ali mesmo, abri a carta. Continuei andando, lendo a carta e chorando. Não sei como não tropecei. A carta dizia:

“Conversei com Dr. Orlando, médico de Anthenor, para saber realmente o estado dele”. (Guiomar estava no sanatório acompanhando o marido e, por sinal, eram vizinhos de quarto). A resposta do médico foi esta: – ‘D. Guiomar, a doença maior do Anthenor é a falta enorme que ele sente da família’.”

Cheguei no escritório onde trabalhava meu pai e entreguei a carta para que ele lesse. Leu-a com bastante atenção e voltando-se para mim, disse:

– Se é assim, prepare-se para viajar.

Foi uma revolução. Nunca tinha viajado de avião, mas se a gente for pensar naquilo que precisa fazer pela primeira vez, o medo supera a necessidade, não é mesmo?

Tive que fazer compras em roupa, costurar, planejar, etc, etc, etc. Não lembro quanto tempo levei até tudo estar pronto. O velho Fernando foi quem providenciou tudo.

Meus filhos ficaram com tia Haydée e tia Ester.

documento de Anthenor

Não participei ao meu marido que iria ficar com ele, quanto tempo, meu Deus?

O avião teria que pousar no Rio. Não havia vôo direto para Belo Horizonte. Iria para casa do Saulo Costa, um colega do Banco do Brasil que foi requisitado para receber-me no aeroporto. Ninguém me conhecia. Deve ter havido correspondência entre meu pai e Anthenor. Só sei que foi tudo facilitado para a “donzela” viajar. Desci no Rio e foi aí que me lembrei que não havia trazido nenhum endereço ou roteiro para guiar-me. Papai havia me dito que alguém ia esperar-me, mas quem?

Fiquei na sala de saída dos passageiros, em pé com os mesmos, indo para embarcarem e eu como se fosse, como ia realmente entrar.

De repente ouvi alguém me chamar, era o Saulo com a mulher. O alívio que senti foi enorme. Até hoje os abençôo por isso.

No dia seguinte voltei ao avião. Não sei se era o mesmo. E de lá para Belo Horizonte, não enjoei (na véspera só não coloquei as tripas para fora, porque elas não ficam no estômago).

Baixou o avião, desceu todo mundo e a marinheira de primeira viagem, não se lembrou de ir também de ônibus como os outros. Esperando o quê? Quando alguém da sala de espera perguntou-me se queria um táxi.

Lá fui eu até a capital de mala e cuia ao encontro do meu bem querer.

O carro parou na Agência e se aproximou um homem todo paramentado, só não de chapéu. Uma pessoa completamente estranha para mim. O meu marido estava gordo, quase careca e de bigode! Só o reconheci quando deu o maior sorriso de felicidade!

No mesmo táxi fomos para o sanatório. Quando tempo levamos, não me perguntem. Estávamos tão enlevados que parecia que o tempo não existia.

A vida no Sanatório era uma rotina só. Os visitantes, quero dizer, os acompanhantes iam para o refeitório. Era um salão enorme cheio de mesas para quatro pessoas. Sentávamos nós três em uma mesa: Guiomar, Zilá e eu. Almoço e jantar a mesma coisa. Muitos internos iam para o refeitório. O Anthenor não. Ainda estava de repouso absoluto. O repouso era tão grande que fiquei logo grávida nos primeiros encontros. Não posso lhes dizer o quanto fiquei envergonhada com o sucedido. Fui até ao médico para ver se era engano. Quis enganar a mim mesma.

Na hora do repouso, das 3 às 4 da tarde, tínhamos que fazer silêncio. Muitos iam para o salão destinado para isso. Outros iam para passear. Não sei, nunca perguntei aonde iam.

Lá conheci Marinho, Edgar Falcão, Margarida e sua irmã Madalena ou Lena, d. Anita e a filha doente Nazaré, os irmãos gêmeos Bruno e Breno, Valdir Pires e mais outros que me falha a memória.

Esses dois irmãos, a Irmã, que era responsável por aquele andar e pela tranquilidade dos doentes, colocou-os no mesmo quarto. Pra que? Um dia os dois se engalfinharam e se ela não chega para separá-los, o negócio teria sido bem pior. Não se soube a razão da briga. A Irmã colocou cada um em um quarto, para haver paz e harmonia.

O tratamento do meu querido não estava tendo a melhora que o médico esperava. Então o resultado seria a toracoplastia*, a operação mais brutal que se possa imaginar. E no dia dos reis, 6 de janeiro de 1946, o Anthenor operou.

