OS BAILES

Durante alguns meses com pena da solidão dos estudantes de engenharia, lá em Itajubá, organizei uns bailes para animar um pouco a vida daqueles pobres coitados.

Luiz e Segrid, Domingos e Sidel e mais alguns que não me ocorre, são os casais que se fizeram nesses bailes. A velhice, às vezes, causa um transtorno aborrecido.

Só sei que me sentia muito feliz em proporcionar tanta alegria a tantos jovens que se achavam longe de suas famílias.

Se fiz algo errado, espero que me perdoem.

Quando dava meia noite, sob o protesto dos dançarinos, eu desligava a eletrola.

Puxando na memória, ajudada pela Anajas, lembrei de alguns que frequentavam a nossa casa: José Louro, José Lieb, Peter, Gilberto Arenas (peruano).

Se eu tivesse vontade plena, nunca teria saído de Itajubá. Fomos plenamente felizes naquela terra abençoada de Minas Gerais.

A vizinhança era a melhor possível. A d. Lourdes com a sua alegria, apesar de todos os tropeços da sua vida. A Amelinha com a sua bondade e várias pessoas que nos tocaram o coração, afora os 5 filhos que são mineiros.

Deus abençoe a todos.

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O MEU FILHO AGNALDO ARICÊ

Agnaldo teria uns 2 anos e estava subindo a escada da sala de jantar que ia para os quartos e o escritório. Se apoiando nas suas mãos e nos pés. O Luiz Araújo, nosso primo perguntou-lhe:

– Aonde você vai, Agnaldo?

E ele respondeu muito enfaticamente:

– Oê papai.

Isso se passou em Itajubá.

Na sua linguagem era: vou ver papai.

Memórias da Vovó Dina – NILCE E GRANJA – AIDIL E PAULO

Duas irmãs completamente diferentes no gênio e no modo de ver a vida.

Nilce amava o primo a quem ela chamava Duardinho, mas ele não dava mínima a ela.
Edvaldo vivia com a mãe e um irmão. A Nilce tinha mais irmãos.

D. Ester ficou viúva quando Aidil era menina ainda. Devia ter uns onze anos. Foi uma vida sacrificada da pobre mulher.

Mas voltando às duas: o Edvaldo um dia foi me visitar e eu o interpelei sobre a Nilce: – Por que ele não a queria, sabendo do amor que ela nutria por ele?

Ele prometeu pensar no assunto e…. casaram para felicidade deles e aborrecimento da Olivia, mãe do nosso protagonista.

Casado o outro irmão, Edberto, a mãe em má hora foi morar com eles. Acontece que a nora não se “bicou” com ela. Então o “cristo” foi a Nilce.

O Edvaldo trabalhava no B. B. e foi indicado para União.

Fomos para lá. O Anthenor era inspetor (não sei se era esse o nome) de subagências. Fomos para União de mala e cuia. Aonde ele ia, levava a família.

Gostei muito principalmente por causa da Nilce.

Um belo dia encontrei-a chorando. Quis saber o motivo e ela me disse do desprezo com que a sogra a tratava.

– Por que você não conta a Edvaldo, Nilce? Afinal de contas ele é seu marido e filho dela.

Foi o que a menina fez. Ele foi me ver e contei tudo que estava acontecendo em sua casa.

Ele falou com a mãe e eu arranjei uma inimiga.

Aidil casou com o Paulo e Anthenor o trouxe como contínuo para o B.B.

Não tiveram filhos, mas em Itajubá a casa deles era o escoadouro dos meus filhos mais velhos. Também foi para mim um grande braço direito nos momentos em que mais necessitava.

Quando eu tive Haydée em Ouro Fino, a tia Haydée me disse que tendo outro filho, não a chamasse mais. Levei a recomendação ao pé da letra e quando foi para a chegada da Siomara, pedi a Adalzinda, mulher de Ernesto Jatobá que me viesse ajudar.

Depois desse drama é que chegou Aidil em Itajubá.

Que Deus na Sua Bondade infinita os abençoe a todos, estejam aonde tiverem.

