Viagem no navio Rosa da Fonseca – parte 8


Manaus na década de 60

Dia 16 de junho de 1969

Passamos a cidade de Óbidos hoje cedo e agora cerca das 6 horas, a cidade de Itacoatiana. Chegaremos a Manaus lá pelas 2 da madrugada.

Chegamos e saímos. Quem não conhece Manaus tem a exata impressão de que a cidade é feia acanhada, sem atrativo nenhum. É justamente ao contrário. Todas as praças são ajardinadas, decoradas com estátuas, obeliscos, fontes, bancos. Algumas, muito grandes (duas ou três), têm coreto ou um barzinho para lanches. A praça da Matriz é enorme. A praça mais nova é a da Bola (tem um nome ilustre decorando-a, mas só é conhecida por Praça da Bola pelo seu estilo em forma de esfera), é pequena em relação as outras, mas é muito bonita e agradável com a sua fonte decorativa. Ruas largas, avenidas bem amplas. Tudo muito simpático – como de um modo geral é o amazonense.

Quando saltamos, fomos diretos em casa do Sr. Tomé, pai do Luiz. A alegria da recepção valeu a caminhada que fiz até o meio do caminho. Sim, porque na metade, o seu pai resolveu chamar um taxi. Eu já estava me recusando a andar mais. Não eram ainda 8 da manhã e estava um calor de mês de fevereiro aí em São Paulo. Eles estavam esperando o motorista chegar para ir com as duas filhas moças nos esperar no cais, mas nós chegamos primeiro. O carro (eles têm taxi na praça) ficou à nossa disposição durante os dois dias que passamos em Manaus.

O nosso primeiro passeio foi a Ponta Negra. Chama-se assim por ser uma ponta de terra que avança sobre o rio Negro e forma uma praia que em formato imita Copacabana. O rio está cheio, não deu para vermos direito. Diz que aquilo em fim de semana fica cheio. É muito agradável e é um verdadeiro oasis para tanto calor e sol. Fica há 18 ou 20 Km de Manaus. Lá tem um bar-restaurante e mesas com guarda-chuva de palha espalhados pela beira da praia. O impressionante da história toda é que o rio é Negro mesmo. A água ao tocar as pedras na formação das ondas dá a impressão que derramara toda a produção de coca-cola do mundo.

O teatro de Manaus é magnífico embora um pouco maltratado pelo tempo. Tão maltratado quanto o de Belém. No salão nobre do teatro tem pintado no teto uma cena da mitologia com Minerva. O interessante é que de qualquer lado que você esteja dá a nítida impressão que Minerva está nos observando. Lindo, lindo! Só tem um porém para mim: o Teatro da Paz em Belém é mais alegre, o de Manaus é triste por sãs pinturas onde predominam as cores escuras. Essa primeira parte do passeio fizemos com Maria dos Anjos e Margarida – irmãs do Luiz.

Não são moças bonitas, especialmente a mais das duas, dos Anjos. A Margarida deve ter seus 19 anos. É a mais expansiva das duas. A dos Anjos não fala muito e nos dá a impressão de amargura ou tristeza. O que talvez seja apenas timidez.

Fomos tratados como príncipes. Não sei de que país, mas é mesmo assim. Visitamos um dos Balneários (tem vários). Eles aproveitam um igarapé (corrente de água que foge, ou se desgarra do seu mestre e senhor, o rio) e formam um conjunto residencial. São simples bangalôs e têm mesmo casas boas e grandes e ali passam fins de semana ou mesmo férias. Visitamos o Guanabara. Eles aproveitam os igarapés até para fazer banhos públicos.

Almoçamos na terça-feira (17) no melhor restaurante da cidade: Alvorada. Não é central, mas é agradável e se quiser tem um aposento com ar refrigerado.

Jantamos com o Sr. Lourival (pai do Lourival, lembram-se dele?). O convite feito pelo velho senhor e os filhos com suas esposas mineiras de Itajubá. A mulher do Lourival, não lembro dela. Era muito amiga da Marli – Ana Lucia. Tem um apelido, não lembro qual. Não achei que haja muita paz entre os dois. Ela se trancou um pouco e não procura mais as primas (no caso, as irmãs do Luiz) e vive muito isolada. O Lourival por sua vez, gordo como um porco, só pensa em dormir. O outro, Roberto, não me lembro nada dele e muito menos dela. Muito simpática, miúca, engraçadinha. Soube captar a simpatia dos parentes e é bem mais feliz que a outra.

Foi uma noite bem agradável. A gente se sente sempre bem quando é bem recebido onde quer que vá. O interessante é que de todos os que sabemos dos passageiros, nós somos os únicos a quem os amigos esperam – isto é, temos amigos em cada porto. Os outros têm parentes esperando. Os amigos, quando não estão presente (Belém foi assim), fazemos amigos e os deixamos certos que são gente boa, agradável.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minhas Viagens)

*a fotografia faz parte da edição especial Retrato do Brasil, da Revista Manchete, de 1968.