Os nossos primos que moravam em Belo Horizonte, a Chiquinha e o marido que trabalhavam no mercado com frutas, forneciam às mãos cheias, abacaxis, mangas, goiabas, maracujás, laranjas e tudo que a amizade deles ditasse para nos favorecer.

E transformavam tudo isso em sucos para alegria do meu marido.

O médico, dr. Orlando, disse que nunca um doente ali havia tido uma tão boa recuperação. Eu deixava muito suco para ele tomar na madrugada.

Uma noite eu dormi demais e quem deu o suco foi o Sr. Wenceslau, o enfermeiro mais dedicado que um doente pode ter. Um alemão alto, mais para gordo, simpático como ele só. Servia aos doentes de todo o sanatório.

Em fevereiro voltei para Maceió. Não podia demorar mais. Não tinha como parir lá. Estive 7 meses em Belo Horizonte. Em maio, no dia 2, nascia Flavio Alberoni. Em setembro voltava curado o nosso querido Anthenor.

Fomos para União, devido o clima ameno de lá. Então mais uma gravidez. Voltamos em janeiro e como o Anthenor não suportava o clima muito quente, fomos para Ouro Fino em Minas Gerais.

*toracoplastia: Ressecção parcial ou total de várias costelas, a fim de provocar o colapso do pulmão por retracção da parede torácica.

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Viagem no navio Rosa da Fonseca – parte 10

Saímos de Manaus às 24 horas do dia 19. Já estamos em águas do Rio Pará desde ontem às 7h30 da noite quando alcançamos Santarém, a cidade que divide os dois mundos – Pará e Amazonas. Estamos agora atravessando o Estreito de Buioçú que no seu início tem o nome de Furo dos Limões. No estreito serão 6 horas de boa navegação. Chegaremos em Belém lá pelas 3 horas da madrugada e sairemos às 15.

Tomara encontrar lá a cabeça de índio que a Regina pediu. Em Manaus não encontrei. Aonde nos informaram, tinham vendido aos padres, na véspera, cerca de 600 peças.

Encontrei a cabeça do índio da Regina em Belém. Estivemos no museu Emílio Goeldi, pena que aquilo esteja um pouco abandonado. As onças estão magras, tristes, sem vida. Onde vivem as antas tem lama e mau cheiro. Vi cinco sucuris. Para “utilidade” delas, creio que já tem demais. Gaviões de coleira branca e comuns, urubu re, araras grandes e pequenas, pássaros de toda a espécie, empalhados ou não. Bichos de pelo de todos os tamanhos e raças. Pedras preciosas. Trabalhos de índios, atuais e pré-históricos. Sei lá mais! Não dá para descrever vendo, quanto mais de memória.

A paciência dos homens, em especial do falecido criador do Museu, é de estarrecer. Calculem os grandes museus! As plantas, árvores gigantescas. Numa grande árvore, fiquei perdida no seu tronco para tirar o retrato. E mais coisas que a minha cabeça não dá para lembrar.

O navio está balançando outra vez. Desde ontem que saiu do rio e está navegando no mar.

Igreja do Carmo, centro de Fortaleza, década de 70

Chegamos em Fortaleza. Duas horas para descer, dar uma corridinha até a cidade e voltar. A escada quebrou, uma senhora caiu de cima. Não sei como não fez um estrago maior. Oh! Agonia louca! Almoçamos à 1 hora e o navio também saiu do porto na mesma hora.

Ontem de noite houve uma festa de despedida dos cearenses que também estavam em excursão. A recepcionista Herotildes é quem organiza tudo. Houve concurso de beleza – foi eleita uma pernambucana, Maria Helena Monteiro. Das que estavam aqui, era a melhor. Uma sra. do Ceará fez a letra e a música de um frevo para a despedida. Cantaram, recitaram, a orquestra de bordo, aliás muito boa, tocou muito e foi tudo muito animado e divertido. Nós viemos para o quarto era meia noite e a festa ainda ficou rolando lá em cima. Hoje não fomos ver o bingo. Ficamos conversando com mais três casais. Dois de Joinville e um de Curitiba. Aqui tem até norte-americanos. Tem um casal com cinco filhos, outro com dois e saltou um pastor, que veio de Manaus com a família passar as férias em Fortaleza.

É assim o nosso Brasil! Tem de tudo!

(fim das postagens de Minhas Viagens)

Viagem no navio Rosa da Fonseca – parte 6

Dia 12 de junho de 1969

Faltam 20 minutos para as 6h. Ainda não anoiteceu, o que é fácil ver aqui no Norte. Desde cedo que estamos em águas paraenses. Chegaremos ao porto lá pelas 22h. O calor é bravo e eu não trouxe um vestido de linho. Acabei de por de molho em água de sabão o de jérsei. Estava muito suado e o jérsei suado tem um cheiro horrível. Eu vou subir agora. O ar refrigerado do navio nos alivia um pouco da temperatura de fora e por isso vou ficar no salão de leitura até a hora do jantar. Seu pai já tomou três banhos até agora. Até logo.

