20/Junho/71 – Paris

O que falta no francês sobra no inglês: amor patriótico de conservação. Londres é uma cidade tão velha quanto Paris, tão histórica quanto a outra, no entanto nota-se a diferença no carinho que um e outro dedicam à sua capital. O francês, durante as duas guerras, entregou sua altivez ao alemão para não ver a sua cidade principal destruída. Teria sido por amor ou para não ter trabalho de reconstruir tudo depois? Estou na segunda versão. Londres sofreu um impacto terrível de guerra. Paris foi entregue de presente aos inimigos. Londres é um exemplo de beleza e conservação, Paris é um exemplo de desleixo e atravancamento.

Em sujeira, abandono e fachadas sujas, Paris só tem uma rival: Roma. Elas se digladiam para ver quem vence. Sujeira de ruas, frentes de casas, desleixos nos jardins, hotéis feios, mal tratados… sei lá que mais!!!

Paris

Paris e Roma vivem em função do turista, não para o turista. Elas tratam o visitante com casca e tudo. O turista é turista, um curioso visto por cima do muro, nascido apenas para deixar seu precioso dinheiro. Dizem agora que até as lojas já atendem bem. Há uns seis anos atrás nem nas lojas éramos bem atendidos.

Enquanto o homem não tiver respeito mútuo, não adiantam comentários, se não existe a educação necessária.

Paris é bonita, inigualável. Precisaríamos de uma semana, no mínimo, para conhecer o Museu do Louvre. É o único no mundo e simplesmente fantástico. Não se descreve o museu, vê-se. Eu disse mal quando escrevi que precisaríamos de uma semana, é preciso uma semana só para vê-lo; conhecer tudo, só morando em Paris. Aquelas divisões arqueológicas, pinturas, esculturas e etc… são salões e mais salões de cada coisa citada. Mal vimos as pinturas. A Lourdes queria matar o desejo de conhecer a Monalisa, de Leonardo da Vinci, e praticamente foi o que vimos. Tanta coisa bonita que nos legou o grande pintor, mas o povo tem particular atração por aquela feia mulher. Gosto não se discute. Seria a última pintura que eu traria para minha casa.

Antes visitamos a afamada Torre Eiffel. Vale a fama pelo tamanho e a finalidade a que se propuseram: ver Paris do alto. Como mostrengo é bem regular, de perto então é feíssima. Paris, ao alto da Torre, é um espetáculo. O Sena então se contempla com admiração. A Torre domina a cidade em toda a sua imponência de ambas as partes. Não vale a pena dizer o que é a fulana. Beleza, ou melhor, boa impressão só de longe; de perto, dentro dela, é só ferro; os tais elevadores cabem 35 pessoas de cada vez. Vocês podem imaginar o aglomerado de gente e línguas. A exploração em comércio e a “delicadeza” dos guardas, dá vontade de voltar do meio do caminho e mandar às favas as visitas. E o frio então, nem é bom falar…!!

Notre Dame – como tudo que é velho tem a sua história. Estavam a celebrar uma missa cantada (era domingo) e a solenidade tocava o sentimento, apesar de não haver simplicidade no ato. Existe muito ouro – fortunas imensas foram gastas nesses monumentos e isso nos dá (pelo menos a mim) uma tristeza muito funda, por ver quanto se explorou antes para gáudio dos poderosos. Ainda hoje se faz isso, é verdade, mas o povo não vai tanto na conversa de dar para salvar a alma.

Muito grande e bonita, teríamos material para umas duas horas. Estivemos lá em menos de uma hora e fomos almoçar. Do hotel, seguimos para a Igreja da Madeleine. Se tem igreja que nos dê impressão de paz e recolhimento, há de ser esta. No pórtico de entrada, tem uma cena de Jesus, em mármore, se apresentando à Madalena na ressurreição. No altar principal, a representação da coroação da Santa. São poucos os altares e todos com imagens esculpidas em mármore branco. Uma de Joana D’Arc enfeita um dos lados. Ao contrário de Notre Dame, que é riquíssima e escura, esta é clara e simples. Em estilo romano e, no exterior, enfeitando as laterais, em uns dez nichos de cada lado, tem esculturas dos profetas bíblicos em tamanho natural, só que tudo é sujo como o nariz do parisiense, dentro é limpa, ainda bem, porque de fora faz vergonha.

