Memórias da Vovó Dina – parte 21

Com a chegada de Anthenor as nossas brincadeiras de criança aumentaram. Devido ser sozinha, o meu grupo era muito pequeno. Me dava melhor com Magnólia, mas só duas meninas não fazem uma roda nem brincam de esconder. Aumentou o grupo com Rubenita, Wladimir e mais uma meia dúzia de crianças que mediava a nossa idade. Brincávamos de artista de cinema, de esconde-esconde ou chicote queimado, empinar papagaio (coisa que nunca consegui fazer), amarelinha ou avião, pular corda, jogar pedras (pedras bem bonitas). A turma unida e animada.

Neudi e Liege, Maceió, 1940

A mais chata, encrequeira, era a Rubenita, irmã de Wladimir. Mais moça que nós (Magnólia e eu), era criada com todo o mimo que pais pobres podem dar a uma filha. Não gostava de ser chamada Rubenita e sim Benita. Nessa época só existiam três filhos – Wladimir, Rubem e ela. Depois nasceram Carmem, que morreu pequenininha, e Carlito, afilhado de meus pais e meu de apresentar (no norte tem a madrinha de apresentação, isto é, a que carrega o bebê até a pia batismal). Só que quando fomos batizar o Carlito, ele já tinha 7 anos e eu 14. Isso aconteceu em Viçosa (AL), quando moramos lá por um ano.

Mas, voltando a Carmina, sua mãe, era uma mulher bonita e meu querido compadre Manoel Lucas também não era de se jogar fora. Para falar com franqueza, Rubenita sempre foi a mais feia. Quando nasceu Liege, ela já era aluna do Santa Sofia em Garanhuns (PE). Devia ter uns 15 ou 16 anos. Foi ela que pôs o nome na irmã de Liege. Minha mãe descobriu a tradução do nome e só chamava a coitada de Cortiça.

Fernandina, entre 14/15 anos, fotografada por Anthenor

E assim a nossa vida foi indo tranqüila. Não era vazia. Depois que voltamos de Viçosa onde moramos por um ano, como já disse, eu havia mudado um pouco. Também já estava com 14 para 15 anos. Diziam que era bonita. Gostava de dançar, de cinema, de festas de rua. As festas de fim de ano e de carnaval eram o máximo para meu espírito vagabundo. Gostava de ler. Comprava toda a semana, revistas de cinema – a Cena Muda e Cine Arte. As revistas tinham resumo dos filmes, cenas e retratos dos mesmos. Devorava romances e talvez por isso, sonhava demais com o que não tinha e gostaria de possuir.

O diretor-presidente da Companhia, Sr. Gustavo Paiva, organizava festas e o carnaval era a sua grande representação para o operariado. Existiam duas bandas de música da própria Companhia. O primeiro maestro foi meu avô Agérico. Quando ele se afastou, veio o Sr. Japiassú. Foi aí que organizaram duas bandas. Minha prima Floristela, filha de tio Getúlio e tia Sinhá, fazia parte – tocava saxofone. Era tão boa na arte que comandava a parte feminina.

Banda Feminina da Companhia Alagoana, regida pelo maestro Jupiassu. Floristela, filha de tio Getúlio e tia Sinhá, tocava saxofone. A foto é do aniversário de 400 anos da cidade de São Paulo.

O carnaval era a nossa melhor festa. Nos dois primeiros anos, as máscaras, as alegorias, as idéias de fantasias, tudo foi organizado pelo tio Zeca. Os dois principais carros alegóricos eram: um dedicado ao Mossoró, cavalo brasileiro que ganhou o grande prêmio, na Argentina. Era feito de papel machê, grande, maior que o normal. Tudo muito bonito. O outro foi um canhão grande, imenso.

A música era correspondente, animação que só o nordestino sabe fazer quando quer. O Sr. Gustavo nos cedia tudo, até as fantasias.

Quando o tio foi embora, quem o substituiu foi o Sr. Teotonio. Ele não trabalhava na fábrica, mas alguém o recomendou prazerosamente.

Desta vez o carro principal foi um dragão. Montado em um enorme caminhão, parecia aquele dragão das procissões chinesas. Quem seguia o dragão estava vestido a caráter. Tinha chinês a dar com o pau. Até os músicos.