Dia 13 de junho de 1969

Belém na década de 60.

23h – O navio saiu às 10h não sei se por ter passado mais tempo em Belém do que em Fortaleza, o fato é que Belém me encantou.

Quem não a vê, não pode fazer uma idéia do que seja aquilo. É grande, bonita e alegre. Mesmo as ruas estreitas de Belém velho e as ruas sujas do cais e proximidades, simpatizamos  são enormes e agradáveis. Muito bem delineadas e cuidadas. Em todas elas existem belos monumentos históricos – mas, vamos ao princípio.

Chegamos à noite e demos uma volta atrás de sorvete (a falha que não existe em Fortaleza – em Belém não existe uma boa e agradável sorveteria). Em Fortaleza em qualquer ponto da cidade tem boas, pequenas, mas agradáveis. Em Recife também tem agradáveis sorveterias. Em Belém só têm em ruas estreitas e de pouco movimento. No centro tem um em caixas como Kibon, fabricação da casa, que vendem nas ruas ou nos bares e restaurantes. São todos bem batidos e de fruta mesmo. Não encontrando o que queríamos, fizemos outro lanche no próprio cais, na entrada para a cidade, onde tem um monumento à Antonio Teixeira, fidalgo português (pelo menos a roupa o indica), muito elegante, com o seu chapéu de plumas (vou procurar saber o que ele fez para dizer).

Depois se inicia a cidade propriamente dita com o cruzamento de duas avenidas: Presidente Vargas e Castilho França. As mangueiras que enfeitam, na minha opinião,  enfeiam  a cidade,  algumas têm mais de cem anos. Algumas carregam tanto que quebram galhos e às vezes a própria árvore.

Na Avenida Presidente Vargas está a maior parte dos bancos, os correios, casas de comércio, restaurantes e bares. A Praça da Republica é imensa, sombria. Tem um monumento à Republica muito bonito. Fomos à casa do Sr. Bensadon, muito simples e de uma simpatia extrema. Vivem três famílias em uma só residência. Todos centralizados por d. Sol. Ele, os filhos casados têm ao todo nove filhos. Já imaginaram esse povo todo recolhido, conversando, gritando (as crianças), teimando… coitada da velha senhora. Não é à toa que se chama Sol (a acolhida é total).

Fizemos lá uma refeição e nos convidaram para voltar, almoçarmos com eles.

Na volta eu não quis, não sei porque, descer. Estávamos cansados. A viagem foi muito agradável, é verdade, mas o sobe e desce cansava e cansamos muito.

Arrependo-me até hoje da grosseria. Tenho pra mim que eles estavam nos esperando para também mandar alguma lembrança aos parentes. A verdade é que Sr. Bensadon se afastou de nós.

Houve um fato interessante com a família desse senhor. Ele tinha uma filha chamada Ester, a mais velha que estava noiva de um primo. Eram judeus e o noivo também. Vocês sabem que judeu só se casa na sua grei.

O casamento foi muito bonito, com recepção e tudo mais.

Quando já estavam casados há uns dois meses, o pai foi visitar a filha e encontrou-a chorando. Grávida já, disse ao pai, que ficou preocupado ao ver as lágrimas da filha, que era devido ao estado que se encontrava. Não sei se o pobre homem acreditou. Passados alguns dias, voltou em visita a Ester. O quadro era o mesmo. Ele forçou-a a contar e ela chorando mais ainda, confessou que o abençoado marido a espancava.

Imediatamente mandou a filha pegar tudo que era dela e a trouxe de volta ao lar onde nunca devia ter saído. Lá deu a luz a uma menina.

Não tivemos mais notícias deles.

O Sr. Bensadon era fiscal do Banco do Brasil e por isso sei deste drama todo.

Uma ocasião ele chegou à nossa casa cansadíssimo. Morava longe de nós e veio a pé até ali. Os judeus têm o dia do perdão e isso parece ser a celebração e que levam muito a sério.

Eu perguntei a ele se tinha perdoado ao filho que havia casado com uma cristã. Ele praticamente não me deu nenhuma resposta.

Era uma boa alma o nosso amigo Bensadon.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minhas Viagens)

*a fotografia dessa postagem faz parte da edição especial Retrato do Brasil, da Revista Manchete, de 1968.

laço de fita

Fernandina e seus filhos Ariel, Percival, Regina, Failde e Araken - anos 40, Maceió.

