Viagem no navio Rosa da Fonseca – parte 10

Saímos de Manaus às 24 horas do dia 19. Já estamos em águas do Rio Pará desde ontem às 7h30 da noite quando alcançamos Santarém, a cidade que divide os dois mundos – Pará e Amazonas. Estamos agora atravessando o Estreito de Buioçú que no seu início tem o nome de Furo dos Limões. No estreito serão 6 horas de boa navegação. Chegaremos em Belém lá pelas 3 horas da madrugada e sairemos às 15.

Tomara encontrar lá a cabeça de índio que a Regina pediu. Em Manaus não encontrei. Aonde nos informaram, tinham vendido aos padres, na véspera, cerca de 600 peças.

Encontrei a cabeça do índio da Regina em Belém. Estivemos no museu Emílio Goeldi, pena que aquilo esteja um pouco abandonado. As onças estão magras, tristes, sem vida. Onde vivem as antas tem lama e mau cheiro. Vi cinco sucuris. Para “utilidade” delas, creio que já tem demais. Gaviões de coleira branca e comuns, urubu re, araras grandes e pequenas, pássaros de toda a espécie, empalhados ou não. Bichos de pelo de todos os tamanhos e raças. Pedras preciosas. Trabalhos de índios, atuais e pré-históricos. Sei lá mais! Não dá para descrever vendo, quanto mais de memória.

A paciência dos homens, em especial do falecido criador do Museu, é de estarrecer. Calculem os grandes museus! As plantas, árvores gigantescas. Numa grande árvore, fiquei perdida no seu tronco para tirar o retrato. E mais coisas que a minha cabeça não dá para lembrar.

O navio está balançando outra vez. Desde ontem que saiu do rio e está navegando no mar.

Igreja do Carmo, centro de Fortaleza, década de 70

Chegamos em Fortaleza. Duas horas para descer, dar uma corridinha até a cidade e voltar. A escada quebrou, uma senhora caiu de cima. Não sei como não fez um estrago maior. Oh! Agonia louca! Almoçamos à 1 hora e o navio também saiu do porto na mesma hora.

Ontem de noite houve uma festa de despedida dos cearenses que também estavam em excursão. A recepcionista Herotildes é quem organiza tudo. Houve concurso de beleza – foi eleita uma pernambucana, Maria Helena Monteiro. Das que estavam aqui, era a melhor. Uma sra. do Ceará fez a letra e a música de um frevo para a despedida. Cantaram, recitaram, a orquestra de bordo, aliás muito boa, tocou muito e foi tudo muito animado e divertido. Nós viemos para o quarto era meia noite e a festa ainda ficou rolando lá em cima. Hoje não fomos ver o bingo. Ficamos conversando com mais três casais. Dois de Joinville e um de Curitiba. Aqui tem até norte-americanos. Tem um casal com cinco filhos, outro com dois e saltou um pastor, que veio de Manaus com a família passar as férias em Fortaleza.

É assim o nosso Brasil! Tem de tudo!

(fim das postagens de Minhas Viagens)

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Viagem no navio Rosa da Fonseca – parte 9

Na quarta-feira, fomos com a Margarida visitar o Museu do Índio. É dirigido e organizado pelos missionários Salesianos. Fomos recomendados para procurar a Irmã Lucia, uma italiana enérgica, simpática, com uma tarimba de trabalho que muito bom macho gostaria de ter a metade. Eles têm missões em vários pontos da Amazônia, Guianas, Peru, Bolívia e mais não sei onde. É um trabalho titânico, fenomenal. Essa Irmã Lucia, como tantas outras, passou seis meses nas selvas trabalhando na catequização dos índios. Sabe todos os costumes, conta histórias sobre os mesmos numa fartura de gestos e palavras que é um prazer vê-la e ouvi-la.