Era isso, essas festas que nos davam alegria. Isso e mais os bailes de carnaval no domingo e na terça. O fim de ano também se encerrava com baile, fora as festas de rua em Rio Largo e Cachoeira.

Não se pode dizer que não tenho saudade… mesmo porque só solteira eu “fuzarqueei”. O seu pai não gostava (será que gosta?) de festa, muito menos de dançar. Meu pai ainda dançava quadrilha e coco e ele nem isso. Das poucas coisas que senti falta, foram as festas, bailes, pic-nics.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

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Memórias da Vovó Dina – parte 20

meu pai Fernando na juventude

Esqueci de apresentar meu pai como dono de teatro (não sei se o nome é teatrólogo). A verdade é que um homem sem ocupação durante 5 anos tem que encher o tempo com algo que o satisfaça, o distraia e lhe dê um pouco de lucro.

Formou-se então a escola de arte do Fernando: Teatro José de Alencar. Não estou muito certa do nome, mas a verdade é que o negócio deu certo. Meu pai era diretor, ensaiador, e severo dono do troço. Ajudado por minha mãe, tia Ester, “seu” Teotonio (Teotonio Barbosa Leal), amigo de todas as horas e mais alguém que dispusesse a suportar os mandos de meu pai.

O “seu” Teotonio era um artista de mão cheia. Grande fotógrafo para a sua época e para a pobreza da nossa cidade (ele inventou a coloração da fotografia no próprio negativo), era o cinegrafista da companhia. Ainda me lembro (eu teria 2, 3 anos quando tudo começou) da casa do meu avô, na sala, no corredor, com aqueles enormes papéis pintados e “seu” Teotonio atravancando as passagens com as latas de tinta. Ele era um homem alto, moreno, rosto quadrado, cabelo liso, castanho, caindo sobre a testa. Enquanto pintava, conversava e dizia coisas de fazer rir. Não lembro se chegou a ser ator. Só sei que sempre gostei muito dele.

Faziam parte minha mãe, tia Ester, Sinhá (depois esposa do tio Getúlio), meu pai, Odilo Braga (um primo longe de minha mãe) e mais alguns que não dá para lembrar.

Esse Odilo deu um trabalhão para o diretor-ensaiador Fernando. Representava o papel com uma indiferença enorme. Perfeccionista ao extremo, meu pai tinha “arranca rabo” de “fedê” a fogo. Contava meu pai que o Odilo tinha mania, enquanto estava ensaiando, de mexer com a corrente do relógio que ficava no bolso da calça. Era uma briga constante. Enquanto mais falava um, o outro dizia que no dia da récita não tocaria na corrente.

O pior era o desgraçado, por não haver quem o substituísse; era sempre a figura principal.

A “trouche e a mouche” o negócio seguiu por vários anos. Poucos, mas o suficiente para distrair os habitantes daquela pacata cidade.

Contavam uma das cenas mais gozadas que aconteceu: era uma comédia e como precisavam de uns dois ou três soldados, papai convidou o Manoel Lucas, vizinho e amigo para fazer o cabo, ele e dois praças.

Pra começo de conversa o Manoel Lucas disse que não tinha jeito pra coisa. Meu pai teimou e levou a comédia para representação. Manoel Lucas teria que entrar em cena e dizer para o “criminoso”:

– Esteja preso!

Pegava no braço do prisioneiro e o levava. Tudo fácil, simples. Muito bem. Chegou o dia e o nervoso Manoel Lucas suava que só tampa de chaleira. Chega a hora e entra o cabo em cena, seguido dos seus dois companheiros de farda… pega no braço do “criminoso” e diz:

– Esteja preso!…” se volta para meu pai que estava em cena e exclama: – Eu não disse, Fernando que não dava para esta peste!!!

Houve muitas apresentações que a minha idade não dava para guardar. O pouco de que lembro era simplesmente deslumbrante. Sei também que fomos, Euzébio e eu apanhar flores do mato para enfeitar um túmulo que seria montado em cena. Lembro-me bem que estava nos bastidores olhando a cena. Sinhá imitando uma louca entrava cantando e se jogava sobre o túmulo chamando pelo homem que amava e que haviam lhe dito que fora assassinado. Eu teria uns 5 para 6 anos.