Viagem no navio Rosa da Fonseca – parte 5

Dia 10 de junho de 1969 – 4h da tarde

Vista aérea do litoral de Fortaleza (1971)

Fortaleza é uma bela cidade. Tivemos umas 3 horas corridas para visitá-la. Procuramos o Péricles e ele nos levou para ver uma porção de lugares. Muito plana e é bem menos quente que Recife. Bonitas avenidas e muito arborizada. Uma brisa constante corre na cidade entre os meses de agosto ou setembro até fevereiro ou março que é quando começam as chuvas, que são os meses mais quentes. Como a terra não tem umidade, a água de côco, por exemplo, não é tão doce quanto à de Recife.

Muito linda a Reitoria da Faculdade de Direito. Tiramos lá algumas fotos que darão para se ter uma idéia da beleza. Aquilo é imenso, tem muitas árvores frutíferas e ornamentais. Pátios, colunas, terraços e jardins. Um auditório ao ar livre, com acústica, imenso. As residências são o que têm de mais fino. Os bairros residenciais do Recife são muito bonitos e agradáveis, mas em Fortaleza, as residências são mais, como direi? Imponentes! Isso mesmo, grandes, imensas mansões – dentro de muro e jardins dão uma impressão de riqueza, que é justamente aquilo que o cearense quer. Porque, diz o Péricles, o cearense é pobre.   

Conta-se pouca riqueza realmente grande. A tenacidade do cearense é que o faz, vencedor em toda a linha. Quer em sua casa – Ceará – ou na casa alheia – o mundo. Tomamos um gostosíssimo sorvete de graviola ou croaçá, como queira.

Pena que o tempo não deu para visitar mais nada. Estivemos no Clube Náutico. Simplesmente belo. É imenso e acolhedor. Agradável de ver. Está completando 40 anos de existência e terão uma semana de festejos.

Clube Líbano Brasileiro (1956)

Muito bonito também é o Clube Líbano Brasileiro. Na entrada de chão e paredes de mármore branco estriado de preto, tem duas meias paredes ladeando uma linda escadaria em metal branco – duas meias paredes – em espelho de cristal que parece contos de fadas. Encerramos o nosso passeio em casa do simpático casal Péricles e sra. Chupamos uma bela e gostosa cana, descascada por ele que nos trouxe depois para o bem arrumado cais de Fortaleza. Quem não gostou da cana foi a Ligia. Ela que come de tudo não suporta cana, pois sente arrepios. Muita pinha, sapoti, roupa, chapéus, bolsas e redes. Teve até quem comesse tapioca no mercado (a Leda e a mãe). Tudo em quantidade para satisfazer e explorar qualquer um. Não compramos nada. Estamos guardando as economias para Manaus. A Luiza e o Sr. Emidyo compraram cajá, mas não gostaram de comê-lo, pois aquilo, como eu já havia lhes dito, tem pouca polpa. Vão levar à noite para fazer suco no jantar. O garçom, o Domenico, se vê velho conosco.

Tanto rezei, tanto implorei e incomodei aos nossos amigos espirituais, que o enjôo passou. Remédio material não curou, reza sim. Mais vale a fé e a confiança.

Por agora nada tenho a contar. Só que converso, leio, vou ao convés, venho ao quarto, escrevo, tomo café às 7h, almoço ao meio dia e janto às 19h. Ontem variou um pouco: chegamos ao navio pouco antes das 8h e como o Péricles ficou no cais, o Anthenor não desceu. Eu vim à cabine, lavei as mãos e subi. Ele ficou com a chave e insistiu para que viesse jantar. Ainda estavam à mesa a Luiza e o Sr Emidyo. Fiquei remanchando até que às 8:30 h chegou seu pai que já havia até tomado banho. Depois do jantar fomos dar uma volta nos salões e descemos à proa e ficamos vendo as luzes da cidade que se afastava.

São 3h15 do dia 11 e já estamos em águas do Piauí. Chegaremos provavelmente, às 22 h de amanhã em Belém. Se a maré deixar.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minhas Viagens)

*as fotografias dessa postagem foram pesquisadas na internet.

almoço de família

da esquerda para a direita: Alberoni, Percival, Shirley, Ariel, Failde (com Ester no colo), Haydée, Aroni, Anthenor (com Arnoldo no colo e Anajas atrás), Fernandina (com Agnaldo no colo), Siomara, José Calheiros e Beca, sua esposa, Araken, Regina e Rodrigo.

Fotos como essa da mesa de jantar são mais raras nos álbuns de família de antigamente, no entanto eu adoro, pois revelam mais sobre os costumes, o cotidiano da casa, detalhes de objetos de decoração situam a época em que o retrato foi feito. Essa fotografia foi feita em 1959 e a Aroni já fazia parte da casa.