Andamos tanto no Museu que, ao voltarmos, tomei uma Cibalena. Todo o corpo me doía e o seu pai não estava melhor. O nosso jantar foi um convite do Dr. Bruneau, um amigo do Antenor. O amigo nos apanhou no hotel às 19h, nos levou ao apartamento dele, onde sua senhora nos esperava com aperitivos (champanhe e whisky) e salgadinhos, incluindo castanhas do Brasil. Eram quase 22h quando saímos para jantar no Restaurante “Le Coeur du Boeuf” (Coração de Boi). Delicioso jantar e companhias. A madame Bruneau é uma simpatia, não fala português, mas nem por isso ela deixou de nos dispensar a melhor de suas atenções. Depois do jantar começou um show muito bom, com comediantes, ilusionistas e cantores. Chegamos ao hotel mais ou menos 1h da manhã.

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Malmo, Suécia

9h30 – saída para Malmo – Suécia. Vamos de ônibus turístico, pois fica mais cômodo por não precisarmos tomar hotel. Estaremos de volta pelas 19h. O danado do guia só fala inglês e francês. Só o Waldemar e o Sr. Diamantino entendiam. A Lourdes pesca alguma coisa do inglês, mas como diz seu pai: tudo é farra…

É interessante notar um fator estranho e que desvanece o europeu destes lados, isto é, Suíça, Alemanha, Dinamarca e toda a Escandinávia: o nível de vida aqui é muito alto, mas apesar disso não existe miséria, como nos Estados Unidos, por exemplo. Aqui se trabalha e estuda, se trabalha e é dona de casa. Todos têm sua vida própria e acredito que gozem de fartura, embora a vida seja cara. Mendigos não vimos nenhum, mesmo na Itália, onde o povo comum é mais mal trajado em comparação aos outros que vimos até aqui, mesmo assim, como na Espanha até os cegos trabalham. Só na Itália tem mendigos realmente, mas não são maltrapilhos.

Quando chegaremos a esta altura? Pois com toda nossa malandragem, vamos demorar um pouco, não??

Para a travessia fronteira à fronteira tomamos um barco que nos engoliu com dois ônibus e tudo, à moda da baleia que papou o Jonas bíblico ou o Pinocchio, como queiram. O mar está manso mas não existe sol, portanto não há beleza.

Desembarcamos às 11h mais ou menos em Malmo, que é das poucas cidades que agrada logo que se vê. Até a entrada atrai nossos olhos desprevenidos. Os edifícios quase todos do mesmo tamanho, de quatro a dez andares, com varandas floridas, mas largas, com caminhos para pedestres (calçadas), bicicletas (beira da mesma) e automóveis.

Igreja Católica em Malmo, Suécia. Arquiteto: Hans Westman (1960).

Vimos uma moderna Igreja Católica, que aliás existem duas nessa terra de luteranos, e agora estão a fotografar um monumento sui-generis em frente ao teatro. Esculpidas em bronze, várias figuras conhecidas em teatro, desde Charles Chaplin até Hamlet. Sobre um pedestal de mármore figuras em tamanho natural das sete artes e encimando as figuras que me refere acima, cobrindo-as está um repuxo que vai jogar no tanque onde está colocado o pedestal. O efeito atinge o máximo em beleza.

“Monumento sui-generis em frente ao teatro”

A cidade tem bosques enormes, lagos e jardins bonitos e bem cuidados. O verde impera em toda a belíssima cidade que faz parte, orgulhosamente, do reinado de Gustavo Adolfo.

Almoçamos no hotel onde teríamos que nos hospedar, logo depois fomos ao banheiro, Lourdes e eu, mas quem disse que conseguimos entrar? Estava batendo chifre lá dentro, tentamos uma segunda vez, sem resultado, por fim deixamos para mais próximo da saída.