Compramos lá algumas lembranças. As compras! Ah! As compras! O movimento de compras em Manaus não fica devendo nada à rua do Oriente aí em São Paulo. O negócio é muito sério. As fazendas então são espetaculares. Almoçamos em casa do Sr. Tomé. Pescada tambaqui e como sobremesa torta de cupuaçu. Excelente almoço! Gente simples, agradável e a d. Zizi é o carinho em pessoa.

Jantamos no Alvorada com um casal que ficamos conhecendo por informação do Péricles. Eu comi tucunaré. Gostoso! Tomamos sorvete de várias espécies aqui em Belém, Fortaleza e Recife: cupuaçu, graviola, buriti, açaí, sapoti, mangaba, cajá e nem sei mais o quê. Deu para matar as saudades por uma porção de tempo! As pinhas então, são uma delícia!

Passamos dois dias em Manaus. Cheios de calor – humano e de sol. Gostei da cidade. O Amazonas, se o governo não fechar o comércio livre, crescerá muito e voltará talvez aos seus dias de glória dos tempos da borracha. Terá vida e a distância que o separa do mundo será encurtada pela navegação constante. Conosco eram três navios de passageiros e devia ter uns dois mistos.

Só dá estudantes franceses – havia uns cinquenta, fora alemães. Americanos não faltam. E com isso Manaus vende brasilidade e produtos estrangeiros a varejo e por atacado.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minhas Viagens)

Viagem no navio Rosa da Fonseca – parte 8


Manaus na década de 60

Dia 16 de junho de 1969

Passamos a cidade de Óbidos hoje cedo e agora cerca das 6 horas, a cidade de Itacoatiana. Chegaremos a Manaus lá pelas 2 da madrugada.

Chegamos e saímos. Quem não conhece Manaus tem a exata impressão de que a cidade é feia acanhada, sem atrativo nenhum. É justamente ao contrário. Todas as praças são ajardinadas, decoradas com estátuas, obeliscos, fontes, bancos. Algumas, muito grandes (duas ou três), têm coreto ou um barzinho para lanches. A praça da Matriz é enorme. A praça mais nova é a da Bola (tem um nome ilustre decorando-a, mas só é conhecida por Praça da Bola pelo seu estilo em forma de esfera), é pequena em relação as outras, mas é muito bonita e agradável com a sua fonte decorativa. Ruas largas, avenidas bem amplas. Tudo muito simpático – como de um modo geral é o amazonense.

Quando saltamos, fomos diretos em casa do Sr. Tomé, pai do Luiz. A alegria da recepção valeu a caminhada que fiz até o meio do caminho. Sim, porque na metade, o seu pai resolveu chamar um taxi. Eu já estava me recusando a andar mais. Não eram ainda 8 da manhã e estava um calor de mês de fevereiro aí em São Paulo. Eles estavam esperando o motorista chegar para ir com as duas filhas moças nos esperar no cais, mas nós chegamos primeiro. O carro (eles têm taxi na praça) ficou à nossa disposição durante os dois dias que passamos em Manaus.

O nosso primeiro passeio foi a Ponta Negra. Chama-se assim por ser uma ponta de terra que avança sobre o rio Negro e forma uma praia que em formato imita Copacabana. O rio está cheio, não deu para vermos direito. Diz que aquilo em fim de semana fica cheio. É muito agradável e é um verdadeiro oasis para tanto calor e sol. Fica há 18 ou 20 Km de Manaus. Lá tem um bar-restaurante e mesas com guarda-chuva de palha espalhados pela beira da praia. O impressionante da história toda é que o rio é Negro mesmo. A água ao tocar as pedras na formação das ondas dá a impressão que derramara toda a produção de coca-cola do mundo.

O teatro de Manaus é magnífico embora um pouco maltratado pelo tempo. Tão maltratado quanto o de Belém. No salão nobre do teatro tem pintado no teto uma cena da mitologia com Minerva. O interessante é que de qualquer lado que você esteja dá a nítida impressão que Minerva está nos observando. Lindo, lindo! Só tem um porém para mim: o Teatro da Paz em Belém é mais alegre, o de Manaus é triste por sãs pinturas onde predominam as cores escuras. Essa primeira parte do passeio fizemos com Maria dos Anjos e Margarida – irmãs do Luiz.