Bem diferentes das fotos posadas em estúdio, que são belas porém mais comportadas, pouco se diferem dos comuns retratos de família feitos ao longo da história da fotografia. Esse retrato da família completa, com os treze filhos, foi feito em Itajubá, em 1956.

Em pé: Araken, Anthenor, Ariel, Fernandina com Arnoldo ao colo e Percival. Sentados: Regina, Rodrigo, Anajas, Agnaldo, Siomara, Haydée, Ester com laço na cabeça, Alberoni e Failde.

Meu encontro com o MAR – por Osmar Jatobá

Anthenor e Sr. Ernesto, grande amigo, pai de Osmar.

Osmar Jatobá era um dos filhos de Ernesto Jatobá e D. Adalzinda (vulgo Dadá).

Sr. Ernesto trabalhou com meu avô Fernando, na fábrica de curtume em Viçosa(AL). Tinha já dois filhos Wilson e Osmar. Depois vieram Wilmar, Maria José, ou Zeza e Everaldo.

Zeza tornou-se aeromoça e quando ia nos visitar, entre viagens, enchia-nos a vista, com seu uniforme, e principalmente seu casquete, o que nos fazia sonhar em nos tornarmos também aeromoças, quando crescêssemos.

Sr. Ernesto tornou-se depois grande amigo de meu pai, que o chamava carinhosamente de Compadre.

Osmar era bem mais novo que papai, cerca de 9 anos e entrou para o Banco do Brasil como contínuo, a convite de papai, em Itajubá, onde mais tarde casou-se com Ana Maria, filha de um fazendeiro e tiveram 3 filhas Wania, Waleska e Walquiria.

Quando papai transferido para São Caetano, mudou-se também para lá e mais tarde, foi para Brasília e mais recentemente, voltou para Maceió, onde veio a falecer no ano passado.

Lembro dele com muito carinho. Era alegre, espirituoso, gostava de cantar, contar piadas. Quando vinha nos visitar a casa se enchia de alegria.

Em sua última viagem para Maceió, Anajas foi presenteada por ele, com este texto, que a meu ver, é uma pérola de sensibilidade e escrita.

Espero que gostem.

Meu encontro com o MAR – por Osmar Jatobá

Osmar Jatobá

Seu amigo Anthenor de Braga Farias estava em Viçosa a serviço do Banco do Brasil. Creio que adido, prestando algum serviço, em substituição a um colega de férias, ou coisa parecida. É claro que ele era nosso hóspede, pois foi e é, seu melhor amigo.

Aos sábados, na parte da tarde, viajava a Maceió para ver a família e o senhor providenciava uma condução para ele. Às vezes até no trem de carga; outras, de carona.

Em um sábado, não foi possível uma carona ou mesmo um trem de carga e o senhor conseguiu um carro, parece-me que do Zé Tenório do Bonito. O motorista era o Antonio Barruada. Anthenor sempre me prometia que eu iria conhecer Maceió para o ver o MAR, coisa com que sonhava muito, e minha paixão era entrar em contato com aquele montão d’água. Em mim brotou mais vontade e uma esperança de ficar perto de tanta água e experimentar se era realmente salgada, como o povo falava.

Wilmar, já estudando na capital do Estado, me contava coisas incríveis do Oceano Atlântico e outras coisas da capital, onde moravam o governador, o bispo, os deputados e muita gente importante. Eu tinha loucura de andar de bonde e ver o MAR. Cada dia que passava eu ficava mais e mais querendo descobrir coisas novas. De Viçosa a Maceió eram somente 90 quilômetros; para a época atual, um salto, todavia nos anos 40, uma viagem e tanto, cheia de atropelos: estradas ruins, muitas curvas e ainda mais a serra de Dois Irmãos, que era perigosíssima. Minha mãe sempre dizia quando se viajava pela serra: – Cuidado com a Serra dos dois Irmãos! Cuidado com a Serra!

Anthenor Farias já me havia prometido um passeio até a capital e eu ficava esperando por esse bendito dia. Queria mesmo era fazer inveja para muita gente. Wilmar não, já era conhecedor de tudo por lá e residia na rua 7 de Setembro, 116, atrás da praça Sinimbu que ficava próximo à praia e junto ao rio Salgadinho – cheio de cachorro morto e urubus rondando alguma carniça para comer.

Data marcada: um sábado chuvoso e já meio frio, estávamos no início do inverno. Antonio Barruada já nos aguardava com o Ford do Zé Tenório do Bonito. Acabamos de tomar o nosso café da manhã (bem cedo mesmo) e lotamos o Ford com macaxeira, inhame, espiga de milho para o cuzcuz, batata doce, banana, laranja lima e muita carne de boi comprada no açougue do seu Né Mata.