Também vinham atores de fora e se hospedavam em nossa casa. Teve um casal (não lembro o que representavam) que ao sair, ela me deu de presente um corte de tecido. Como era muito pano, a minha mãe fez um vestido para ela. Nunca esqueci o desgosto que tive por não ter um vestido daquele pano tão bonito.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

Memórias da Vovó Dina – parte 19

O Joaquim primo, que tinha um poder aquisitivo bom para a época, jamais se lembrou da tia Zefinha. – Que a ingratidão das criaturas nunca lhe sirva de pedra de tropeço!

O meu cunhado José Braga veio muito depois. Era o paparicado da família, ninguém precisa ser rico para por a perder um filho com excesso de carinho.

O irmão Benedito morreu ainda criança e outros bem pequeninos.

Quando o menino Anthenor veio para Rio Largo, o irmão Artur ficou com o encargo do trabalho junto ao pai. Sim, porque o seu Anthenor também pegava seriamente na enxada. Fez falta, mas como disse o Caetano (dono da fazenda em que viviam) ele iria ajudar muito mais depois.

A sua preocupação maior era trazer o irmão José para estudar… mas aí já é outra história.

Depois de casado, projetou trazer Sebastiana para que houvesse para a moça melhor posição na vida. Mas ela já estava embeiçada pelo José Teotonio Macena. Fizeram de tudo para a não realização desse casamento. O homem era mulato escuro e como não importa a condição social ou financeira do nordestino, o que ele não quer é ver um filho casado com um escuro. Mesmo que a pele seja clara, mas tendo o cabelo pichaim, é negro e acabou a história. O José era escuro, mas o cabelo era quase liso. Nem isso o favoreceu: continuou sendo negro até morrer. Homem bom, sossegado até demais. Tinha um grande amor pela mulher e só ela o decidia a ir para o trabalho na lavoura, estivesse grávida ou não, barriga imensa, só iria se ela o acompanhasse. Não que ela ficasse parada, pegava também na enxada. Dizia a minha sogra:

– O Zé Teotonio é tão sem vergonha que se a Sebastiana não for com ele para o eito, ele fica em casa coçando os … deitado na rede.

E sabem quantos filhos tiveram nessa condição? Uns 12 ou 13 – criaram sete.

No pouco de terra que tinham para plantar, o tal de Mario Gomes tirou para plantar cana, então eles vieram para Maceió. Ficaram em Bebedouro até que foram tomar conta do sítio que foi do meu pai, em Maceió, no farol.

Com a timidez e a tristeza arraigada no espírito, com a vontade firme de vencer e ser “alguém”, o Anthenor foi suportando a situação de “filho dos outros” em casa da minha avó. Nunca tratou as minhas tias como iguais a ele. Eram D. Ester e D. Haydée. Havia como um muro de permeio entre ele e a família que o acolhera por força de vontade do meu avô.

Meu pai, indiferente, meu tio não era menos e meu avô, apesar do gesto caridoso de trazê-lo, era um zero à esquerda naquela família de orgulhosos. Olhando cruamente as ações dos meus avós, tios e afins, é que eu vejo quanto de orgulho existia em toda aquela pobreza. Pobreza de espírito e material. O trabalho do meu tio Getúlio, pouco lhe rendia (alfaiate). Minha avó deixou de costurar aos poucos. Não tinha muita saúde e nunca se tratou que eu saiba. Tia Ester fazia filé para fora. Aquilo é demorado e enfadonho. Tia Haydée, mocinha, pouco se preocupava com essas coisas que praticamente não lhe diziam respeito.

Meu pai, casado com mulher e filha, passou 5 anos sem trabalhar. O meu avô, o seu serviço era azeitar o mancal (eixo) do sol, ou seja, não fazia nada e com o respeito próprio, orgulho e quase brisa, vivia a Família Caldas. Foi nesse ambiente de quase hostilidade e pobreza imensa que eu vivi e depois aquele que iria compartilhar comigo a vida de trabalho, tristezas e alegrias, que é o resultado da imensa família que constituímos.

Minha mãe era, pode-se assim dizer, a única equilibrada de toda aquela barafunda de entra e sai de gente naquela casa. Sim, porque ali não faltava quem fosse cantar, conversar “miolo de pote”, falar da vida alheia e etc.

Em pé: tia Ester e Dr. Romeu, um dentista, amigo da tia Ester; sentadas: a esposa do dr. Romeu e tia Haydée.

