24/Junho/71 – Norte da Espanha

Estamos saindo para Salamanca – Espanha, onde dormiremos mais uma noite. Daqui até lá são 517 km, é chão para entupir qualquer cristão.

9h – chegamos à fronteira – lado francês Hindaya – lado espanhol Irun. Passamos bem, sem novidades. O Waldemar encontrou na alfândega um soldado francês, descendente de Campos Sales, de quem recebeu uma herança de 10 milhões de cruzeiros.

São Sebastião – cidade grande de veraneio, bonita, cheia de árvores, comércio movimentado, praias bonitas. Desde Biarritz que se encontra hortênsia aos montes, florida em vários de azul e rosa dá um ar festivo em qualquer cidade.

Monumento ao Pastor, em Pancorbo

Monumento ao Pastor – em Pancorbo – vilarejo entre Vitória e Burgos. Aproveitaram as rochas e fizeram um lindo arranjo. Em cima, na gruta, com ar de espanto estão três personagens: um homem moço vestido de padre, um menino e um velho ajoelhado. Eles veem um anjo que está na entrada da gruta. Do lado direito, um pastor (homem apoiado em seu cajado) tendo debaixo do outro braço uma pequena ovelha. Mais adiante, na beira da estrada, dando as boas vindas com o gorro na mão, com o braço estendido, está um menino sentado em cima da pedra. Não sei que história tem o monumento, teria que subir uma escadaria para saber da história. O tempo era curto e a coragem também, pois temos muita estrada até Salamanca.

A entrada da Espanha para quem quer atingir Sevilha é mais bonita. Tem os campos como os de Portugal, sarapintados de flores vermelhas, azuis, rosas, amarelas, árvores frutíferas, vinhedos, árvores da cortiça e casas caiadas de branco com suas roseiras floridas e gerânios por toda a parte. Suas chaminés bordadas lembram o esmero em se vestir das campesinas, dos dois países. A influência moura embeleza e enriquece o sul português e espanhol. Em Córdoba as casas ainda são daquela época. Vê-se pela porta de entrada (que não tem atrativo nenhum), lá no fundo, depois do hall, que é todo enfeitado de azulejos trabalhados, tem um terraço sempre circular e no meio uma fonte e tudo enfeitado de flores, as mais variadas. Aquela pequena clareira serve para tomar ar, refrescar-se no calor, embelezar o ambiente, para conversação da família e dali para os outros aposentos. Chamam-na de “Pátio Andaluz”. São um espetáculo e seria muito mais se pudesse ver sem ser de carro. Aqui no norte a zona também é campesina, mas é bem mais pobre. As casas estão em ruínas e deve haver muita miséria. Tem muita indústria de papel, mas mesmo isso não tira o aspecto de tristeza que existe nesta região de Castilha Vieja.

As cidades de São Sebastião, Vitória e Burgos são grandes e populosas, têm muitas vilas margeando as estradas, mas percebe-se no ar a pobreza que envolve o povo destes lados.

O restaurante em que acabamos de almoçar se chama “El Cid”, sendo também hotel e muito bonito. Foi El Cid quem fundou Burgos.

Desde Burgos que as estradas se enfeitaram de flores de uma variedade enorme. Não existe florestas; plantações de pinheiros em alguns lugares e alguns molhos de árvores, tendo poucas frutíferas. O resto é pasto e cereal. Legumes também, é claro.

Tem outra cidade de nome Valladolid. Estão a construir em todas estas cidades edifícios de apartamento, talvez assim acabe o aspecto feio e sujo que elas têm.

Acabamos de chegar em Salamanca, são 18h. O hotel é bom, agradável, meio velho, como tudo em Salamanca, mas muito simpático.

A cidade é acanhada, apertada, calçadas estreitas, ruas estreitas, não se pode fazer juízo de nada, principalmente de uma cidade, em horas de permanência. O espanhol não cede seu lugar na calçada, nem por lei. Ele empurra e vai passando. Na minha terra isso é falta de educação, aqui eu não sei.