Não são moças bonitas, especialmente a mais das duas, dos Anjos. A Margarida deve ter seus 19 anos. É a mais expansiva das duas. A dos Anjos não fala muito e nos dá a impressão de amargura ou tristeza. O que talvez seja apenas timidez.

Fomos tratados como príncipes. Não sei de que país, mas é mesmo assim. Visitamos um dos Balneários (tem vários). Eles aproveitam um igarapé (corrente de água que foge, ou se desgarra do seu mestre e senhor, o rio) e formam um conjunto residencial. São simples bangalôs e têm mesmo casas boas e grandes e ali passam fins de semana ou mesmo férias. Visitamos o Guanabara. Eles aproveitam os igarapés até para fazer banhos públicos.

Almoçamos na terça-feira (17) no melhor restaurante da cidade: Alvorada. Não é central, mas é agradável e se quiser tem um aposento com ar refrigerado.

Jantamos com o Sr. Lourival (pai do Lourival, lembram-se dele?). O convite feito pelo velho senhor e os filhos com suas esposas mineiras de Itajubá. A mulher do Lourival, não lembro dela. Era muito amiga da Marli – Ana Lucia. Tem um apelido, não lembro qual. Não achei que haja muita paz entre os dois. Ela se trancou um pouco e não procura mais as primas (no caso, as irmãs do Luiz) e vive muito isolada. O Lourival por sua vez, gordo como um porco, só pensa em dormir. O outro, Roberto, não me lembro nada dele e muito menos dela. Muito simpática, miúca, engraçadinha. Soube captar a simpatia dos parentes e é bem mais feliz que a outra.

Foi uma noite bem agradável. A gente se sente sempre bem quando é bem recebido onde quer que vá. O interessante é que de todos os que sabemos dos passageiros, nós somos os únicos a quem os amigos esperam – isto é, temos amigos em cada porto. Os outros têm parentes esperando. Os amigos, quando não estão presente (Belém foi assim), fazemos amigos e os deixamos certos que são gente boa, agradável.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minhas Viagens)

*a fotografia faz parte da edição especial Retrato do Brasil, da Revista Manchete, de 1968.

Viagem no navio Rosa da Fonseca – parte 7

Dia 13 de junho de 1969 (continuação)

Vimos o Teatro da Paz. Uma beleza em arquitetura e decoração (você precisa vê-lo Haydée). Não gostei do externo do Palácio do Governo. Dizem que o interior é muito chique. A residência do governador é que é linda. Toda pintada em rosa e branco, estilo começo do século, mas em grande conservação. Feia e grande também é a Prefeitura. Tem até mangueira nascendo nas platibandas. Fica ao lado do Palácio do Governo. Gostei imensamente de um grupo de escultura em bronze que fica em frente ao Teatro. São duas praças com as efígies de Carlos Gomes e Henrique Gurjão. Na frente tem um anjo estendendo uma palma de louros à deusa da música. Seguimos de carro para o Parque Zoológico “Rodrigues Alves”. Muito grande e é mais um bosque. Achei-o um pouco abandonado. Tiramos várias fotos. Aí explicarei melhor.

Almoçamos no Círculo Militar onde existe o Forte Castelo que data da fundação da cidade. O Tiro de Guerra estava fazendo exercício. Se o calor matasse aqueles coitados estariam duros e enterrados. De igreja, só vimos uma – igreja de Nossa Senhora da Paz, muito linda.

A Basílica de Nazaré e o Museu Emílio Goeldi nós não vimos, não deu tempo. Aliás, algumas horas é muito pouco tempo para tanta beleza. Seja Belém, Fortaleza ou Recife, ou melhor, qualquer outra parte do Brasil.