Andei um pouco sozinha e voltei lá, estava quase vazio. Safa!! Mulher quando se junta em toilette é fogo… Estou sozinha no ônibus, os outros estão dando um passeio, pois está chuviscando e estou tossindo muito; chega o que recebi de vento ontem no Tívoli.

Tem uma senhora no ônibus que não pode descer escada, creio sofrer de dores nas pernas. Ela pede auxílio ou lhe dão voluntariamente, deve orçar pelos 60 e alguma coisa e está viajando só. Lembrei de uma americana velha que encontramos no hotel em Roma. Alvoraçada, extrovertida, extravagantemente vestida, parecia uma cigana rica, separada do seu bando, correndo mundo para gastar o que havia conseguido amealhar. No fim descobriu que era americana e, pelo jeito, milionária. A tínhamos visto à noite, brigando com o rapaz da portaria, porque queria contar todos os documentos e dinheiro que ia mandar guardar no cofre do hotel e contava e tornava a contar. O pobre moço ficou mais velho que ela, só em aturá-la. Pela manhã, na hora do café, estava no restaurante a tirar retrato de tudo quanto era garçom e, se não quisessem, veriam o que ia acontecer!!!! Juntou à força um bocado deles (cinco ou seis) e bateu a chapa. Sobrou um que foi reclamar dela, não teve dúvida, colocou o rapaz lá no canto e tirou retrato dele sozinho. Quando terminou, abraçou-os e beijou a todos. Juntou as suas coisas (que não eram poucas) entre papéis, badulaques e porcariada louca, e foi-se. Quando olhamos para a cadeira, ela havia deixado uma luva, corri para entregá-la e quase não a alcanço pois parecia o furacão da Flórida, com rabo e tudo.

A chuva aumentou e vamos saindo de perto do hotel exatamente às 14h. Aqui perto fica o cemitério, não tem muro, apenas uma grade o separa da rua e tem alameda para passeio, saindo livremente da calçada.

Alcançamos a cidade de Lund, descemos para visitar a Catedral, mas eu fiquei, estava chovendo, o que não é mole. Não sei quantos quilômetros dista de Malmo, mas é muito perto, é menor que a outra, mas é bem bonitinha.

Ganhei, comprado em Malmo, um viking de madeira do tamanho de um dedo. O coitado tem mais nariz e cornos do que outra coisa, faz dó de tão feio, mas é engraçadinho a valer.

O que mais atrai em Lund é um relógio construído em 1380, astronômico, foi destruído em 1837 e reconstruído por um arquiteto dinamarquês em 1923. Não o vi mas todos foram unânimes em dizer que é um encanto único.

Seguimos viagem por outras plagas e atingimos uma aldeia que não conseguimos guardar o nome de tão difícil é o danado.

A maior reserva florestal do país é de propriedade particular. São 40 mil acres de terra, banhadas por lagos cheios de campos cultivados, floresta amazônica portentosa. Estou brincando. O panorama é belíssimo e é pena a chuva ter estragado em parte o nosso passeio. O dono das terras habita em castelo no meio da floresta. Vê-se de longe e se tem a vontade de ir ver de perto como habitavam as damas e cavalheiros de séculos passados. Parece um conto de fadas.

Atingimos a aldeia de Svaneholm. O Castelo que é hoje transformado em Museu, tem coisas valiosíssimas. Lá saltamos e tomamos a mangirioba, que chamam de café nesta parte do mundo. Se não deitar um pouco de creme, ninguém consegue tomá-lo. Café bem feito, gostoso realmente, melhor talvez que o nosso, é o italiano, aquele sim paga a pena tomar.

Amanhã estaremos de volta a Hamburgo. O passeio foi magnífico, só que a chuva destruiu em parte o prazer.

03/Junho/71 – Zurich, Suíça

9 horas italianas de verão, são 4h da madrugada no Brasil.

Sairemos daqui a pouco para Zurich, Suíça. Milão está com uma temperatura formidável para brasileiro. Pelo menos para mim. Não sei lá como estará.