Memórias da Vovó Dina – MARINHO DE SOUZA VIDAL

Com esse nome tão pomposo, era a criatura mais simples que se possa imaginar.

Amigo cem por cento. Prosa fluente e engraçada.

O Anthenor na cama, ele ia visitá-lo todo dia e sempre tinha uma lorota para contar. Eu me ria a valer, o Anthenor fazia força para não rir.

Perguntei a ele por que isso com Marinho e ele respondeu: – “Para mexer com ele”.

Adorava sua Dolores. Haviam se conhecido quando ele foi trabalhar no Banco do Brasil, no Ceará. Segundo Marinho foi amor à primeira vista. Sempre cantava:

Foi ela o maior dos meus amores
Ai ai, ai ai, Dolores!
Razão do meu prazer, de minhas dores
Ai ai, ai ai, Dolores!
Eu com ela tive espinhos, tive flores
Ai ai, ai ai, Dolores!
(bis)

Dei o meu sorriso a Leonor
Dei o meu olhar a Beatriz
A nenhuma delas dei amor
Com nenhuma delas fui feliz
Porque existe alguém
Que é o maior dos meus amores
Ai ai, ai ai, Dolores.

Quem não conhecia a canção, uma marcha de carnaval, pensava que o compositor era ele, e imagine se ele corrigia! E cantava bem, o danado. Era entoado.

Dolores era o perfeito contrário dele. Não era chata, mas pouco falava. Era calma e muito boa mulher. Não fosse, não seria mulher do Marinho. Isso diz tudo, eu acho.

Tiveram 4 filhos: Paulo, Flavio, Eduardo e Fernando. Todos se casaram e deram vários netos ao querido casal.

Foi um grande amigo e nos visitava muito aqui em São Paulo. Fazia, com seu jeito, o nosso astral subir muito alto. Mesmo após a morte de sua companheira de tantos anos, ele nos visitava, pelo menos 2 vezes ao ano: aniversário de Anthenor e outra no segundo semestre. A passagem por São Paulo era antes ou depois de visitar a irmã Helena ainda viva no Rio de Janeiro. Ele sempre gostava mais de ficar conosco – segundo ele, a irmã só conversava depois de ler todo “O Globo” do dia, e como demorava!, afinal era tão velhinha e o jornal tão grande! Mas a visita era sagrada.

Uma das provas que temos registrado do humor de Marinho é a carta que ele mandou para Anthenor por ocasião do casamento da Haydée. Eles fizeram um convite todo diferente, com várias fotos dos dois em diversas fases da vida dela e do Deo e com o texto de praxe: nome dos pais, local, data e etc e finalizando uma citação. Bem, Marinho escreve uma carta ao Anthenor cobrando um esclarecimento sobre o convite. Aqui vai ela:

Belo Horizonte, 20 de março de 1978

Caro Antenor, meu amigo e meu irmão… eu já não entendo mais nada nesta vida. Estou tonto. Completamente tonto. (O Fued vai se aposentar mesmo. Só trabalha ate 31 deste mês).

Como eu ia dizendo, este mundo já não se entende, ninguém sabe para onde vai. Pois olhe que, há tempos, o nosso amigo Flavio Alberoni me manda um retrato de você, mais a comadredona Fernandina rindo, mas rindo a toda, rindo de engasgar… mas rindo de que, minha gente? Qual é a piada? … Ele mandou o retrato, mas não contou a piada e nós ficamos sem poder rir junto com vocês. Ou estão rindo de nós?

Convite de casamento

Agora, há dias, recebo um grande cartão, com diversas gravuras e, em baixo o nome da Haydée e de Deodato. Depois uma data – “22 de abril de 1978 20:00”. E não entendi bulufas. Procuramos interpretar as gravuras, mas neca de pitibiriba. Primeiro uma árvore, parecendo meio cortada e, ao lado, uma menina. Ora, se a árvore está cortada, vai cair em cima da menina. E parece que caiu mesmo, pois logo abaixo a menina está sentada numa poltrona de hospital, meio parada e com lápis na mão, parecendo que está anotando suas últimas vontades… e depois os galhos da árvore, nos quais aparece um menino, vestido de caubói e, logo depois, mais a ramaria da árvore. Será que ele subiu demais na árvore e desapareceu? Ou será alguma campanha ecológica, exatamente contra a mudança do aeroporto? Mas aí a menina já está maior e parece que ainda continua no hospital, agora em franca convalescência, no banco do jardim, perto de uma árvore, atrás da qual um cabeludo está espreitando… maroto… Depois um rapaz com guarda-pó asséptico. Parece que é o médico que cuidou da menina, tanto que, depois, ele a está amparando, ainda no jardim do hospital.