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Viagem no navio Rosa da Fonseca – parte 6

Dia 12 de junho de 1969

Faltam 20 minutos para as 6h. Ainda não anoiteceu, o que é fácil ver aqui no Norte. Desde cedo que estamos em águas paraenses. Chegaremos ao porto lá pelas 22h. O calor é bravo e eu não trouxe um vestido de linho. Acabei de por de molho em água de sabão o de jérsei. Estava muito suado e o jérsei suado tem um cheiro horrível. Eu vou subir agora. O ar refrigerado do navio nos alivia um pouco da temperatura de fora e por isso vou ficar no salão de leitura até a hora do jantar. Seu pai já tomou três banhos até agora. Até logo.

Dia 13 de junho de 1969

Belém na década de 60.

23h – O navio saiu às 10h não sei se por ter passado mais tempo em Belém do que em Fortaleza, o fato é que Belém me encantou.

Quem não a vê, não pode fazer uma idéia do que seja aquilo. É grande, bonita e alegre. Mesmo as ruas estreitas de Belém velho e as ruas sujas do cais e proximidades, simpatizamos  são enormes e agradáveis. Muito bem delineadas e cuidadas. Em todas elas existem belos monumentos históricos – mas, vamos ao princípio.

Chegamos à noite e demos uma volta atrás de sorvete (a falha que não existe em Fortaleza – em Belém não existe uma boa e agradável sorveteria). Em Fortaleza em qualquer ponto da cidade tem boas, pequenas, mas agradáveis. Em Recife também tem agradáveis sorveterias. Em Belém só têm em ruas estreitas e de pouco movimento. No centro tem um em caixas como Kibon, fabricação da casa, que vendem nas ruas ou nos bares e restaurantes. São todos bem batidos e de fruta mesmo. Não encontrando o que queríamos, fizemos outro lanche no próprio cais, na entrada para a cidade, onde tem um monumento à Antonio Teixeira, fidalgo português (pelo menos a roupa o indica), muito elegante, com o seu chapéu de plumas (vou procurar saber o que ele fez para dizer).

Depois se inicia a cidade propriamente dita com o cruzamento de duas avenidas: Presidente Vargas e Castilho França. As mangueiras que enfeitam, na minha opinião,  enfeiam  a cidade,  algumas têm mais de cem anos. Algumas carregam tanto que quebram galhos e às vezes a própria árvore.

Na Avenida Presidente Vargas está a maior parte dos bancos, os correios, casas de comércio, restaurantes e bares. A Praça da Republica é imensa, sombria. Tem um monumento à Republica muito bonito. Fomos à casa do Sr. Bensadon, muito simples e de uma simpatia extrema. Vivem três famílias em uma só residência. Todos centralizados por d. Sol. Ele, os filhos casados têm ao todo nove filhos. Já imaginaram esse povo todo recolhido, conversando, gritando (as crianças), teimando… coitada da velha senhora. Não é à toa que se chama Sol (a acolhida é total).

Fizemos lá uma refeição e nos convidaram para voltar, almoçarmos com eles.

Na volta eu não quis, não sei porque, descer. Estávamos cansados. A viagem foi muito agradável, é verdade, mas o sobe e desce cansava e cansamos muito.

Arrependo-me até hoje da grosseria. Tenho pra mim que eles estavam nos esperando para também mandar alguma lembrança aos parentes. A verdade é que Sr. Bensadon se afastou de nós.

Houve um fato interessante com a família desse senhor. Ele tinha uma filha chamada Ester, a mais velha que estava noiva de um primo. Eram judeus e o noivo também. Vocês sabem que judeu só se casa na sua grei.

O casamento foi muito bonito, com recepção e tudo mais.

Quando já estavam casados há uns dois meses, o pai foi visitar a filha e encontrou-a chorando. Grávida já, disse ao pai, que ficou preocupado ao ver as lágrimas da filha, que era devido ao estado que se encontrava. Não sei se o pobre homem acreditou. Passados alguns dias, voltou em visita a Ester. O quadro era o mesmo. Ele forçou-a a contar e ela chorando mais ainda, confessou que o abençoado marido a espancava.

Imediatamente mandou a filha pegar tudo que era dela e a trouxe de volta ao lar onde nunca devia ter saído. Lá deu a luz a uma menina.

Não tivemos mais notícias deles.

O Sr. Bensadon era fiscal do Banco do Brasil e por isso sei deste drama todo.

Uma ocasião ele chegou à nossa casa cansadíssimo. Morava longe de nós e veio a pé até ali. Os judeus têm o dia do perdão e isso parece ser a celebração e que levam muito a sério.

Eu perguntei a ele se tinha perdoado ao filho que havia casado com uma cristã. Ele praticamente não me deu nenhuma resposta.

Era uma boa alma o nosso amigo Bensadon.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minhas Viagens)

*a fotografia dessa postagem faz parte da edição especial Retrato do Brasil, da Revista Manchete, de 1968.