Gostei da Itália, com restrições. Não é somente o Etna que é o vulcão nem o Vesúvio. É toda a Itália. Isto aqui está em ponto de ebulição. A qualquer hora um engraçadinho jogará uma acha de lenha no braseiro… e lá se vai a aparência de paz de águas abaixo. Permita a Deus que não.

Tenho uma tristeza; não levo uma estatuinha de Davi, feita por Michelangelo – uma cópia, é verdade, mas muito bela.

Chiasso – última cidade italiana na fronteira com a Suíça. Ela é parte italiana e parte suíça. Mais suíça que italiana. A hora aqui é uma hora mais cedo. São 09h30 da manhã.

Alpes Suíços

Lago de Como / Itália – Depois de Chiasso, Lugano, com seu lindo Lago. Estrada acidentada também. Túneis. Cortada de pequenas propriedades, campos cultivados, vilas e vales, lagos belíssimos, florestas em suas montanhas. Estamos sempre subindo em demanda de San Gothardo. Ao lado esquerdo estão os Alpes Suíços com suas neves eternas. Não temos boa visão por causa da neblina, mas mesmo assim é um espetáculo fabuloso. Lagos congelados, a neve endurecida encobrindo os montes que margeiam a estrada. Frio de rachar, mas a beleza é de encantar. Cascatas aos montes embelezando mais ainda a paisagem, se é possível.

Alpes Suíços

Almoçamos muito em num restaurante suíço, de estrada. Comida ótima. Hotelzinho lindo. E por Deus que o rapaz entendia italiano, porque de inglês ele não “pescava” nada. Não dá para escrever o nome. Em todo o caso vai assim: Hotel Weisses Rossli. Entenderam? Eu não.

A parte mais alta que alcançamos nos Alpes Suíços (estrada), em San Gothardo, tem 2.200 metros de altitude.

Lago Vierwaldstattirsee – Existe mais água em lagos na Suíça do que nas securas do estados que sofrem a seca do nordeste. Se lá houvesse a metade destas águas, o Brasil resolveria os seus problemas.

Até agora contei doze túneis, sem contar as coberturas de lajes em cimento armado no sopé das montanhas para proteção das avalanches.

Lagos: Lauerz (pequeno), Zugersce (grande) – beirando o lago (25 km) rodaremos em direção a Zurich. As terras aqui são contadas e medidas, como em toda parte na Europa. Pasto para o vadio gado, hortas, jardins e florestas. Os lagos devem ser para o suíço uma beleza e uma maldição. Para um país tão pequeno a natureza devia ser menos madrasta.

A cidade de Zug, à margem do Lago Zugerser, é uma coisinha linda.

Zurich – grande, ampla, moderna.

As cidades de influência germânicas se diferenciam grandemente das latinas por vários modos. Um deles, bem nítido, é o silêncio. Não se ouve berros, buzinas, mercadorias expostas, vendedores de ruas atravancando as calçadas, limpeza máxima. O tempo está magnífico.

Lago de Zurich

Acabamos de ver o lago que banha a cidade e lhe tem o nome. Não haveria nunca problemas de poluição de ar. Tanta árvore, tanta água, plantas floridas.

Os bondes são quilométrico. Eles tem dois carros e mais os reboques. Grandes e bonitos com suas pinturas azuis.

Demos uma volta ontem na cidade, à noite, e vimos belas coisas, caríssimas aliás.

Mistérios do álbum de viagem

A maior parte dos slides que estavam nas caixas da Kodak traziam informações sobre o local onde as fotos foram feitas. Algumas vezes com mais detalhes, outras com dados mais gerais, como o nome da cidade ou do país. Durante a pesquisa, me ajudou também que os slides estivessem quase na ordem correta. Era possível, em muitos casos, através dos números no alto do canto esquerdo, identificar sequências completas de um carrete de filme. Mas quase sempre faltavam fotos aqui, sobravam fotos ali. E havia aquelas que não sabia onde encaixar, dado que não traziam identificação e claramente estavam fora de ordem.