Só que a mão dele subiu muito na cintura dela… cuidado moça!… Por fim ela está sentada, com os olhos arregalados, meditando. “será que valeu a pena ter escapado da pancada da árvore?”. Depois uma série de pensamentos, tirados do livro “A imitação de Christo”, que aparece ali como “ The Imitation of Christ”. Não entendi. Ora, se os pensamentos estão escritos em português, por que o nome do livro esta em inglês? É… não dá mesmo para entender…

Por isso eu anotei o seu nome, ao final do cartão e recorro ao amigo, para que me tire da dúvida cruel. – O que vai acontecer no dia 22 de abril de 1978? Seu nome e o de outro casal estão ali anotados e com o endereço para consultas. E por isso, eu venho consultá-lo, na certeza de que, no dia 21.4.78 estaremos aí, se Deus quiser…

Um grande abraço do velho Marinho.

Dessa carta dá para ter uma idéia do humor do querido amigo. Ele era um ou dois anos mais velho que Anthenor, mas mesmo já com dificuldade de marcha, nunca deixou de fazer suas 2 visitas anuais. Era sempre uma festa, uma alegria. Anajas ia buscá-lo no aeroporto e ele vinha todo serelepe de braço dado com a comissária, todo feliz com um sorriso maroto. E só largava o braço da moça quando chegava perto dela e era “entregue”. Católico praticante não deixava de ir à missa aos domingos, mesmo aqui em São Paulo. Frequentava a igreja da rua Eucaliptos, nunca faltava.

Nas nossas bodas de ouro, Anajas pediu a ele que dissesse algumas palavras em nome dos amigos e foi um belo discurso. Pena que se perdeu no tempo.

Outra que ele contava com muita graça, foi quando foi a Portugal com Dolores, seu filho Paulo e sua nora. Certo dia foi à farmácia comprar shampoo para o filho e quando fez o pedido para o balconista, este disse: “Estás brincando!”- Marinho era totalmente calvo. Ele deu boas risadas e deve ter contado com muita graça para seus parentes portugueses, porque esses pediam para repetir a história para quem chegasse.

Quando ele faleceu, Araken e Anajas foram ao enterro em Belo Horizonte. O velório foi no próprio cemitério. Para acompanhar o sepultamento foi necessário percorrer um longo caminho e subir uma ladeira danada de íngreme, sobre a qual Araken fez o seguinte comentário: “- Foi a última piada do Seu Marinho”. Não deu para deixar de rir.

Enquanto vivermos, teremos saudades dele.

Memórias da Vovó Dina – Sanatório Hugo Werneck

Saí de casa para fazer umas compras e encontrei o carteiro. Nosso conhecido, perguntei ao simpático rapaz se não havia algo para mim. Ele disse que sim e entregou-me uma carta que não era do meu marido. Remetente: Guiomar Berenger. Não sabia quem era. E ali mesmo, abri a carta. Continuei andando, lendo a carta e chorando. Não sei como não tropecei. A carta dizia:

“Conversei com Dr. Orlando, médico de Anthenor, para saber realmente o estado dele”. (Guiomar estava no sanatório acompanhando o marido e, por sinal, eram vizinhos de quarto). A resposta do médico foi esta: – ‘D. Guiomar, a doença maior do Anthenor é a falta enorme que ele sente da família’.”

Cheguei no escritório onde trabalhava meu pai e entreguei a carta para que ele lesse. Leu-a com bastante atenção e voltando-se para mim, disse:

– Se é assim, prepare-se para viajar.