Tia Ester tocava flauta violão. Qualquer bicho careta que tocasse e cantasse se reunia lá para animar um pouco o ambiente. Apareceram por lá: Augusto Calheiros, Jararaca e Ratinho, Otaviano Romeiro e mais alguém que pouco me interessavam. Só me lembro de Otaviano. Era um mulato alto e bonito. Não chego a jurar, mas para mim ele foi a paixão da minha tia Ester. Tocava saxofone e também cantava. Eu devia ter os meus 7 ou 8 anos. Ele estava de passagem para o Rio de Janeiro (como os outros também), vindo de Santa Luzia do Norte.

Naquelos idos tempos, Santa Luzia do Norte era sede do município ao qual pertenciam Rio Largo, Fernão Velho e Utinga e me parece que Satuba. Um dia perguntei ao meu pai como era que Santa Luzia do Norte podia ser sede de município, pois além de ser uma porcaria de cidade (Rio Largo para mim era o máximo), a própria prefeitura era localizada em Rio Largo. E ele sabiamente me respondeu:

– Quem pode entender os homens? Nem eles sabem o que fazer daquilo que dizem mandar. Política é assim mesmo! Qualquer dia destes irão compreender que isto não tem cabimento.

Não se passaram muitos anos e tudo passou a ser o que já devia ter acontecido: por obra e graça do “seu gunverno”, nossa “cidade” passou a Cidade.

Mas voltando ao Otaviano Romeiro: tia Ester o levou lá em casa e minha mãe ficou encantada com ele. Cantaram e tocaram a tarde toda. Mamãe tocava um pouco de flauta e cantava como pouca gente. Linda voz, linda mulher. Pena ter engordado tanto e aí foi mais a moléstia atacá-la: diabetes.

O Otaviano foi para o Rio e de lá escreveu e mandou fotos para a tia. Organizou um jazz e como bom compositor que era foi fácil vencer. Tornou-se o Fon-fon, para os cariocas.

Turunas da Mauricéia

O Augusto Calheiros veio com um grupo de não sei quantos. Quando ele esteve lá, eu era bem menina. Isso aconteceu bem antes do Otaviano. Esteve em casa de minha avó por serem conhecidos desde Murici. Vovó conheceu a mãe deles (eram dois irmãos) e era uma coitada. Era negra e pobre (negro e pobre naquele tempo era pleonasmo). Dizia minha avó que muito bonita e isso atraiu um outro Calheiros que lhe deu os dois filhos que criou como doméstica na cozinha dos mais favorecidos da sorte.

O grupo de Augusto vinha de Recife e passou por Rio Largo também rumo ao Rio. O grupo tinha por nome Turunas da Mauricéia. Fez enorme sucesso.

Cantava bem o diabo do homem, valsas, emboladas, canções dolentes e alegres… uma beleza. Sei disso por causa dos discos do meu avô Agérico.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

Memórias da Vovó Dina – parte 18

Chegou em Rio Largo em 24.11.24, no trem da manhã e logo foi à vendola que meu avô havia adquirido, a qual tinha o pomposo nome de Fortaleza. Ficava numa das partes mais feias e pobres da cidade que, como cidade, não era lá grande coisa.

Lá me encontrou amontoando moedas de cobre em cima do balcão. Meu avô não gostava que eu mexesse em dinheiro por causa da sujeira e também pelo mau cheiro que tem o cobre.

A primeira impressão que tive dele é que era um menino feio, magro e pálido. O que chamava a atenção eram os olhos grandes e esverdeados com tons de amarelo.

Fomos apresentados, mas estou quase certa que não nos falamos. Se eu era acanhada com estranhos, ele era muito mais. Quanto mais que estava complemente fora do seu ambiente. Já havia completado 10 anos em maio e eu 9 em fevereiro. Devia ser do meu tamanho, mas era mais magro do que eu. Cabelos louros abundantes, ninguém diria que um dia ficaria careca.

Fernandina, ao centro, está ao lado de Anthenor. Magnólia à direita (vovó Dina não se lembra quem é a garota à esquerda) - Rio Largo, anos 30.

Fomos os maiores amigos de brinquedos. Ensinou-me a pescar e empinar papagaio (que nunca aprendi). Eu era o seu mundo, mas fui tão burra que só consegui entender isto muitos anos depois.