A pobreza não existe na realidade, dá essa impressão porque o que impera é o pão durismo. O Waldemar conhece, já esteve aqui no extremo norte da Espanha, em casa de um tio, irmão do pai dele. Casas de pedra, sem conforto, mas têm boa mesa e boa cama, terras para plantar e colher suas boas safras.

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Universidade – anterior ao reinado de Dom Fernando – Hotel Afonso XIII ou Andaluz Palace

Universidade, também em estilo mourisco, feita anterior ao reinado de Fernando de Castela (hoje Santo não sei porque) é hoje um Seminário. É grande e imponente e com todas, ou quase todas as grandes construções de Sevilha, incluindo a Catedral, as torres, ruínas de muros mouros, castelos, e o próprio Alcazar, o hotel Afonso XIII ou Andaluz Palace – tudo é de cor escura. O interessante é que nas vilas e pequenas cidades quer portuguesas, quer espanholas, a cor predominante das residências – casa comum do povo, são todas caiadas de branco. A não ser as partes novas, construções recentes, tudo o mais é idéia do Sr. Antenor: branco, só branco.

Não me referi até agora a nossa bela mãe portuguesa. É um capítulo à parte em qualquer história de brasileiros que se preze e que saiba respeitar aquela que lhe deu o ser. Portugal nos toma o coração de assalto pela beleza e simpatia.

A fidalga acolhida que recebe o brasileiro em Portugal dá-lhe o direito de pedir sempre mais. A maior emoção que senti foi ao chegarmos ao Monumento dedicado ao Infante Dom Henrique, que foi inaugurado em 1960 por Juscelino – e que (nos disse o Sr. Diamantino), a avenida que passa beirando o Tejo, se chama simplesmente: Avenida Brasília.

Imponente, orgulho de brasileiros e portugueses. O monumento que fica a sobranceiro do Tejo, como que sonhando com futuras conquistas cujos desfecho foi a nossa terra; é linda na austeridade das figuras de seus homens sérios que se propunham em fazer grandes feitos.

As avenidas e praças, grandes, largas e floridas são um prazer para o olhar desprevenido de todos nós. Assim como Lisboa nos encanta, com seus castelos, suas residências, igrejas e tudo que compõe essa belíssima capital; o seu folclore e o interior do País nos deslumbra mais ainda.

Estivemos em dois restaurantes típicos: o “A Severa”, onde no fundo do salão principal, sobre um pequeno palco iluminado e com luz indireta, se encontra uma boneca, representando a infeliz fadista que morreu por muito amar o seu Marquês de Marialva, morto numa tourada.

Lá vimos e ouvimos vários fadistas. Entre eles estava um par de dançarinos que nos presenteou, e a todos que lá estavam para vê-los, com as danças típicas das aldeias portuguesas. Não podem imaginar a beleza que é tudo isto aliada à simpatia que é nata no portugueses.

O outro típico restaurante foi “Parreirinha da Alfama”. Pelo nome e vendo o bairro vocês compreenderão que infelizmente a fama não é das melhores. O restaurante é pequeníssimo, mas requintado. Recebe gente influente desde Café Filho até Wilson Simonal. É realmente muito agradável. Servido e dirigido por mulheres educadas e graciosas. Comemos e bebemos muito bem num e noutro.

Vista do Castelo de S. Jorge ou Castelo dos Moiros, Lisboa.

Na volta à Portugal, descreverei melhor (se puder). Ainda vamos ver várias coisas. Só vimos de perto, percorremos até o Castelo de S. Jorge ou Castelo dos Moiros. São ruínas do Castelo dos árabes quando Lisboa viveu sob seu domínio durante, parece, seis séculos.

Espanha e Portugal tem tanta influência moura que se vê por toda parte a melhor herança que eles podiam deixar para os dominados: a arquitetura. É simplesmente notável. Desde um simples muro à uma trabalhada chaminé. Casas brancas das aldeias e os seus nomes como Algarve e outros. As praias portuguesas não perdem em beleza diante das nossas. Quem disse que só no Brasil existe beleza – ou é cego ou não conhece o resto do mundo!

