SÃO PAULO, 1960 – Av. Dr Altino Arantes, 524

Nossa primeira casa era grande, mas pequena para uma família com tanta gente. Com a nossa vinda para cá, Araken e Percival, que já moravam aqui, vieram se juntar a nós e assim éramos os 12 filhos e o belo casal, além do cachorro Fiel.

No térreo ela tinha uma sala de visitas, de jantar, um lavabo e uma cozinha, além de uma varanda. Logo na entrada da sala tinha uma escada de mármore branco que dava para os três quartos do andar de cima. Logo à direita o nosso quarto; no corredor o primeiro quarto era pequeno e lá ficaram Regina e Failde, depois vinha um banheiro grande e no fundo um quarto grande onde ficaram: Anajas, Haydée, Siomara, Aroni e Ester. Foi necessário 2 beliches e uma cama, além de um guarda roupa. E os meninos? Onde? Foi necessário fazer um quarto ao lado da garagem e lavanderia, pois o quarto da empregada era muito pequeno. Lá foram colocados três beliches e prateleiras para os livros. Como vê, o aperto era grande, mas a felicidade era bem maior.

Nossa casa continuou recebendo os parentes e amigos. Além dos que vinham semanalmente, tinham os hóspedes que não eram tão raros. Uma época veio Rodrigo e Zeza, “seu” Nozinho e d. Alderita, pais de Zeza. Ele havia se operado e foi ficar conosco para se recuperar da cirurgia. Instalaram-se no quarto da Regina e Failde que foram dormir com as outras irmãs.

Rodrigo e Zeza dormiam na sala, ele no chão e ela no sofá. Quantos dias ficaram, não me lembro.

Vieram também, não sei se antes ou depois, tia Ester, tia Haydée, Juraci e Marinete. Marinete tinha vindo se consultar com o Dr. Mauad aconselhado pelo Edson para saber porque não engravidava (isso foi antes do Edson vir morar em São Paulo).

Mas voltando à casa, lembro que era um sufoco tanta gente e no começo não tínhamos empregada, lavava a roupa da casa e as meninas ajudavam a passar a ferro, além de ajudar na cozinha e arrumação da casa. Ficamos nessa casa 7 anos e nela casaram Araken, Percival, Aroni, Regina e Failde.

Em 1966 Anthenor comprou uma casa na mesma rua e reformou-a. Fomos para ela em 1967 e lá moramos 18 anos.

Como disse, não nos faltava visitas, especialmente os queridos Edson Neves e Ivan Sotero. Era um prazer recebê-los. Não existe substituto para os amigos, principalmente quando os consideramos como filhos do coração. Todos os domingos vinham almoçar conosco. Depois apareceram Galvão, Fernando Cunha e Jairo. Só o Galvão ficou. Jairo foi para Pernambuco e o Fernando voltou para Maceió.

Aroni foi a primeira a se casar e acertou em cheio.

Com a ida do Juraci como promotor de Natercia, os filhos iam passar as férias lá. Araken e Percival logo se encantaram com as mineirinhas Maria Antonia e Mariana e o resultado vocês conhecem. O casamento de ambos foi em Poso Alegre.

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Memórias da Vovó Dina – MARINHO DE SOUZA VIDAL

Com esse nome tão pomposo, era a criatura mais simples que se possa imaginar.

Amigo cem por cento. Prosa fluente e engraçada.

O Anthenor na cama, ele ia visitá-lo todo dia e sempre tinha uma lorota para contar. Eu me ria a valer, o Anthenor fazia força para não rir.

Perguntei a ele por que isso com Marinho e ele respondeu: – “Para mexer com ele”.

Adorava sua Dolores. Haviam se conhecido quando ele foi trabalhar no Banco do Brasil, no Ceará. Segundo Marinho foi amor à primeira vista. Sempre cantava:

Foi ela o maior dos meus amores
Ai ai, ai ai, Dolores!
Razão do meu prazer, de minhas dores
Ai ai, ai ai, Dolores!
Eu com ela tive espinhos, tive flores
Ai ai, ai ai, Dolores!
(bis)

Dei o meu sorriso a Leonor
Dei o meu olhar a Beatriz
A nenhuma delas dei amor
Com nenhuma delas fui feliz
Porque existe alguém
Que é o maior dos meus amores
Ai ai, ai ai, Dolores.