Foi matriculado na Escola Pública, cuja professora, D. Adelaide Loureira, encantou-se com a inteligência do aluno. Infelizmente só estudou um ano. O resto foi por sua própria conta. Logo precisou trabalhar porque a míngua em casa do meu avô não era fácil de aturar.

Ninguém se interessou pelo futuro do moço, ávido de aprender. Nem mesmo meu pai, que sabia o quanto era duro aprender sozinho.

O amor que se aninhou no coração do menino triste e tímido, que não fui capaz de entender, foi levado até minha mãe, como se aquilo o consolasse da indiferença da filha, que se tornou a sua razão de viver.

Filho de pais pobres, analfabetos, vivendo como trabalhador do campo em fazenda alheia, mal tinham para se alimentar decentemente.

Família numerosa, a única que tinha alguma alegria para conversar e viver era a mãe, d. Joaninha. Quando a conheci, já a via velha, sofrida. Às vezes, quando lhe dava na telha, deixava os filhos entregues ao marido e ia passear, rever os amigos e parentes. Passava uma semana e voltava para continuar a labuta.

A minha sogra casou a primeira vez aos 13 anos, com um homem duns 30. O pai dela, Sr. Francisco Bezerra, forçou-a a esse casamento não sei se por ter menos uma boca para alimentar, não sei se por não gostar da filha ou por ambição. Ele dizia que o tal era rico e com isso destinou a criança a um casamento criminoso. Ficou viúva aos 15 anos com dois filhos: João e Alice. O pobre infeliz era hidrópico – e toda a herança que deixou foi um cavalo, uma casa e um pedaço de terra. O velho Francisco vendeu tudo e enfiou o dinheiro no bolso, para não dizer em outro lugar. Moravam todos na cidade de Capela (Al), para onde ele tornou a trazer a filha e os netos. Ela, para sustentar os filhos, lavava e passava para fora.

Aos 17 anos, reencontrou o Joaquim (a quem ela já conhecia e era apaixonada desde antes do primeiro casamento) e se casaram. Levou consigo a menina Alice. João, um parente levou para o Rio de Janeiro e ela não mais teve notícia dele. O primeiro filho do Sr. Joaquim logo chegou. Artur, seguido de Dionília (mãe do Calheiros). Os outros, nem o próprio Anthenor sabe a sequência. Seriam 11 com mais dois do primeiro matrimônio, o martírio da minha sogra estava completado com as necessidades da vida, a braveza do marido e o trabalho rude de quem vive na roça.

O Anthenor devia ser o terceiro ou quarto Filho. Tinha mais Maria, Sebastiana e Benedito. Francine, que foi para Bebedouro estudar e ficou uns anos em casa de uma irmã do pai, tia Zefinha, uma das melhores mulheres que conheci em minha vida. Mulher simples, tinha adoração pelos sobrinhos e na sua pobreza acolhia com carinho a quantos a procuravam. Dionília e Joaquim (este era filho de uma outra irmã, Tereza), estudavam em Maceió e moravam com ela, em Bebedouro. Ele tinha aulas no Orfanato São Domingos e ela conseguiu frequentar até o primeiro ano do Normal. Largou tudo e fugiu, apesar dos conselhos, com um Calheiros de má fama. Preguiçoso, vagabundo e como bom Calheiros que era, briguento.

Tinha uns 15 anos quando fugiu. Tia Zefinha e o marido foram buscá-la e fizeram o casamento. Teve um menino, José, e não suportando os maus tratos, fugiu, largou marido e filho e voltou para a casa da mãe. É isso que o nosso sobrinho Calheiros não consegue perdoar. A mãe tê-lo abandonado com o pai. Graças a Deus, o menino José encontrou alguém que lhe serviu de mãe. Trabalhava na fábrica de Rio Largo (Fábrica Progresso) e sustentava os dois até a idade que o José Calheiros pudesse também trabalhar e, consequentemente, ajudar um pouco. Depois foi ser aprendiz de alfaiate e muito depois, foi para o Banco do Brasil em Guaratinguetá, sob os auspícios do tio Anthenor.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

Memórias da Vovó Dina – parte 17

Anthenor com 16 anos, Rio Largo, 1930

O Anthenor apareceu em nossa vida quando fiz os meus 9 anos.

