Memórias da Vovó Dina – parte 21

Com a chegada de Anthenor as nossas brincadeiras de criança aumentaram. Devido ser sozinha, o meu grupo era muito pequeno. Me dava melhor com Magnólia, mas só duas meninas não fazem uma roda nem brincam de esconder. Aumentou o grupo com Rubenita, Wladimir e mais uma meia dúzia de crianças que mediava a nossa idade. Brincávamos de artista de cinema, de esconde-esconde ou chicote queimado, empinar papagaio (coisa que nunca consegui fazer), amarelinha ou avião, pular corda, jogar pedras (pedras bem bonitas). A turma unida e animada.

Neudi e Liege, Maceió, 1940

A mais chata, encrequeira, era a Rubenita, irmã de Wladimir. Mais moça que nós (Magnólia e eu), era criada com todo o mimo que pais pobres podem dar a uma filha. Não gostava de ser chamada Rubenita e sim Benita. Nessa época só existiam três filhos – Wladimir, Rubem e ela. Depois nasceram Carmem, que morreu pequenininha, e Carlito, afilhado de meus pais e meu de apresentar (no norte tem a madrinha de apresentação, isto é, a que carrega o bebê até a pia batismal). Só que quando fomos batizar o Carlito, ele já tinha 7 anos e eu 14. Isso aconteceu em Viçosa (AL), quando moramos lá por um ano.

Mas, voltando a Carmina, sua mãe, era uma mulher bonita e meu querido compadre Manoel Lucas também não era de se jogar fora. Para falar com franqueza, Rubenita sempre foi a mais feia. Quando nasceu Liege, ela já era aluna do Santa Sofia em Garanhuns (PE). Devia ter uns 15 ou 16 anos. Foi ela que pôs o nome na irmã de Liege. Minha mãe descobriu a tradução do nome e só chamava a coitada de Cortiça.

Fernandina, entre 14/15 anos, fotografada por Anthenor

E assim a nossa vida foi indo tranqüila. Não era vazia. Depois que voltamos de Viçosa onde moramos por um ano, como já disse, eu havia mudado um pouco. Também já estava com 14 para 15 anos. Diziam que era bonita. Gostava de dançar, de cinema, de festas de rua. As festas de fim de ano e de carnaval eram o máximo para meu espírito vagabundo. Gostava de ler. Comprava toda a semana, revistas de cinema – a Cena Muda e Cine Arte. As revistas tinham resumo dos filmes, cenas e retratos dos mesmos. Devorava romances e talvez por isso, sonhava demais com o que não tinha e gostaria de possuir.

O diretor-presidente da Companhia, Sr. Gustavo Paiva, organizava festas e o carnaval era a sua grande representação para o operariado. Existiam duas bandas de música da própria Companhia. O primeiro maestro foi meu avô Agérico. Quando ele se afastou, veio o Sr. Japiassú. Foi aí que organizaram duas bandas. Minha prima Floristela, filha de tio Getúlio e tia Sinhá, fazia parte – tocava saxofone. Era tão boa na arte que comandava a parte feminina.

Banda Feminina da Companhia Alagoana, regida pelo maestro Jupiassu. Floristela, filha de tio Getúlio e tia Sinhá, tocava saxofone. A foto é do aniversário de 400 anos da cidade de São Paulo.

O carnaval era a nossa melhor festa. Nos dois primeiros anos, as máscaras, as alegorias, as idéias de fantasias, tudo foi organizado pelo tio Zeca. Os dois principais carros alegóricos eram: um dedicado ao Mossoró, cavalo brasileiro que ganhou o grande prêmio, na Argentina. Era feito de papel machê, grande, maior que o normal. Tudo muito bonito. O outro foi um canhão grande, imenso.

A música era correspondente, animação que só o nordestino sabe fazer quando quer. O Sr. Gustavo nos cedia tudo, até as fantasias.

Quando o tio foi embora, quem o substituiu foi o Sr. Teotonio. Ele não trabalhava na fábrica, mas alguém o recomendou prazerosamente.

Desta vez o carro principal foi um dragão. Montado em um enorme caminhão, parecia aquele dragão das procissões chinesas. Quem seguia o dragão estava vestido a caráter. Tinha chinês a dar com o pau. Até os músicos.