Quem não conhecia a canção, uma marcha de carnaval, pensava que o compositor era ele, e imagine se ele corrigia! E cantava bem, o danado. Era entoado.

Dolores era o perfeito contrário dele. Não era chata, mas pouco falava. Era calma e muito boa mulher. Não fosse, não seria mulher do Marinho. Isso diz tudo, eu acho.

Tiveram 4 filhos: Paulo, Flavio, Eduardo e Fernando. Todos se casaram e deram vários netos ao querido casal.

Foi um grande amigo e nos visitava muito aqui em São Paulo. Fazia, com seu jeito, o nosso astral subir muito alto. Mesmo após a morte de sua companheira de tantos anos, ele nos visitava, pelo menos 2 vezes ao ano: aniversário de Anthenor e outra no segundo semestre. A passagem por São Paulo era antes ou depois de visitar a irmã Helena ainda viva no Rio de Janeiro. Ele sempre gostava mais de ficar conosco – segundo ele, a irmã só conversava depois de ler todo “O Globo” do dia, e como demorava!, afinal era tão velhinha e o jornal tão grande! Mas a visita era sagrada.

Uma das provas que temos registrado do humor de Marinho é a carta que ele mandou para Anthenor por ocasião do casamento da Haydée. Eles fizeram um convite todo diferente, com várias fotos dos dois em diversas fases da vida dela e do Deo e com o texto de praxe: nome dos pais, local, data e etc e finalizando uma citação. Bem, Marinho escreve uma carta ao Anthenor cobrando um esclarecimento sobre o convite. Aqui vai ela:

Belo Horizonte, 20 de março de 1978

Caro Antenor, meu amigo e meu irmão… eu já não entendo mais nada nesta vida. Estou tonto. Completamente tonto. (O Fued vai se aposentar mesmo. Só trabalha ate 31 deste mês).

Como eu ia dizendo, este mundo já não se entende, ninguém sabe para onde vai. Pois olhe que, há tempos, o nosso amigo Flavio Alberoni me manda um retrato de você, mais a comadredona Fernandina rindo, mas rindo a toda, rindo de engasgar… mas rindo de que, minha gente? Qual é a piada? … Ele mandou o retrato, mas não contou a piada e nós ficamos sem poder rir junto com vocês. Ou estão rindo de nós?

Convite de casamento

Agora, há dias, recebo um grande cartão, com diversas gravuras e, em baixo o nome da Haydée e de Deodato. Depois uma data – “22 de abril de 1978 20:00”. E não entendi bulufas. Procuramos interpretar as gravuras, mas neca de pitibiriba. Primeiro uma árvore, parecendo meio cortada e, ao lado, uma menina. Ora, se a árvore está cortada, vai cair em cima da menina. E parece que caiu mesmo, pois logo abaixo a menina está sentada numa poltrona de hospital, meio parada e com lápis na mão, parecendo que está anotando suas últimas vontades… e depois os galhos da árvore, nos quais aparece um menino, vestido de caubói e, logo depois, mais a ramaria da árvore. Será que ele subiu demais na árvore e desapareceu? Ou será alguma campanha ecológica, exatamente contra a mudança do aeroporto? Mas aí a menina já está maior e parece que ainda continua no hospital, agora em franca convalescência, no banco do jardim, perto de uma árvore, atrás da qual um cabeludo está espreitando… maroto… Depois um rapaz com guarda-pó asséptico. Parece que é o médico que cuidou da menina, tanto que, depois, ele a está amparando, ainda no jardim do hospital.