Meu avô paterno, Manuel Gomes foi passar uns tempos (não sei quando) na fazenda de um amigo da família – Fazenda “Bernardo Vieira” – que era localizada no município de Murici. Era próxima ao povoado de Branquinha, onde moravam as mais importantes famílias daquelas bandas. O povoado era tão importante que tinha parada de trem. A família Maia Gomes mandava e desmandava não só em todo o município, como nos que moravam nele.

O conhecimento da família do meu avô com eles era que todos eram nascidos e criados na “bela” cidade de Murici. Minha avó Januária era a maior defensora da tal família. A mulher do maioral, coronel José Maia Gomes, d. Eudóxia (se não me falha a memória, o nome era esse), era comadre da minha avó, pois um dos filhos dela foi amamentado por Januária e se tornou então irmão de leite do tio Getúlio. O negócio é meio complicado e meio bobo também, mas no interior isso era levado muitíssimo a sério. Tornam-se parentes pelo leite, não pelo sangue. O tal chamava minha avó de mamãe e ela tinha um enorme orgulho disso. Eu o conheci e sempre o achei um bom homem.

Noemia, 1927

Mas voltemos ao meu avô, à Fazenda Bernardo Vieira e consequentemente ao nosso amado Anthenor.

O dono da referida fazenda, Sr. Caetano José dos Santos, era um mulato baixo, de rosto meio bexigoso, mais para gordo. Tratava os filhos como se fossem escravos: Noemia, Edília e José. Edília era casada com o chefe da Estação da estrada de ferro de Murici. Ela foi a mais sabida dos três, pois se viu livre do jugo do pai muito cedo. O pai era mulato, mas os filhos eram quase brancos, do cabelo ruim. O José do Caetano, como o filho era conhecido, tinha o cabelo avermelhado e era pau pra toda obra. Comprava gado, vendia, tirava leite de manhã, cuidava da lavoura, amansava cavalos, o diabo a quatro. Só não tinha direito de pegar em um tostão. Apesar da rudeza do Caetano com os filhos, ele nos recebia como se fôssemos uns príncipes. Eu particularmente adorava ficar na Fazenda comendo a comida gostosa da dindinha Noemia. Minha mãe a convidou para minha madrinha de crisma, coisa que nunca aconteceu. Por coincidência, ela era madrinha de batismo de Anthenor. E nós a chamávamos orgulhosamente de dindinha Noemia. Ela, Noemia, era a dona da casa, mas de vez em quando levava uns sopapos do pai.

Na época da ida do meu avô para lá, o Caetano velho montou uma pequena mercearia (chamavam barracão), para vender e explorar os infelizes que trabalhavam para ele e outros de toda aquela redondeza. O velho avô praticamente passava os dias sem nada fazer, daí então a resolução de ensinar a ler aos filhos dos trabalhadores da fazenda e alguns mais que quisessem. O pobre homem, meu avô, era simplesmente alfabetizado, mas o destino se aproveitou do “professorado” para existir um motivo na ida (ou vinda?) do futuro pai de vocês para Rio Largo.

Meu avô, creio que enfarado da vida semiparada da roça, resolveu voltar para casa, se reunir à família, que creio, não lhe dizia muito ao coração, principalmente a braveza da minha avó. E, ao se preparar para tal, perguntou ao seu mais aplicado aluno, isto é, ao Anthenor, se gostaria de viajar com ele para estudar em Rio Largo. Ele aceitou mas… e o pai, e a mãe? O avô prometeu falar com a mãe e o fez. Por ela, tudo bem. Restava o “seu” Joaquim. Ignorante como ele só, o pobre homem não atinou com a vantagem da ida do filho para a cidade. O queria para ajudá-lo no plantio, no cabo da enxada. Tinha o mais velho, o Artur, mas na verdade quanto mais mãos tivesse, melhor. Disse que não tinha filho para ser “espoleta”de ninguém. “Espoleta”, no dizer deles, significava criado, empregado de casa.

Seguiu o “seu” Manuel prometendo a D. Joaninha que logo mandaria Ester, a filha, para resolver o assunto do rapazinho.