Foi uma revolução. Nunca tinha viajado de avião, mas se a gente for pensar naquilo que precisa fazer pela primeira vez, o medo supera a necessidade, não é mesmo?

Tive que fazer compras em roupa, costurar, planejar, etc, etc, etc. Não lembro quanto tempo levei até tudo estar pronto. O velho Fernando foi quem providenciou tudo.

Meus filhos ficaram com tia Haydée e tia Ester.

documento de Anthenor

Não participei ao meu marido que iria ficar com ele, quanto tempo, meu Deus?

O avião teria que pousar no Rio. Não havia vôo direto para Belo Horizonte. Iria para casa do Saulo Costa, um colega do Banco do Brasil que foi requisitado para receber-me no aeroporto. Ninguém me conhecia. Deve ter havido correspondência entre meu pai e Anthenor. Só sei que foi tudo facilitado para a “donzela” viajar. Desci no Rio e foi aí que me lembrei que não havia trazido nenhum endereço ou roteiro para guiar-me. Papai havia me dito que alguém ia esperar-me, mas quem?

Fiquei na sala de saída dos passageiros, em pé com os mesmos, indo para embarcarem e eu como se fosse, como ia realmente entrar.

De repente ouvi alguém me chamar, era o Saulo com a mulher. O alívio que senti foi enorme. Até hoje os abençôo por isso.

No dia seguinte voltei ao avião. Não sei se era o mesmo. E de lá para Belo Horizonte, não enjoei (na véspera só não coloquei as tripas para fora, porque elas não ficam no estômago).

Baixou o avião, desceu todo mundo e a marinheira de primeira viagem, não se lembrou de ir também de ônibus como os outros. Esperando o quê? Quando alguém da sala de espera perguntou-me se queria um táxi.

Lá fui eu até a capital de mala e cuia ao encontro do meu bem querer.

O carro parou na Agência e se aproximou um homem todo paramentado, só não de chapéu. Uma pessoa completamente estranha para mim. O meu marido estava gordo, quase careca e de bigode! Só o reconheci quando deu o maior sorriso de felicidade!

No mesmo táxi fomos para o sanatório. Quando tempo levamos, não me perguntem. Estávamos tão enlevados que parecia que o tempo não existia.

A vida no Sanatório era uma rotina só. Os visitantes, quero dizer, os acompanhantes iam para o refeitório. Era um salão enorme cheio de mesas para quatro pessoas. Sentávamos nós três em uma mesa: Guiomar, Zilá e eu. Almoço e jantar a mesma coisa. Muitos internos iam para o refeitório. O Anthenor não. Ainda estava de repouso absoluto. O repouso era tão grande que fiquei logo grávida nos primeiros encontros. Não posso lhes dizer o quanto fiquei envergonhada com o sucedido. Fui até ao médico para ver se era engano. Quis enganar a mim mesma.

Na hora do repouso, das 3 às 4 da tarde, tínhamos que fazer silêncio. Muitos iam para o salão destinado para isso. Outros iam para passear. Não sei, nunca perguntei aonde iam.

Lá conheci Marinho, Edgar Falcão, Margarida e sua irmã Madalena ou Lena, d. Anita e a filha doente Nazaré, os irmãos gêmeos Bruno e Breno, Valdir Pires e mais outros que me falha a memória.

Esses dois irmãos, a Irmã, que era responsável por aquele andar e pela tranquilidade dos doentes, colocou-os no mesmo quarto. Pra que? Um dia os dois se engalfinharam e se ela não chega para separá-los, o negócio teria sido bem pior. Não se soube a razão da briga. A Irmã colocou cada um em um quarto, para haver paz e harmonia.

O tratamento do meu querido não estava tendo a melhora que o médico esperava. Então o resultado seria a toracoplastia*, a operação mais brutal que se possa imaginar. E no dia dos reis, 6 de janeiro de 1946, o Anthenor operou.

Os nossos primos que moravam em Belo Horizonte, a Chiquinha e o marido que trabalhavam no mercado com frutas, forneciam às mãos cheias, abacaxis, mangas, goiabas, maracujás, laranjas e tudo que a amizade deles ditasse para nos favorecer.

