O CASAMENTO DA FILHA DO MIGUEL TELES

Baixinho, magrinho, enfezado e acima de tudo muquirana, cauíra, mesquinho e para ser mais compreendida: avarento, sim, senhor! Que Deus o tenha na sua benção.

Nasceu, viveu e morreu em Murici. Chamava-se Miguel Teles, casado com filhos.

Contavam que ele ao sair de casa pela manhã para inspecionar o trabalhador infeliz que trabalhasse para ele na sua fazenda, o nosso amigo, primeiro reparava se as galinhas tinham ovo para botar. Na volta para o almoço, se encontrasse alguém que tivesse comprado alguma galinha, ele perguntava se havia pago o ovo que a ave teria de botar de tarde.

– Não, senhor, não paguei.

– Então passa pra cá o dinheiro do ovo!

Certo dia casou uma filha e convidaram gente da Capital.

Como o homem era rico até não mais poder, os convites foram aceitos com agrado. Hoje, como ontem, as festas são mais aproveitadas por causa da comilança. Sacrificou-se capão gordo, perus, porcos e penso que até um boi entrou na matança.

Enfim, estava arrumada a casa e a festa para os convidados. A despensa estava abarrotada de comidas e bolos, como só uma dona de casa abastada sabe fazer.

Ele, o nosso amigo Miguel Teles, foi até a despensa, viu aquilo tudo de comida, fechou a porta e pôs a chave no bolso.

O casamento foi celebrado na missa, pela manhã e todos vieram para a casa da fazenda se empanturrar com as comidas do “grande” fazendeiro.

Deram às 10 horas, meio dia e nada de comida. A noiva perdeu a paciência e indagou da mãe o motivo daquela demora. A coitada, envergonhada, confessou à filha o que acontecia:

– O seu pai trancou a despensa e pôs a chave no bolso.

– Meu Deus, por que o pai fez isso?

Encaminhou-se para ele e disse chorosa:

– Por favor meu pai, abra a despensa, estamos todos com fome!

Fazer o que? Afinal era o casamento da filha.

Todos se regalaram e ainda agradeceram a bondade e fartura do seu Miguel Teles. Que Deus o tenha!

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BEMBEM – MULHER

A danada tinha o feio costume de roubar.

Conhecida por toda a cidade de Murici era tolerada por todos os habitantes por pertencer a uma boa família. Nem por isso deixava de ter o mau hábito de amiga dos bens alheios.

Um seu vizinho tinha um quintal cheio de galinhas.

Bembem resolveu passar melhor com as galinhas do vizinho. Comeu uma a uma e no fim só sobrou o galo. O vizinho vendo que só lhe restava o galo, dono do terreiro, chamou-a na beira da cerca e recomendou:

– Pelo galo não, Bembem. Pode levá-lo.

Memórias da Vovó Dina – parte 17

Anthenor com 16 anos, Rio Largo, 1930

O Anthenor apareceu em nossa vida quando fiz os meus 9 anos.

Meu avô paterno, Manuel Gomes foi passar uns tempos (não sei quando) na fazenda de um amigo da família – Fazenda “Bernardo Vieira” – que era localizada no município de Murici. Era próxima ao povoado de Branquinha, onde moravam as mais importantes famílias daquelas bandas. O povoado era tão importante que tinha parada de trem. A família Maia Gomes mandava e desmandava não só em todo o município, como nos que moravam nele.

O conhecimento da família do meu avô com eles era que todos eram nascidos e criados na “bela” cidade de Murici. Minha avó Januária era a maior defensora da tal família. A mulher do maioral, coronel José Maia Gomes, d. Eudóxia (se não me falha a memória, o nome era esse), era comadre da minha avó, pois um dos filhos dela foi amamentado por Januária e se tornou então irmão de leite do tio Getúlio. O negócio é meio complicado e meio bobo também, mas no interior isso era levado muitíssimo a sério. Tornam-se parentes pelo leite, não pelo sangue. O tal chamava minha avó de mamãe e ela tinha um enorme orgulho disso. Eu o conheci e sempre o achei um bom homem.