Partimos. Eu, alegre, sorridente e aguardando o momento espantoso de me relacionar com tanta água salgada. Olhando tudo que passava; roças, bois, galinhas, cachorros latidores e uma porção de gente por aquela estrada sinuosa. Saímos em direção ao Sabalangá. Ia olhando o Rio Paraíba no seu leito de pedras e curvas e ele sempre nos acompanhava. O senhor e seu amigo Anthenor iam no assento traseiro, eu fazia companhia ao Barruada que comandava o Ford do Zé Tenório.

Passamos pela Boa Sorte do Coronel Vilela (pai do Teotônio) e de lá rumamos em direção à Balança, que dava início à descida da Serra dos Dois Irmãos. Lembrei-me das recomendações de minha mãe: – Cuidado com a Serra!

A estrada estava com muita lama, com certeza havia chovido na noite anterior. De repente, o Ford começou a ratear e parou antes da serra. Antonio Barruada desceu do Ford e abriu o capuz, olhou, mexeu, tentou dar a partida na manivela e nada do bicho pegar. Minha aventura estava em perigo. Será que não era ainda o dia certo para eu me familiarizar com o Oceano Atlântico? Estava já ficando agoniado e com receio de perder aquela oportunidade. O carro do Zé Tenório do Bonito estava contra mim. Que fazer para se continuar a viagem até Maceió?

Subitamente apareceu na estrada, vindo da direção de Viçosa, um caminhão carregado de algodão, que seria uma oportunidade de dar continuidade à nossa viagem. O senhor, com sua sabedoria e jeito, conversou com o motorista conseguindo uma carona até a capital do Estado. O motorista disse: – Para o senhor e seu amigo tem lugar, pru menino não (o menino era eu). Tristeza, chateação – e a ilusão caiu por águas abaixo.

Não era ainda a minha vez de conhecer o Mar e nem a capital do Estado. Os bondes ficavam me esperando até não sei quando. O caminhão rumou pelo caminho levando o senhor e seu amigo e eu olhava com tristeza aquele sonho perdido. Para mim não haveria outra oportunidade, só aquela era a verdadeira. Com que cara eu ia chegar em casa vendo meu desejo frustrado? E a gozação dos que ficaram por lá querendo saber as notícias de meu encontro com o Oceano Atlântico? Como ia me comportar? A vontade era não voltar a casa para não ter de ouvir o “manga ele”. O senhor e seu amigo Anthenor continuaram a viagem. Nós, eu e o Barruada, estávamos ali tentando “arrumar” o Ford.

Recordo-me que o motorista, entrou numa venda, bebeu uma cachaça e trouxe dois litros da branquinha para o automóvel Ford Bigode. Ali mesmo, em frente à venda, deu de beber àquela máquina; pediu-me para apertar o acelerador e torceu várias vezes a manivela do carro. A resposta foi rápida, o bicho começou a trabalhar. Para casa, a distância era pouca e logo chegamos na Viçosa debaixo de chuva.

Espanto geral. Minha mãe perguntou-me o que havia acontecido. Narrei o ocorrido, ajudado pelas informações do Barruada. Àquela hora, o senhor e seu amigo já deveriam ter chegado e o MAR possivelmente sentiu a minha ausência.

Wilson, Zeza, Nega Tonha e até mesmo o veado do Zé Misericórdia, tiraram o sarro, mangando de mim. Manga dele! Manga dele! Ouvia a tudo e ficava calado. Foi a maior decepção de minha vida. Será que haveria outra oportunidade?

Segunda-feira, regressava à Viçosa seu amigo Anthenor. Riram de mim e seu amigo prometeu que no próximo sábado iríamos de trem. Ele até me disse: – Quero ver se o danado vai encrencar! Tudo bem, foi a semana mais longa de minha vida. Eu não conseguia dormir direito, tudo para mim se resumia no trem partindo para Maceió e eu chegando perto da praia e lá experimentava a água para verificar se era realmente salgada como o povo dizia.

Chegou o sábado, acordei de madrugada, mais ou menos às três da manhã e não consegui conciliar o sono. Sonhava acordado e já imaginava como era o Oceano Atlântico. Seria maior que o rio Paraíba? Certamente maior do que o açude lá de Mar Vermelho, arrodeado de lajedo e baronesas. Os mais velhos diziam que por ali corria lobisomem. As horas caminhavam com preguiça. Eu já estava agoniado; queria acordar todo mundo e ir imediatamente para a estação esperar o trem mesmo ali no escuro.