E transformavam tudo isso em sucos para alegria do meu marido.

O médico, dr. Orlando, disse que nunca um doente ali havia tido uma tão boa recuperação. Eu deixava muito suco para ele tomar na madrugada.

Uma noite eu dormi demais e quem deu o suco foi o Sr. Wenceslau, o enfermeiro mais dedicado que um doente pode ter. Um alemão alto, mais para gordo, simpático como ele só. Servia aos doentes de todo o sanatório.

Em fevereiro voltei para Maceió. Não podia demorar mais. Não tinha como parir lá. Estive 7 meses em Belo Horizonte. Em maio, no dia 2, nascia Flavio Alberoni. Em setembro voltava curado o nosso querido Anthenor.

Fomos para União, devido o clima ameno de lá. Então mais uma gravidez. Voltamos em janeiro e como o Anthenor não suportava o clima muito quente, fomos para Ouro Fino em Minas Gerais.

*toracoplastia: Ressecção parcial ou total de várias costelas, a fim de provocar o colapso do pulmão por retracção da parede torácica.

Papai e o Barão

No ano passado, 2009, estivemos em Belo Horizonte, por ocasião das Bodas de Ouro da Marinete e Juraci. Foi um fim de semana maravilhoso e eu, no ônibus que nos levou do aeroporto ao hotel, contei essa história do papai e do barão e todo mundo achou deliciosa. À noite tive de repeti-la, já que uma parte da família não tinha vindo no mesmo vôo e portanto, não ouvido a história.

Depois veio a sugestão de que eu a escrevesse, para que as gerações futuras e aqueles que ainda não a conhecessem pudessem desfrutar dela.

Quando a Maíra teve a idéia do blog, resolvi postá-la aqui, porque acho que se encaixa perfeitamente com o contexto:

Em 2002, a agência do Banco do Brasil em Itajubá completou 50 anos de fundação. Exatamente minha idade. Nasci lá, em 1952.

Inauguração da agência do Banco do Brasil em Itajubá, em 1952. Ao lado direito do Anthenor, de terno escuro, está o Dr. Vicente Vilela Viana (médico que colocou no mundo Siomara, Ester e Arnoldo).

A agência preparou uma festa para comemorar o aniversário e meu pai, na condição de fundador da agência, foi o convidado especial. Fui e voltei dirigindo o carro para ele, já que ele não dirigia mais há alguns anos, devido à idade e à quase cegueira, que o impossibilitava de dirigir e ler, coisa que o incomodava bastante, leitor ávido que sempre foi.

Na viagem de volta, pôs-se a contar suas experiências naquela região, com riqueza de detalhes e lembranças:

Na região, àquela época, só existia o Banco de Itajubá, que supria, muito sofrivelmente, as necessidades de crédito e outros benefícios que um banco pode oferecer.

A intenção do Banco do Brasil era de entrar com agressividade, oferecendo empréstimo rural, para incentivar a agricultura e consequente crescimento do povo.

Meu pai contratou um motorista* e percorria aquelas terras, sem nada agendado previamente, visitando sítios, fazendas, conversando com os agricultores, pobres ou ricos, explicando as intenções do Banco, ganhando-lhes a confiança, algumas vezes com muita dificuldade, porque a desconfiança do mineiro é algo muito conhecido até nos dias de hoje.

Foi assim que ele ficou sabendo do Barão, que possuía, no município de Carmo de Minas, uma fazenda enorme, com grande potencial de se tornar um excelente cliente.

E assim, saiu cedo de Itajubá, parando aqui e ali em alguns sítios, pretendendo chegar cedo à fazenda e voltar para casa a tempo de almoçar.

Só não contava com um alagamento na estrada, que atrasou seus planos, só chegando à fazenda do Barão lá pelas 2 da tarde, morrendo de fome e cansaço.

– Eu era magro, mas tinha um apetite enorme, minha filha. Comia como um condenado.