Entramos no Rio-Pará na quinta-feira, dia 12. Ouvimos pela tarde uma conferência engraçadíssima feita pelo médico de bordo sobre o Amazonas – costumes beira de rio, descoberta, lendas e etc. Ele tem facilidade de expressão e além de feio, o que nele é predicado, é gaiato.

Hoje é domingo e somente na segunda de madrugada chegaremos a Manaus. Ainda estamos em território paraense. É água que não acaba mais. Estamos passando agora e avistando a cidade de Prainha. Só termina o estado do Pará quando alcançarmos o município de Santarém.

Entraremos então no Estado do Amazonas cuja primeira cidade é Óbidos.

Existe um costume interessante entre as pessoas que moram na beira-rio. Durante seis ou sete horas o navio passa num curral no rio Pará. E vão surgindo das margens, canoas – tipo piroga – com mulheres, crianças de todas as idades e homens, velhos e moços. Gritam para os do navio: – Joga cunhado! Joga cunhado! – E do navio, tripulantes e passageiros, jogam sacos de plásticos com pães, sabonetes, roupas, fósforos, velas, sal e etc. O negócio é doloroso por se ver tanta miséria a céu aberto e interessante pelo ineditismo. E perigoso também, tem canoas com uma criança apenas. Pequenas. Uma, eu vi, não teria a idade da Agnes (8 anos), apanhando naquela ânsia, um ou dois sacos de plástico. Às vezes o saco se rompe e é pão para todos os lados. Assim, mesmo na correnteza forte que faz o navio, eles avançam que até enche de água a canoa. Avançando demais eles se jogam na frente do barco e o mesmo adverte do perigo, apitando insistentemente.

Tomara a vida que um dia vocês possam fazer esta viagem e aí então se descortinará diante de seus olhos as belezas ainda virgens para mim, que para vocês já não serão tão virgens assim, destes Brasil tão belo, tão pujante, tão querido e tão esquecido dos homens do poder.

Quando eles chegam a dar um passo para frente, parece que logo se arrependem e, ou ficam parados apreciando o pouco que fizeram, como se não tivessem obrigação de fazê-lo, ou dão um passo atrás, desmanchando o que quase sempre é feito com sacrifício alheio. Esperemos com toda a fé que esta se torne realmente no Brasil, Coração do mundo, Pátria do Evangelho.

No começo desta lenga-lenga eu me referi a uma senhora que se parece com a Dalila Janotti. Até risquei depois, ao que a ela me referi. Ela tem a boca ligeiramente torta. Mas a pobre tem tanta cicatriz que parece ter sido conseqüência de um acidente. A mulherzinha canta que é um espetáculo. E, ao comentário de diversos passageiros sobre Belém, ela se referiu ao diretor com quem havia trabalhado na rádio Marconi no Rio de Janeiro. É uma senhora muito simpática que fala muito bem e também tem muita elegância, apesar da idade. Ela já deve ter seus 60 janeiros bem vividos. Foi locutora em vários rádios no Rio e a última, a Marconi. Seu nome é Iracema de Barini Filberberg. A mulherzinha dança bem que dá gosto ver.

Fizeram uma festa de Santo Antonio hoje (15) com quentão, quadrilha, amendoim torrado e batata assada.

Saímos de lá às 15 para meia noite e ainda estavam numa animação única. Tudo em bandeirado, botões, lanterna e uma imitação de fogueira. A festa feita na popa do navio para todos apreciarem. Só para poder apreciar aquela orquestra, eu ficaria o resto da noite. Mas o seu pai sabem como é! Para ficar sozinha não dá por causa da chave… o melhor é vir mesmo para a cama.

Antes, às 7 horas da noite alcançamos a cidade de Santarém. Nela se unem os dois rios: o Tocantins e o Solimões. Nós vimos o pôr de sol mais lindo que jamais vi. Uma senhora estrangeira ficou tão entusiasmada que comovia. Ela o comparou com a Aurora Boreal. Era todo em vários tons de vermelho alaranjado e os raios em azul marinho!

