31/Maio/71 – Veneza, Itália

Saímos de Florença às 8h30 e chegamos em Veneza às 11h40.

Demos uma andada pela cidade. Tem uma grande vantagem sobre qualquer outra do mundo: não existem automóveis. Na entrada da cidade sim, interiormente, nem um pra remédio. É alegre, com seus canais cheios de barco a motor, ônibus a motor, taxi idem. Mercadoria de toda espécie também em barco a motor. As gôndolas é que são a remo. Tem coisas para vender que… haja liras. Objetos de murano, de uma beleza que a gente tem pena não poder levar. Não somente vasos, mas palhaços, bonecas, gôndolas e um sem número de coisas.

A minha mãe tinha uma vontade louca de conhecer Veneza. Chegou a dizer que quando morresse seria a sua primeira visita. Será que ela fez isso? Gostaria de ter uma certeza da sua presença. Sei que não terei, por isso vou continuar.

Acabamos de almoçar numa Trattoria. É uma das muitas que aqui existem. Esta aqui chama: Trattoria Al Ponte. O nome é forçado pela sua situação de ser em frente a uma das muitas pontes que aqui tem.

É um sobe e desce que arrebenta qualquer cristão. Mesmo sem ser cristão não aguenta muito.

Hoje dormiremos em Verona e amanhã em Milão.

Voltamos ao carro por água, num ônibus apinhado de gente. Gostei da viagem. Felizmente não andamos de gôndola pois estava chovendo e as águas estavam muito agitadas.

Igreja de San Marco

A Igreja de São Marco é bonita de fato. O Palácio dos Doges é uma continuação dela. Aquilo lá é imenso. Por isso que nunca vi uma foto com o conjunto completo. Também por dentro a Catedral é muito bonita, toda marchetada em ouro. As pinturas não sei quem fez, mas formam com o ouro como se estivessem modeladas por ele, ou melhor, emolduradas. Para tirar fotos só com “flash”, que seu pai não tem.

Piazza San Marco

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Mapa Itália

Mapa do itinerário da viagem na Itália (clique na imagem para ampliar)

Mais detalhes do mapa aqui.

30/Maio/71 – Florença, Itália

Saímos de Napoli às 8h30h. Estamos indo para Florença ou Firenze (em italiano), de onde iremos para Veneza e depois Verona, onde dormiremos.

Dormiremos hoje em Florença e amanhã em Verona, terra de Romeu e Julieta. Em seguida iremos a Milão e Turim.

Chegamos aqui eram umas 15h30. Fomos dar uma vista d’olhos na cidade, que é grande e bonita. Velha também.

O que não é velho na Itália? Estivemos em uma Igreja (Catedral ou Duomo). Linda por fora, toda em azulejos. Por dentro é simplesmente feia e escura. Bonito é o Batistério. É um conjunto como o de Pisa. Igreja, Batistério e Torre. Só que Pisa, além de ser construída em área bem maior, é bem mais bonita, por dentro e por fora.

As águas do Rio Arno, que banha Florença, romperam o muro que circunda a cidade como proteção, isso há uns dois ou três anos, e quase acabam com a parte de baixo da cidade. Houveram coisas que não puderam recuperar, como por exemplo pinturas. Pelas marcas que ainda existem devem ter subido uns três metros.

De noite, Florença encanta a gente. Na Praça da República, que é a principal no centro comercial, tem, não sei se todas as noites – fui informada que, no verão, são todas as noites – um bar-restaurante que promove orquestra com piano, bateria e saxofone com cantores. As mesas em frente ao restaurante chegam até o meio da rua. O local é cercado e em parte coberto por uma lona.

A auto-estrada da Itália é cortada por túneis. O país por ser muito acidentado pede isso. Tem túneis tão grandes que lá dentro existem quatro ou cinco telefones, como serviço de SOS. Isso em toda a estrada europeia existe. E tem mais: todo túnel ou galeria, como chamam aqui, tem nome.

29/Maio/1971 – Ilha de Capri, Itália

Não sei como Tibério, imperador romano, concebeu a ideia de construir um castelo em tal lugar. Pelo nome, vocês verão que lá só habitava cabras (Capri).

A ilha é enorme, mas só um louco seria capaz de tal – fazer dali uma cidade. As estradas são em oito – digo, em forma de oito, até o cimo da mesma, (da ilha, quero dizer). Infelizmente não vimos a maior atração do local: a Gruta Azul. O mar resolveu encapelar justamente ontem. E da minha parte, lá no fundo do coração, eu estava com medo de embarcar naquelas casquinhas de nozes que são os barcos que levam lá os curiosos. Eu iria satisfeita, mas cheia de medo. Tivemos uma experiência fabulosa: fomos de funicular até o cimo da montanha. É uma sensação sem par. O Waldemar foi único que teve medo. O chão, aos nossos pés, nos dá vontade de pular para ver se não é muito alto.