O homem o recebeu meio ressabiado, mas o convidou para entrar. Sério, de poucas palavras, sua figura correspondia exatamente às descrições que meu pai havia recebido.

Patriarca convicto, sizudo, tinha também 13 filhos, que, à medida que iam casando, mandava construir uma casa dentro de suas terras e assim mantinha todos à rede curta.

As refeições eram feitas na Casa Grande, com a presença de todos os filhos e somente os homens à mesa. As mulheres e crianças ficavam recolhidas à cozinha, como convinha aos costumes do Patriarca.

Meu pai começou explicando as intenções do Banco e pouco a pouco sentiu que o Barão ia cedendo aos seus argumentos. Sentia-se perfeitamente seguro ao expor os planos do Banco. Seu receio era somente que o Barão escutasse o ronco de seu estômago vazio e cheio de fome.

Lá pelas 3 horas, eis que é servida a merenda e os olhos de meu pai se encheram com a visão da mesa farta, cheia de quitandas e pães e queijos caseiros, além de compotas e geléias. Atacou tudo aquilo com tal voracidade que, ante o olhar espantado do Barão, foi obrigado a confessar que tinha perdido o almoço e estava varado de fome.

Este então, certamente vencido pela franqueza da visita, convidou-o para almoçar um dia e que levasse a esposa, ao que meu pai respondeu que aceitava o convite com prazer, mas com uma condição: que a Sra. Baronesa participasse também da refeição.

-Eu era muito atrevido, minha filha! Veja se isso era exigência que se fizesse a um homem tão austero, que tinha acabado de conhecer e ainda mais um Barão!

E assim foi feito e surgiu então a partir daí um relacionamento baseado em confiança mútua.

Foi instalada uma linha telefônica entre o Banco e a fazenda e toda vez que o Barão necessitava de recursos, ou caixa para pagar os empregados, bastava ligar e o dinheiro era enviado através de um mensageiro, ou meu pai o levava pessoalmente.

Anos depois, o Banco limitou a linha de crédito a um valor pequeno para cada agricultor, que nem de longe supriria as necessidades do Barão para comprar as sementes necessárias para sua plantação.

Meu pai viu-se num dilema, porque isso poderia significar o fim de uma relação harmoniosa, a muito custo conquistada e à provável evasão de uma conta importante do Banco.

Foi pessoalmente à fazenda conversar com o Barão com uma ideia, mais uma vez nas palavras dele, “atrevida”, mas que achava, ia resolver o impasse.

Propôs ao  Barão que dividisse as terras entre os filhos, tornando cada um um proprietário, podendo então abrir uma linha de crédito para cada um deles, o que seria o bastante e ainda sobraria, para bancar toda a plantação e colheita.

O Barão pensou um tempo  e acabou concordando, mas declarou não ter recurso para lavrar as escrituras, ao que meu pai respondeu:

– Pois faremos um “papagaio” (para quem não sabe, desconto de notas promissórias) e com a venda da colheita, o senhor terá recurso necessário para pagar tudo.

Os filhos do Barão foram os que mais gostaram da solução, pois viram-se donos de uma terra que acreditavam só teriam direito após a morte do pai.

Em 1960, meu pai foi nomeado gerente da agência de São Caetano e mudamos todos para São Paulo. Foi depois gerente de Santo André, São Bernardo e finalmente Luz, onde se aposentou.

Vários anos depois de ter saído de Itajubá, foi passar uma Semana Santa com minha mãe e mais um casal de amigos, Sr. Walter Real, também  do Banco do Brasil e D. Lucy, sua esposa, em São Lourenço, no sul de Minas.

Na sexta-feira pela manhã, as mulheres queriam fazer compras, mas papai teve outra idéia. Disse ao amigo:

– Walter, vamos deixar as mulheres aqui e vamos percorrer essas estradas, que eu conheço como a palma da minha mão.

Saíram de carro e foram dar em Carmo de Minas, onde a procissão estava começando a sair da igreja e avançando pela rua.