Só que a mão dele subiu muito na cintura dela… cuidado moça!… Por fim ela está sentada, com os olhos arregalados, meditando. “será que valeu a pena ter escapado da pancada da árvore?”. Depois uma série de pensamentos, tirados do livro “A imitação de Christo”, que aparece ali como “ The Imitation of Christ”. Não entendi. Ora, se os pensamentos estão escritos em português, por que o nome do livro esta em inglês? É… não dá mesmo para entender…

Por isso eu anotei o seu nome, ao final do cartão e recorro ao amigo, para que me tire da dúvida cruel. – O que vai acontecer no dia 22 de abril de 1978? Seu nome e o de outro casal estão ali anotados e com o endereço para consultas. E por isso, eu venho consultá-lo, na certeza de que, no dia 21.4.78 estaremos aí, se Deus quiser…

Um grande abraço do velho Marinho.

Dessa carta dá para ter uma idéia do humor do querido amigo. Ele era um ou dois anos mais velho que Anthenor, mas mesmo já com dificuldade de marcha, nunca deixou de fazer suas 2 visitas anuais. Era sempre uma festa, uma alegria. Anajas ia buscá-lo no aeroporto e ele vinha todo serelepe de braço dado com a comissária, todo feliz com um sorriso maroto. E só largava o braço da moça quando chegava perto dela e era “entregue”. Católico praticante não deixava de ir à missa aos domingos, mesmo aqui em São Paulo. Frequentava a igreja da rua Eucaliptos, nunca faltava.

Nas nossas bodas de ouro, Anajas pediu a ele que dissesse algumas palavras em nome dos amigos e foi um belo discurso. Pena que se perdeu no tempo.

Outra que ele contava com muita graça, foi quando foi a Portugal com Dolores, seu filho Paulo e sua nora. Certo dia foi à farmácia comprar shampoo para o filho e quando fez o pedido para o balconista, este disse: “Estás brincando!”- Marinho era totalmente calvo. Ele deu boas risadas e deve ter contado com muita graça para seus parentes portugueses, porque esses pediam para repetir a história para quem chegasse.

Quando ele faleceu, Araken e Anajas foram ao enterro em Belo Horizonte. O velório foi no próprio cemitério. Para acompanhar o sepultamento foi necessário percorrer um longo caminho e subir uma ladeira danada de íngreme, sobre a qual Araken fez o seguinte comentário: “- Foi a última piada do Seu Marinho”. Não deu para deixar de rir.

Enquanto vivermos, teremos saudades dele.

Memórias da Vovó Dina – parte 33

Siomara

O médico havia recomendado só ficar grávida após 2 anos de cirurgia. Com 1 ano e alguns meses depois nascia Siomara. Por isso foi cesárea. O interessante é que Ester, Agnaldo e Arnoldo foram partos normais! Dá para acreditar?! E assim se confirmou a profecia da parteira D. Evangelina Botelho, quando eu tive a menina morta: – Quando você tiver o décimo filho, vai ter problema.

Acertou na mosca.

O melhor ou o pior de tudo é que quando tive a Haydée, a minha tia, que era quem me assistia nessas horas, me disse:

– Se você tiver outro filho, não me chame.

Chamei então, Adalzinda. Foi ela quem me socorreu. Estava certa que a criança chegaria em fins de maio, mas criança não diz quando nasce, e ela ficou conosco cerca de 2 meses. Abençoada seja, pelo apoio que nos deu.

A tia não gostou de ter sido substituída. Não se lembrava do que havia me dito. Ela devia estar muito cansada. Realmente, ela e a tia Ester trabalhavam muito. Na casa em Maceió, ainda tinha vovó Januária, tia Bertulina e Jurací.

Irmãos e amigos reunidos: aniversá‡rio de 2 anos da Siomara (1954)

A tia Haydée era costureira e tinha uma grande clientela. Caprichosa como ela só, não admitia um erro na costura.

Ester, aos 7 anos (São Paulo)

Sei disso porque aprendi a costurar com ela. Failde e a irmã Floristela não suportaram a perfeição da tia. Desmanchar costura não era com elas. A aprendizagem aconteceu em Rio Largo.

Itajubá foi a nossa vitória, tanto no trabalho do Anthenor, como na vida de um modo geral. Bons colégios, boas vizinhanças, amigos simples e bons. Gente simples e cordata.