Ouço rumores. Alguém tosse, uma vela transmite luz, sinto cheiro do fósforo. Agora é real e os movimentos são mais acentuados. Renascem as esperanças, o dia começa a clarear, as estrelas se envergonham da claridade e fogem. A hora do trem chegar já está próxima; crio mais alegria, o barulho agora vem da cozinha. A Nega Tonha começa a ralar as espigas do milho zarolho para o cuscuz. Sinto cheiro da casca da laranja seca queimando para acender o carvão e logo teremos um farto café com cuscuz, macaxeira, inhame, batata doce e pão dormido.

João Panã está à espera pelas malas e nos informa que o trem já partiu de Paulo Jacinto. Agora estamos apressados e saímos em direção à estação. O senhor havia providenciado as passagens via União dos Viajantes de Pernambuco, que eram mais baratas.

Finalmente a máquina do trem apontou na curva da rua do Cravo. Eu já estava agoniado e queria mesmo era me ver dentro do trem olhando tudo que ficava para trás. Tomamos os nossos acentos, primeira classe. O senhor e seu amigo vestiam o tradicional guarda-pó; eu não tinha nada para me proteger, ia mesmo era sentir a dor das fagulhas em minhas pernas.

Apitando e bufando, o trem tomava rumo ao Sabalangá. Olhava tudo: os bois, os cavalos, cachorros e o povo que, nas janelas, esperava mais uma oportunidade de sentir uma alegria naquela manhã, com a passagem do trem de ferro.

Até que, enfim, entramos nas curvas da Serra dos Dois Irmãos. Ali corria perigo, conforme minha mãe falava. Continuava admirando tudo que via: as pessoas, os animais, o rio Paraíba fazendo as suas curvas e pequenas localidades, algumas poucas usinas de açúcar e pequenos engenhos.

Era dia de feira (sábado) e o movimento aumentava a cada hora. Muitos levavam suas mercadorias para serem vendidas nos mercados e principalmente no pátio da feira. As localidades se aproximavam. Eu só conhecia de nome, por ouvir falar.

Gameleira seria a primeira, logo depois Cajueiro e em seguida Capela. O rio Paraíba continuava seu trajeto e o trem sempre o acompanhava, inclusive nas curvas. As estações estavam repletas de pessoas que também iam a Maceió. Nas estações vendedores ambulantes ofereciam milho assado, pitomba, laranja, principalmente laranja cravo, e também mungunzá.

Avistei Urupema. Em suas proximidades meus olhos perdiam-se nos canaviais. Tudo era diferente para mim desde que a minha Viçosa ficou para trás. Agora os canaviais tomavam tudo, quase invadindo os trilhos. A paisagem mudava a cada instante e eu já nem pensava muito no MAR, que tanto queria tocar e sentir.

Era a vez de Atalaia. Estranhei muito o trem entrar e sair de marcha ré. Lembrei-me que alguém já havia me dito que aquela era a terra onde o trem entrava de bunda. Achei até graça. A máquina parecia cansada e fazia força para subir a serra. Bufava, cuspia fogo e derrapava. Era necessário soltar areia nos trilhos para melhor aderência. Lá no alto ela respirava melhor e tomava fôlego para chegar em Lourenço de Albuquerque.

Ali tudo se movia com intensidade, pois havia baldeação para o rumo de Recife. Um corre-corre generalizado. Vendia-se de tudo: milho assado, pamonha, canjica, pães de todos os tipos e o de que mais fiquei gostando: uns pães doces em forma de répteis (calango, lagartixa e até jacaré). Queria, na volta, levá-los até Viçosa, para mostrá-los à minha mãe e meus irmãos.

Havia vendedores de tudo, como disse, e até mesmo se vendia água e a famosa sopa de Lourenço de Albuquerque, que era muito quente e não dava tempo de ingerir em alguns minutos. O movimento era grande e logo o trem partia rumo a Maceió. Quem não conseguia tomar a sopa, via bem que os vendedores a colocavam de volta nas panelas para serem oferecidas aos próximos passageiros dos trens que por ali passavam.

Rio Largo se aproximava. O Paraíba continuava nos acompanhando, ou nós a ele. Estávamos chegando mais próximos da capital e o MAR continuava ali, me esperando. O tempo começava a mudar e tudo indicava que chuvas iam cair. Não me preocupei com isso, queria mesmo chegar perto daquele montão d’água e provar se era mesmo salgada. Ao entrar na cidade de Rio Largo, vi e admirei outra coisa muito diferente. Ali havia uma piscina cheia d’água que não era salgada. Desejei pular lá de cima de um tal de trampolim. Não dava tempo, o trem tinha que continuar sua jornada até o final da linha e eu ainda tinha a mente voltada para aquele montão d’água.