Meu pai, que estava na direção, foi seguindo bem devagar, mas notou que as pessoas olhavam para trás e começaram a cochichar, até que os que estavam à frente se voltaram e foram até o carro, fazendo-o parar e gritando:

– Seu Anthenor, seu Anthenor! Há quanto tempo!

Eram os filhos do Barão, os filhos destes e toda a parentada. Fizeram o carro parar, tiraram meu pai e seu Walter lá de dentro e foram até a praça conversar e saber e contar as novidades.

Levaram os dois para almoçar e só os deixaram ir embora à tarde.

Já de volta, dentro do carro, seu Walter começou a rir, a rir cada vez mais e ante o espanto do meu pai, ele falou:

– Eu tinha de viver para ver isso: o Farias acabar com uma procissão em pleno estado de Minas Gerais, o Estado mais carola do Brasil!

*Não poderia deixar de ressaltar aqui um detalhe sobre o motorista, contratado por papai. Ele era conhecido como Brejeco, um sujeito simples, caipirão mesmo e, ao ser indagado de onde havia surgido esse apelido tão pitoresco, explicou a meu pai:

“- O primeiro carro que comprei era feio, velho, quase caindo aos pedaços e pior, sem freios. Levei meu pai para um passeio exibindo o carro para ele, mas na primeira ladeira de paralelepípedos o freio não funcionou e o carro disparou ladeira abaixo. Meu pai, apavorado, começou a gritar:

– Brejeca, meu filho, brejeca!!

De tanto contar essa história, o povo passou a me chamar de Brejeco.”

Impagável!

Memórias da Vovó Dina – parte 33

Siomara

O médico havia recomendado só ficar grávida após 2 anos de cirurgia. Com 1 ano e alguns meses depois nascia Siomara. Por isso foi cesárea. O interessante é que Ester, Agnaldo e Arnoldo foram partos normais! Dá para acreditar?! E assim se confirmou a profecia da parteira D. Evangelina Botelho, quando eu tive a menina morta: – Quando você tiver o décimo filho, vai ter problema.

Acertou na mosca.

O melhor ou o pior de tudo é que quando tive a Haydée, a minha tia, que era quem me assistia nessas horas, me disse:

– Se você tiver outro filho, não me chame.

Chamei então, Adalzinda. Foi ela quem me socorreu. Estava certa que a criança chegaria em fins de maio, mas criança não diz quando nasce, e ela ficou conosco cerca de 2 meses. Abençoada seja, pelo apoio que nos deu.

A tia não gostou de ter sido substituída. Não se lembrava do que havia me dito. Ela devia estar muito cansada. Realmente, ela e a tia Ester trabalhavam muito. Na casa em Maceió, ainda tinha vovó Januária, tia Bertulina e Jurací.

Irmãos e amigos reunidos: aniversá‡rio de 2 anos da Siomara (1954)

A tia Haydée era costureira e tinha uma grande clientela. Caprichosa como ela só, não admitia um erro na costura.

Ester, aos 7 anos (São Paulo)

Sei disso porque aprendi a costurar com ela. Failde e a irmã Floristela não suportaram a perfeição da tia. Desmanchar costura não era com elas. A aprendizagem aconteceu em Rio Largo.

Itajubá foi a nossa vitória, tanto no trabalho do Anthenor, como na vida de um modo geral. Bons colégios, boas vizinhanças, amigos simples e bons. Gente simples e cordata.

Em Ouro Fino ficamos 2 anos e 9 meses. Em Itajubá ficamos 9 anos e 9 meses. Não sei por que os nove meses, mas a verdade é que aconteceu tudo isso, até virmos para São Paulo.

Agnaldo e Arnoldo

O resto vocês conhecem de sobra.

Fomos felizes ontem e depois. Havia os tropeços que muitas vezes não podiam ser evitados. Vencemos com o amor multiplicado pela família que é o nosso verdadeiro tesouro.

Ele, o nosso Anthenor partiu para as plagas do infinito, mas venceu galhardamente a vida afanosa, escolhida pelo amor imenso que tinha por nós.

Deus na sua infinita bondade nos deu por acréscimo, o que mais precisávamos: Paz, Amor e União.

(fim das postagens da série Minha Vida)