Tem locais que devem atingir mais de quinze metros, mas tem outros que se formos medir, dão uns cinco metros.

Não são bondinhos, como no Pão de Açúcar, são cadeiras. O mundo está aberto diante de nós e o frio também. O engraçado é que em Barcelona eu não quis ir no de lá e em Capri, se não tivesse ido, teria ficado triste. Durante a subida e a descida, o louco do seu pai tirou um monte de fotos. Ele está feliz como uma criança quando começa a andar. Aliás, todos estamos felizes, apesar das saudades.

Na volta, que gastamos 1h35, o banco parecia que ia virar, de tão forte que estava o mar. Na ida, o tempo estava melhor e o barco era superior; gastamos apenas 35 minutos. Do mar alto avistamos Napoli.

O casario novo subindo a montanha, da beleza da cidade nova e a velha destruída pela guerra. Os edifícios que a guerra quase destruiu, e que não são poucos, estão sendo ocupados pela pobreza (que também não é pequena) até a sua total demolição. Onde vão colocar tanta gente, isso é problema deles, mas que é um grande problema, isso é. O trânsito italiano é barulhento, mal dirigido e sem nexo, igual ao nosso. A diferença para melhor na Itália é que o italiano respeita a vida alheia, ele quase que para o carro para o pedestre passar. No mais, somos irmãos. Não é atoa que o Brasil vive cheio de italianos.

26/Maio – Capela Sistina, Itália

No cinema foi bem montada, melhor que na realidade. Como Museu, não tem igual na Itália. A riqueza em ouro, mármore, pedras preciosas, bronze, cristais, biblioteca, tapetes,… sei lá mais o que! … As paredes forradas de pintura perdem alguma coisa do seu brilho, diante das belezas dos tetos.

Fica-se de pescoço doído de tanto olhar para cima. Aquilo ali é um mundo para se andar. As pessoas que entendem de escultura e pintura se sentiriam no céu. É indescritível tudo que forma a Capela Sistina.

As esculturas ocupam salas e mais salas de obras de artes antigas. Todos os personagens da mitologia – senadores romanos, gladiadores, animais, santos, papas, crianças e ……….. Tudo bem arrumado e catalogado. A maioria tem nas mãos um guia – livro, ou tem um guia a falar para indicar ou mostrar de tudo que lá existe.

Tívoli

Encarrapitado num morro dá a impressão de um presépio.

É realmente uma cidade bonitinha, agradável. O atrativo turístico é um palácio de veraneio dos Reis. Construído há 16 séculos. O local onde foi construído tem o nome de Vila D’Este e o Palácio tem o nome da cidade: Tívoli. Pena que a chuva desmantelou o nosso passeio. O palácio não é grande coisa.

É simplesmente uma casa grande de fazenda, dessas que há aos montes em nossa terra, com a diferença que a única comodidade é a capela dentro de casa. A escada em caracol possui.

O que tem de muito bonito é o Parque, cheio de repuxos, de fontes, tanques enormes como piscinas, regato preparados para a beleza do Parque e a comodidade de suas majestade. Estátuas de várias formas – de gente, animais, fauna, ninfas; completam o conjunto junto com arvores, escadas, rampas e plantas floridas de toda espécie. Mas Santa Clara não queria que fossemos lá e mandou chuva! E na hora que o dilúvio caiu, nós estávamos lá em baixo, na fonte principal. Seu pai tirou uma fotos. Se ficarem como as outras, ainda bem.

Quando voltamos de Tívoli, fomos fazer compras e voltamos para o hotel. Estava tão cansada, que cheguei e me deitei. Jantamos mais ou menos as 20h30 num restaurante perto do hotel.

Saímos de Roma no dia 27 pela manhã, 8h30. Chegamos em Nápoles – 11h45.

Em Nápoles

A hora é hora europeia. Aqui na Itália, ela está adiantada da nossa 5 horas. Ao entrar a primavera acontece assim. Na Espanha o comércio abre as 9h30 (hora local) e na Itália, 8h. Na França é também o mesmo ritmo – 8h ou 9h30. Em Portugal não sei bem, não fizemos compras lá. Só sei que em todos esses lugares que passamos, fecham o comércio às 12 horas, ou seja, ao meio dia, e se abre às 16h, fechando novamente as 20h.

Estação Pompéia

Fizemos uma rápida visita à Pompéia. Rápida porque precisaríamos de um dia todo para uma visita com guia. Pelo livro vocês verão a beleza que o Vesúvio tragou. Tem indicação para Herculano, mas não fomos lá, e a outra cidade destruída é …..