Em Ouro Fino ficamos 2 anos e 9 meses. Em Itajubá ficamos 9 anos e 9 meses. Não sei por que os nove meses, mas a verdade é que aconteceu tudo isso, até virmos para São Paulo.

Agnaldo e Arnoldo

O resto vocês conhecem de sobra.

Fomos felizes ontem e depois. Havia os tropeços que muitas vezes não podiam ser evitados. Vencemos com o amor multiplicado pela família que é o nosso verdadeiro tesouro.

Ele, o nosso Anthenor partiu para as plagas do infinito, mas venceu galhardamente a vida afanosa, escolhida pelo amor imenso que tinha por nós.

Deus na sua infinita bondade nos deu por acréscimo, o que mais precisávamos: Paz, Amor e União.

(fim das postagens da série Minha Vida)

Memórias da Vovó Dina – parte 31

Anajas, HaydŽée e Joana

Mudamos de casa e essa era melhor. Mais nova que a outra e mais arejada. Empregada doméstica era um Deus nos acuda. Precisamos buscar a Joana em Maceió. A tia Ester fez uma matula para a pobre trazer que foi um castigo. O que havia de fruta e mais coisa que não me recordo, deu o que fazer à pobre mulher. O Osmar e Wilmar tiveram que esperá-la no aeroporto. Esperou-os por horas até que um senhor teve pena dela e levou-a para sua casa. A sorte é que ela estava com o endereço dos dois e no outro o abençoado senhor se comunicou com eles que haviam chegado atrasados para buscá-la e a levaram com a grande bagagem para a Rodoviária via Ouro Fino. Foi um verdadeiro drama.

Fomos para Itajubá e ela foi conosco. Depois veio a Josefa, irmã de Joana,  que estava na casa do Osmar. Perguntou-me a Ana Maria se eu não a queria porque ela não estava suportando o assédio do marido com a referida Josefa. O Osmar era muito boa pessoa, mas nesse ponto era muito safado.

Itajubá, década de 50.

Ficaram as duas na nossa casa até quando viemos para São Paulo. A Joana com as duas filhas e a Josefa foram morar juntas, mas não deu certo. Joana foi para o Rio e a outra ficou em Itajuba. Sei que teve uma filha e estava muito bem, obrigada.

Viemos para São Paulo. A casa era menor que a nossa de Itajubá. Tinha 3 quartos em cima e um porão onde ficaram os meninos menos o Ariel, que ficou com a mulher em Itajubá.

Agnes e Ísis, as primeiras netas (1962)

O casamento do Ariel foi com o gosto dos pais da Shirley, mas a avó, dona Filomena, não queria que a neta, dodói dela, se casasse, pois ela havia sofrido muito em seu casamento. Morreu um mês antes do casamento da neta. No começo a vida deles não foi fácil. Parece que no começo brigavam muito. Tanto era assim que uma noite ela chegou à casa dos pais com a mala dizendo havia voltado. O Sr. Djalma imediatamente foi dizendo que o lugar dela era ao lado do marido. Logo depois ficou grávida da Agnes e tudo se harmonizou.

Shirley, Ariel e Agnes (1960)

Nasceu a filha e quem a assistiu foi a Filhinha. Quando ficou esperando a Isis, ela me pediu para ficar com ela. Nós já estávamos em São Paulo. O Ariel que me levou e no dia em que apareceram os sintomas fomos para a maternidade.

Passamos a noite, ela e eu, sentadas nas cadeiras e o Ariel dormindo na cama de solteiro do quarto. De manhã, por volta das 6 horas, eu o chamei e a Shirley foi para a cama. Vi que o negócio estava apertando e saí para chamar a Irmã que estava indo à missa.

Eu disse a ela o que acontecia e ela me respondeu que ia à missa.

Então eu, educadamente repliquei: – Não vai, não senhora, só depois de acudir minha nora. Ela entrou no quarto e logo providenciou a vinda do médico. Não demorou muito e a Isis nasceu.

Foi tudo muito bem, graças a Deus.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)