Erecteion,Templo grego em Atenas

Depois de ordenar os slides, até o limite das possibilidades, escaneei todo o material para, finalmente, ver as imagens com boa definição. Identificava uma imagem depois da outra com ajuda do diário da vó e com o milagroso Google Images. Através da busca por internet fui capaz de rastrear nomes de praias que não estavam no texto da vó. E quando chegava uma foto solta que eu não tinha ideia onde inserir dentro do itinerário da viagem, tentava procurar trechos do diário que descrevessem um lugar como aquele.

Acrópoles, Atenas, Grécia (foto do Google Images)

Durante esse processo, algo curioso aconteceu. No diário ela comentava algumas visitas a ruínas. Na Itália e em Portugal, em especial. Porém, quando eu ia para o Google Images e procurava ruínas nas cidades visitadas por eles, não encontrava nada parecido com essas três fotos que publico aqui. Devo confessar que voltei a fazer essa busca algumas vezes até que encontrei essas fotografias de Erecteion, um templo grego em Atenas e descobri que as tais fotografias que estavam nos álbuns foram feitas na Grécia. Porém o diário não menciona nenhuma visita à Grécia. Alguém pode me explicar isso?

Ruínas de Acrópoles, em Atenas, Grécia.

Ruína de Acrópoles, Atenas.

Turim, Itália

Estamos na estação esperando o trem para Turim. Chegamos atrasados e temos que esperar uma hora para o trem.

A causa foi o Sr. Antenor – tivemos que voltar o taxi pois ele havia esquecido 20 mil liras no quarto do hotel, na mesa de cabeceira.

Assim como chegamos atrasados para a saída, de Turim saímos mais atrasados ainda. O Waldemar quis que tomássemos um expresso e o danado chegou com 49 minutos de atraso. Em compensação passamos uma tarde agradabilíssima em casa do amigo Corti. Fomos para a casa dele de taxi e lá tiramos várias fotos, vimos todo o terreno em volta, a piscina, o arvoredo e as lindas roseiras. Não sabemos o que apreciamos mais, se a casa, o jardim, a cidade, o jantar ou os donos da casa. Só as galerias da cidade valem um romance. A casa, se assim se pode chamar, vale um tesouro. É uma moldura para a sua dona.

Falando em visita, esqueci de me referir a uma que fizemos em Verona aos amigos do Waldemar. Anajas, você que é louca por italianos iria adorar aquela gente. É composta de quatro pessoas: D. Léa, a nora Luciana, o filho Ezio e a netinha Alexandra.

Estivemos lá até às 23h30. Depois o moço foi nos levar ao hotel. Chegou um irmão da D. Léa, Napoleão, outra simpatia.

Pena que nós não falamos italiano para nos entendermos melhor. Mesmo assim ainda ganhamos presentes. Tomamos uns vinhos maravilhosos. É o que mais temos feito por aqui. Vinho, vinho e mais vinho! Arre lá com tanto vinho. Quem menos toma sou eu.

Apesar do sabor agradabilíssimo tenho medo de ficar tonta. Ficar fora de mim nunca foi o meu forte, pois quero sempre ter o chão firme sob os pés.

Milão, Itália

Milão à vista – vamos ver se é tão “boa” quanto diz o Waldemar.

Praça da Catedral de Milão

Milão agrada ao mais exigente freguês e o mais exigente arquiteto também. É séria pela sua idade e bonita pelos seus monumentos, largas avenidas e jardins. Ela tem uma riqueza imensa na beleza das suas galerias. Elas são diferentes de qualquer galeria que vimos até hoje. Ficam perto da Catedral, que qualquer outra ao seu lado perde o brilho que possuir. Sei que as descrições que faço se tornam monótonas pela repetição dos sinônimos, verbos e etc. Mas sei que vocês compreenderão a minha boa vontade em transmitir um pouco daquilo que os nossos olhos viram e admiraram. E nem é outra a pretensão.

Tenho a impressão que Milão, apesar de também ser velha, foi feita por gente de visão concebida para o futuro.

