Memórias da Vovó Dina – TULIO

Tulio era carioca. Alegre, feliz, mocinho dos seus 19 anos. Muitos dos doentes saíam para andar pela redondeza da clínica. Saíam cedo antes do café. Depois era um Deus nos acuda para se recuperarem. Tulio era um dos fujões.

Hoje não existe mais o Sanatório Hugo Werneck. A tuberculose tem novos tratamentos.
O que foi feito das abnegadas irmãs, que era o sustentáculo daquilo ali, ninguém sabe. Eram quase todas estrangeiras, a começar pela cozinheira.

Apesar de todo sofrimento éramos felizes, pela harmonia e pela segurança espiritual que se irradiava de todos os doentes e acompanhantes.

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Memórias da Vovó Dina – NAZARÉ E SUA MÃE D. ANITA

Quando cheguei ao Sanatório, Nazaré estava em repouso absoluto. Quando melhorou, ia para o terraço como outros, para tomar um pouco de sol e respirar o ar puro daquele lugar.

Chovesse ou não, fizesse frio ou não, as janelas do quarto não se fechavam.
D. Anita, sua mãe, parecia uma pata choca andando. Baixinha, gordinha, tagarela, como ela só.

Quando na hora do repouso, era um trabalho mantê-la calada ou falando baixo.
Soube depois que a menina Nazaré havia falecido.

Que Deus a abençoe.

Memórias da Vovó Dina – MARGARIDA E LENINHA

Eram irmãs. Pernambucanas. Fazia pena ver uma moça tão bonita e simpática, tão doente. Margarida veio para o Sanatório à custa de um tio muito rico. Leninha era sua acompanhante. Margarida não resistiu muito tempo. Leninha casou em Belo Horizonte com um bancário que ela conheceu quando ia receber dinheiro enviado pelo tio. Tempos depois me hospedei em sua casa, quando fui me operar. Não soube mais deles, o que é uma pena.

Memórias da Vovó Dina – WALDIR PIRES

Baiano, 18 anos, bonito e letrado. Tinha todos os predicados para ser o que foi. Não chegou a se operar. Fez cura natural.

Quando havia festa, principalmente de aniversário, o discurso era feito por ele. Não tinha acompanhante. Vivia sozinho, mas era muito popular.

Em uma das viagens do Anthenor, ele conseguiu se comunicar com o Waldir e se encontraram no aeroporto em Salvador. Nessa época ele já era uma figura de projeção. Nunca mais nos falamos.

Memórias da Vovó Dina – EDGAR FALCÃO

Edgar foi outro grande amigo que Anthenor. E se males há que trazem algo de bom, como ingenuamente se diz, as amizades, sólidas e permanentes, construídas nos dias tristes do Sanatório Werneck tiraram um pouco do amargo travo daqueles momentos e trouxeram muitas alegrias nos anos seguintes.

Edgar José Falcão, carioca, funcionário do Banco do Brasil, altão, simpático, maduro de idade e de nascença (assim parecia), inteligente que nem, era o protótipo da pessoa bem educada, de modos fidalgos, de fala mansa e refletida e gestos moderados.

Órfão de pais e por ser o mais velho se responsabilizou pela mãe e irmãs. Se não me engano eram 6 ou 7.

O Rio de Janeiro, onde nasceu e moravam, tem um clima muito forte em calor e a má alimentação e a preocupação com a família arruinaram a saúde do nosso amigo Edgar.

Nem por isso deixava de ser alegre e feliz. Quando nos encontrávamos, sempre cantávamos o samba “Edgar chorou quando viu a Rosa”.

Fez duas ou três operações de toracoplastia. Muito alto, andava todo envergado. Não chegou a engordar, continuou magro como sempre foi.

Quando voltou ao Rio, já curado, casou-se com a Míriam.

Pelas voltas do mundo e decerto por influência do amigo Anthenor, transferiu-se para o BB de Itajubá, recém-casado com a Míriam -, oxitonamente para Anthenor (Araken que me ensinou essa palavra metida à besta, mas para mim é que o acento era na última sílaba, ou seja, Miriâm – mais ou menos assim). Em obediência à lei dos opostos, Míriam era a parte animada, extrovertida e impulsiva do casal, sempre exercitando a compassividade do marido.

Passaram a morar numa casa ampla, de pequeno quintal, em que Míriam, enquanto se enfronhava nos mistérios da culinária, criava algumas galinhas, todas tratadas por nome próprio, modo da dona relembrar os parentes distantes. Não tendo chegado ainda filhos (com o tempo, aportaram dois, José Eduardo e Edgar), a casa deles tornou-se refúgio para alguns de meus filhos. Refúgio no qual o mais assíduo, Araken, se aboletava sem cerimônia, servindo-se da mesa generosa (desassombradamente testando os emergentes dotes culinários da Míriam) e dos bem seletos livros da estante do Edgar, entre os quais pontificava o Dicionário de Francisco Fernandes, da Editora Globo, que ele, feito maluco, lia e relia, buscando a solução de charadas da seção de uma revista. Coisa de desocupado. Além disso, eles tinham uma coleção dos gibis da Disney que era um deleite para as crianças.

Passados poucos anos e um desastre de automóvel que quase matou os dois, o casal mudou-se para Valença, no Estado do Rio e, posteriormente, para o Rio de Janeiro, onde Edgar, aposentado, tornou-se colaborador importante da seguradora Atlântica Boavista. Mas, perto ou distante, continuaram, Míriam e Edgar, sendo amigos dos mais queridos.

Seria o caso de dizer: bendita tuberculose!?