Era isso, essas festas que nos davam alegria. Isso e mais os bailes de carnaval no domingo e na terça. O fim de ano também se encerrava com baile, fora as festas de rua em Rio Largo e Cachoeira.

Não se pode dizer que não tenho saudade… mesmo porque só solteira eu “fuzarqueei”. O seu pai não gostava (será que gosta?) de festa, muito menos de dançar. Meu pai ainda dançava quadrilha e coco e ele nem isso. Das poucas coisas que senti falta, foram as festas, bailes, pic-nics.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)

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Memórias da Vovó Dina – parte 16

Meu pai era o festeiro da rua do Coqueiro. Não dançava. Só coco ou quadrilha. Nas festas de S. João, de ponta a ponta da rua, aonde a vista alcançava, só se via mastros e fogueiras. Quando chegava a noite era um nunca acabar de fogos de toda a qualidade. Com as fogueiras acesas parecia o dia embelezado por mastros de toda espécie de plantas: mamoeiros, galhos de árvores grandes, palmeiras; fogueiras grandes e pequenas, feitas em barris ou lenha cruzada, bandeirolas de papel de seda enfeitando os mastros e as casas.

Tudo preparado para se dançar, cantar em serenata, comer bolos e doces, soltar fogo chinês, rodinhas coloridas, traque de chumbo, diabinho, buscapé, rojão… a saudade é grande de um tempo que feliz, ou infelizmente, não volta mais.

Meu pai era quem animava tudo isso. Os melhores cocos (dança folclórica alagoana) e quadrilhas eram organizadas por ele, assim como os blocos de Carnaval.

Para nós, crianças, isto era o céu. Era para mim a reunião de tudo que sonhava. Animação, festas, dança, música e gente reunida cantando com vontade de que aquilo não acabasse nunca mais.

Fernandina, com 14/15 anos

A menina quieta, retraída, se transformava quando havia festas, danças, passeios, picnics. O “esquenta mulé”, orquestra de pífanos do “seu” Marcos, animava qualquer festa de santo, cavalhada… e o que inventasse o homem do nordeste para afogar a vida dura e sem graça do dia a dia. A orquestra de pífanos é composta de três a quatro pífanos, uma zabumba, duas caixas, um triângulo e às vezes pratos de metal e reco-reco. Sai às ruas com uma pessoa (homem de preferência), vestida com uma grande toalha passada de través no busto, cobrindo o braço que carrega a bandeja do Santo. Na bandeja com um pano bordado, flores e o Santo, para receber esmolas para a festa que vai-se iniciar dali a uns quinze dias.

O homem com o Santo ia na frente do “esquenta mulé” coberto com um guarda-sol para, com certeza, não tostar o santinho.

A crendice é um troço que comove quando se recorda um passado feliz, apesar de todas as aperturas. Nas festas de S. Benedito, na praça do mesmo nome, tinha de tudo que os namorados gostam e as crianças adoram. Trivoli, gangorra, balanços em barcos, roda gigante, pipocas, barracas para se jogar a sorte, algodão doce, cocadas brancas e escuras, amendoim cozido, torrado e cru, rolete de cana, caldo de cana, farinha de milho, farinha de castanha de caju, farinha de amendoim. Essas farinhas eram vendidas em saquinhos de papel. Guarda chuvinhas feitos de papel de seda. Um sonho para criança nenhuma botar defeito. As farinhas eram feitas com grãos torrados, pisados no pilão, peneirados em peneira fina. Juntava açúcar, bem misturados, não muito doce e eram postos em saquinhos de papel, coloridos ou não. Uma delícia!

As barracas da sorte tinham espalhadas nas mesas um encerado com os “bichos”do jogo pintados. Com a roleta girando, punha-se a ficha no número ou “bicho”escolhido. E ganhando, escolhia-se o prêmio que estava lá exposto. Tinha coisas lindas. Quando fiquei noiva, o Anthenor arrematou um monte de coisas para nós. Tinha sorte o danado! Continua tendo, graças a Deus!

Meu pai não tinha dinheiro para que eu pudesse me divertir à vontade e comprar coisas que o meu apetite se satisfizesse. Se o dinheiro chegasse, quem sabe eu teria uma indigestão atrás da outra… Essas festas eram anuais e ao meu ver cada ano era melhor que o anterior. Aconteciam os acidentes, mas não dava para desmerecer o brilho nem o valor delas.

(continua… aguarde a próxima postagem de Minha Vida)