D. Joaninha, zangada com o marido, foi falar com o dono da Fazenda, no caso o “seu” Caetano. Caetano chamou o “turrão” e passou-lhe uma descompostura. Abriu os olhos do pobre homem, já que o orgulho não lhe dava ensejo para tal milagre. Disse entre outras coisas que o menino iria ser gente, estudar e trabalhar para mais tarde ajudá-los. Que o Anthenor não tinha corpo (estrutura) para o cabo da enxada. E foi assim que quando a tia Ester chegou em Bernardo Vieira já estava tudo resolvido. Ela só teve o trabalho de ir ao povoado e comprar roupa e sapatos para a nossa amizade.

E abriu-se um novo Universo para o menino Anthenor, que nada conhecia senão o seu pequeno mundo que se chamava Branquinha, Nicho, Fazenda “Bernardo Vieira”e mais o Riacho Bode Fogoso, às margens do qual ele havia nascido.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

Memórias da Vovó Dina – parte 16

Meu pai era o festeiro da rua do Coqueiro. Não dançava. Só coco ou quadrilha. Nas festas de S. João, de ponta a ponta da rua, aonde a vista alcançava, só se via mastros e fogueiras. Quando chegava a noite era um nunca acabar de fogos de toda a qualidade. Com as fogueiras acesas parecia o dia embelezado por mastros de toda espécie de plantas: mamoeiros, galhos de árvores grandes, palmeiras; fogueiras grandes e pequenas, feitas em barris ou lenha cruzada, bandeirolas de papel de seda enfeitando os mastros e as casas.

Tudo preparado para se dançar, cantar em serenata, comer bolos e doces, soltar fogo chinês, rodinhas coloridas, traque de chumbo, diabinho, buscapé, rojão… a saudade é grande de um tempo que feliz, ou infelizmente, não volta mais.

Meu pai era quem animava tudo isso. Os melhores cocos (dança folclórica alagoana) e quadrilhas eram organizadas por ele, assim como os blocos de Carnaval.

Para nós, crianças, isto era o céu. Era para mim a reunião de tudo que sonhava. Animação, festas, dança, música e gente reunida cantando com vontade de que aquilo não acabasse nunca mais.

Fernandina, com 14/15 anos

A menina quieta, retraída, se transformava quando havia festas, danças, passeios, picnics. O “esquenta mulé”, orquestra de pífanos do “seu” Marcos, animava qualquer festa de santo, cavalhada… e o que inventasse o homem do nordeste para afogar a vida dura e sem graça do dia a dia. A orquestra de pífanos é composta de três a quatro pífanos, uma zabumba, duas caixas, um triângulo e às vezes pratos de metal e reco-reco. Sai às ruas com uma pessoa (homem de preferência), vestida com uma grande toalha passada de través no busto, cobrindo o braço que carrega a bandeja do Santo. Na bandeja com um pano bordado, flores e o Santo, para receber esmolas para a festa que vai-se iniciar dali a uns quinze dias.

O homem com o Santo ia na frente do “esquenta mulé” coberto com um guarda-sol para, com certeza, não tostar o santinho.

A crendice é um troço que comove quando se recorda um passado feliz, apesar de todas as aperturas. Nas festas de S. Benedito, na praça do mesmo nome, tinha de tudo que os namorados gostam e as crianças adoram. Trivoli, gangorra, balanços em barcos, roda gigante, pipocas, barracas para se jogar a sorte, algodão doce, cocadas brancas e escuras, amendoim cozido, torrado e cru, rolete de cana, caldo de cana, farinha de milho, farinha de castanha de caju, farinha de amendoim. Essas farinhas eram vendidas em saquinhos de papel. Guarda chuvinhas feitos de papel de seda. Um sonho para criança nenhuma botar defeito. As farinhas eram feitas com grãos torrados, pisados no pilão, peneirados em peneira fina. Juntava açúcar, bem misturados, não muito doce e eram postos em saquinhos de papel, coloridos ou não. Uma delícia!

As barracas da sorte tinham espalhadas nas mesas um encerado com os “bichos”do jogo pintados. Com a roleta girando, punha-se a ficha no número ou “bicho”escolhido. E ganhando, escolhia-se o prêmio que estava lá exposto. Tinha coisas lindas. Quando fiquei noiva, o Anthenor arrematou um monte de coisas para nós. Tinha sorte o danado! Continua tendo, graças a Deus!