(continua… aguarde a próxima postagem de Minhas Viagens)

Viagem no navio Rosa da Fonseca – parte 6

Dia 12 de junho de 1969

Faltam 20 minutos para as 6h. Ainda não anoiteceu, o que é fácil ver aqui no Norte. Desde cedo que estamos em águas paraenses. Chegaremos ao porto lá pelas 22h. O calor é bravo e eu não trouxe um vestido de linho. Acabei de por de molho em água de sabão o de jérsei. Estava muito suado e o jérsei suado tem um cheiro horrível. Eu vou subir agora. O ar refrigerado do navio nos alivia um pouco da temperatura de fora e por isso vou ficar no salão de leitura até a hora do jantar. Seu pai já tomou três banhos até agora. Até logo.

Dia 13 de junho de 1969

Belém na década de 60.

23h – O navio saiu às 10h não sei se por ter passado mais tempo em Belém do que em Fortaleza, o fato é que Belém me encantou.

Quem não a vê, não pode fazer uma idéia do que seja aquilo. É grande, bonita e alegre. Mesmo as ruas estreitas de Belém velho e as ruas sujas do cais e proximidades, simpatizamos  são enormes e agradáveis. Muito bem delineadas e cuidadas. Em todas elas existem belos monumentos históricos – mas, vamos ao princípio.

Chegamos à noite e demos uma volta atrás de sorvete (a falha que não existe em Fortaleza – em Belém não existe uma boa e agradável sorveteria). Em Fortaleza em qualquer ponto da cidade tem boas, pequenas, mas agradáveis. Em Recife também tem agradáveis sorveterias. Em Belém só têm em ruas estreitas e de pouco movimento. No centro tem um em caixas como Kibon, fabricação da casa, que vendem nas ruas ou nos bares e restaurantes. São todos bem batidos e de fruta mesmo. Não encontrando o que queríamos, fizemos outro lanche no próprio cais, na entrada para a cidade, onde tem um monumento à Antonio Teixeira, fidalgo português (pelo menos a roupa o indica), muito elegante, com o seu chapéu de plumas (vou procurar saber o que ele fez para dizer).

Depois se inicia a cidade propriamente dita com o cruzamento de duas avenidas: Presidente Vargas e Castilho França. As mangueiras que enfeitam, na minha opinião,  enfeiam  a cidade,  algumas têm mais de cem anos. Algumas carregam tanto que quebram galhos e às vezes a própria árvore.

Na Avenida Presidente Vargas está a maior parte dos bancos, os correios, casas de comércio, restaurantes e bares. A Praça da Republica é imensa, sombria. Tem um monumento à Republica muito bonito. Fomos à casa do Sr. Bensadon, muito simples e de uma simpatia extrema. Vivem três famílias em uma só residência. Todos centralizados por d. Sol. Ele, os filhos casados têm ao todo nove filhos. Já imaginaram esse povo todo recolhido, conversando, gritando (as crianças), teimando… coitada da velha senhora. Não é à toa que se chama Sol (a acolhida é total).

Fizemos lá uma refeição e nos convidaram para voltar, almoçarmos com eles.

Na volta eu não quis, não sei porque, descer. Estávamos cansados. A viagem foi muito agradável, é verdade, mas o sobe e desce cansava e cansamos muito.

Arrependo-me até hoje da grosseria. Tenho pra mim que eles estavam nos esperando para também mandar alguma lembrança aos parentes. A verdade é que Sr. Bensadon se afastou de nós.

Houve um fato interessante com a família desse senhor. Ele tinha uma filha chamada Ester, a mais velha que estava noiva de um primo. Eram judeus e o noivo também. Vocês sabem que judeu só se casa na sua grei.

O casamento foi muito bonito, com recepção e tudo mais.

