03/Junho/71 – Zurich, Suíça

9 horas italianas de verão, são 4h da madrugada no Brasil.

Sairemos daqui a pouco para Zurich, Suíça. Milão está com uma temperatura formidável para brasileiro. Pelo menos para mim. Não sei lá como estará.

Gostei da Itália, com restrições. Não é somente o Etna que é o vulcão nem o Vesúvio. É toda a Itália. Isto aqui está em ponto de ebulição. A qualquer hora um engraçadinho jogará uma acha de lenha no braseiro… e lá se vai a aparência de paz de águas abaixo. Permita a Deus que não.

Tenho uma tristeza; não levo uma estatuinha de Davi, feita por Michelangelo – uma cópia, é verdade, mas muito bela.

Chiasso – última cidade italiana na fronteira com a Suíça. Ela é parte italiana e parte suíça. Mais suíça que italiana. A hora aqui é uma hora mais cedo. São 09h30 da manhã.

Alpes Suíços

Lago de Como / Itália – Depois de Chiasso, Lugano, com seu lindo Lago. Estrada acidentada também. Túneis. Cortada de pequenas propriedades, campos cultivados, vilas e vales, lagos belíssimos, florestas em suas montanhas. Estamos sempre subindo em demanda de San Gothardo. Ao lado esquerdo estão os Alpes Suíços com suas neves eternas. Não temos boa visão por causa da neblina, mas mesmo assim é um espetáculo fabuloso. Lagos congelados, a neve endurecida encobrindo os montes que margeiam a estrada. Frio de rachar, mas a beleza é de encantar. Cascatas aos montes embelezando mais ainda a paisagem, se é possível.

Alpes Suíços

Almoçamos muito em num restaurante suíço, de estrada. Comida ótima. Hotelzinho lindo. E por Deus que o rapaz entendia italiano, porque de inglês ele não “pescava” nada. Não dá para escrever o nome. Em todo o caso vai assim: Hotel Weisses Rossli. Entenderam? Eu não.

A parte mais alta que alcançamos nos Alpes Suíços (estrada), em San Gothardo, tem 2.200 metros de altitude.

Lago Vierwaldstattirsee – Existe mais água em lagos na Suíça do que nas securas do estados que sofrem a seca do nordeste. Se lá houvesse a metade destas águas, o Brasil resolveria os seus problemas.

Até agora contei doze túneis, sem contar as coberturas de lajes em cimento armado no sopé das montanhas para proteção das avalanches.

Lagos: Lauerz (pequeno), Zugersce (grande) – beirando o lago (25 km) rodaremos em direção a Zurich. As terras aqui são contadas e medidas, como em toda parte na Europa. Pasto para o vadio gado, hortas, jardins e florestas. Os lagos devem ser para o suíço uma beleza e uma maldição. Para um país tão pequeno a natureza devia ser menos madrasta.

A cidade de Zug, à margem do Lago Zugerser, é uma coisinha linda.

Zurich – grande, ampla, moderna.

As cidades de influência germânicas se diferenciam grandemente das latinas por vários modos. Um deles, bem nítido, é o silêncio. Não se ouve berros, buzinas, mercadorias expostas, vendedores de ruas atravancando as calçadas, limpeza máxima. O tempo está magnífico.

Lago de Zurich

Acabamos de ver o lago que banha a cidade e lhe tem o nome. Não haveria nunca problemas de poluição de ar. Tanta árvore, tanta água, plantas floridas.

Os bondes são quilométrico. Eles tem dois carros e mais os reboques. Grandes e bonitos com suas pinturas azuis.

Demos uma volta ontem na cidade, à noite, e vimos belas coisas, caríssimas aliás.

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Milão, Itália

Milão à vista – vamos ver se é tão “boa” quanto diz o Waldemar.

Praça da Catedral de Milão

Milão agrada ao mais exigente freguês e o mais exigente arquiteto também. É séria pela sua idade e bonita pelos seus monumentos, largas avenidas e jardins. Ela tem uma riqueza imensa na beleza das suas galerias. Elas são diferentes de qualquer galeria que vimos até hoje. Ficam perto da Catedral, que qualquer outra ao seu lado perde o brilho que possuir. Sei que as descrições que faço se tornam monótonas pela repetição dos sinônimos, verbos e etc. Mas sei que vocês compreenderão a minha boa vontade em transmitir um pouco daquilo que os nossos olhos viram e admiraram. E nem é outra a pretensão.

Tenho a impressão que Milão, apesar de também ser velha, foi feita por gente de visão concebida para o futuro.

Para azar nosso hoje é feriado: Proclamação da República Italiana, 2 de junho de 1946. Resultado – tudo fechado.

A maioria das ruas são calçadas com pedras grandes e rosadas. E para não fugir muito ao progresso, prenderam-nas entre si, com asfalto.

Catedral de Milão

Castelo Di Sforza – residência de nobres. O pátio de entrada, antes do fosso para o portão principal, dá três casas da nossa, com quintal e tudo. Em lugar de água tem muitos gatos e gatinhos. Gatos e filhotes encontramos aos montes  nessas ruínas.

Não fosse assim, os ratos e gabirus acabariam com o resto que existe de ruínas. Se eu soubesse disso teria trazido a Min. Será que ela aprenderia italiano?

Uma parte do Castelo é museu. Tem uma sala somente de afrescos de Leonardo da Vinci. São originais. Estudos de nus masculinos e femininos. Rostos, mãos – não tem comparação. A estátua inacabada de Michelangelo – “Piedade ou Pietá”. Artes góticas e romanas.

Jardim Zoológico – É mais um Parque Infantil que zoológico. Tem poucos animais, um elefante com filhotes – sabidos para burro. Dão comida e dinheiro – comida eles comem, dinheiro eles dão ao tratador, duas girafas, um hipopótamo, duas lhamas, um camelo, flamingos, macacos, aves, bichos bravos e crianças de todos os tamanhos, até nós.