Meu pai não tinha dinheiro para que eu pudesse me divertir à vontade e comprar coisas que o meu apetite se satisfizesse. Se o dinheiro chegasse, quem sabe eu teria uma indigestão atrás da outra… Essas festas eram anuais e ao meu ver cada ano era melhor que o anterior. Aconteciam os acidentes, mas não dava para desmerecer o brilho nem o valor delas.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

Memórias da Vovó Dina – parte 14

Meu tio, homem bonito, letrado, conversador, namorador, de moral não muito forte, foi depois, pai de 8 filhos. Adorava jogar e não tendo muito o que fazer por força da profissão, andava de um Estado a outro frequentando cassinos. Profissão de militar era e é até agora, um pouco dúbia nas suas atribuições. Que faz um sargento, um tenente, um major, um coronel, um capitão? Somente mandar. Infeliz do soldado e do cabo que lhe cair em desgraça. Dizia ele que não foi feliz como militar. Não acredito muito nisso pois o nosso amigo era muito safado para não se adaptar à vida de caserna. Como disse atrás, ele foi muito moço para o quartel e logo se viu transferido para longes terras. Lá em Santa Catarina logo encontrou quem se apaixonasse pelos seus belos olhos negros. Moreno, cabelos negros, elegante, belas feições. Infelizmente para Natália, o ciúme unido à paixão que nutria pelo Sargento Odolino a fez sofrer demasiado. Aonde ia o sem vergonha deixava duas ou mais namoradas.

Uma ocasião, foi transferido para Sergipe e logo que chegou entrou de namoro firme com a irmã do governador (minha mãe guardava o retrato que ela havia ofertado ao “moço bem comportado”). Natália, sem notícias do “santo esposório”, resolveu ir atrás dele. Assim que chegou em Aracaju perguntando pelo maridinho recebeu de pratinhos a notícia do namoro dele com a irmã do Governador. Terra pequena sabe-se da vida de todo mundo e a dele não fugia à regra. Ela fez um barulho dos diabos e com toda a razão, diga-se de passagem, e voltou no primeiro navio para Florianópolis. Ele foi atrás e até ser perdoado deve ter custado um bocado. Vivia praticamente às expensas da família dela. Silvia, uma irmã dela, foi quem mais os ajudou. Ele viajava e nada deixava em casa. Essas viagens, geralmente para Alagoas, eram para sugar da mãe o pouco que a coitada conseguia economizar.

A vida do meu tio daria um romance bastante depressivo. E no entanto, apesar de tudo isso, todos gostavam muito dele. Alegre, brincalhão, contador de piadas, era a atração das festas em que se apresentasse. A mulher, forçada a suportar as loucuras do marido e a criar como podia os filhos que nasceram da torta união, era a Tataia brava de todos eles.

Para contar mais uma aventura dele, ouçam ou leiam mais esta: estava eu em Belo Horizonte, quando da doença de Anthenor, quando ele foi para aquelas paragens, diz que era para ver a mãe. Hospedou-se em Maceió (a mãe estava em Rio Largo) em nossa casa que estava entregue às minhas tias, Ester e Haydée. Como chegasse todas as noites muito tarde, elas lhe pediram para chegar mais cedo. O trabalho delas era muito intenso, pois eram seis crianças para cuidar, as minhas, que haviam ficado com elas, mais o Juraci. Às 9 horas estavam loucas para se deitarem e o “marvado”chegava lá pelas 10 horas ou mais. Não gostou muito do pedido, pois ele estava de namoro firme com a filha de um médico no bairro do Farol. Nós morávamos no fim da rua 7 de setembro, rua Feliz Recreio, se não me falha a memória, que era o pedacinho da rua que desembocava na Praça Sinimbú. Era, portanto, uma tirada e tanto para o desmiolado “dandy”.

Um belo dia recebeu um telegrama da mulher pedindo urgente a presença do “papai”, pois a filha mais nova havia “fugido” com o namorado. O homem ficou sem saber o que fazer. Saiu zunindo com o telegrama na mão e foi até o Farol se despedir da namorada e dizer-lhe a razão da viagem repentina. Ele chegou dizendo às tias que quase apanha. A moça não sabia que ele era casado. Alegre e feliz levou a vida “flauteando”. A mãe o adorava e minha mãe também. Quanto ao pai e irmãos, não sei dizer. Talvez só houvesse tolerância da parte deles.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)