Noemia, 1927

Mas voltemos ao meu avô, à Fazenda Bernardo Vieira e consequentemente ao nosso amado Anthenor.

O dono da referida fazenda, Sr. Caetano José dos Santos, era um mulato baixo, de rosto meio bexigoso, mais para gordo. Tratava os filhos como se fossem escravos: Noemia, Edília e José. Edília era casada com o chefe da Estação da estrada de ferro de Murici. Ela foi a mais sabida dos três, pois se viu livre do jugo do pai muito cedo. O pai era mulato, mas os filhos eram quase brancos, do cabelo ruim. O José do Caetano, como o filho era conhecido, tinha o cabelo avermelhado e era pau pra toda obra. Comprava gado, vendia, tirava leite de manhã, cuidava da lavoura, amansava cavalos, o diabo a quatro. Só não tinha direito de pegar em um tostão. Apesar da rudeza do Caetano com os filhos, ele nos recebia como se fôssemos uns príncipes. Eu particularmente adorava ficar na Fazenda comendo a comida gostosa da dindinha Noemia. Minha mãe a convidou para minha madrinha de crisma, coisa que nunca aconteceu. Por coincidência, ela era madrinha de batismo de Anthenor. E nós a chamávamos orgulhosamente de dindinha Noemia. Ela, Noemia, era a dona da casa, mas de vez em quando levava uns sopapos do pai.

Na época da ida do meu avô para lá, o Caetano velho montou uma pequena mercearia (chamavam barracão), para vender e explorar os infelizes que trabalhavam para ele e outros de toda aquela redondeza. O velho avô praticamente passava os dias sem nada fazer, daí então a resolução de ensinar a ler aos filhos dos trabalhadores da fazenda e alguns mais que quisessem. O pobre homem, meu avô, era simplesmente alfabetizado, mas o destino se aproveitou do “professorado” para existir um motivo na ida (ou vinda?) do futuro pai de vocês para Rio Largo.

Meu avô, creio que enfarado da vida semiparada da roça, resolveu voltar para casa, se reunir à família, que creio, não lhe dizia muito ao coração, principalmente a braveza da minha avó. E, ao se preparar para tal, perguntou ao seu mais aplicado aluno, isto é, ao Anthenor, se gostaria de viajar com ele para estudar em Rio Largo. Ele aceitou mas… e o pai, e a mãe? O avô prometeu falar com a mãe e o fez. Por ela, tudo bem. Restava o “seu” Joaquim. Ignorante como ele só, o pobre homem não atinou com a vantagem da ida do filho para a cidade. O queria para ajudá-lo no plantio, no cabo da enxada. Tinha o mais velho, o Artur, mas na verdade quanto mais mãos tivesse, melhor. Disse que não tinha filho para ser “espoleta”de ninguém. “Espoleta”, no dizer deles, significava criado, empregado de casa.

Seguiu o “seu” Manuel prometendo a D. Joaninha que logo mandaria Ester, a filha, para resolver o assunto do rapazinho.

D. Joaninha, zangada com o marido, foi falar com o dono da Fazenda, no caso o “seu” Caetano. Caetano chamou o “turrão” e passou-lhe uma descompostura. Abriu os olhos do pobre homem, já que o orgulho não lhe dava ensejo para tal milagre. Disse entre outras coisas que o menino iria ser gente, estudar e trabalhar para mais tarde ajudá-los. Que o Anthenor não tinha corpo (estrutura) para o cabo da enxada. E foi assim que quando a tia Ester chegou em Bernardo Vieira já estava tudo resolvido. Ela só teve o trabalho de ir ao povoado e comprar roupa e sapatos para a nossa amizade.

E abriu-se um novo Universo para o menino Anthenor, que nada conhecia senão o seu pequeno mundo que se chamava Branquinha, Nicho, Fazenda “Bernardo Vieira”e mais o Riacho Bode Fogoso, às margens do qual ele havia nascido.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)