Pompéia

Fomos depois a Sorrento. É uma continuação da Costa Napolitana. Construída sobre as escarpas do mar, é um sonho para o veranista que frequenta estas plagas e para nós que a admiramos. Muito florida e alegre, temos a forte impressão que lá, naquela cidadezinha, todo mundo é feliz.

Sorrento.

Passeio em Capri – saída do barco 11 horas.

25/Maio/71

O Hotel está completamente vazio de empregados. Só estão os três da portaria. Nem camareiras. Quando chegarmos do nosso passeio (como será o passeio não sei, pois chove cântaros), teremos de fazer nossas camas e lavar o banheiro. Pensando melhor, eu devia tê-las feito logo.

A situação da Itália é a mesma do Brasil antes da revolução. Só que o exército é um pouco pior que o nosso. Só sabem se enfeitar. Parecem uns bonequinhos de brinquedo andando pelas ruas de Roma. Nunca vi mais ridículos.

Passeamos ontem pela Via Veneto.

Itália – Roma

26/Maio/71 – Roma

16h15 – Hotel Nord Nuova Roma
Roma é igual a todo grande centro: grande, fumacenta, barulhenta, cheia de gente de toda espécie. A diferença é a riqueza que ela guarda ciosamente entre suas paredes. Vamos vê-las.

Estamos de saída para a nossa visita à Cidade Eterna. Ontem, depois do jantar em um ótimo restaurante (no hotel não pudemos comer, o pessoal de serviço estava de greve), fomos fazer o quilo. Não posso dizer se gostei ou não, pois um ligeiro passeio não chega para isto. A estação ferroviária foi a que mais me agradou. Estou falando apenas as coisas da cidade.

Igreja de Santa Maria Maior – tem duas ou três coisas que nos impressiona pela beleza e imponência. Uma reprodução feita em ouro, sustentado por quatro anjos da Igreja de São Pedro. A estátua genuflexa, em tamanho acima do normal, de um Papa (não sei qual) em mármore, é de uma expressão admirável. Os altares, os tetos, as cenas bíblicas, tudo em mármore, ouro, telas de pintores, tudo bonito demais e muito rico.

Igreja de São João Latrão – A fachada desta Igreja é fabulosa. Na enorme nave existem 12 estátuas que representam os 12 apóstolos a saber: São Pedro, São Paulo, Santo André, São Tomás (ou Tomé), São Jacó Maior (não conheço), São João, São Fillipe, São Jacó Menor, São Mateus, São Bartolomeu, São Tadeu e São Simão.

Não creio que sejam os apóstolos todos, está faltando alguém, de qualquer forma não tira a beleza da alegoria. São 12 belíssimos nichos encimados por cenas da Via Crucis. A Igreja é enorme e segue um ritmo diferente das outras. Internamente está dividida em duas e no exterior dá a impressão de uma Igreja unida a uma enorme casa do seu lado direito. Existem túmulos de vários Papas, entre eles Leão XIII.

Igreja da Escada Santa – é uma alegoria da escada que Jesus subiu no Pretório, para a sua condenação e tem imagens esculpidas por Miguel Arcanjo (aliás em todas elas existem esta riqueza) de beleza incomparável.

Coliseu – um monte de ruínas que lembra o passado ruim de Roma. Se os italianos ou romanos tivessem a ideia de restaurar estas tristes ruínas, quem sabe haveria mais alegria e menos lembranças deprimentes!! Mas o homem de agora, como o de outrora, tem prazer em ver a cena de crimes ou de festas.

Passeamos pelas ruínas do Fórum Romano, fica num alto, ao lado e dominando o Coliseu.

Piazza Venezzia, Roma.

Piazza Venezzia – nela fica o monumento a Vitorio Emmanuel. Sobe-se imponente uma escadaria, deparando-se com uma fachada em grupo de mármore, ladeado por 2 guardas (verdadeiros) onde estão as coroas de flores depositadas em memória de alguém. Dos lados da escadaria tem várias alegorias em bronze e mármore, em cima, dominando toda a fachada, está a estátua equestre do Rei Victório Emmanuel II. De cima, por trás da estátua do rei, depois de subir escadas, temos toda Roma aos nossos pés. Se a Piazza, por um acaso, ficasse vazia de carros e gente seria um espetáculo magnífico. A escadaria para subir não é tão difícil como para descer, ficamos sem joelhos. Safa!!! Por um triz não fico lá em cima de vez. Na entrada existem duas pias. As ruínas das muralhas ainda existem, apertando ainda mais a cidade. Não se pode falar das fontes, das praças dos velhos edifícios cheios de estátuas, das Igrejas… Em frente ao Vaticano está o Castelo de Santo Ângelo, pequeno em sua estrutura, mas deve ser muito bonito lá dentro.