Assim como em Lisboa, fomos a uma espécie de show aqui em Sevilha. Uma pista circular quase ao centro da sala. Ao redor, cadeiras em profusão ladeando pequenas mesas redondas onde servem bebidas. Um grupo de 8 ou 10 bailarinas dançaram representando diversas aldeias espanholas. Não tem beleza o que se vê no cinema ou televisão. As cores, a agilidade dos bailarinos, os lindos trajes típicos espanhóis faz-nos esquecer tudo o mais que não seja vê-los e apreciá-los.

As castanholas, não são um mero enfeite nas mãos dos dançarinos espanhóis. É um instrumento que acompanha a orquestra, ao bailarino e muitas vezes sola. É lindo de ver e ouvir. Entusiasma ao espectador ao ponto de fazer como o americano velhusco, que foi para o tablado e se saiu muito bem da empreitada.

 

12/Maio/71 – Espanha

15h (Europa) – Hotel de Inglaterra
Quartos bonitos, com varandas dando para a Praça de São Fernando.

Plaza San Fernando, Sevilha, Espanha.

A cidade (Sevilha) tem um movimento fantástico, toda florida e arborizada, é uma coisa boa de se ver, mas não tem simpatia, apenas atenção delicada para o forasteiro ou turista como queira.

O comércio faz com que fiquemos com água na boca de ver tantos leques, mantilhas, jóias, fazendas. Tudo muito chique e atraente.

A gente sonha em ter dinheiro bastante para carregar com boa parte e distribuí-los com os seus. Mas o que fazer? É olhar, ver e deixar para outros virem e desejarem e comprarem, se puderem.

Catedral de Sevilha

A Catedral, construída pelos mouros, é talvez o maior patrimônio histórico de Sevilha. Imensa, toma todo um quarteirão, é imponente e austera como sabem ser as coisas feitas pelos nossos avós. Pena não ser eu arquiteta para descrever melhor e verdadeiramente todas as belezas desse rendilhado que enfeita e ilustra a Catedral de Sevilha.

Dentro é imenso. Vimos, Lourdes e eu, apenas um altar. A “simpatia” da recepcionista de turismo não nos deixou nem ver ¼, apenas por não termos comprado uma entrada. Até o catolicismo explora vergonhosamente a humanidade curiosa que deseja se deleitar em desvendar as belezas dos nossos antepassados. Mas, voltando à Igreja…. no centro interno do pátio tem uma torre chamada Giralda. Toda arquitetura é em trabalho de rendilhado e no centro, de face para o pátio, tem estátuas dos 12 apóstolos ladeando a de Jesus. Essas estátuas tem mais ou menos 80 centímetros de altura. De onde se olha vê-se com nitidez toda a perfeição de que foi capaz o artista para esculpir toda aquela beleza que ainda hoje serve de admiração para o mundo.

Acabamos de sair de Alcazar. Só vendo para poder calcular a beleza, poder e delicadeza com que os árabes (mouros) construíram. Um dia, Deus o permita, vocês hão de ter oportunidade de ver. Ver fotografias.

Plaza de España, Sevilha, Espanha.

Estamos no Parque Maria Luiza. Compreende principalmente a Praça de Espanha. No centro da mesma existe uma enorme fonte com repuxos. Ao fundo, em meio circulo, um edifício em estilo mourisco, que foi construído para a feira mundial no ano de 1930 por Afonso XIII.

O Parque é imenso, quase que do tamanho do Ibirapuera. Os jardins floridos de rosas e as crianças, dão a nota humana e garrida ao lindo e imenso Parque. Cheio de pombos brancos que lembram o Espírito Santo da Igreja Romana.

Igreja de Santa Maria De La Esperanza (Macarena), padroeira dos toureiros. Pequena e bela, com seus altares recobertos de ouro, seus Santos soturnos e bem vestidos como se fossem para uma festa não muito alegre, da alta sociedade. A padroeira então, com suas lágrimas de brilhantes, sem ar de tristeza, dá a pensar que carrega todos os pecados dos matadores de touros de toda a Espanha. É linda e rica a Igreja e ao contrário das velharias em geral, muito limpa e bem conservada.