Quando já estavam casados há uns dois meses, o pai foi visitar a filha e encontrou-a chorando. Grávida já, disse ao pai, que ficou preocupado ao ver as lágrimas da filha, que era devido ao estado que se encontrava. Não sei se o pobre homem acreditou. Passados alguns dias, voltou em visita a Ester. O quadro era o mesmo. Ele forçou-a a contar e ela chorando mais ainda, confessou que o abençoado marido a espancava.

Imediatamente mandou a filha pegar tudo que era dela e a trouxe de volta ao lar onde nunca devia ter saído. Lá deu a luz a uma menina.

Não tivemos mais notícias deles.

O Sr. Bensadon era fiscal do Banco do Brasil e por isso sei deste drama todo.

Uma ocasião ele chegou à nossa casa cansadíssimo. Morava longe de nós e veio a pé até ali. Os judeus têm o dia do perdão e isso parece ser a celebração e que levam muito a sério.

Eu perguntei a ele se tinha perdoado ao filho que havia casado com uma cristã. Ele praticamente não me deu nenhuma resposta.

Era uma boa alma o nosso amigo Bensadon.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minhas Viagens)

*a fotografia dessa postagem faz parte da edição especial Retrato do Brasil, da Revista Manchete, de 1968.

Viagem no navio Rosa da Fonseca – parte 5

Dia 10 de junho de 1969 – 4h da tarde

Vista aérea do litoral de Fortaleza (1971)

Fortaleza é uma bela cidade. Tivemos umas 3 horas corridas para visitá-la. Procuramos o Péricles e ele nos levou para ver uma porção de lugares. Muito plana e é bem menos quente que Recife. Bonitas avenidas e muito arborizada. Uma brisa constante corre na cidade entre os meses de agosto ou setembro até fevereiro ou março que é quando começam as chuvas, que são os meses mais quentes. Como a terra não tem umidade, a água de côco, por exemplo, não é tão doce quanto à de Recife.

Muito linda a Reitoria da Faculdade de Direito. Tiramos lá algumas fotos que darão para se ter uma idéia da beleza. Aquilo é imenso, tem muitas árvores frutíferas e ornamentais. Pátios, colunas, terraços e jardins. Um auditório ao ar livre, com acústica, imenso. As residências são o que têm de mais fino. Os bairros residenciais do Recife são muito bonitos e agradáveis, mas em Fortaleza, as residências são mais, como direi? Imponentes! Isso mesmo, grandes, imensas mansões – dentro de muro e jardins dão uma impressão de riqueza, que é justamente aquilo que o cearense quer. Porque, diz o Péricles, o cearense é pobre.   

Conta-se pouca riqueza realmente grande. A tenacidade do cearense é que o faz, vencedor em toda a linha. Quer em sua casa – Ceará – ou na casa alheia – o mundo. Tomamos um gostosíssimo sorvete de graviola ou croaçá, como queira.

Pena que o tempo não deu para visitar mais nada. Estivemos no Clube Náutico. Simplesmente belo. É imenso e acolhedor. Agradável de ver. Está completando 40 anos de existência e terão uma semana de festejos.

Clube Líbano Brasileiro (1956)

Muito bonito também é o Clube Líbano Brasileiro. Na entrada de chão e paredes de mármore branco estriado de preto, tem duas meias paredes ladeando uma linda escadaria em metal branco – duas meias paredes – em espelho de cristal que parece contos de fadas. Encerramos o nosso passeio em casa do simpático casal Péricles e sra. Chupamos uma bela e gostosa cana, descascada por ele que nos trouxe depois para o bem arrumado cais de Fortaleza. Quem não gostou da cana foi a Ligia. Ela que come de tudo não suporta cana, pois sente arrepios. Muita pinha, sapoti, roupa, chapéus, bolsas e redes. Teve até quem comesse tapioca no mercado (a Leda e a mãe). Tudo em quantidade para satisfazer e explorar qualquer um. Não compramos nada. Estamos guardando as economias para Manaus. A Luiza e o Sr. Emidyo compraram cajá, mas não gostaram de comê-lo, pois aquilo, como eu já havia lhes dito, tem pouca polpa. Vão levar à noite para fazer suco no jantar. O garçom, o Domenico, se vê velho conosco.