Fernão Velho estava perto e dali a Maceió era um pulo. Comecei a admirar a fábrica de tecidos. O que se fazia mais era um tecido grosso, tipo mescla azul, e outros menos importantes como um para camisa, branco, de algodão (algodãozinho). Passamos agora por Satuba. Admirei as fábricas de tijolos e telhas; ali as pessoas ficavam atoladas em barreiro tirando massapê.

A viagem continuava e à medida que o trem rodava, o visual ia mudando paulatinamente, com melhorias, é claro. Apareciam mais casas, gente e o movimento já era de cidade grande. O som que as rodas de ferro produziam nos trilhos tornava-se mais audível e com ecos agradáveis.

Por ser sábado, dia de feira na capital do Estado, havia grande movimento por todos os lados que eu olhava. Animais, carroças, carro de mão, todos eles conduziam mantimentos, criações, para um local específico, possivelmente o mercado. Um mercado grande, bem maior que o da minha Viçosa, a Princesa das Matas.

Bebedouro ia aparecendo. De lá de baixo avistei o Farol. Eu estava completamente atordoado com tudo aquilo que acontecia naquele dia. Já havia esquecido que estava em companhia do senhor e de seu amigo. A máquina, agora sem pressa, continuava puxando os carros lotados de pessoas de todas as localidades por onde passava. Estávamos entrando em Maceió. Eu olhava tudo e via quase tudo, só não via o MAR do qual tanto me falavam. O trem agora atenuava mais e mais a velocidade e até parece que ia parar quando se aproximava do mercado. Era uma curva longa e ele passava exatamente nos fundos de mercado cheio de gente, cheio de novidade.

Repentinamente assustei-me com uma imagem azulada, esverdeada e de várias cores e muita espuma. Era o MAR. Finalmente eu via o MAR pela primeira vez desde que nasci. – Entrava na estação de Maceió e vi na minha frente casas grandes arrumadas, ruas calçadas e o bonde a deslizar em seus calçamentos. Olhei para todos os lados e vi também a casa do bispo que mandava em todas as igrejas de Alagoas.

Dali, fomos acompanhados por carregador que levava nossa bagagem e andamos a pé até a rua 7 de Setembro, número 116. Essa rua ficava atrás da C.F.L.N.B. (Cê, fê, lê, nê, bê).

Eu não tirava os olhos do Grande Açude. Meu olhar era só para ele. Passamos pela rua das Verduras, onde residia outro seu amigo, o Nino Cassiano. O MAR desapareceu e só fui vê-lo novamente quando entrava na praça Sinimbu.

Finalmente chegamos à rua 7 de Setembro, depois de passarmos pela linha do trem. A rua ficava perto da praia e dali era um pulo ir ao seu encontro.

A casa do Anthenor ficava perto do MAR. Tinha um corredor comprido e lá no fim uma sala de jantar e logo depois a cozinha.

Meio desconfiado com tudo que vi por ali, me arrisquei e fui para o quintal que era murado e observei buracos por onde penetravam pequenos siris branquinhos e moles. Fiquei admirando tudo aquilo. Em minha casa, na Viçosa, o quintal era grande e cheio de plantações. Minha mãe gostava muito de verdura.

Wilmar, Viçosa (1953)

O céu estava ficando escuro; mesmo assim, depois de comermos um feijão de corda com galinha, me arrisquei e corri para a praia. Wilmar me acompanhou. O céu começou a derramar sua carga e a chuva veio forte. Não me importei, queria era penetrar naquela água de qualquer maneira para sentir seu gosto salgado. Mergulhei com corpo e alma naquele montão de água e fui ao encontro das ondas.

Meu irmão, na praia, gritava para que eu saísse. Me fiz de surdo e continuei tibungando nas águas já turvas com tanta chuva. Olhei em redor e só eu estava lá. Matei minha vontade e senti o gosto salgado daquele líquido que tanto me atormentava em meus pensamentos. Finalmente era a vitória!

Não me lembro bem de quanto tempo passei em Maceió. Não queria a cidade. Que se danasse o governador, o palácio, a casa grande do bispo e até mesmo o bonde. O MAR era o meu encanto.

O regresso estava marcado e a tristeza começava a se apoderar de mim. Ela queria me ver sofrer me separando de meu único amigo daquele dia. O MAR.

Calado e muito deprimido, fui me despedir. A separação foi triste, melancólica. Agachei-me, enchi minha mão com sua água e a levei à boca. Senti seu sabor e lhe dei um beijo. Saí sem olhar para trás. Senti que a água dos meus olhos também eram salgadas.