Piazza Venezzia

Vaticano – País autônomo, o Vaticano é lindo. A Praça de São Pedro é, como todos sabem, imensa. Todos os prédios dominam a Praça, cheios de colunas de pedras talhada, redondas e sobrepostas, formando uma verdadeira floresta delas.

Basilica de San Pedro.

Estamos almoçando nas imediações do Vaticano, numa Trattoria que se chama “Grotte di Tuscofo”. Almoçamos muito bem, só o café, dizendo ser do Brasil, estava mais frio que bunda molhada de neném.

Capela de São Pedro – É suntuosa e simples ao mesmo tempo. Nos inspira um respeito religioso tão grande que chega a comover. Os túmulos onde se encontram os Papas falecidos, dá-nos a impressão de majestade. Os altares não têm imagens, são pinturas de célebres artistas, representando cenas bíblicas e vida de Santos. Não podemos, de maneira nenhuma, nem mesmo um letrado, descrever aquilo que acabamos de ver. Tem razão o mundo em se esforçar para ver coisas tão belas. Roma não tem valor algum diante do Vaticano e das reminiscências guardadas em seu coração italiano. É deslumbrante!!

Basilica de San Pedro.

Piazza de Espanha – só o sorvete valeu. Escolhido pelo Waldemar, na sua mais trágica ignorância e o parafuso que o Sr. Diamantino fez para lá chegar. Mas como diz o seu pai – mais vale a farra!!!

Villa Borghese – bonita e gostosa com o seu parque gramado. Não entramos, passamos carro.

O trânsito em Roma constitui uma dor de cabeça para quem nele se aventura, mas para o nosso guia é apenas uma corridinha ao guarda… e está resolvido.

Ele enfim encontrou a Fonte de Trevi – Fontana di Trevi – Suja como o diabo, mas bela como sempre.

Fundada por Clemente XII no ano de 1735. Não deu para saber a história que está no frontispício pois essa inscrições são escritas em latim. Se eu não sei outras línguas, quanto mais latim!

Fonte de Trevi, Roma. “Até eu tive vontade de me meter lá dentro. Sim, porque é dólar mesmo o que tem lá.”

Tinham dois meninos dentro da Fonte apanhando as moedas que jogam como sorte lá dentro. Eles começaram com um imã preso num cordel, mas depois se meteram na água mesmo. Chamaram a polícia, mas nada adiantou. Se esconderam e quando a polícia saiu, eles voltaram. Na água, muito limpa, vê-se o fundo perfeitamente.

É facílimo apanhá-las. Até eu tive vontade de me meter lá dentro. Sim, porque é dólar mesmo o que tem lá.

Chegamos do passeio, escrevi a vocês, e mais dois cartões, um para Aidil e outro para Alice Chagas. Seu pai tomou banho, e está dormindo.

Jantamos no Hotel. Ontem não houve jantar, estavam em greve. Hoje teve café ou desjejum como chamam, almoço e jantar. Só que almoçamos fora e jantamos aqui. Amanhã não terá refeição nenhuma: greve novamente. O comunismo está tomando conta do País. Aqui em Roma é tanto pano perdido fazendo faixa de reclame que faz pena. Tem uns 4 ou 5 partidos comunistas. Se fosse coisa boa, não haveria tanta fartura.

Piazza de Spagna, Roma.

A Igreja da escada santa é diferente mesmo de todas as outras. Na entrada tem um “hall” comprido em toda a largura da mesma, medindo uns quatro metros de fundo. A nave da Igreja são três longas escadas do mesmo tamanho, até o fundo. A do meio foi trazida da Terra Santa por Santa Helena, pois foi nela que Jesus subiu ao Pretório, não sei quantas vezes para seu julgamento e por fim, condenação. O povo católico, cultuador de coisas tristes por natureza, aceita como indulgência papal subir a escada de joelhos. E lá estavam várias pessoas a subi-la. Tem as duas laterais para subir normalmente e também descer, claro, e as pessoas das promessas. Não subimos porque a escadaria do Rei Vittório Emanuelle nos pôs os joelhos em pandarecos.

Lá em cima que estão os altares. Ao lado de cada escada, está uma estátua alusiva à Paixão de Jesus. Se destacam mais o Beijo de Judas e Jesus apresentando ao povo por Pilatos. O negócio é impressionante. Um frade muito simpático nos deu umas gravuras da Escada, com a estória atrás. É bastante interessante.

Outra coisa interessante é a tal Piazza D’España. Ao fundo tem uma enorme escadaria para terminar em uma igreja que não sei que nome tenha. Mas no primeiro plano existe uma fonte no formato de galera. O troço é em pedra e deve ter uns dez metros de comprimento. Sai água por todos os lados. Dá a impressão que o barco é furado por uma porção de lugares. É alegre o local, cheio de vendedores e gente de toda espécie. Desde cabeludos, até cegos estrangeiros com suas bengalas e esposas a tiracolo.