Para azar nosso hoje é feriado: Proclamação da República Italiana, 2 de junho de 1946. Resultado – tudo fechado.

A maioria das ruas são calçadas com pedras grandes e rosadas. E para não fugir muito ao progresso, prenderam-nas entre si, com asfalto.

Catedral de Milão

Castelo Di Sforza – residência de nobres. O pátio de entrada, antes do fosso para o portão principal, dá três casas da nossa, com quintal e tudo. Em lugar de água tem muitos gatos e gatinhos. Gatos e filhotes encontramos aos montes  nessas ruínas.

Não fosse assim, os ratos e gabirus acabariam com o resto que existe de ruínas. Se eu soubesse disso teria trazido a Min. Será que ela aprenderia italiano?

Uma parte do Castelo é museu. Tem uma sala somente de afrescos de Leonardo da Vinci. São originais. Estudos de nus masculinos e femininos. Rostos, mãos – não tem comparação. A estátua inacabada de Michelangelo – “Piedade ou Pietá”. Artes góticas e romanas.

Jardim Zoológico – É mais um Parque Infantil que zoológico. Tem poucos animais, um elefante com filhotes – sabidos para burro. Dão comida e dinheiro – comida eles comem, dinheiro eles dão ao tratador, duas girafas, um hipopótamo, duas lhamas, um camelo, flamingos, macacos, aves, bichos bravos e crianças de todos os tamanhos, até nós.

01/Junho/71 – Verona, Itália

Saída para Verona às 9h.

Gostei de Verona, apesar de tão velha quanto qualquer outra cidade da Itália, é também alegre e bonita como Florença, por exemplo. Creio que como Veneza não existe. Ela é única no mundo. Quem compara Recife (capital de Pernambuco) ou qualquer outra cidade do mundo com Veneza, é porque não a conhece.

Coliseu de Verona

Verona tem um Coliseu, ou Arena, como aqui é chamada. Só que tiveram o bom senso de aproveitá-lo para auditório. Apresentam óperas durante a temporada de verão. Está em reforma, ou conserto, para o começo dos espetáculos.

Deve ficar regurgitando de gente de todas as partes da Europa. Disse-nos uma senhora brasileira que de junho em diante esta parte da Itália (norte) fica de não poder andar nas ruas (especialmente em Veneza) e nem pousada em hotéis ou pensões. Isso vai nesse ritmo até outubro. Só que o francês, o espanhol de Madri e o italiano deviam tratar com maior deferência os visitantes que aqui veem deixar suas economias.

Estamos nos dirigindo para o Lago de Garda, em Verona.

Não deu para vê-lo direito pois a estrada está em conserto. Mas é muito bonito. Para se ter uma ideia melhor se deveria ter mais de uma hora. A neblina também nos prejudicou a visão.

Abre-se aqui um parênteses

Seu pai tem razão em lhes recomendar para estudar línguas. Um simples garçom de qualquer bar, vendedor de bugigangas das ruas, ascensoristas, porteiros de hotel, guias de qualquer local e para qualquer coisa – falam no mínimo duas línguas, além da sua.

Somente saindo de casa, como nós agora, é que sentimos a necessidade da falar pelo menos o inglês, que de um modo geral é a única. O espanhol quebra um “grande galho” também e por fim o francês.

Outra coisa que faz falta são os conhecimentos gerais. Temos que saber o mais que pudermos, caso contrário não teremos espírito de apreciação.

Quando chegar a nossa ocasião que veremos quanto nos custará a preguiça natural do brasileiro. A nossa ocasião, digo, de recebermos o turista. Como o brasileiro tem o maldito costume de deixar tudo para a última hora, ele há de pensar que isso também pode ser feito às pessoas. E não pensem que por cá não existe o analfabeto, o ignorante, o burro. Existe sim. Mas são absorvidos pela maioria que compreende a necessidade de saber para viver.

Que a nossa experiência sirva de lição para os que estão começando agora. Os velhos também estão incluídos, pois a vida pertence a todos, todos são filhos do mesmo Deus.