Tanto rezei, tanto implorei e incomodei aos nossos amigos espirituais, que o enjôo passou. Remédio material não curou, reza sim. Mais vale a fé e a confiança.

Por agora nada tenho a contar. Só que converso, leio, vou ao convés, venho ao quarto, escrevo, tomo café às 7h, almoço ao meio dia e janto às 19h. Ontem variou um pouco: chegamos ao navio pouco antes das 8h e como o Péricles ficou no cais, o Anthenor não desceu. Eu vim à cabine, lavei as mãos e subi. Ele ficou com a chave e insistiu para que viesse jantar. Ainda estavam à mesa a Luiza e o Sr Emidyo. Fiquei remanchando até que às 8:30 h chegou seu pai que já havia até tomado banho. Depois do jantar fomos dar uma volta nos salões e descemos à proa e ficamos vendo as luzes da cidade que se afastava.

São 3h15 do dia 11 e já estamos em águas do Piauí. Chegaremos provavelmente, às 22 h de amanhã em Belém. Se a maré deixar.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minhas Viagens)

*as fotografias dessa postagem foram pesquisadas na internet.

Viagem no navio Rosa da Fonseca – parte 4

Dia 07 de junho de 1969

Recife na década de 60.

Em Recife, descemos às 5h30 da tarde e voltamos lá pela meia-noite. Fomos procurar Ivan, mas ele estava em Maceió. Ele não recebeu a carta de seu pai e pelo visto, o Rodrigo também não. Fomos à Olinda e voltamos à casa do Ivan. Já havia chegado. Assim, subimos ao apartamento dele, onde um banho o limpou da poeira e fomos jantar. Estavam conosco a Ligia e o Carlos. Vocês vão gostar deles. É um casalzinho na flor de idade e muito simpático. Jantamos muito bem no veleiro – um restaurante novo, imenso. Só não servem ostras, o que seu pai e o Carlos lamentaram profundamente. De lá, fomos ao aeroporto de Guararapes. É uma beleza aquilo! A Ligia adorou sapoti. O pior é que ela come mesmo, se enche de comida e depois vomita tudo.

Eu também tenho enjoado horrivelmente. Não sei o que fazer para permanecer “durona”.  Ontem nem jantei e vomitei umas 3 horas depois do almoço. É aborrecido demais. O pior é que todo o mundo se arvora de conselheiro. Os pestes nunca enjoam e ficam dizendo: “coma, não se deite, fique andando no convés”. Hoje disse para o médico de bordo, seu pai e um tal Sr. Junqueira de Ouro Fino – “Vocês nunca enjoaram, ficam com essa conversa de não faça isso, não faça aquilo!”. E saí para não bancar a malcriada.

Chegaremos hoje à Fortaleza, lá pelas 4 horas da tarde.

Tem mais velho neste navio do que gente. Homens e mulheres! Tem casais gozadíssimos. Homens muito velhos casados com mulheres bem mais moças, como também, homens baixinhos com mulheres altas. Um casal que se senta conosco às refeições tem uma diferença de idade enorme. Ela, Luisa, tem 40 anos. Bonita, bem feita de corpo, simpática. Ele tem 60 anos, se não me engano. Era viúvo e tem 2 filhos da primeira esposa. Não parece tanto a diferença de idade por ele ser muito alegre e bonitão. Chama-se Emidyo. É fazendeiro em Mato Grosso. Tem casa lá em Dourados e um apartamento em São Paulo. É o pobre! Gente fina e educada.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minhas Viagens)

*a fotografia dessa postagem faz parte da edição especial Retrato do Brasil, da Revista Manchete, de 1968.